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Anos 2000
O rádio do Rio Grande do Sul chega ao século 21, apostando na convergência e enfrentando os desafios colocados por um ambiente comunicacional cada vez mais conectado. Com o download de canções tornando-se prática comum, o segmento jovem perde espaço. Logo, começa a se dar conta da necessidade de apostar mais na conversa e menos na música. O jornalismo, apesar do alto custo, firma-se como algo urgente e o serviço ganha força. Marcado pelo carisma dos seus comunicadores, o rádio popular aproveita a ascensão da classe C ao consumo. Em todo segmento e em cada formato de programação, o meio convive com a internet e a utiliza – mesmo que alguns relutem em se convencer disto – para se expandir, englobando textos escritos, infográficos, fotografias e vídeos ao cotidiano dos profissionais e do público. Desta maneira, ao longo da primeira década do século, o rádio aproveita, usa as redes sociais como se estas sempre tivessem feito parte do dia a dia das emissoras.
A Band é a primeira a duplicar a transmissão para a frequência modulada
2018
Luiz Artur Ferraretto


Em março de 2000, a programação jornalística veiculada pela Bandeirantes nos 640 kHz de sua emissora em AM passou a ocupar também os 99,3 MHz da faixa de FM. Foi uma ousadia para a época em Porto Alegre. Provavelmente, se a matriz da empresa, em São Paulo, não tivesse decidido descontinuar o projeto em dezembro do ano seguinte, a configuração da audiência do segmento de jornalismo seria diferente na capital gaúcha na atualidade. Afinal, quando em 2008 a Gaúcha resolveu fazer o mesmo, não encontrou nenhuma concorrência direta em frequência modulada.
A atuação da Band trouxe, na época, uma inovação na transmissão dos jogos da dupla Grenal quando havia rodada dupla. A Band AM, com mais potência, ficava com a partida realizada no interior, e a Band FM, com melhor qualidade de som, mas menor alcance, com a de Porto Alegre no mesmo horário.
Em entrevista para a revista Press, o então diretor de Operações da Rede Bandeirantes no Rio Grande do Sul, Jorge Seadi Júnior, explicaria:
Foi uma grande inovação, pois eliminamos a divisão na transmissão e o torcedor pode ficar ligado apenas no jogo do seu time.
A direção nacional do grupo, no entanto, acabou optando pela programação mais popular da Band FM, de São Paulo, então presente em outras 27 cidades, que chegou a Porto Alegre em meados de dezembro de 2001. Era o fim da primeira experiência com simulcast em jornalismo no rádio da capital gaúcha.

Radioweb, a maior agência de notícias para rádio do país
2016
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz comemorativo aos 15 anos da Agência Radioweb (2016)
Fonte: Site Agência Radioweb.

Em 2001, um novo modelo de negócio radiofônico começou a ser estruturado em Porto Alegre e que, gradativamente, iria ganhar repercussão nacional. No dia 23 de agosto daquele ano, começava a funcionar a Agência Radioweb. Antes, no entanto, a ideia foi sendo forjada ao longo do primeiro semestre. Paulo Gilvane Borges, Caroline Mello, Daniela Madeira e Juliana Turatti cobrem a primeira edição do Fórum Social Mundial, oferecendo conteúdo para emissoras gaúchas. Em cinco dias, 80 estações reproduzem o material gerado por eles. No mês seguinte, surge o nome da empresa. Em junho e julho, Mariana de Freitas, primeira repórter da agência, acompanha a Caravana da Agricultura Familiar. No dia 23 de agosto, o site da Radioweb está no ar. Mesmo operando via rede mundial de computadores, a maior parte dos clientes não possuía ainda acesso à internet e gravava por telefone – via o serviço 0800 – o material disponibilizado pela agência.

Um ano depois do surgimento da Radioweb, já são 110 as emissoras a usar o serviço da empresa, que cobre a sua primeira eleição presidencial. Em 2003, a agência termina com o seu 0800, passando a operar somente pela web. No dia 15 de março de 2004, passa a contar com um escritório em Brasília, com o jornalista Geanoni Mousquer. Três anos mais tarde, a jornalista Daniela Madeira transfere-se para São Paulo, onde começa a atuar como diretora da empresa para a Região Sudeste. Um pouco antes, em meados de 2005, a Agência Radioweb já oferecia um novo serviço: a formatação de conteúdo para a criação e manutenção de rádios corporativas.

