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Anos 1970
É o momento da redefinição do rádio em Porto Alegre. O meio que falava para todos intensifica o processo de segmentação e vai se reinventando junto ao povão e ao jovem. O jornalismo, outro pilar deste processo, vai demorar um pouco a ganhar corpo. Vive-se, ainda, a ditadura militar com censura e repressão. O esporte – leia-se futebol – impulsiona a rivalidade: das copas do mundo de 1970, 1974 e 1978 às primeiras conquistas nacionais de times gaúchos. É o tempo também das grandes crises nas empresas da família Caldas Júnior e nos empreendimentos locais dos Diários e Emissoras Associados.

Otávio Gadret e a segmentação no rádio do Rio Grande do Sul
2005
Luiz Artur Ferraretto

Otávio Dumit Gadret (anos 1980)
Fonte: Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão.

Quando adquire, de forma quase singela, a sua primeira emissora, no início dos anos 1970, Otávio Gadret, aos 22 anos, não pode ser considerado um total neófito em rádio, meio com o qual mantém contato desde o final da década de 1950. Nesta época, aos 11 anos de idade, é um dos apresentadores-mirins, junto com Lacy Odete Ramos, do programa infantil Clube Ping-Pong, patrocinado pela goma de mascar quase homônima na Farroupilha. No ano de 1961, integra a equipe do Lacta Clube, de Carlos Alberto Carvalho, na Difusora. Na sequência, trabalha como locutor em estações de pequeno porte, acabando por se transformar também em corretor de anúncios, montando uma pequena agência de publicidade. Em 6 de agosto de 1970, colocando no negócio um Karmann-Ghia, carro esportivo fabricado pela Volkswagen do Brasil S.A., Gadret adquire a Caiçara, de Esteio, na Grande Porto Alegre, rádio em situação próxima da falência. Dez anos depois, aos 32, torna-se o mais jovem proprietário de uma estação de TV do país, a Pampa, canal 4, de Porto Alegre. A atuação do grupo nos três ramos tradicionais da comunicação de massa – imprensa, rádio e televisão – completa-se, em julho de 2001, com o lançamento do jornal diário O Sul, em formato tabloide e inteiramente colorido. Na sua atuação em rádio, vai se constituir no principal pioneiro da segmentação no Rio Grande do Sul.

Ao assumir a Caiçara, Gadret depara-se com acanhadas possibilidades de tornar a emissora um investimento rentável. Tudo parece apontar para a inviabilidade econômica da rádio, que começou a operar em 1° de junho de 1966 e pertencia a quatro sócios: Breno Martins Futuro, Harry Herbert Klein, Lorenzo Gabellini e Ulysses Sabatine Moreira. Os estúdios e os transmissores funcionam em Esteio, havendo sérias dificuldades de comunicação com Porto Alegre. A potência é de apenas 250 W. Fora isto, salários e contribuições previdenciárias estão atrasados. Na negociação com os proprietários, além de um automóvel usado como entrada, o publicitário paga Cr$ 5 mil no primeiro ano, mais três prestações de Cr$ 10 mil cada nos seguintes. Reduzido mesmo para o mercado da época, o valor total de Cr$ 35 mil – pouco mais de US$ 7,5 mil – demonstra, por si, o risco do empreendimento. Para reduzir custos, o novo proprietário impõe uma programação gravada de música para as classes B e C, copiando, na forma de veiculação, a estrutura usada pela Cultura, de Gravataí, no início dos anos 1960: a cada canção, um comercial. Usando a experiência e os contatos de corretor de anúncios, busca recursos junto ao mercado publicitário de Porto Alegre. Desta forma, em torno do slogan “Caiçara, onde a música não para”, reestrutura, do ponto de vista econômico, a rádio.

Em novembro de 1971, Gadret compra a Pampa, estação inaugurada por Ernani Behs e Hamilton Muniz da Rocha em 13 de agosto de 1960, mas controlada, então, por Ney Só dos Santos. A emissora passa a competir, no segmento musical jovem, com a Continental, veiculando sucessos, em sua maioria, estrangeiros. No mês de julho de 1975, o empresário adquire, ainda, a Rádio Clube de Canoas, logo transformada na Eldorado, totalmente dedicada à música sertaneja e regionalista. Dois anos depois, ao colocar no ar o seu primeiro canal com outorga própria – o da Universal FM –, o grupo já atende pela denominação genérica de Rede Rio-grandense de Emissoras, um estratagema, segundo Otávio Gadret, utilizado “para dar uma ideia de potência” ao conjunto de estações por ele controladas.

Inaugurada pelo ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, em 17 de janeiro de 1977, a Universal FM “é toda dirigida a um público de alto poder aquisitivo, com música criteriosamente selecionada”, como registra a revista Manchete. Conforme Gadret, a nova estação passa a operar dentro de um estilo diferente no ainda incipiente mercado de frequência modulada porto-alegrense:

– Nessa época, 1977, as rádios FM optavam por uma programação muito séria, só com músicas orquestradas e o próprio locutor era um tanto mórbido. A nossa estratégia foi fazer uma programação completamente antagônica àquela que vinha sendo feita até então. Só tocávamos músicas que também fossem cantadas, dávamos o nome da música e a hora certa ao fim de cada número, fornecíamos informações sobre o trânsito e valorizávamos bastante a música brasileira.

No final da década, o bom desempenho econômico da Rede Rio-grandense de Emissoras na Região Metropolitana de Porto Alegre permite que Gadret assuma o controle de rádios em Florianópolis, no estado de Santa Catarina, e Caxias do Sul, na Serra gaúcha, todas, mais tarde, repassadas a outros empresários. Em julho de 1980, na capital do Rio Grande do Sul, começa, também, a operar a sua primeira estação de TV: a Pampa, canal 4.

Nesta fase da atuação de Otávio Gadret como radiodifusor, predomina uma fórmula básica, de fácil identificação em suas operações de AM e de FM, objetivando tornar viáveis seus empreendimentos mesmo com pouco capital de giro. O empresário procura veicular música segmentada com apresentação, na maioria das vezes, gravada, o que, se não proporciona um faturamento alto, gera lucros aceitáveis pelo baixo custo envolvido. O recurso, aliás, repete-se, várias vezes, nas décadas seguintes, ora após a aquisição de novas estações em uma eventual boa oportunidade de negócio, ora fazendo frente a dificuldades momentâneas causadas pela retração no mercado.

Em 1977, procurando ampliar a presença da Rede Rio-grandense de Emissoras no segmento popular, Otávio Gadret começa a alterar um pouco este esquema. A Caiçara transfere-se para os 1.210 kHz com 1 kW de potência, onde até então operava a Pampa, que, por sua vez, passa a ocupar os 970 kHz e contar apenas com 250 W nos transmissores. Com uma estação de maior alcance, o empresário contrata o radialista Luiz Braz, da Farroupilha, colocando no ar, das 6 às 12h, o programa Comando Geral, de início gravado, mas que, depois transmitido ao vivo, impulsiona a disputa com a Itaí. Em abril de 1979, a Caiçara chega ao primeiro lugar da audiência em ondas médias na capital gaúcha, praticamente empatada com a Itaí. Em dezembro do mesmo ano, no entanto, atinge 28,25% dos receptores ligados contra 24,32% da antiga líder, posição mantida, sem grandes alterações, até 1982. Pelo lado da frequência modulada, somente no ano de 1983 a Universal FM vai optar pela comunicação ao vivo, com Júlio Fürst, pela manhã; Ivan Fritsche, à tarde; e Clóvis Dias Costa, à noite.

A partir daí, adotando a denominação de Rede Pampa e mesmo com altos e baixos marcados pelo poder de seu principal concorrente – a Rede Brasil Sul – em impor barreiras aos seus empreendimentos, Gadret reforça sua presença em rádio, TV e jornal.
Sayão Lobato, o homem do Não Diga Não
2005
Luiz Artur Ferraretto

Programa Supershow Sayão Lobato (1983)
O radialista, ao centro, faz a brincadeira do Não diga não com uma ouvinte no estúdio da Rádio Itaí.
Fonte: Microfone, Porto Alegre, ago.-set. 1983, p. 6.

