O dia em que o rádio acabar
2009
Luiz Artur Ferraretto

Vai ser um dia triste, o do triunfo da total objetividade sobre todos os possíveis caminhos do subjetivo. Vai ser um dia triste o dia em que o rádio acabar.

Não vão se ouvir mais os efeitos sonoros a construir imagens, um “Bang!” a representar um tiro e um “Bum!” a significar uma explosão. O cantor e a cantora hão de se calar de forma forçada e impositiva. O locutor não trará as notícias lidas em voz correta e bem colocada. O repórter não vai estar no palco de ação do fato. O trânsito será impossível, mas ninguém, em tempo real, indicará alternativas, desvios de rota e trajetos.

A dona de casa mais simples, o homem do povo, toda e qualquer pessoa, vão perder um companheiro. Seja em um simples radinho de pilha, dos de cinco reais no camelô do meio da quadra, seja no celular de 15ª geração ou, quiçá, de futuro ainda mais distante, chip de recepção implantado no córtex cerebral.
Vai ser um dia muito chato, este do triunfo do concreto sobre o abstrato. Quase tão ruim quanto aquele descrito por Bradbury em Fahrenheit 451. Lembra? Livros – todos eles – proibidos e incinerados. Jornais com ilustrações apenas. Nenhum texto. Só imagem. O apogeu do não pensar. Tudo mastigadinho. Que o texto faz pensar e constrói imaginários e mundos incontrolavelmente desconhecidos.

Rádio é mais ou menos assim. Ao texto, palavra falada, acrescenta-se o som da música, trilha e poesia, a emocionar e acrescentar mensagem; efeito sonoro a mexer com o cérebro, construindo um cenário particular; e o silêncio – ah, o silêncio! –, dando uma paradinha dramática, deixando um espaço para o pensamento. Rádio é só pensamento.

Os tempos do espetáculo das novelas, humorísticos e programas de auditório explicam tudo. A mensagem que de lá vem segue válida nos dias de hoje, do jornalismo, do popular, do musical.

Uma mocinha de voz lânguida e um galã de entonação heroica e romântica. Uma trilha de fundo, algo melancólica. O som do trem que se aproxima. O diálogo de despedida. O amor impossível. Meio brega, você dirá. Mas a vida é assim mesmo... meio brega. E o som do trem que se afasta.

Uma imagem única construída na cabeça de cada ouvinte. Milhares de – e perdoem a aliteração! – imagens imaginárias no cérebro de milhares de ouvintes. Únicas. Mas todas dizendo a mesma coisa: aquilo que o autor pensou, construiu – por que não? – ele também na sua cabeça. A sensorialidade de um afetando, assim, milhares.

O dia em que o rádio terminar será mesmo triste. Não vão faltar apenas a notícia, o programa de entrevista, o debate, a cobertura do jogo de futebol ou da denúncia de corrupção. Não vai faltar apenas a conversa do comunicador povão com a “nossa amiga dona de casa” ou do DJ de fala fácil, mimetizando uma espécie de irmão mais velho em relação ao ouvinte mais jovem lá do outro lado, juntinho ao receptor, seja radinho, celular, MP3 player, computador...

Será o dia do fim da imaginação. E é por tal impossibilidade, salvo melhor juízo, que o rádio segue.

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