Em dezembro de 2015, a agência contabiliza 3.122.335 downloads, um crescimento de 20% em relação ao ano de 2014. São 2.200 emissoras afiliadas. No mês seguinte, o ranking da newsletter Jornalistas&Cia coloca a empresa como a segunda mais premiada da história do jornalismo brasileiro. Tudo isto resultado de um longo trabalho, uma trajetória iniciada a partir de uma ideia quase singela durante o Fórum Mundial, 15 anos antes. Ideia singela, mas genial.

Cobertura do Fórum Social Mundial (2001)
Boletim produzido durante o evento, espécie de embrião do trabalho a ser desenvolvido pela Agência Radioweb.
Fonte: Agência Radioweb.
75 anos em um minuto
2017
Luiz Artur Ferraretto


O poder de síntese é tudo em rádio. Em 2002, quando a Gaúcha completava 75 anos, a emissora resumiu a sua história em um minuto. O áudio, veiculado frequentemente ao longo daquele ano, trazia o espetáculo do passado junto com várias facetas do jornalismo praticado pela rádio desde meados dos anos 1980, quando assumira a liderança do segmento de jornalismo.
2002 e 2006: duas copas e quatro rádios
2016
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 2002

Cartaz da Copa do Mundo de 2006

No Rio Grande do Sul, a consolidação da Gaúcha como líder do segmento de radiojornalismo desde meados da década de 1980 não chega a significar nem um marasmo, nem uma falta de concorrência na cobertura das copas do mundo após a do México, em 1986. O dado novo e mais significativo vem em 2002, quando a Rede Pampa banca também a ida de seus profissionais aos campos da Coréia do Sul e do Japão, fato repetido na Alemanha. Na Europa, em 2006, uma equipe da Bandeirantes de Porto Alegre aumentou para quatro as opções dos ouvintes do Sul do país em termos de cobertura com uma cor local no rádio, embora ainda a reboque da matriz paulistana do grupo. Com o aumento absurdo dos custos pelos direitos de transmissão, esta pluralidade de alternativas iria ficar no passado.

Em março de 1999, a Pampa AM, do empresário Otávio Dumit Gadret, havia lançado uma nova programação jornalística, baseada em entrevistas diversas, noticiários esportivos e transmissão de jogos de futebol. O reposicionamento da emissora foi um resultado direto da contratação de Paulo Sérgio Pinto para a vice-presidência do grupo. Roberto Brauner assumiu, na época, a Gerência de Jornalismo e Esporte. Meses depois, no dia 1º de outubro, a rádio passava a dedicar 90% do seu tempo ao futebol, com aberturas eventuais para outras modalidades, em uma experiência que se estenderia até dezembro de 2002, sem abandonar, posteriormente, a cobertura esportiva. Durante a Copa do Mundo realizada na Coréia do Sul e no Japão, a Pampa AM é, assim, uma das três emissoras do estado a enviar equipe e irradiar as partidas – as outras são a Gaúcha e a Guaíba –, chegando a liderar uma cadeia com cinco dezenas de estações.

Anúncio da Rádio Pampa AM (junho de 2002)
Fonte: O Sul, Porto Alegre, 7 jul. 2002. p. 9.

Outro destaque, na Copa de 2002, quase toda ocorrida durante a madrugada, pelo horário brasileiro, é o personagem criado pelos publicitários Marcelo Pires e Cado Bottega, da agência de propaganda Upper, para a Rede Brasil Sul. No ritmo da competição acompanhada por torcedores insones, uma coruja aparece em todos os anúncios nos vários veículos da RBS e se torna muito popular, em especial, junto às crianças.

 Coruja rumo ao penta (2002)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. É penta! Porto Alegre: 2002. CD.

Em 2002, a Rádio Guaíba, por sua vez, apelou para Hermes Aquino, destacando o fato da emissora ser a única presente em todas as conquistas da Seleção Brasileira.

Guaíba pentacampeã (2002)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Brasil pentacampeão. Porto Alegre: 2002. CD.