Com emissoras como Itaí, Caiçara, Difusora e Farroupilha disputando os ouvintes das classes C e D em Porto Alegre, a forma espontânea e agitada garante, nos anos 1970, o apelido de Magrinho Elétrico a João Baptista Sayão Lobato. Aproveitando a rima fácil com o próprio nome, o radialista ganha espaço com uma brincadeira que marca época no rádio do Rio Grande do Sul: o Não Diga Não.

No mês de abril de 1969, um pouco antes do jogo em que a seleção do Brasil, no dia 7, enfrenta e vence por 2 a 1 a do Peru, dentro das promoções de inauguração do Estádio Beira-Rio, do Sport Club Internacional, Sayão Lobato começa a se destacar na chamada reportagem musical da Itaí. Utilizando uma série de artimanhas, incluindo contornar pela margem um trecho do rio Guaíba com água pela cintura, o radialista consegue entrar na concentração do selecionado em um clube da Zona Norte de Porto Alegre e falar com os jogadores brasileiros:

– Quando me pegaram com o gravador, vieram os seguranças, dizendo que eu não podia entrar na concentração. Como eu já tinha entrado e, ali perto, numa turminha, estavam o João Saldanha, o Pelé, os jogadores... Aí que eu digo: “Só um pouquinho, deixa eu só falar. Pega meu gravador, não tem nada ligado. Acontece o seguinte: eu sou casado, pai de cinco filhos, eu consegui um emprego, estou conseguindo entrar numa rádio e vim aqui para fazer uma coisa. Não estou falando de futebol. Eu quero só perguntar para o Pelé qual é a música que o Pelé gosta, o João Saldanha, o Jairzinho... Eu quero que eles peçam uma música”. Aí o Pelé disse: “Isso aí nós podemos, vamos pedir uma música!”. E ele pediu uma música do Moacyr Franco. Aí, eu gravei com todos os jogadores da seleção.

No dia seguinte, os pedidos entram de hora em hora na programação da Itaí, com grande repercussão junto aos ouvintes. A partir daí, Sayão Lobato percorre as ruas da cidade, gravando pedidos do público em geral e, por vezes, de personalidades. A reportagem musical é irradiada como quadro ao longo da programação com o apresentador, por exemplo Edy Amorim, usando o apelido criado por Marne Barcelos, outro comunicador muito popular na época, chamando no ar:

– O Magrinho Elétrico Sayão Lobato das ruas de Porto Alegre.

Ou simplesmente:

– Fala, Sayão...

Ao que o radialista, aproveitando o sucesso da canção Você Pediu e Eu Já Vou Daqui, de Antônio Marcos, repete o refrão:

– Edy, você pediu e eu já vou daqui... – respondendo e já introduzindo a pergunta sobre o pedido musical seguida da resposta do ouvinte.

É na Itaí que Sayão Lobato cria o Não Diga Não, a mais conhecida brincadeira do rádio popular no Rio Grande do Sul, gerando, inclusive, cópias em outros estados. Para ganhar um brinde, o ouvinte tem de evitar a palavra “não” durante dois minutos, enquanto o radialista, justificando o apelido de Magrinho Elétrico, faz pergunta após pergunta, sem deixar tempo para raciocínio algum, em um diálogo extremamente rápido:

– Como é o teu nome?

– Elisa...

– Dois minutos sem dizer não! Se disser não ganha um relógio de presente! Tá pronta, Elisa?

– Sim.

– Então tá... Atenção! Cuidado que o teu coraçãozinho tá sa-sa-cudindo, porque cooomeeeçou... Tudo bem, Elisa?

– Sim.

– Não! Ficou nervosa, eu vi daqui!

– Não...

– Já disse...

João Baptista Sayão Lobato
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 8 de maio de 2003.

No início dos anos 1970, a cada dia, durante o seu horário, Sayão Lobato realiza até seis brincadeiras deste tipo, com poucos vencedores. Para participar do Não Diga Não, os ouvintes inscrevem-se previamente e é tal a procura que chegam a esperar três meses para ocupar o seu lugar dentro do estúdio e responder a uma saraivada de perguntas. Fora isto, o comunicador inclui charadas como esta em seus programas:

– Descubra meu amigo, o que é que se tu fores ao meu, eu não posso ir ao teu e, se eu for ao teu, tu não podes ir ao meu? Vale três compactos simples! Não sabe? É o velório.

A popularidade do comunicador na programação vespertina da Itaí faz com que a rádio aposte no Domingo Alegre de Sayão Lobato, um programa de auditório, das 10 às 12h, apresentado em cinemas com calouros e brincadeiras. Quando o radialista se transfere para a Farroupilha, em meados da década, conduz atração semelhante nas tardes de sábado da TV Piratini. Na mesma época, grava um compacto simples com duas canções. Uma delas – a versão em português de Prometemos no Llorar, do argentino Palito Ortega – chega a aparecer nas paradas de sucesso. No entanto, seja em rádio ou em televisão, independente da emissora, o momento principal dos programas de Sayão Lobato é sempre o Não Diga Não, presente até hoje na memória dos ouvintes daqueles tempos.



Prometemos Não Chorar, de Palito Ortega (versão de Jean Pierre)

Com João Batista Sayão Lobato (1974)
Marne Barcelos e o incêndio da Rádio Farroupilha
2008
Luiz Artur Ferraretto

Incêndio na Rádio Farroupilha (janeiro de 1974)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 13 jan. 2004. p. 32.

Foram dois incêndios abalando a história da Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. No primeiro, a turba descarregou tristezas na forma de gasolina, fazendo os estúdios da velha PRH-2 arderem como pira funerária para Getúlio Vargas, alvo constante de comentários e notícias da estação dos poderosos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. Nem tão poderosos assim, duas décadas depois, no calor de janeiro, quando as faíscas iniciais vieram de um prosaico curto-circuito, se alastrando em meio à má-conservação do velho prédio ocupado, na época, pela rádio no Morro Santa Teresa. No segundo, é a agilidade do radialista Marne Barcelos que garante, com rapidez surpreendente para os recursos técnicos dos anos 1970, a retomada das transmissões.

Por esta época, a Farroupilha apresenta uma programação ainda eclética, mas pendendo, majoritariamente, para o popular. Em meados da década de 1970, passam pelo microfone da emissora profissionais como Aurélio Câmara, Cicero Augusto, Dilamar Machado, Sayão Lobato, Teixeirinha e, até mesmo, o astrólogo Omar Cardoso, então famoso no rádio de São Paulo. No segundo semestre de 1973 e ao longo de 1974, com Homero Coimbra na gerência de programação e Marne Barcelos na direção artística – os dois também conduzindo programas de sucesso –, a estação dos Associados chega a liderar, por alguns meses, a audiência no mercado de Porto Alegre, conforme os levantamentos realizados, na época, pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Na virada do ano, como registra um anúncio publicado pelo jornal Diário de Notícias, a Farroupilha consolida-se no primeiro lugar. O seu percentual em relação aos receptores ligados cresce de 19,65%, em novembro, para 21,69% no mês seguinte, colocando uma diferença de 3,99 pontos percentuais sobre a Itaí, a segunda colocada, e de 5,49 em relação à Difusora, a terceira.

