Duas de chuva e uma de oração
2005
Luiz Artur Ferraretto 

No Rio Grande do Sul, como em qualquer outro estado brasileiro, a falha revestida de um certo humor não é uma exclusividade do rádio da capital. No interior gaúcho, alguns causos ao microfone também marcaram época e seguem sendo contados em qualquer roda de radialistas: da precisão descritiva exagerada em uma jornada esportiva em Rio Grande à conversão religiosa forçada de um operador na cidade de Cachoeira do Sul, passando pelo tirocínio algo folclórico de Erico Sauer na sua Estrela.

O futebol sempre fez parte, com mais ou menos força, do dia a dia de Rio Grande, berço do mais antigo time do país, o Sport Club Rio Grande. Não sei se foi em um jogo do Vovô ou de um dos dois outros clubes da cidade – o São Paulo ou o Rio-grandense –, mas o certo é que um locutor de uma das emissoras locais, antes de começar a partida, procurava descrever o lastimável estado do gramado em meio ao forte temporal que caía:

– Chove torrencialmente nos quatros cantos do campo…

A frase, no entanto, acabou ficando no ar ante a intervenção precisa do repórter:

– Eu gostaria de registrar que chove torrencialmente não só nos quatro cantos do campo como também no centro do gramado aqui do estádio.

Em Cachoeira, como era de praxe nos anos 1950, o final da tarde era marcado na rádio da cidade pela hora da Ave Maria. Na época, o padre que conduzia a oração ia, ao mesmo tempo, dedilhando melodias em um piano. Um operador novato ou que nunca havia trabalhado naquele horário colocou o retorno de som muito alto, atrapalhando o sacerdote. O padre começou, então, a fazer o típico gesto com a mão para diminuir o volume. Cada vez que ele tirava os dedos do piano e com a palma da mão estendida procurava dizer “Abaixa! Abaixa!”, o técnico só demonstrava um certo desconforto, mas nada fazia. Na terceira ou quarta vez do gesto repetido, o operador não teve mais dúvida. Ajoelhou e com as mãos postas em prece passou a acompanhar, rezando, a oração do padre. Claro que ninguém ouviu esta participação especial. Também pudera, o volume de som do piano e do padre beirava já o ensurdecedor.


Erico Sauer (1989)
Fonte: AS CARAS da informação. Zero Hora, Porto Alegre, 3 jan. 1989. p. 34-35.

O radialista e jornalista Erico Sauer, falecido em 1991, deixou saudades em todos os que o conheceram. Era um alemão daqueles bonachões, que adorava uma festa, ainda mais aquelas da região de colonização germânica do Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, brilhou no esporte da Difusora, Guaíba e Gaúcha. Pois o Erico, nos seus tempos de Rádio Alto Taquari, na cidade de Estrela, virava noites na farra. Numa destas madrugadas, lá pelas 5h30 da manhã, chegou, sem dormir, na emissora, para abrir a programação meia hora depois. No estúdio, aproveitou o silêncio para dar uma cochiladinha. Acostumado com as festas do Mondongo, apelido do Erico, o operador do horário chegou, ligou os equipamentos e, com a campainha interna do estúdio, acordou o radialista. Sem pestanejar, o Erico, voz tonitroante com certo acento germânico, abriu as transmissões:

– Muito bom dia, ouvintes da RRRádio Alto Taquarrri, de Estrrrela. Aqui, em Estrrrela, tempo bom…

Só que caía uma chuva das de inundação, obrigando ao operador, do outro lado do aquário, por gestos, a indicar a verdadeira situação do tempo que de boa não tinha nada. Erico sem pestanejar repetiu:

– Tempo booommm. Tempo booommm para a agricultura já que chove muito em toda a rrregiãoooo!

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