Cabe lembrar, ainda, que a Bandeirantes de Porto Alegre, desde os anos 1980, em grandes jogos internacionais, tende a reproduzir o áudio gerado pela matriz do grupo, da cidade de São Paulo, procurando complementar as informações com programas gerados na capital gaúcha. No entanto, em 2006, na Alemanha, o investimento ampliou-se. Uma equipe da Band AM 640 kHz acompanhou uma Copa do Mundo, embora as transmissões dos jogos tenham sido lideradas, ainda, pela Rede Bandeirantes de Rádio. Viajaram o narrador Daniel Oliveira, o comentarista Cláudio Cabral e os repórteres Alexandre Praetzel e Ribeiro Neto, cobrindo treinos e oferecendo informações antes e depois das partidas.

Relembre a final da Copa do Mundo de 2002, com a vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha, nas narrações da Gaúcha e da Guaíba. E esqueça desastres posteriores,

Compacto da final da Copa do Mundo com a equipe da Rádio Gaúcha (30 de junho de 2002)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. É penta! Porto Alegre: 2002. CD.

Compacto da final da Copa do Mundo com a equipe da Rádio Guaíba (30 de junho de 2002)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Brasil pentacampeão. Porto Alegre: 2002. CD.
Rodrigo Koch, a Guaíba e a cobertura do esporte olímpico
2016
Luiz Artur Ferraretto

Credenciais de Rodrigo Koch (2000 e 2004)
Fonte: Acervo particular de Rodrigo Koch.

Sou suspeitíssimo para falar do trabalho do jornalista Rodrigo Koch. Cruzei com ele pela primeira vez nos corredores da Bandeirantes AM, de Porto Alegre, eu, gerente de radiojornalismo, ele, estagiário do Departamento de Esportes. Foi em meados dos anos 1990. Junto com outros profissionais que estavam surgindo – André Silva, Eduardo Gabardo e Leonardo Meneghetti, para citar mais três –, o Rodrigo era uma das grandes promessas do rádio do Rio Grande do Sul. De fato, ano a ano, cobertura a cobertura, organizando o trabalho ou indo para o microfone, ele iria se consolidar como um dos mais qualificados profissionais do rádio esportivo gaúcho, não só, como muitos, voltando-se ao futebol, mas, como poucos, dominando diversas outras modalidades. Tudo sempre com uma dedicação ímpar ao trabalho e ao veículo rádio.

Acho que foi no início deste século que o esporte começou a ultrapassar o jornalismo na vida do Rodrigo. Durante boa parte da década, nesta área, as grandes coberturas da Guaíba tiveram na sua retaguarda o poder de organização e de mobilização dele. Foi no tempo de Luiz Carlos Reche na chefia de Esportes, tendo Rodrigo como seu braço direito na coordenação. Formado em Educação Física, dando aula em escolas de ensino médio e buscando mais qualificação em cursos de pós-graduação, o Rodrigo foi migrando para o ensino e atua, hoje, como professor nos cursos da área de Educação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul.

Não era coincidência, portanto, o empenho dele em seus tempos de jornalista no planejamento e na cobertura dos Jogos Olímpicos de Sydney (2000) e de Atenas (2004), fora ter pensado jornadas e jornadas esportivas, seja em campeonatos estaduais e nacionais, seja em copas do mundo. Na emissora da rua Caldas Júnior, número 219, honrou a tradição dos que o precederam naquela salinha lá do fundo do corredor à esquerda existente desde a década de 1950, mas transformada, mais recentemente, em passado após uma reforma no prédio.

Cruzei com o Rodrigo também várias vezes no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, eu pesquisando a história do rádio, ele, recuperando dados para os mais diversos projetos de livros-reportagem. E vieram Universíade 1963, Tie-break: a saga dourada do vôlei masculino do Brasil, A vitória vem dos céus e Celeste Olímpica: a era de ouro da Seleção Uruguaia.