É neste momento, quando a programação começa a dar bons resultados, que ocorre, no dia 12 de janeiro de 1974, um incêndio de grandes proporções nas instalações da Farroupilha, ao lado do prédio da TV Piratini. O fogo atinge a parte técnica da emissora: quatro cabinas de locução, duas de controle de som, almoxarifado, geradores e área de engenharia. São destruídos, ainda, 12 mil elepês, 6 mil compactos e todas as gravações de programas antigos. Interrompidas durante o Loteria de Sucessos, com Cicero Augusto, por volta das 15h40, as transmissões recomeçam, rapidamente, às 16h50. Neste horário, com a rádio já operando junto à antena instalada na Ponta Grossa, Marne Barcelos anuncia, após rodar, bem ao gosto do público, O Show Já Terminou, com Roberto Carlos:

– Aqui está falando a Rádio Farroupilha. Vinte anos depois do primeiro incêndio que destruiu as nossas instalações, hoje, novamente, o fogo destruiu tudo o que tínhamos. Mas graças aos esforços que se somam de toda a cadeia Associada do Rio Grande do Sul estamos no ar mais uma vez, definitivamente, do seu lado. As nossas condições são as mais precárias. Estamos com um estúdio improvisado aqui no bairro Ponta Grossa onde teremos prazer em receber a sua visita. [...] Estamos no ar. Não é verdade que o show tenha terminado. Ele vai recomeçar, com o mesmo entusiasmo que o colocou em primeiro lugar.

A infraestrutura precária citada inclui, então, um toca-discos, um microfone e a coleção de elepês do próprio Marne Barcelos, tudo transportado às pressas para as instalações da emissora na Ponta Grossa. Menos de três dias depois, com equipamentos das rádios dos Associados no Rio de Janeiro – Tupi e Tamoio – e com um link de FM emprestado pela Continental, de Porto Alegre, são retomadas as atividades no morro Santa Teresa.

Da memória de Marne, não sairiam o cheiro de queimado, a decepção momentânea, logo deixada de lado... E o corre-corre a garantir, com sabor de vitória, aquelas palavras algo ousadas, algo emocionadas, ali naquele estúdio improvisado. Prova de que rádio se faz com garra e com ganas.


Marne Barcelos
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 17 de julho de 2003.


Cicero Augusto, da loteria esportiva à astrologia
2007
Luiz Artur Ferraretto

Programa Show da Loteria (outubro de 1974)
O comunicador Cicero Augusto conversa com a Miss Brasil 1974, Janete Hoeveler.
Fonte: Hoje, Porto Alegre, 1º nov. 1974. p. 28.

Hoje astrólogo de sucesso no centro do país, Cicero Augusto começa, nos anos 1970, a se destacar no rádio de Porto Alegre na onda de uma grande mania nacional. O programa Loteria de Sucessos é, na época, um dos carros-chefe da Farroupilha, que apresenta uma programação ainda eclética, mas já pendendo, majoritariamente, para o popular. Assim, em meados da década de 1970, passam pelo microfone da emissora, além de Cicero, profissionais como Aurélio Câmara, Dilamar Machado, Sayão Lobato, Teixeirinha e, até mesmo, o astrólogo Omar Cardoso, então famoso no rádio de São Paulo. Este último vai, no futuro, servir de inspiração para o então apresentador do Loteria de Sucessos.

Quando a programação começa a dar bons resultados, um curto-circuito provoca, no dia 12 de janeiro de 1974, um incêndio de grandes proporções nas instalações da rádio, ao lado do prédio da TV Piratini, no morro Santa Teresa. Todo o empenho dos funcionários em restabelecer a programação normal da emissora não vai resistir à decadência crescente dos Associados. O próprio Cicero Augusto, pouco depois, transfere-se para a Gaúcha, que arrisca pender para o rádio popular, nas indefinições próprias daqueles tempos.

A fórmula dos programas que conduz então é bem simples, misturando música com palpites sobre jogos de futebol. Na época, a loteria esportiva administrada pela Caixa Econômica Federal com base em 13 partidas faz milhares de pessoas em todo o país apostarem a cada semana. Inspirado em atrações semelhantes de emissoras do centro do país, o Loteria de Sucessos, das 14 às 17h, na estação dos Associados, coloca os ouvintes dando palpites para cada uma das partidas do concurso, ganhando prêmios os que acertam mais resultados. Além de músicas, há, também, entrevistas com personalidades que arriscam previsões sobre os jogos do final de semana. Ao se transferir para a Gaúcha em 1974, apresenta o Show da Loteria, de estilo idêntico e quase no mesmo horário, das 14 às 16h.

No entanto, na nova emissora, que não se define entre o jornalismo e o popular, Cicero Augusto vai enfrentar um sério problema, responsável pelo fracasso do programa. Conduzindo um programa líder de audiência na Farroupilha, de forte apelo junto à classe C, o comunicador, ao se transferir para a Gaúcha, é proibido de veicular músicas consideradas excessivamente populares pela gerência da rádio, o que reduz o público e leva à transferência do radialista para a Difusora.

Mas é na Farroupilha, mais tarde, que Cicero Augusto aproxima-se das coisas dos signos e dos astros:

– Foi por causa do Omar Cardoso. Ele esteve em Porto Alegre quase um mês fazendo o programa na Farroupilha. Eu fui apresentar junto com ele, porque não tinha quem apresentasse. E me interessei, foi me envolvendo. Um ano, um ano e meio depois, não tinha quem fizesse horóscopo. Nós inventamos um nome pra um astrólogo, que tinha que ter e começamos a fazer horóscopo a sério. Aí, quando eu saí da Farroupilha, passei eu mesmo a me identificar como autor das previsões, já na Rádio Caiçara.

Na mesma linha, o comunicador cria quadros ou programas como o Sexo do Bebê e a Magia dos Sonhos. Com o primeiro, em época pré-ecografia e outros avanços da tecnologia, chega a 60% da audiência do horário:

– Era um cálculo baseado no ciclo de fertilidade. O ciclo de ovulação da mulher ocorre sempre num período, que acompanha uma fase lunar. Tem uma série de pesquisas que eu fiz e achei um cálculo. Aperfeiçoei uma tabelinha e dá 97% de acerto.

Na mesma linha, algo esotérica, Cicero faz o Magia dos Sonhos, tipo de quadro também frequente no rádio popular. É o Sexo do Bebê, no entanto, que desperta o interesse da Rádio Mulher, primeiro prefixo do comunicador em São Paulo. Hoje, o astrólogo, além de continuar ao microfone, assina colunas em diversos jornais do país. Em todos, usa na forma de apresentar suas previsões a experiência de comunicador acumulada desde o final dos anos 1960, quando um desconhecido Cicero Augusto Holderbaum, aos 16 anos, iniciava sua carreira na Rádio Progresso, de Novo Hamburgo, no Vale do Rio dos Sinos.


Cicero Augusto
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 26 de maio de 2003.

Tia Eva, popular e verdadeira
2006
Luiz Artur Ferraretto

Tia Eva (julho de 1983)
Fonte: Microfone, Porto Alegre, jul. 1983. p. 1.

A bageense Maria Eva Tavares Vergara viveu duas encarnações radiofônicas. Como Tia Eva, ao microfone da Rádio Eldorado AM, de Otávio Gadret, alegrou manhãs e manhãs do povão na Grande Porto Alegre do final dos anos 1970 até o início da década de 1990. Para o seu público, ela foi uma companheira no dia a dia, em duras e mal remuneradas jornadas de trabalho. Quem ouvia as radionovelas de outros tempos talvez lembre de uma Maria Eva a fazer vozes caricatas, ora interpretando uma preta velha, ora assumindo o papel de uma cigana, mas sempre emprestando uma certa graça ao seu personagem.

Como de outros comunicadores do rádio popular, a maioria vítima de tremendo preconceito, pouco ou quase nada restou do trabalho de Tia Eva. Afinal, era criticada pelo linguajar, para alguns, chulo. E talvez fosse mesmo, mas o que importa?

Em meio às músicas gauchescas e sertanejas da Eldorado, Tia Eva conversava com o público do jeito dele. E era quase um sinônimo da estação pertencente à então Rede Rio-grandense de Emissoras, a atual Rede Pampa. Em entrevista a Marco Antônio Schuster, do jornal especializado Microfone, a radialista definiu, em 1983, o programa Show da Manhã, à época irradiado das 6 às 12h:

– O meu programa é o povão. É o carroceiro, é o lixeiro, é a mulher que limpa as ruas, é a empregada doméstica. É o pessoal sofrido, espremido contra a parede. É nele mesmo que eu quero chegar. É para ele que eu uso esta arma chamada microfone e que eu acho que foi Deus quem colocou aqui na minha mão para que eu possa levar aos meus irmãos de luta nesta vida apertada. Um pouco de fé e de esperança, inclusive para as crianças de manhã cedo, uma mensagem de otimismo, para que elas acordem, para que elas estudem, incentivando as crianças porque elas serão donas do mundo de amanhã.

