A precisão do noticiário
2008
Luiz Artur Ferraretto

Uma velha máxima jornalística diz que notícia é o inusitado, o menos óbvio possível. O problema ocorre quando o inusitado está na forma de dar a notícia. E a seriedade dá lugar ao riso, de modo intencional ou não.

Qualquer emissora que se dedique um pouco ao jornalismo depende – e muito – das informações dos plantões policiais. Em Rio Grande, no litoral sul gaúcho, não é nem era diferente. Contam que, nos anos 1970, um cadáver apareceu boiando próximo do cais do porto da cidade. Um repórter da Rádio Cultura Rio-grandina teria, então, saído com esta em seu boletim:

– A Polícia Civil localizou, no início desta manhã, um corpo não identificado ainda, com dezenas de facadas no tórax e no abdômen. Já foi descartada, no entanto, a hipótese de suicídio...

Na mesma cidade, em plena ditadura militar, com sua censura política e exacerbado controle do que os donos do poder consideravam “moral e bons costumes”, um jornal noticiara durante o carnaval rio-grandino, na época conhecido por ter a duração de uma semana:

– Durante o desfile carnavalesco, a Brigada Militar flagrou um casal praticando cunnilingus atrás do prédio da Alfândega.

Após esta descrição quase científica de sexo oral, a tradicional folha papareia atalhava para que não houvesse dúvida do que se tratava:

– O chupador foi preso em pleno ato...


“Papareia” somos nós, os nascidos na cidade de Rio Grande – ou, como querem alguns, “do” Rio Grande. Já o resto... não precisa explicar.

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