Rodrigo Koch no Estádio Olímpico de Sydney (2000)
Fonte: Acervo particular de Rodrigo Koch.
Alguns causos de Armindo Antônio Ranzolin e Lauro Quadros
2014
Luiz Artur Ferraretto


Dois grandes profissionais do rádio do Rio Grande do Sul estiveram juntos na noite de 10 de agosto de 2004 para homenagear um terceiro, ex-colega de ambos e ídolo de todos. Comum aos três, o fato de serem ícones de várias gerações de ouvintes do Sul do país. Foi uma aula inaugural especialíssima aquela do curso de Comunicação Social da Universidade Luterana do Brasil. Armindo Antônio Ranzolin e Lauro Quadros lembraram Pedro Carneiro Pereira, narrador esportivo falecido três décadas antes e homenageado ali no auditório do Prédio 11 da Ulbra, em Canoas. Trouxeram de volta momentos marcantes da comunicação do estado, alguns dramáticos e outros hilariantes. Contaram uma série de causos a provar a importância de profissionais como eles para o cotidiano do público gaúcho. Aqui, alguns trechos do áudio da palestra – o mais correto é bate-papo – daquela noite.



Lauro Quadros e Armindo Antônio Ranzolin, "os malucos que não se contentam apenas em ver o gol"
Fonte: Acervo pessoal.



Armindo Antônio Ranzolin e seus primeiros contatos com o rádio
Fonte: Acervo pessoal.



Lauro Quadros e seus primeiros contatos com o rádio
Fonte: Acervo pessoal.



Outros tempos na versão de Lauro Quadros
Fonte: Acervo pessoal.



Lauro Quadros relembra o seu início de carreira e sua transformação em comentarista esportivo
Fonte: Acervo pessoal.



Armindo Antônio Ranzolin e a narração esportiva
Fonte: Acervo pessoal.

As mudanças no Correspondente Ipiranga, da Rádio Gaúcha
2016
Luiz Artur Ferraretto

Primeira página do roteiro do novo Correspondente Ipiranga (3 de janeiro de 2005)
Fonte: Acervo particular.

Foram quatro meses de preparação para que o principal noticiário da Rádio Gaúcha sofresse uma total reformulação. Assim, às 8h do dia 3 de janeiro de 2005, a mais ouvida das sínteses noticiosas do Rio Grande do Sul passava a ser apresentada por um jornalista e não mais por um locutor. Esta foi, no entanto, a menor das modificações sofridas pelo Correspondente Ipiranga. De fato, em termos de linguagem e estrutura, tudo seria diferente no informativo que, como seus similares, seguia até então o modelo introduzido pelo Repórter Esso no rádio brasileiro ainda no início da década de 1940. A reformulação foi solicitada pela direção da emissora e gestada por oito profissionais, entre eles o editor e novo apresentador do noticiário, o jornalista André Machado, que coordena uma mudança e tanto. Nos áudios abaixo, acompanhe esta transformação.

Chamada do novo Correspondente Ipiranga (2 de janeiro de 2005)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Chamada do Correspondente Ipiranga. Porto Alegre, 2 jan. 2005. Programa de rádio.

Gilberto Verardi lê a última edição do Correspondente Ipiranga no formato antigo (2 de janeiro de 2005)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Correspondente Ipiranga – Edição das 20h. Porto Alegre, 2 jan. 2005. Programa de rádio.

André Machado e os destaques do novo Correspondente Ipiranga (3 de janeiro de 2005)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Hoje. Porto Alegre, 3 jan. 2005. Programa de rádio.

2005 JAN 03 - 06 - Correspondente Ipiranga - Especial.mp3
Programa especial sobre o novo Correspondente Ipiranga (3 de janeiro de 2005)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Especial Correspondente Ipiranga. Porto Alegre,3 jan. 2005. Programa de rádio.

Primeira edição do novo Correspondente Ipiranga (3 de janeiro de 2005)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Correspondente Ipiranga – Edição das 8h. Porto Alegre, 3 jan. 2005. Programa de rádio.
A aposentadoria de Armindo Antônio Ranzolin,
o principal narrador do rádio gaúcho
2017

Embora postado em 2017, este texto não foi atualizado em relação à versão original escrita em cima da notícia de quase onze anos antes. A emoção daquele momento segue a mesma. E o texto também.
Luiz Artur Ferraretto


Ranzolin no comando do Gaúcha Atualidade (26 de julho de 2002)
Da esquerda para a direita, Armindo Antônio Ranzolin, Luiz Felipe Scolari, Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 27 jul. 2002. p. 48.

1975, o Internacional conquista pela primeira vez o Campeonato Brasileiro de Futebol. 1976 é o bi. 1981, o Grêmio chega lá, vencendo o Brasileirão. 1983, vai mais longe, é o campeão da Taça Libertadores da América. Mais longe ainda e se torna o primeiro clube do Rio Grande do Sul a conquistar um título mundial. Sem falar outros jogos, outras coberturas, do esporte à política, em todas elas, Armindo Antônio Ranzolin.

