Paulo Coelho, o mago da música dos anos 1930
2009
 Luiz Artur Ferraretto

Paulo Coelho e seu conjunto (1937)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 9, n. 215, p. 14, 9 out. 1937.

Ele tinha magia na ponta dos dedos, encantando as pessoas e abrindo uma fresta de enlevo na noite porto-alegrense dos anos 1920 e 1930. O Paulo Coelho, ex-aluno do Conservatório de Música, trocara o erudito pelo popular, adotando os cafés, confeitarias, boates e salões de baile como palco. E dava show de virtuosismo. Um mago a sua maneira, muitos anos antes de alguém com nome idêntico alçar-se a este posto. Ao piano, o Gordo – como era chamado – encantava os frequentadores da Confeitaria Colombo, na Rua da Praia, uma das casas em que mais atuou, ou dos bailes das sociedades, para os quais seu conjunto transformara-se em disputadíssima garantia de sucesso. Sucesso que, no alvorecer do rádio do Rio Grande do Sul, chegou fácil, fácil à Gaúcha e, logo em seguida, à Farroupilha, onde a mágica se materializava nas orquestras típica e de jazz da mais importante emissora do Sul do país na época.

Da habilidade musical de Paulo Coelho, contavam-se diversas histórias, como esta lembrada pelo jornalista Ney Fonseca, em reportagem da Revista do Globo, publicada em agosto de 1961:

Porto Alegre jamais conhecerá outro pianista igual a Paulo Coelho. Era tido na cidade como um dos melhores intérpretes da música popular brasileira e como um dos únicos a tocar simultaneamente duas músicas, em dois pianos. Certa vez, deu um espetáculo, quando, por uma aposta, tocou o Hino Nacional num piano, enquanto no outro, com a outra mão, tocava um noturno.
Há relatos de que o talento de Paulo Coelho chegou a ser reconhecido, inclusive, por grandes artistas internacionais, como foi o caso do norte-americano Eddy Duchin.

Músico respeitado, Paulo Coelho atraía ouvintes para “a mais potente”, como os jornais começavam a identificar a Farroupilha. Trazia para a PRH-2, ainda, o esquema dos bares da cidade, onde se alternavam, a cada 30 minutos, apresentações da Típica – responsável pela execução de números de tango – e do Regional – tocando sambas, chorinhos, enfim, música brasileira. Rádio que se pretendia para a elite, sem descuidar do popular, a Farroupilha preferira, no entanto, um conjunto de jazz ao Regional. Em paralelo, a Orquestra Internacional deveria fazer o contraponto em relação às apresentações mais populares do conjunto de Paulo Coelho. De fato, como recorda o jornalista e pesquisador Marcello Campos, o grupo nem sempre tocava exatamente jazz, mas sim uma variedade de estilos musicais que iam do da valsa ao samba.

A respeito, Manoel Braga Gastal, diretor de Broadcasting da Rádio Farroupilha de 1943 a 1948, registra no livro Flashes de uma vida:

Contavam-se a seu respeito histórias girando invariavelmente em torno de sua capacidade de musicista. Por exemplo, a que dizia haver ele, certamente, numa noite de pileque durante férias no Rio, sentado ao piano do Cassino da Urca para improvisar uma seleção de melodias norte-americanas dedicada ao grande condutor de orquestra Eddy Duchin, tão grande que o cinema lhe rendeu a homenagem de um filme biográfico, Melodia imortal, estrelado por Tyrone Power. Duchin realizava com sua orquestra temporada no famoso cassino. Ficou de tal maneira impressionado com o colega brasileiro que procurou contratá-lo imediatamente para sua formação musical. Fez-se, ao tempo, corrente a informação de que houve um documento escrito de compromisso entre as partes. Mas, no dia seguinte, já sóbrio e ao saber do contrato, Paulo foi ao cais da Praça Mauá, procurou o primeiro navio que partisse para o Sul e veio tocando na orquestra de bordo até o Rio Grande. Fugira de uma situação que certamente qualquer músico de província abraçaria. Depois de desistir de exigir o cumprimento do contrato tosco feito na mesa do Cassino, Eddy Duchin voltou aos Estados Unidos sem o precioso achado.
Coisas de um mago da música. Coisas de Paulo Coelho, o Gordo, o do piano, o das noites de Porto Alegre. E da PRH-2 – Rádio Farroupilha. Ah, do Paulo Coelho, autor da música de um dos sambas mais famosos do  Rio Grande do Sul, Alto da Bronze, parceria com o letrista Plauto Azambuja.

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