Assim, Tia Eva incluía quadros voltados para crianças, promoções para os aniversariantes do dia e dedicatórias musicais. Nas quintas-feiras, Tia Eva organizava uma espécie de flerte radiofônico, chegando a registrar casamentos “de véu e grinalda” e com “todas as festas necessárias” entre os ouvintes, solitários, normalmente mais idosos, que acorriam, então, ao estúdio em busca de companhia. Já cada sexta-feira se transformava no Dia da Vovó, quando a comunicadora distribuía alimentos doados pelo público – “um pouquinho de cada coisa que eu não consigo dar um rancho completo”. Os ranchos virariam, com o tempo, uma espécie de tradição lá no morro do Alto Teresópolis, sede da Rede Pampa. Sem Tia Eva e mesmo sem programação popular em suas emissoras, o empresário Otávio Gadret iria bancar, durante anos, aquelas doações.

O misticismo também estava presente no trabalho de Tia Eva. Pendurado no microfone do estúdio da Rádio Eldorado, no final dos anos 1970 e na década de 1980, um rosário servia de marca registrada, junto com a garrafa térmica e a cuia de chimarrão. Em um pratinho, uma espécie de simpatia homenageava um de seus incentivadores: alguns grãos de milho, moedas e a fotografia do cantor regionalista Teixeirinha, com quem ela trabalhara após o fim do radioteatro impedir a continuidade da sua carreira como atriz. Mão estendida que permitiu a ela ir deixando de ser Maria Eva para ficar na memória daquela gente pobre, humilde e desamparada que, como a Tia Eva, não tinha porque se preocupar em ser ou não bagaceira. Precisava tocar mesmo cada manhã com um pouco de alegria, das piadas brejeiras e dos comentários de duplo sentido.

Tia Eva relembra os tempos de atriz radiofônica
Fonte: SPRITZER, Mirna; GRABAUSKA, Raquel. Bem lembrado: histórias do radioteatro em Porto Alegre. Porto Alegre: AGE, 2002. CD.
Marçal: esquerda engajada e rádio povão
2005
Luiz Artur Ferraretto


João Batista Marçal (anos 1970)
Fonte: Acervo particular de João Batista Marçal.

Na madrugada da Grande Porto Alegre, no final dos anos 1970, apresentando o Itaí, a Dona da Noite, João Batista Marçal declama o que denomina de “poesia rebelde” e toca músicas do chamado canto popular latino-americano. Aproveita, assim, o horário, da meia-noite às 5h, em que julga diminuída a atenção das autoridades policiais do regime militar, reforçando um discurso voltado às classes pobres e contrário ao governo. Do poema gauchesco Martín Fierro, do argentino José Hernández, incorpora a denúncia do conflito entre a simplicidade do trabalhador do campo e o mundo urbano carregado de injustiças. Da canção A Desalambrar, do uruguaio Daniel Viglietti, devidamente explicada ao ouvinte, faz um hino em defesa da reforma agrária, afirmando junto com os agricultores sem-terra:

Yo pregunto a los presentes si no se han puesto a pensar que esta tierra es de nosotros y no del que tenga más.

Dos versos de España en el Corazón, do chileno Pablo Neruda, enfatiza “por las calles la sangre de los niños”, descrevendo uma cidade acossada e transformando a Guerra Civil Espanhola, do general Francisco Franco, no golpe de 1964, dos generais Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo... Quando o aparato repressivo se dá conta do que ocorre, a Itaí, na época com os estúdios funcionando junto aos transmissores na cidade de Guaíba, ao lado da capital gaúcha, amanhece cercada por um pelotão do Exército.

Não vai ser a primeira nem a última vez em que vai ser caçada a palavra a Marçal, “índio de Quaraí, na fronteira com o Uruguai”, na sua própria definição, cheio dos “tchês” e “bahs” do linguajar gaudério. Na Rádio Metrópole, em Canoas, também do ladinho de Porto Alegre, apresentando o Jornal de Integração Comunitária, numa situação semelhante, vê pela janela do estúdio a chegada da Polícia Federal. Voltando ao microfone, descreve a situação:

– Olha, daqui eu tô vendo os camburões da Polícia Federal. A Polícia Federal tá chegando aqui na rádio. Tão entrando aqui na rádio. Isso aí vai dá bode. Atenção, pessoal! Olha aí... Não tenham dúvida, eu tô sendo preso. É isso aí. Eu tô sendo preso e peço aos meus companheiros de Porto Alegre que não me abandonem nesta hora. Atenção, ouvintes! Eu tô entrando em cana. Olha, daqui eu tô vendo os camburões da Polícia Federal. Atenção, Porto Alegre! Atenção, meu sindicato!

O apelo dá resultados e, quando Marçal desce do camburão em frente ao prédio da Polícia Federal, na avenida Paraná, Zona Norte da capital, representantes do Sindicato dos Jornalistas, do Sindicato dos Radialistas e da Associação Rio-grandense de Imprensa, além de políticos do MDB, já lhe dão respaldo, garantido que seja liberado logo em seguida. Motivando a ação repressora, o comunicador é, então, uma voz destoante na ordem unida imposta pelos militares aos meios de comunicação. Em meio às proibições de passeatas estudantis e sindicais durante a ditadura, o jornalista relaciona este tipo de limitação imposta pelo governo a uma série de fatos do noticiário da época. Alude, assim, a manifestações contra a legislação permitindo o divórcio e à cassação, por aqueles dias, do deputado federal do MDB mineiro, Marcos Tito, que, sem citar a fonte, reproduzira na tribuna da Câmara Federal um discurso do líder comunista Luiz Carlos Prestes:

– O Serviço de Meteorologia informa que a temperatura está altíssima em Brasília... [gargalhada] Outra coisa, vocês viram as passeatas dos padres contra o divórcio? Ah, quer dizer que padre pode e estudante não pode? Não estou comentando – notem –, estou só registrando [mais risadas]. Mas o pior foi a foto do Correio do Povo com aquelas velhinhas, que eram uma ruga só, levantando bandeirinhas contra o divórcio. Barbaridade! Também, velhas daquele jeito, com o pé na cova, só poderiam ser contra o divórcio mesmo. Vocês me racham a cara de vergonha!

Contratado para o horário das 6h ao meio-dia pela Rádio Capital, então recém instalada em Porto Alegre, não chega a ficar 30 minutos no ar. Inicia conversando com os ouvintes, toca algumas músicas, folheia os jornais e lê o horóscopo. O arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder Câmara, é, então, conforme os comunicados do Departamento de Censura Federal, um nome proibido no rádio. Controlando-se, não faz comentários sobre nada, mas lê uma pequena nota publicada nos jornais sobre uma conferência de dom Hélder em Estocolmo para 20 mil pessoas. Está no ar há exatos 18 minutos. A porta do estúdio se abre e entra esbaforido o diretor:

– O senhor pode sair! Está despedido!

Já na rua pergunta ao sujeito a razão de estar sendo mandado embora.

– É ordem do III Exército e do Dentel. Ou o senhor vai ou eles vêm aqui e fecham a rádio.

Sob a mira constante da repressão estatal durante a ditadura militar, Marçal acumula 27 processos, com quatro enquadramentos na Lei de Segurança Nacional. No rádio popular, onde comumente impera um discurso alienado e alienante, o radialista faz do microfone uma arma:

– O jornalista brasileiro está muito perto da elite e muito longe do povo. Então, aqui no meu cantinho de província, eu rompi com isto. Eu estou muito longe da elite e muito perto do meu povo. Isto me faz feliz. Disto, eu me orgulho, o carinho do homem simples da rua, da mulher da rua, dum mendigo, dum vendedor ambulante, duma prostituta, duma nega velha, dum louquinho... Chegam e me abraçam como se eu fosse um deles. Eu sou um deles na rua. Isso me encanta, porque eu fiz da minha profissão, seguramente, além de uma arma de combate, uma forma de dizer: “Tchê, nós somos iguais”.

