Otília, Suê e o rapaz que via empresas, logotipos, adversários...
2009
Luiz Artur Ferraretto


Algumas mulheres marcaram com muita garra e dedicação o rádio porto-alegrense da década de 1980, trazendo aos ouvintes as notícias direto do chamado palco de ação. No duro dia-a-dia da reportagem em um país fazendo a transição para a democracia e, ainda, sem eleições diretas para presidente, eram pau pra toda obra e encaravam qualquer parada: do buraco de rua ao motim no presídio, das votações na Assembleia Legislativa às dezenas de greve de trabalhadores. Com algumas, confesso, aprendi muitas coisas.

Nas eleições de 1986, em um free-lance que, dias depois, se transformaria em contrato com carteira assinada, conheci duas delas em torno a urnas e cédulas de votação. Na sede da Sociedade Ginástica Porto Alegre, a Sogipa, duas zonas eleitorais teriam seus votos apurados no lento processo de contagem manual, quase duas décadas antes das urnas eletrônicas. Pela Gaúcha, a mim coube uma das zonas e a outra a Otília Souza. Por ali, andava ainda Suê Duarte, da Guaíba, contornado com sua experiência a desvantagem numérica. Foca até a medula, fui acalmado por ambas. E tive uma lição de civilidade, profissionalismo e companheirismo:

– Guri, conosco não tem este negócio de concorrência. Aqui fora, nós somos é colegas – disse uma delas, quando um dos candidatos majoritários chegava à Sogipa. Em seguida, microfone em punho, foram entrevistá-lo, ao vivo e juntas, uma aguardando e respeitando a pergunta da outra, colocaram, por um instante, as duas emissoras concorrentes em uma cadeia de mentirinha. No dia seguinte, lição apreendida, a situação iria se repetir, desta vez comigo e a Suê.

Anos depois, em um motim, a Gaúcha daria um furo monumental na Guaíba. Primeiro repórter a chegar à Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas, anotei algumas informações em um papel e entrei ao vivo, minutos depois da rebelião ter sido anunciada pelos próprios presos, por telefone, ao microfone da rádio. Passados uns 15 ou 20 minutos, já com outros colegas na volta, entre eles um novato, chega a Suê esbaforida.

– Guri, o que tá havendo aí?

Expliquei as informações que tinha e passei as minhas anotações para ela, que correu para a unidade móvel da Guaíba, entrando no ar segundos depois. O tal foca aproximou-se de mim e, irritado, me chamou a atenção:

– Mas tu deste as tuas anotações para ela?

– Dei. Quem é concorrente é a Gaúcha e a Guaíba. Eu e ela somos colegas – respondi, irritado.

De fato, talvez ele nunca saiba, eu apenas repetia a frase não sei se dita pela Suê ou pela Otília lá naquela eleição de 1986, na Sogipa. Frase, fique claro, que nunca esqueci. Ah, e o novato? Este faço questão de deixar perdido no passado, a não ser para servir de contraste com a Suê e a Otília. Não vale a pena lembrar dos que olham para as pessoas e veem apenas empresas, nomes fantasia, marcas, logotipos, adversários...

2 comentários:

  1. Muito boa a tua estória, Ferraretto. Assim se comportam os verdadeiros bons jornalistas. Depois do furo dado, que mal faz compartilhar as informações? Bj. Marilesia

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