Quinta-feira, dia 6 de dezembro de 2006. Estúdio da Rádio Gaúcha, Porto Alegre, programa Gaúcha Atualidade. Ranzolin, titular do programa desde agosto de 1992, não está mais lá. No final da tarde, uma nota da Rede Brasil Sul de Comunicação anuncia a aposentadoria, aos 69 anos de idade, de um dos mais importantes profissionais do rádio do Sul do país.

Mas a voz clara e precisa de Armindo Antônio Ranzolin vai seguir presente na memória dos seus ouvintes como o narrador das maiores conquistas do esporte do Rio Grande do Sul, com passagens não só por esta função, mas também por cargos de chefia em emissoras de rádio como a Difusora, a Farroupilha, a Guaíba e a Gaúcha. Afinal, são quase cinco décadas, boa parte deste período como um dos principais nomes das jornadas esportivas do Sul do país. Sou uma destas tantas pessoas que cresceram escutando-o e, por isto, me arrisco aqui a um depoimento inteiramente pessoal e nada jornalístico.

Quando eu era um guri de merda como tantos outros que as universidades despejam, semestre a semestre, no mercado, cheios de convicções e certezas, sem experiência alguma, conheci o Ranzolin de forma prosaica. Eu era um fedelho, destes que seguem abundantes nas redações de hoje, vendo na experiência um problema e não uma solução. Ah, a arrogância dos ignorantes! Óbvio que, de experiência, nada possuía. Então, supria a falta desta com sobras daquela e um olharzinho de dúvida a fingir senso crítico e pitadas de niilismo infanto-juvenil.

Lembro que, selecionado como free-lancer para a cobertura das eleições de 1986, acabei chegando para uma reunião bem antes do horário. Logo em seguida, apareceu o Ranzolin, voz perfeita e quase dois metros de altura. O rosto eu conhecia da RBS TV, onde na época ele mantinha um comentário diário. Se não fosse por isto, eu o identificaria, como todo o Rio Grande, pela voz. Eu estava nervoso e fiquei mais ainda. Ele, ao contrário, leu inexperiência no guri e talvez alguma capacidade profissional futura. Ranzolin, de forma muito amável, foi, então, me explicando todo o funcionamento do sistema informatizado a ser utilizado na cobertura e, de lambuja, me deu alguns conselhos sobre reportagem. Fiquei calmo e – acho – fiz um bom trabalho, acabando por ser contratado em definitivo, dias depois. Anos mais tarde, quando eu havia pedido demissão na Gaúcha para iniciar minha carreira como professor, recordo conversa semelhante nos corredores da rádio, ele insistindo para que eu desistisse da decisão já tomada. Recordo também, com orgulho, de ser entrevistado pelo Ranzolin, um apaixonado por rádio. Mais carinho ainda, no dia da defesa de minha tese de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, quando ele ligou confirmando que estaria presente. São pequenas coisas, que dão a dimensão verdadeiramente humana dos grandes profissionais. E fazem com que eu sinta muita falta da voz de Armindo Antônio Ranzolin ao microfone da Rádio Gaúcha, da Rádio Guaíba, de qualquer rádio. Como naquelas tardes, mais guri ainda, sentado no chão brincando, lá em Rio Grande, na casa dos meus velhos, comecei a me dar conta da existência do rádio, meu irmão estudando e acompanhando jogos e mais jogos de futebol, ouvido colado no radinho National, voz do Ranzolin preenchendo o ambiente com a “Grande Rede Ipiranga dos Esportes”.

Se falo de lembranças específicas e minhas, há que registrar as de todos. Esta, por exemplo. Que narração em 3 de maio de 1981, jogo em que o Grêmio vence por 1 a 0 ao São Paulo! Que narração, Ranzolin!