De um segmento ao qual se atribuem, nos bancos universitários, tantas críticas como o rádio popular, João Batista Marçal deu, assim, lições de jornalismo enfrentando a censura e a repressão.

Marçal – Polícia, povão... e revolução (2005)
Reportagem: Marcus Reis e Giliane Greff.
Imagens e edição: Daniel Fernandes.
Realização: Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.

Fonte: Acervo particular.
Edy Amorim, um apaixonado pelo rádio
2023
Luiz Artur Ferraretto

Edy Amorim (anos 1990)
Fonte: Acervo de Leonel de Souza.

Ele adorava tanto Porto Alegre, que costumava brincar. Dizia que, quando morresse, iria convidar o poeta Mário Quintana para juntos passearem pela Rua da Praia e pela Praça da Alfândega. O amor pela capital não era maior do que o pela sua cidade natal, São José do Norte. A suplantar quereres pelas cidades onde viveu e onde nasceu só mesmo a sua adoração pelo rádio e o seu respeito pelo público. Edy Rosário de Oliveira Amorim fez tanto sucesso no rádio popular de Porto Alegre que chegou a receber um convite para se transferir para a Super Rádio Tupi, do Rio de Janeiro. Não foi. A família pesou na decisão, o que também diz muito a seu respeito.

Quando eu cursava o então Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fiz muitas entrevistas e pesquisei em jornais e documentos. Localizei o que pude para tentar contar a história do rádio deste canto do país. O resultado: a dissertação de mestrado Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras comerciais e a tese de doutorado Rádio e capitalismo no Rio Grande do Sul: as emissoras comerciais e suas estratégias de programação na segunda metade do século 20, publicadas na forma de livro, respectivamente, em 2002 e 2007. Durante a produção dessas obras, ouvi várias referências a Edy Amorim como um dos principais radialistas populares do Rio Grande do Sul. Infelizmente, não consegui localizá-lo. Trata-se de uma lacuna que tento, agora, preencher.

Sei que parte da história do rádio sobrevive na memória dos ouvintes. E, infelizmente, por falta de registro pode desaparecer junto com o seu público. Do rádio popular gaúcho dos anos 1960 e 1970, sobraram poucos áudios. Neste ano de 2023, por meio de Maria de Fátima Amorim, filha de Edy, recebi informações e, mais do que tudo, um pequeno tesouro: trechos de programas do pai dela na Rádio Minuano, de Rio Grande. Pois esta, então, é uma parte da história do radialista.
Edy Rosário de Oliveira Amorim nasceu em São José do Norte, no dia 21 de setembro de 1938. Coincidentemente a data seria consagrada, durante décadas, como a do Dia do Radialista. Oriundo de família humilde, começou a trabalhar muito cedo. Foi carroceiro e, depois, porteiro do Cine Teatro Independência, na sua cidade natal. Aos 16 anos, com o estímulo e a ajuda do seu irmão mais velho, que o observava brincando de rádio, começou a trabalhar em um sistema de alto-falantes.
Em 1958, foi servir ao exército em Pelotas. Num dia de folga, resolveu ir até a Rádio Tupanci para fazer um teste. Foi aprovado, mas o diretor achou melhor que Edy terminasse o período de quartel para depois assumir um programa na emissora. A experiência serviu para deixá-lo com a autoestima elevada. Retornando para São José do Norte, logo em seguida, foi contratado pela Rádio Minuano, de Rio Grande. 
Edy ficou pouco tempo na emissora. O prefeito de São José do Norte, Dario Futuro, do Partido Trabalhista Brasileiro, providenciou a sua ida para Porto Alegre com uma carta de apresentação para a Rádio Itaí. Na emissora, o radialista fica 15 anos, trabalhando em programas como Turfe e Boa Música e, em especial, Café da Tarde, um dos mais ouvidos daquele período. Nos anos 1970 e 1980, passa pelas rádios Gaúcha, Farroupilha e Capital. Em 1983, chega a apresentar o Gaúcha na Madrugada. No ano seguinte, na Farroupilha, comanda o programa A Noite é Nossa. Muito ligado à cultura gaúcha, faz, na Rádio Capital, o Capital CTG, programa que contava, semanalmente, com a participação de Paixão Côrtes. Era amigo de outro grande tradicionalista, o cantor e compositor Leonardo, autor de Ceú, Sol, Sul, Terra e Cor, um dos hinos da música gaudéria. Orgulhava-se de ter recebido, pelo seu talento como declamador, um troféu das mãos do poeta Mario Quintana. Uma amostra desse talento aparece no chorinho Lua Cheia, de Nadir do Cavaquinho, que evoca a cidade do Rio Grande.
Lua Cheia, de Nadir do Cavaquinho
Composição de Everton Luís e Nadir do Cavaquinho.
Edy Amorim faz a parte declamada.
Fonte: Acervo da família Amorim.
A última rádio em que trabalhou foi exatamente a em que começou a sua carreira, a Minuano, de Rio Grande, onde apresentou os programas As Eternas Sucesso Absoluto, com flashbacks, e Minuano na Madrugada, com a participação de ouvintes.
Edy Amorim no Minuano na Madrugada
O radialista conversa com Marlene Correa e Marcelo Conde,
ouvintes frequentes do programa.
Fonte: Acervo da família Amorim.
Morador de Porto Alegre por 30 anos, Edy Amorim recebeu o título de cidadão da cidade. Além de radialista era formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Viúvo, tinha sete filhos, nove netos e três bisnetos, quando faleceu, em 17 de abril de 2012. 

Fernando Westphalen e a Continental, pioneira em rádio jovem
2010
Luiz Artur Ferraretto

Fernando Westphalen (anos 1970)
Fonte: HAESER, Lucio. Continental – A rádio rebelde de Roberto Marinho. Florianópolis: Insular, 2007. p. 25.

Não sei se o relógio do Edifício Chaves Barcelos, espécie de Big Ben do Centro de Porto Alegre, funcionava sempre ou era meio que intermitente. Sei, no entanto, que muita gente, ao cruzar a Rua da Praia, olhava ainda para cima, algo admirado pelo tamanho de alguns edifícios, e dava, vez ou outra, de cara com o relógio lá nas alturas. O mar de gente percorria assim a Andradas, sem areia ou oceano, a Rua da Praia sem praia, como numa velha canção da década anterior, ainda ecoando pelo centro da cidade naquele início de anos 1970. Lá dentro, em um canto do edifício, um grupo de radialistas reunidos em torno do publicitário Fernando Westphalen começava a fazer uma rádio nos 1.120 kHz do dial em um ritmo bem menos previsível do que aquele lá de fora, do tic-tac do relógio e dos passos da multidão. Ah, por falar em passos, acrescente-se que o país vivia mesmo em ritmo de marcha, de marcha militar, por força do golpe que impunha, desde 1964, uma ditadura em todo o território nacional.

Curioso que logo ali, no quinto andar do edifício, numa emissora de rádio pertencente ao empresário Roberto Marinho, aliado de primeira hora do grupo de verde-oliva, sairiam sons no ritmo da juventude e – horror dos horrores nas escutas da Polícia Federal – de crítica ao regime. Da rádio de poucos ouvintes, surgia a “superquente Con-TI-nen-tal” uma das formas usadas por um de seus comunicadores, assim mesmo com as sílabas separadas e um improvável TI tônico.

Ex-funcionário da MPM Propaganda, Fernando Westphalen sabia da existência de um nicho não explorado pelo rádio da época: o dos jovens de classe média ou alta, secundaristas, vestibulandos ou universitários. A Globo, por sua vez, mantinha no Rio de Janeiro a Mundial, emissora em que se destacava um ensandecido Big Boy, o radialista Newton Duarte, de fato, o primeiro disc-jóquei jovem do rádio brasileiro.

