A da santidade e a do deputado
2007

Capacidade de observação e habilidade na comunicação caminham juntas nas transmissões ao vivo. Nas coberturas longas que o cansaço faz parecerem intermináveis, o famoso ato falho, vez por outra, dá o ar da sua graça, para usar um velho clichê.

Em 1980, o papa João Paulo II vem pela primeira vez ao Brasil. Em cada cidade por onde Karol Wojtyla iria repetir o gesto de beijar o chão ao descer do avião, as emissoras – pequenas ou grandes – organizaram suas coberturas. Em Porto Alegre, as grandes Gaúcha e Guaíba tentam uma ultrapassar a outra em recursos de transmissão. Estações menores também colocam todos os seus recursos na cobertura. Numa delas, um repórter improvisado é deslocado para o Aeroporto Salgado Filho:

– E atenção, ouvintes, a qualquer momento sua santidade, o papa João Paulo II, estará pisando o solo gaúcho...
Um avião aproxima-se da pista e lá vai ele de novo:

– Senhoras e senhores, estou vendo, estou vendo... Pode ser o avião de sua santidade, o papa João Paulo II...

E nada do homem chegar. A cada avião, o repórter insiste mais um pouquinho:

– Senhoras e senhores, a qualquer momento, ele estará aqui entre nós, o representante de Deus na Terra, o papa João Paulo II....

A falação vai num crescendo à medida que há a necessidade de “segurar” a transmissão, em meio aos poucos recursos da rádio:

– Lembramos a todos que em instantes, pela primeira vez na história, um herdeiro do trono de São Pedro vai estar em Porto Alegre... Um homem santo que, dentro da hierarquia da Igreja Católica, representa Deus na Terra...

Lá pelas tantas, o avião com João Paulo II finalmente se aproxima do Salgado Filho e o repórter, não se contendo mais, confunde – digamos – as áreas de abrangência do papa no plano metafísico:

– Finalmente, ele está chegando, senhores e senhores. É o papa João Paulo II que chega. Ele que já esteve em outras cidades do nosso pais... Ele chega a Porto Alegre depois de uma IN-FER-NAL viagem pelo Brasil!

Outra confusão de papéis aconteceu nas eleições de 1986 na Rádio Gaúcha, de Porto Alegre. No ar, comandando as transmissões, está Lauro Quadros, comentarista esportivo e apresentador conhecido pelo raciocínio rápido e algumas tiradas impagáveis. Ao seu lado, operando os computadores da operação paralela realizada pela Rede Brasil Sul, está o então produtor José Alberto Andrade. Nestes tempos pré-internet, pré-celular e pré-urna eletrônica, a contagem de votos arrasta-se por dias e as emissoras esforçam-se para, com base em levantamento próprio, dar o resultado final antes do Tribunal Regional Eleitoral. A todo o momento, os apresentadores percorrem a lista com as totalizações. Em cada zona eleitoral, um repórter acompanha a contagem oficial e tem, como principal recurso, uma linha direta das que basta abrir o microfone para ir para o ar. Referindo-se à listagem, Lauro pergunta:

– Zé, e onde anda o candidato a deputado Mario Madureira, do PMDB?

Antes que o Zé Alberto consiga responder, o repórter Roberto Kovalick abre o microfone e tasca:

– Alô, Lauro! Ele está aqui atrás de mim... – interfere Roberto, procurando ser prestativo.

– Mas Kovalick, se ele está atrás de ti que nem candidato é, ele está em uma situação complicada nestas eleições...

Em tempo, Mario Madureira foi eleito deputado e Roberto Kovalick é, hoje, um dos melhores correspondentes internacionais da Rede Globo de Televisão.

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