Moretto, Luciano e Marquinhos, chefes da redação da Gaúcha
2009
Luiz Artur Ferraretto

Três pessoas, entre tantas outras, marcaram minha formação como repórter na Rádio Gaúcha, de 1986 a 1991, quando andei por lá. Posso, obviamente, citar outros com quem aprendi muito também (é o caso, para citar alguns, do editor Aldo Jung, do redator Plínio Nunes e da produtora Mágda Cunha). Mas, aqui, vou falar das chefias, terreno sempre pantanoso, ainda mais quando se é subalterno e, pior, em início de carreira, foca mesmo. E dos reclamões.

Quem orientou meus primeiros passos na redação da Gaúcha foi o coordenador de Jornalismo, Claudio Moretto, que segue por lá, com a mesma competência de sempre. Oscilava entre a seriedade do trabalho diário na emissora que se firmava como a principal no segmento de radiojornalismo no Sul do país e uma veia sacana, procurando fazer piada do cotidiano e, assim, aliviando a carga de tarefas de cada um. Quando, em um processo de redução de custos, acabou acumulando a edição dos noticiários da manhã, tive verdadeiras lições de agilidade e compreensão do que era ou não notícia. Moretto não precisava que dissessem como deveria agir. Sabia quase por instinto. Um exemplo ilustra bem isto. Era o fim do turno da manhã, que, no nosso caso, ia até as 13h45, então horário da segunda edição do Correspondente, não sei se Strassburguer ou Maisonnave, na prática de nomear o noticiário pelo nome do seu patrocinador exclusivo. O locutor José Aldair estava já na metade da leitura do informativo, quando um ouvinte do Paraná ligou dizendo que uma guarnição do Exército havia se sublevado. Vivendo o governo Sarney e apenas com a promessa de eleições diretas para a presidência, tínhamos sobre nós, sempre, a sombra do retorno da ditadura militar. Foi, por tudo isto, um caos. Não tenho certeza, mas creio que a cidade era Londrina. Como o único repórter por ali, liguei para a emissora afiliada à Rede Globo por lá. Um colega passou, então, a me ler o manifesto de um militar, de fato, mais caso isolado que movimentação contra a incipiente democracia de então. Cara de aflito de foca sem saber direito o que fazer, repeti bem alto, olhando para o Claudio Moretto:

– Vocês têm, então, o manifesto deles...

O Moretto puxou a mesinha com uma máquina de escrever para o meu lado. Eu repetia o dito pelo colega do Paraná e ele, alucinado, ia escrevendo nas linhas de 65 toques da lauda padrão da Rádio Gaúcha. Segundos depois, corria pelo corredor. Quando o Aldair respirava para ler o encerramento do noticiário, a mesma folha caía na sua frente e ele, sabendo se tratar de alguma notícia muito importante:

– E atenção... Um contingente militar amotinou-se no norte do Paraná há poucos instantes...

Subordinados ao Moretto, dois outros profissionais marcariam a minha trajetória na rádio.

O jornalista Marco Antônio Villalobos trazia para a chefia de reportagem do turno da manhã da Gaúcha todo o humor do pai, Carlos Nobre, principal profissional do fazer rir em rádio, TV, jornal e teatro do Rio Grande do Sul dos anos 1950 até meados da década de 1980. Tinha tiradas improváveis e algo absurdas, fazendo qualquer um gargalhar. Dava lições de jornalismo também, trazendo para a redação da Gaúcha a sua experiência de repórter de TV, um dos principais do estado. Na Semana Santa em que os militares, desta vez os argentinos, se levantaram contra o governo Alfonsin, o Marquinho deu um furo nacional. Lá pelas 11 da manhã modorrenta do feriado de sexta-feira, encasquetou que iria ouvir um dos amotinados. Via telefone, foi contactando um e outro em Buenos Aires e outras cidades. Lá pelas tantas, também com o noticiário no ar, gritou:

– Estou com os caras na linha, me passa para o estúdio...

E quebrou uma tradição da rádio até então: fez entrevista dentro do correspondente e estourou seus dez minutos de zelosa duração.

Já Luciano Klöckner, que, após a recessão da virada de 1986 para 1987, assumiu o comando dos noticiários da manhã, é sem dúvida um dos melhores textos do rádio do Rio Grande do Sul e editor dos mais cuidadosos, consciente de sua responsabilidade de fornecer informação precisa. Por vezes, aplicava quase um questionário nos repórteres para ter certeza da veracidade da informação. É dele uma frase que me faz escrever este texto:

– Todo chefe tem por vezes um lado filho da puta!


Para a exceção confirmar a regra, há que dizer: eles não tinham e seguem, com certeza, sem possuir ou exercer esta característica. Aos três, devo lições de profissão, de trabalho e de companheirismo.

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