– A Mundial tinha, naquela época, uma belíssima audiência entre o público jovem, mas se preocupava com o Ibope muito mais do que a gente pretendia. Nós, então, mudamos tudo na época, todo o linguajar do rádio. O rádio era impessoal. O locutor falava com todo o respeito para a família. Era o prezado ouvinte. Era o senhor ouvinte. Ora, depois do advento do transistor e da TV, o rádio sumiu da sala de visitas. Passou a acompanhar os jovens, o que, no meu caso, era o que interessava. Os jovens estudavam com o rádio ligado. A linguagem não podia ser aquela. Começamos até a pesquisar gírias que eles usavam e, mesmo, inventar: marca diabo, magrinho... Por exemplo: “Na Continental, marca diabo não entra”. Ninguém sabia o que era. Então, nós começamos a definir: “Marca diabo é tudo que for cafona”. Aí, uma das frases que nós usávamos era: “A Continental não toca Roberto Carlos”.

Esta rádio que não toca as canções do rei nem de outros astros da Jovem Guarda vai operar em uma Porto Alegre onde ainda ecoam as guitarras de Woodstock e as últimas novidades internacionais chegam, por vezes, trazidas por algum amigo fronteiriço: o título das músicas traduzido para o espanhol, apesar da gravação original em inglês, bem ao estilo da indústria fonográfica argentina da época. Sem as facilidades dos tempos da internet, a direção da emissora faz malabarismos para manter uma proposta diferenciada, indo além do simples atingir fácil o gosto do ouvinte. A programação baseia-se em 50% de músicas brasileiras e 50% de sucessos internacionais, estes últimos adquiridos, não raro, no exterior por Aldo Caye, um piloto da Viação Aérea Rio-grandense (Varig), que, nas transmissões da Continental, ganha o nome de Agente 1.120. O subterfúgio garante um poderoso elo de identificação com os pontos de encontro do público da rádio: as canções trazidas, diretamente, de centros como Nova Iorque e Londres são as mesmas que tocam nas boates da moda como Whisky a Go-Go e Encouraçado Butikin. Reforçando a certeza nas escolhas musicais, a Continental assina as revistas estadunidenses Billboard e Cashbox. De acordo com Fernando Westphalen, a escolha das músicas baseia-se, então, em uma espécie de pedágio cultural:

– A gente dizia que a música brasileira era o pedágio que eles tinham de pagar para ouvir o resto. Na música brasileira, não fazíamos concessão de qualquer espécie. Aquele disco Clube da Esquina, do Milton Nascimento, nós estragamos dois elepês de tanto tocar. Tocávamos Edu Lobo, Paulinho da Viola...

Há, ainda, uma incoerência óbvia entre o discurso local e a prática nacional do Sistema Globo de Rádio ou Rede Globo de Radiodifusão, denominações que se confundem na época. Segundo Fernando Westphalen, a distância entre a sede no Rio de Janeiro e a Continental em Porto Alegre facilita um pouco. E, afinal, a direção da rádio havia recebido carta branca nas negociações iniciais. Para Westphalen, no entanto, os funcionários da emissora tinham bem clara a sua ideologia:

– Nós, sem dúvida, éramos de esquerda, mas a nossa justificativa de marketing era perfeita. O nosso público era de esquerda, embora não soubesse. O nosso público não tolerava o regime. Convivia, mas não aprovava. Este público precisava receber alguma coisa de rebeldia, alguma coisa com que ele se identificasse.

A rádio vai ser vítima da censura com suas transmissões sendo suspensas e seus funcionários, detidos ou chamados para dar explicações às autoridades do regime. No entanto, provando a viabilidade do rádio voltado ao segmento jovem, a Continental gera, ainda, as bases para que o seu modelo seja copiado por outras emissoras na capital gaúcha, como a Pampa e a Porto Alegre. Não sobreviverá, no entanto, à chegada das FMs. Hoje, em um rádio jovem com excesso de músicas repetidas, falta geral de criatividade e ameaçado pelos downloads de canções na internet, fazem muita falta a inteligência e o jeito irreverente da emissora dos 1.120 kHz, aquela de quatro décadas atrás, a marcar na memória bordões:

– Na Porto Alegre das menininhas do Colégio Bom Conselho, duas e 10. Continental, ZYH-223, 1.120 kHz...

Anúncio da Rádio Continental (1976)
Fonte: Risco, Porto Alegre, 1976. p. 11.


Vinheta da Rádio Continental (anos 1970)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.







Programa Radiovisão sobre a Rádio Continental (28 de novembro de 1992)
A produção do programa da TVE, de Porto Alegre, reúne a equipe da Rádio Continental.
Fonte: Acervo particular de Lúcio Haeser.
Exemplos do “Som nosso de cada dia”
2014
Luiz Artur Ferraretto

A turma jovem da cidade. Na Galeria Moinhos de Vento, “butiques cheias de bossa” e “lanchonetes com mil sanduíches diferentes” para “uma patota descontraída e muito ligada nas cores e na música pop”. O “espetáculo inesquecível para quem curte a natureza” do pôr do sol no Guaíba, ainda considerado rio e bem menos poluído do que hoje. Na noite, uma esticada na boate Whisky a Go-Go, aquela “que tem o melhor som da cidade” e, nas calçadas da avenida Independência, a turma “em clima de festa, com suas motos envenenadas e roupas coloridas”. O quente são os bares da praia de Ipanema, em especial o Bonde e o Bologna. A “rua mais curtida” é a da Praia, “ponto de encontro dos magrinhos, sinônimo gaúcho de bicho”. Assim, a revista Geração Pop, uma espécie – do ponto de vista da mídia – de porta-voz impresso da juventude brasileira, define Porto Alegre para o resto do país em maio de 1974. Se o tom da Pop, como a “turma” ou a “patota” apelida a revista, inclina-se para uma certa euforia consumista no ritmo do Milagre Econômico Brasileiro, o do Brasil grande, que só existe nas estatísticas oficiais, o mesmo não acontece com a programação da Continental, destoando, inclusive, do notório alinhamento da sua matriz – as Organizações Globo – ao governo militar. Portanto, é muito difícil reproduzir o impacto da 1.120 junto ao seu público.

Esta perspectiva fica clara nestas mensagens de fim de ano veiculadas em dezembro de 1976 e janeiro de 1977, provando que os tempos não são para sorrisos fáceis e permanentes:

Spot de final de ano da Rádio Continental(1976)
Transcrito do áudio original.
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.


Spot de final de ano da Rádio Continental (1976)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.


Spot de Natal da Rádio Continental e do Saco & Cuecão (1976)
Transcrito do áudio original.
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.


Spot de Natal da Rádio Continental e do Saco & Cuecão (1976)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.


Bom, depois de ouvir estes dois áudios de primeiríssima qualidade, para chegar ainda mais perto da sensação dos ouvintes da época, você pode ouvir web rádio-homenagem montada pelo jornalista Lucio Haeser, também autor do livro Continental – A rádio rebelde de Roberto Marinho, publicado em 2007 pela Insular, de Florianópolis, que vem com um CD com documentos sonoros da 1.120. Basta clicar aqui em baixo (imagem):

http://www.continental1120.org/
Clóvis Dias Costa e o Ritmo 20
2014
Luiz Artur Ferraretto

No dia 18 de setembro de 1969, o Ritmo 20, com Clóvis Dias Costa, estreia na Continental. Antes, no auge da Jovem Guarda, o comunicador conduz o Discoteca de Brotos no início das tardes da Rádio Porto Alegre, então sob controle das Emissoras Reunidas, da família Ballvé. Quando o radialista transfere-se para a estação das Organizações Globo, a programação é, ainda, eclética, procurando atingir um público genérico, como Clóvis Dias Costa explicou a Ângela Pinto e Denise Sueressig em 2001, numa entrevista para o Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul:

– A Continental, como todas as emissoras de rádio da época, seguia uma espécie de um padrão conservador, do tipo tangos, boleros, Nelson Ned, Moacyr Franco, Roberto Carlos, e olhe lá... E eu cheguei com uma proposta de vanguarda. Eu queria tocar Donovan, Janis Joplin, Caetano, Maria Bethânia... E é claro que foi um rebuliço. Foi um impacto na programação da Rádio Continental.

