Uma do Carlos Miguel, uma contra ele e outra que não tem nada a ver
2006
Luiz Artur Ferraretto

Todo dia é a mesma coisa. O quase inexperiente locutor Carlos Miguel chega na Rádio Cachoeira, em Cachoeira do Sul, a 200 quilômetros de Porto Alegre, tira o revólver cuidadosamente azeitado de dentro do casaco e coloca a arma com cuidado em uma gaveta. Todo dia é a mesma coisa. Uma voz zombeteira faz de Miguel a sua vítima, completando a cena, com leve sotaque gaudério:

– Macho que é macho não precisa de arma pra se defender!

A cena repetida à exaustão na virada da década de 1940 para a de 1950 inspira o jovem Miguel a aprontar uma sacanagem com um amigo. Cuidadosamente, prepara um cartucho de festim e planeja, para a primeira oportunidade, o “assassinato” do colega. Tendo a certeza de estar apenas com aquela bala fajuta no tambor do revólver, Miguel repete a cena comum para os funcionários da Rádio Cachoeira, a maioria já avisada e, portanto, cúmplice também. Ele chega, retira a arma do paletó e, quando já está abrindo a gaveta da mesa, ouve a mesma frase de sempre:

– Macho que é macho não precisa de arma pra se defender!

De um salto, Miguel volta-se em direção ao gozador e, fingindo irritação, com o revólver apontado para ele, grita, aproveitando a voz grave:

– Agora, vamos ver, ôoo filho da puta... – e dispara.

O som do tiro, tão bom como o dos melhores sonoplastas da época, dá efeito real à bala falsa. A vítima joga-se para trás, apavorada, e com as mãos parece procurar no peito o buraco fatal, quase se borrando de medo e, logo, pelas gargalhadas de todos, se dando conta da brincadeira.

Oportuno ou não, sutil ou truculento, de bom ou mau-gosto, trotes como este fazem parte também da história cotidiana do rádio, talvez com menos intensidade à medida que as relações se desumanizam, passando a valer o império do terno-e-gravata, do negócio, da empresa em primeiro lugar. Para ter efeito, no entanto, deve parecer real e aproveitar a oportunidade. Um exemplo: a grande quantidade de estagiários, para revolta do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre, que foi tomando conta das redações da capital gaúcha ao longo dos anos 1990. Pelos sacanas de plantão, cada um destes candidatos a profissionais transforma-se, então, em uma vítima potencial. Passa a atuar uma fictícia “Comissão de Fiscalização” ligada ao sindicato. A cada nova leva de focas, um é escolhido. De um ramal qualquer da rádio – de preferência, com um gravador acoplado ao telefone para, depois, ampliar o efeito da gozação –, um “fiscal” liga, pede para falar com o estagiário, dando o nome completo da vítima, se possível o dia em que começou a trabalhar e o semestre que cursa na universidade tal. Na sequência, o alerta, dito com rapidez, para que a vítima não possa raciocinar direito:

– É que aqui é do Sindicato dos Jornalistas e tu deverias saber que estágio é ilegal. Estamos ligando pra te avisar. Vai correr processo de cassação preventiva do teu registro. Assim, tu aprendes a respeitar a tua ex-futura profissão!

Enquanto a vítima desavisada tenta argumentar, o “representante do sindicato” desliga o telefone, fingindo irritação. Apavorado, o estagiário comenta com as pessoas que estão ao seu lado, todas participantes da sacanagem, ampliando o pavor. Alguns orientam para que converse com uma chefia, por vezes o responsável direto pelo trote. Então, bem sério e após ouvir o relato do estagiário, o chefe pergunta:

– Tu não sabias que era ilegal? – complementando, sem deixar o outro responder: – É problema teu. Não é problema da empresa. Sugiro que procures um advogado – E vai levantando para que a vítima se retire da sala.

Quinze ou 20 minutos depois, os próprios estagiários mais antigos já estão contando a verdade para a vítima da vez, servindo, assim, como uma espécie de ritual de passagem. Alguns, no entanto, sofisticavam e estendiam a sacanagem um pouco mais, indicando advogados picaretas – outro colega, às vezes das rádios concorrentes, que se prestava para tal – que conseguiriam comprar registros frios, com a gozação ganhando impagáveis discussões de valores.

Por falar em oportunidade, nos anos 1980, inspirado na história do tiro contada pelo então locutor da Rádio Gaúcha, Carlos Miguel Voigt, bolamos – o jornalista Vitor Bley de Moraes e eu – uma sacanagem. Cabia, no turno da manhã, ao próprio Miguel – a vítima escolhida – receber e colocar no ar os anúncios fúnebres que, justamente para evitar trotes, só podiam ser acertados pessoalmente, nunca por telefone. Aproveitando a facilidade em imitar sotaques de alemães, o Vitor liga do Departamento de Esportes para a redação do Jornalismo da emissora:

– [Quase chorando]. Por favorrrrr, eu querrria colocar uma anúncio fúnebrêê...

Dando uma credibilidade imprevista, um redator cai também na palhaçada e repassa a ligação para a Central Técnica, onde o locutor se encontra:

– Ô, Miguel, tem um coitado no telefone desesperado querendo colocar um anúncio fúnebre...

E o Vitor:

– Alô, eu querrria colocar uma anúncio fúnebrêê... Meu irmom morrrrreu aqui na litoral e a xente tinha que avisar os parrrente em toda estado...

Aí começa a sacanagem impossível de ser descrita completamente. De um lado, o parente desesperado, insistindo e argumentando com a necessidade dele e o alcance e a potência da Gaúcha. Do outro, o locutor Carlos Miguel, sem poder colocar o tal anúncio e cada vez mais compungido e sensibilizado pela situação do pobre homem. Uns 20 minutos depois, terminada a tortura, resolvo contar para o Miguel a sacanagem toda. Na entrada dos estúdios, pergunto para ele:

– E o cara que ligou pra cá desesperado pra pôr um anúncio de falecimento?

– Pois é... até me deu uma dor no coração – responde, profundamente, tocado pela situação descrita.

– Éramos eu e o Vitor...

A resposta do Miguel, aos berros, ainda me renderia uma brincadeira anos depois:

– Filho da puta!!! Tu podes morrer que eu não vou ler o teu anúncio, desgraçado!

Já professor universitário, em 1992, quando saiu meu primeiro livro – Técnicas de Redação Radiofônica –, uma parceria com a jornalista Elisa Kopplin, a editora coloca um anúncio na Gaúcha, gravado justamente pelo Miguel. Vou na rádio para uma entrevista e cruzo com ele. Não resisto:

– Meu anúncio fúnebre não leste, mas...

– Li com muito orgulho e gosto o do teu livro, filho da puta, mas o anúncio fúnebre, esquece... – E saiu rindo na direção do Departamento de Jornalismo.

Infelizmente, foi a última vez que nos vimos. Tempos depois, o Miguel foi fazer sacanagens em outros planos e deve andar lá em cima, num cantinho, umas vezes resmungando contra algum santo, outras aprontando para anjos e querubins desavisados.

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