Dois atos falhos e um trote
2005
Luiz Artur Ferraretto

O erro faz parte de qualquer atividade humana. No rádio, em especial naquele transmitido ao vivo, por vezes, o trágico transforma-se em cômico, a notícia em mentira – ou, no jargão dos jornalistas, em barriga –, o efeito sonoro ou a fala corretamente colocada em babada, outro sinônimo para uma mesma coisa em todos estes casos: besteira.

Carlos Miguel Voigt (1989)
Fonte: AS CARAS da informação. Zero Hora, Porto Alegre, 3 jan. 1989. p. 34-35.

Quem gostava de contar esta história era o locutor e um dos seus protagonistas, Carlos Miguel Voigt. Pois após um incêndio nos tempos do Grande Jornal Falado Farroupilha, que faz o fim de noite da então PRH-2, em Porto Alegre, a rádio pedia incessamente doações de um tal picrato de butesim, muito popular na época como tratamento de queimaduras de primeiro grau. A malícia dos corredores dá outra conotação ao produto químico, que, infelizmente para os três locutores do Grande Jornal, leva a um ato falho. Diga-se de passagem a um triplo ato falho:

– E pedimos, novamente, à população. Quem possuir picrato de bu-ce-tim…

Em meio ao choque da expressão que alguns diriam chula, o segundo locutor tenta corrigir:

– Vamos repetir: estamos solicitando doações de picrato de bu-ce-tim…

O terceiro, algo desesperado, entre o riso e a consternação, tenta salvar:

– Repetindo: picrato de bu-ce-tim…

E vá explicar, gancho para os três já definido, que não foi sacanagem combinada.

Caso parecido, registrado pelo radialista Sérgio Reis, é o do elenco da novela Nós nos Uniremos no Céu. O título várias vezes trocado em tom de galhofa meses e meses a fio, enquanto ao microfone da Farroupilha os capítulos iam se sucedendo, já antecipava o desfecho dramático. A mocinha e o galã despedem-se, um deles à morte. A cena lacrimosa vai terminar, no entanto, em gargalhadas abafadas por uma trilha musical subindo rápida para que o ouvinte esqueça tudo:

– Oh, meu amor, não se desespere, porque [hesitação], porque [nova hesitação] nós nos u-ri-ne-mos no céu.

A terceira, para fechar, envolve um dos maiores jornalistas gaúchos – Flávio Alcaraz Gomes – e um dos principais religiosos do estado – dom Vicente Scherer. Numa tarde de domingo do início da década de 1960, um trote leva à interrupção da programação esportiva da Rádio Guaíba. Emocionado pela notícia, Enio Berwanger entra com uma edição extraordinária do Correspondente Renner, principal informativo da emissora:

– E atenção: Vítima de um insulto cardíaco, faleceu há poucos instantes sua excelência reverendíssima dom Vicente Scherer. E atenção que vamos repetir…

De fato, um gaiato havia preparado o trote, ligando para a rádio com sotaque de padre. O diretor comercial da Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes, ao ouvir a notícia, deslocou-se imediatamente para o prédio da rádio. Era um caos. A morte, desmentida em seguida, fazia outros gozadores ligarem imitando o arcebispo. Lá pelas tantas, o próprio dom Vicente Scherer tenta um contato telefônico com a Guaíba e é xingado pelo diretor comercial da Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes, acreditando tratar-se de um novo trote:

– Que dom Vicente Scherer que nada! Vá à merda!

No dia seguinte, consternado, um grupo de diretores da Guaíba visita o arcebispo. Por um amigo comum, Flávio ficaria sabendo do comentário de dom Vicente Scherer a respeito do pedido de desculpas:

– Muito bonzinhos estes meninos, mas não precisavam ter me mandado à merda.

Flávio Alcaraz Gomes (2005)
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.

Nenhum comentário:

Postar um comentário