De fato, o programa é o precursor do que seria, no futuro, a emissora, voltando-se ao jovem. Assim, quando Fernando Westphalen chega, o Ritmo 20 mantém-se na programação. Contrariando a ideia difundida em tom de gozação pela Continental, mas levado muito a sério pelos programadores musicais, de que a 1.120 era a rádio “que não tocava Roberto Carlos”, Clóvis Dias Costa segue tocando as canções do rei, dos tempos da Jovem Guarda e até mesmo as da nova fase em que o mais popular cantor brasileiro estava ingressando. O cantor chegaria a gravar uma vinheta para o Ritmo 20, aliás como outros artistas e personalidades da música, da TV e até da literatura brasileiras: Chacrinha, Chico Anysio, Elis Regina e Sandra Bréa. Nem o principal poeta do Rio Grande do Sul, Mario Quintana, ficaria de fora. Nos anos 1980, com o comunicador já integrado às emissoras em frequência modulada, entrariam os integrantes das bandas Camisa de Vênus e Titãs. Na época, Clóvis Dias Costa já se dividia entre a Universal FM e a TV Pampa. Realizava, ainda, a festa Top Jovem, criada nos tempos da Continental, mas que ganhava força com a televisão e reunia milhares de jovens em clubes de várias cidades do estado. Mais tarde, na TV Guaíba, apresenta o Tele Ritmo.

Uma característica central seria mantida pelo comunicador ao longo do tempo, como destacou na entrevista ao Vozes do Rádio:

– No meu programa, muita coisa não foi alterada, porque eu sempre tive um estilo de comunicação meio conservador, eu nunca fui um cara estereotipado. Nunca usei pseudônimo, eu sempre fui eu. Nunca tive apelido, até porque eu acho que isso não permanece. Ao menos, a mim, não agrada, não faz meu estilo. Porque os personagens são passageiros, e os nomes próprios tendem a permanecer. A televisão norte-americana, por exemplo, é o segmento mais conservador do mundo. E quem faz telejornalismo nos EUA são locutores tradicionais, com no mínimo 50 anos de idade. Na Grã-Bretanha e na Europa, é a mesma coisa. O Ritmo 20, por exemplo, nasceu inspirado em um programa levado ao ar na Rádio BBC de Londres, o Ritmo 69, apresentado pelo Miguel Carlos, que fazia um programa jovem, mas era um cara que tinha uns 40, 50 anos, e deu muito certo. O Ritmo 20, assim como todos os meus programas, teve um estilo não conservador, mas discreto.

Clóvis Dias Costa segue na ativa, apresentando o programa Sintonia Fina, no canal 20 da Net em Porto Alegre.


Vinheta do programa Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.


Vinheta gravada por Chacrinha para o Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada por Chico Anysio para o Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada por Elis Regina para o Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada por Roberto Carlos para o Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada por Sandra Bréa para o Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada por Mario Quintana para o Ritmo 20 (anos 1970)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada por Marcelo Nova e Karl Hummel, do Camisa de Vênus, para o Ritmo 20 (anos 1980)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).


Vinheta gravada pelos Titãs para o Ritmo 20 (anos 1980)
Fonte: Projeto Vozes do Rádio (PUC/RS).
Cascalho, o da magrinhagem
2006
Luiz Artur Ferraretto


Baile dos Magrinhos (meados dos anos 70)
Em primeiro plano, o comunicador Cascalho anima a festa criada a partir do seu programa na Rádio Continental.
Fonte: Press, Porto Alegre: Press & Advertising, ano 2, n. 17, p. 29, 2002.

– Seis da tarde! Aqui, Bier Boy! Aqui na Continental, Bier Show! Creedence Clearwater Revival, Greeeeeennnn River…

Às 18h daquele 4 de maio de 1970, a voz quase gritada e em ritmo de metralhadora estreia ao microfone da Continental AM, nos 1.120 kHz de Porto Alegre. O ex-estagiário do Departamento de Esportes da Gaúcha, Antonio Carlos Contursi, ainda não é o Cascalho do apelido dos tempos de guri, mas começa a marcar os finais de tarde da capital do Rio Grande do Sul como uma espécie de garoto-propaganda das Lojas Bier, rede de moda jovem interessada em ampliar a sua presença junto a clientes em potencial: os jovens de classe média. Contursi é, então, um ouvinte assíduo do horário da meia-noite da Gaúcha, o de Glênio Reis agitando madrugadas com o seu Programa da Pesada, “onde a mediocridade não tem vez”. E vai aprendendo ouvindo Led Zeppelin, Steppenwolf ou Jimi Hendrix. Fora isto, quando consegue, escuta as transmissões da Rádio El Mundo, de Buenos Aires, captadas à noite em Porto Alegre e repletas de novidades do rock e do pop internacional. Mas bom mesmo é o disc-jóquei Big Boy, que, em 1967, havia estourado na Mundial, do Rio de Janeiro, ao lançar com exclusividade o elepê Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, do grupo The Beatles.

Três anos depois daquela tarde de maio, a substituição das Lojas Bier pelo refrigerante Pepsi-Cola como patrocinador obriga Contursi a adotar o apelido em um programa idêntico, mas também com nova denominação, que entra no ar, por coincidência, em um 4 de maio. Assim, vai desenvolvendo um estilo próprio, difunde expressões e extrapola o âmbito do próprio rádio:

– Alô, magrinhagem, seis da tarde, aqui Continental, Cascalho Time no ar. Production by Antônio Carlos Contursi, o Cascalho, o cara do Baile dos Magrinhos. Cascalho Time começa hoje com Carol Williams, More...

Neste trecho de um programa do ano de 1976, Contursi já faz referência às gírias “magrinhagem” e “magrinhos”, popularizadas por ele como um rótulo da juventude da primeira metade da década. Fora isto, cita as festas que, desde setembro de 1973, promove na área de abrangência das transmissões da Rádio Continental. Com Cascalho participando de programas de televisão, além de assinar a parada de sucessos de Porto Alegre na revista Geração Pop, da Editora Abril, o Baile dos Magrinhos chega a ser realizado em cidades distantes não atingidas pelo sinal da emissora dos 1.120 kHz, como Uruguaiana, onde reúne três mil pessoas, o maior público destas promoções, registrado também na Sociedade Amigos de Capão da Canoa, no Litoral Norte, e no Sava Clube, em Porto Alegre.

Toda esta popularidade vai garantir a Contursi a contratação, tempos depois, para participar da primeira experiência de rádio jovem em frequência modulada, a da Cultura Pop FM, de Lorenzo Gabellini. Faltariam, no entanto, os recursos financeiros necessários para levar em frente o negócio, que acaba sendo repassado ao grupo do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, dando origem à Cidade FM, de Porto Alegre. Na década de 1980, Cascalho chega a se tornar dono de uma outra estação, a Sucesso AM, abandonando, mais tarde, o rádio jovem.

Vinheta Bier Show (início dos anos 1970)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.

Vinheta Cascalho Time (anos 1970)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.
As várias caras de Júlio Fürst
2005
Luiz Artur Ferraretto

Noite de 13 de agosto de 1975, há três décadas, na avenida Benjamin Constant, para os lados do bairro Floresta, em Porto Alegre. Falta pouco para o show começar e as dependências do Cine-teatro Presidente estão lotadas. Não resta sequer um dos 1.150 lugares na plateia e o público ocupa, inclusive, os corredores entre os blocos de cadeiras. Quem vai se apresentar não é nenhuma estrela da música brasileira ou internacional, até porque nestes tempos a capital gaúcha está completamente fora do circuito de atrações pop da indústria fonográfica. São cantores e grupos locais que atraem a atenção de centenas de jovens para o primeiro Vivendo a Vida de Lee. A repercussão surpreende até mesmo o patrocinador do evento, a indústria gaúcha A. J. Renner & Cia., fabricante no Brasil dos produtos da estadunidense H. D. Lee Company.