Armindo Antônio Ranzolin (narrador) – Paulo Isidoro arrancou no campo de ataque, prendendo a bola como convém, deixando respirar a sua meia-cancha. Entregou, agora, para Paulo Roberto. Paulo Roberto levantou. Chuveiro na área para Renato Sá. Subiu para cabeçada, atrasou para Baltazar... Matou no peito, experimentou, uma bomba, atirou... Gooooooooooooooooooooooool do Grêmio! Baltazar! Dezenove minutos e 35, no segundo tempo! Gol do iluminado, Baltazar! Gol do Chuteira de Ouro! O Grêmio faz 1 a 0 contra o São Paulo! Zero a zero serve! Um a zero, senhores, pode fazer do Grêmio, com 77 anos, campeão brasileiro em 1981! Cristalizou o Morumbi! Está derretendo o iceberg! O Grêmio está transformando o iceberg em picolé – e muito gostoso – no Morumbi, João Carlos Belmonte...

João Carlos Belmonte (repórter) – Quando ele perdeu o pênalti em Porto Alegre, no final da partida ele disse para a Guaíba: “Deus está reservando algo melhor para mim”. Estava com a razão! Renato Sá se deslocou pelo comando do ataque, cabeceou para trás, Baltazar dominou no peito e, antes que a bola caísse, emendou em um sem pulo sensacional! Venha comigo, ouvinte da Guaíba, e repita comigo, torcedor gremista: Grêmio 1, São Paulo 0! Campeão do Brasil, se Deus quiser!

Antônio Augusto (plantão) – É o décimo gol de Baltazar em 21 jogos. Gol 32 do Grêmio, que, agora, precisa o São Paulo fazer dois.

Lauro Quadros (comentarista) – Olha, zero a zero já servia. Um a zero é sensacional, mas não precisava ser golaço. Pegou na veia. Foi de voleio. Foi na gaveta com Valdir adiantado. Mas, importante: Renato Sá entrou e, em seguida, fez este jogadaço, a deixa de cabeça para Baltazar estufar as redes. A participação de Renato Sá. O São Paulo, agora, vai ficar louco, maluco, atucanado. Ótimo para o Grêmio, Ranzolin...

Por momentos como este, Ranzolin, que já estava afastado da narração esportiva desde a segunda ida do Grêmio a Tóquio, vai fazer muita falta. Que outros guris, como aquele Ferraretto, o de 1986, tenham a certeza disto! Este, de 20 anos depois, não tem a menor dúvida! E vai repetir sempre, me perdoem todos os demais: Armindo Antônio Ranzolin é o principal narrador esportivo da história do rádio do Rio Grande do Sul, um digno continuador de um Cândido Norberto, de um Mendes Ribeiro, de um Pedro Carneiro Pereira... Do final dos anos 1950 até a semana passada, sempre nos microfones, agora na memória, provando, como os citados, que ele é mesmo insubstituível.

Ranzolin comanda a equipe da Guaíba na narração do gol do Grêmio sobre o São Paulo (3 de maio de 1981)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio – Campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.

André Machado e o Gaúcha Atualidade
2017
Luiz Artur Ferraretto

No final de 2006, o jornalista André Machado aceitou um desafio ao substituir Armindo Antônio Ranzolin na apresentação do Gaúcha Atualidade, um dos principais espaços de informação política e econômica do rádio do Rio Grande do Sul. Deu seguimento assim à história do programa que, no ano seguinte, completaria 30 anos no ar. Filho de Dilamar Machado, um dos grandes radialistas do estado, bastaria a André ter continuado com o Gaúcha Atualidade nos moldes anteriores. Já seria garantia de sucesso. No entanto, a exemplo do que fizera com o Correspondente Ipiranga, noticiário totalmente modernizado por ele, o apresentador foi ousando, sem descuidar do que já havia sido construído por seus antecessores. Em Brasília, manteve Ana Amélia Lemos, profunda conhecedora dos meandros do poder na capital federal e que, anos depois, seria eleita senadora pelo Partido Progressista. No estúdio de Porto Alegre, junto com André, estava Rosane de Oliveira, contraparte de Ana Amélia no âmbito do Rio Grande do Sul. Um dos acréscimos foi a abertura para o futebol com a participação de Pedro Ernesto Denardin. A aposta constante na reportagem completou o mix do programa.