Convite para o Concerto n. 1 – Vivendo a Vida de Lee (1975)
Fonte: Acervo particular de Julio Fürst.

Desde 1º de abril, a Rádio Continental mantém um programa, de segunda a sexta-feira, das 23h à meia-noite, para valorizar a marca. Já na abertura, o estúdio transforma-se em uma espécie de saloon hertziano. Ao ritmo marcante de um banjo do jingle Living the Live of Lee, efeitos sonoros do tropel de cavalos e tiros de Colt 45 indicam a chegada de um tresloucado cowboy de boca-torta direto das pradarias do Kansas, terra da Lee. Quem anuncia, com a voz pausada a destacar o nome do disc-jóquei, é o locutor Marcus Aurélio Wesendonk:

– Com vocês, o enviado da H. D. Lee Company, Misteeerrr Lee.

– Yahoo! Yahoo! Olereiii, olereiiiiiii! Respire fundo, xará! O cowboy da Lee chegou... cheio de som e comunicação nos cartuchos. Lee, a marca registrada na totalmente transistorizada! Mister Lee, o disc-jóquei batizado pela H. D. Lee Company, trazendo um mundo novo, todo azul para você!

Abertura do programa Mister Lee in Concert (anos 1970)
Material de divulgação preparado pela MPM Propaganda.
Fonte: Acervo particular de Marcus Vinícius Wesendonk.

É a segunda encarnação radiofônica do disc-jóquei Júlio Fürst, que, antes, na Pampa e também na própria Continental, vivia o negão Julius Brown, improvável cruza dele mesmo – descendente de alemães – com o astro da soul music James Brown. Com a voz forçando rouquidão em uma fala cheia de expressões em um inglês de correta pronúncia e até um francês “meio de gozação”, mas sempre com um forte sotaque a imitar moradores de guetos negros dos Estados Unidos, está no ar Julius Brown, primeiro, com o Som Power, programa que se transforma no Supersoul, quando o comunicador transfere-se, no ano seguinte, para a 1.120. Uma vinheta anuncia, então, o único espaço dedicado à black music no rádio de Porto Alegre:

– [cantada em ritmo de soul music] Olha, que já são dez da noite./ Julius Brown vai começar./ O som é uma viagem,/ pra toda a magrinhagem./ Mister Julius Brown está no ar!

Após a última frase cantada, entra o disc-jóquei em cima, sem dar espaço, falando rápido, marcando alguns erres, salientando sílabas tônicas e incursionando por estrangeirismos de um e de outro lado do oceano Atlântico:

– Pela superquente Con-TI-nental, comunicação tropical, Julius Brown e as magníficas do soul of America. Nos transistorizados da superquente com Superrrrrsoul in the night, mou’sier Anele e Augusto Almeida. Supervisão técnica: Berrrtoldo Lauer Filho. Real good people é o primeiro embalo de Julius Brown com as magníficas do soul of America, the FAN-tastic, great, –Wow! – Gloria Gaynor...

Abertura do programa Supersoul (anos 1970)
Fonte: Acervo particular de Francisco Anele Filho.

Sempre neste estilo e explorando a imaginação do ouvinte, a força do personagem cresce tanto que, em agosto de 1974, Julius Brown protagoniza a primeira festa de black music do Rio Grande do Sul na Sociedade Beneficente Floresta Aurora, associação tradicional da comunidade negra de Porto Alegre. A promoção quebra preconceitos em um estado de racismo latente e, por vezes, explícito, chegando a chamar a atenção, inclusive, da imprensa jovem do centro do país, recebendo cobertura da revista Geração Pop.

Festa na Sociedade Beneficente Floresta Aurora (agosto de 1974)
Ao centro, Julio Fürst encarna o expert em black music Julius Brown.
Fonte: Acervo particular de Julio Fürst.

Mas voltemos ao Mister Lee. A transformação em garoto-propaganda gera, no entanto, um efeito ainda mais imprevisto. Quando o programa Mister Lee in Concert estreia, a ideia é marcar, com muita country music, a autenticidade das roupas produzidas no Rio Grande do Sul em meio à avalanche de produtos falsificados.

Convidado para integrar o júri do IV Musipuc – Festival Universitário de Música Popular Brasileira, promovido pelo Centro Acadêmico São Tomás de Aquino da PUCRS, Julio Fürst entra em contato com cantores, compositores e grupos como Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson, Gilberto Travi e Cálculo IV, Status 4, Inconsciente Coletivo... Na época, a Continental já roda a música Vento Negro, dos Almôndegas, gravada em fita rolo no estúdio auxiliar da emissora e lançada no programa Opinião Jovem, apresentado das 7 às 7h57, pelos professores do curso pré-vestibular IPV Clóvis Duarte e José Fogaça, este último também autor da canção. Fürst convence o patrocinador a permitir a abertura de uma janela dentro do Mister Lee in Concert para os vencedores do Musipuc. As gravações realizadas na própria rádio passam, em seguida, a pedido dos ouvintes, a ser executadas também em outros horários. É a repercussão destes registros quase artesanais que garante a realização do Concerto n. 1 – Vivendo a Vida de Lee. Até 1978, quando é suspenso o patrocínio, diversos shows acontecem, na capital e no interior, chegando mesmo a ultrapassar as fronteiras do estado.

Ainda em 1975, incluindo músicos paranaenses, o Mister Lee in Concert começa a ser transmitido pela Rádio Iguaçu, de Curitiba, com Julio Fürst gravando, na capital gaúcha, abertura, anúncio e desanúncio das canções e encerramento. O comunicador organiza, então, um grande espetáculo no Ginásio Palácio de Cristal, do Círculo Militar do Paraná, onde 6.500 pessoas assistem o que é chamado pela imprensa de Novo Movimento Musical do Sul. De Porto Alegre, viajam 73 músicos em três ônibus fretados por Fürst, já convertido em empresário de alguns destes artistas. Na época, o grupo Almôndegas já havia lançado dois discos, colocando Canção da Meia-noite, de Zé Flávio, na trilha sonora da novela Saramandaia, da Rede Globo. O mesmo ocorre com Hermes Aquino, que aparece com Nuvem Passageira, de sua autoria, em O Casarão, outro sucesso da teledramaturgia brasileira.

Zé Flávio e Mantra cantam Canção da Meia-noite no Vivendo a Vida de Lee (segunda metade dos anos 1970)
Fonte: Não identificada.

Hermes Aquino canta Nuvem Passageira (segunda metade dos anos 1970)
Fonte: HAESER, Lucio. Continental – A rádio rebelde de Roberto Marinho. Florianópolis: Insular, 2007. CD.

Importantes não só por projetarem artistas de sucesso nacional como Almôndegas ou Hermes Aquino, o Mister Lee in Concert e o Vivendo a Vida de Lee chamam a atenção, também, pela abrangência. Já sem os trejeitos de cowboy e transformado, portanto, no mais importante divulgador da música urbana da Região Sul, Fürst abre espaço, assim, para uma variedade de ritmos: folk (Halai Halai, Inconsciente Coletivo...), MPB gaúcha (Fernando Ribeiro, Status 4...), rock gaudério (Bizarro, Bobo da Corte, Mantra...) e rock pesado (Palpos de Aranha), além de outros sons, de difícil enquadramento, como Nelson Coelho de Castro, transitando pelo samba e pela MPB, ou o Utopia, de Bebeto Alves, com seu instrumental de violinos e violas.

Em 1978, com o fim do contrato publicitário, o Mister Lee in Concert sai do ar e ocorrem os últimos shows do Vivendo a Vida de Lee. Aqueles três anos com dezenas de programas de rádio e apresentações ficam, mesmo assim, como um importante momento de redefinição da música urbana do Rio Grande do Sul.