Quase três décadas antes, no dia 1º de agosto de 1977, às 8h, a Gaúcha lançara o programa, então apenas Atualidade. Até 1992, Jorge Alberto Mendes Ribeiro seria o apresentador, intercalando opiniões às entrevistas e reportagens. Deputado federal em segundo mandato, o apresentador começou a almejar a candidatura ao governo do estado, indo de encontro à nova postura oficial da Rede Brasil Sul anunciada na época: comunicadores que optassem pela carreira política deviam a partir de então deixar a empresa. Mendes Ribeiro transferiu-se, assim, em julho de 1992, para o Sistema Guaíba-Correio do Povo. Em seu lugar, com o programa sofrendo uma leve mudança na denominação – Gaúcha Atualidade –, a direção da RBS colocou como apresentadores, a partir de 9 de agosto daquele ano, Armindo Antônio Ranzolin, no estúdio da emissora em Porto Alegre, e Ana Amélia Lemos, no de Brasília.

O caminho da política também levaria ao afastamento de André Machado, que, em setembro de 2013, deixa a emissora para se candidatar a deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil. Nisto, deu continuidade à trajetória de seu pai. Além de um dos principais profissionais de microfone do estado, Dilamar Machado, brizolista histórico, também se destacou nas lides políticas.


André Machado anuncia sua saída do Gaúcha Atualidade e do Grupo RBS (25 de setembro de 2013)
Da entrevista, participam também Leandro Staudt, Carolina Bahia e Rosane de Oliveira.
Rosane de Oliveira: a comentarista de política do Grupo RBS
16 de maio de 2016

“Uma colona, apaixonada pela leitura e pelo jornalismo antes mesmo de saber o que era isso”. Assim se define uma das principais jornalistas políticas do Rio Grande do Sul, Rosane de Oliveira, nesta edição do programa Perfil.Rádio. Relembrando sua história profissional, mostra como a política e a paixão pela escrita estiveram em sua vida desde a infância. A comentarista do Grupo RBS explica sua visão sobre a ética jornalística na política e em seu trabalho. Para Rosane, a faculdade a fez entender o Brasil da ditadura militar e a sua carreira a levou para a cobertura política.

Rosane de Oliveira com as entrevistadoras Rebeca Duarte e Luiza Fritzen





Programa Perfil.Rádio, com Rosane de Oliveira (16 de maio de 2016)
Projeto desenvolvido pelos alunos de Laboratório de Rádio, disciplina do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Apresentação: Luiza Fritzen e Rebeca Duarte
Técnica: Neudimar da Rocha
Professor responsável: Luiz Artur Ferraretto
A morte de Luiz Figueredo
2020
Embora postado em 2020, este texto não foi atualizado em relação à versão original escrita dias depois do falecimento de Luiz Figueredo, até então meu colega na Universidade Luterana do Brasil, de onde saí em 2008. 
Luiz Artur Ferraretto

Este não é um texto sobre rádio, como define por si só a sua prensença no site do Instituto Caros Ouvintes [onde foi publicado em fevereiro de 2007], ou de fundo histórico, como quer a ciência. É um texto sobre comunicação, jornalismo em geral, profissionalismo e, mais do que tudo, trata das relações humanas, algo tão raro hoje em dia nos chamados ambientes de trabalho. É sobre lembranças de um grande colega, falecido na semana que passou.

Falei com ele pela última vez num sábado destes de férias, de verão, de sol forte e céu azul sobre o bairro Bom Fim, aqui em Porto Alegre. Faz menos de uma semana quando escrevo agora, mas parece que passou um tempo enorme. O Fig estava de bermudas e fazendo compras no supermercado. Tinha no rosto o sorriso de quem dias antes acrescentara um neto à família de cinco filhas e uma dezena de irmãos. Se despediu com o humor de sempre e é esta a imagem que quero guardar dele. Não aquela, a da terça, o corpo velado pela família e pelos amigos, a da fala emotiva de uma das filhas, a Bela, minha ex-orientanda de tempos atrás no curso de Jornalismo da Universidade Luterana do Brasil. Quero lembrar da alegria do Fig na formatura desta mesma filha. Ele me apertando a mão e agradecendo num dos auditórios da universidade. E quero lembrar de uma tarde de outubro há uns três, quatro anos, longa conversa em um tempo roubado em meio à grande quantidade de tarefas suas na assessoria de imprensa da Ulbra. A cada pergunta minha para registrar o papel dele na história do rádio do Rio Grande do Sul, o Figueredo citava outros nomes, relativizava a sua importância, ora com ironia, ora com um pouquinho de sarcasmo, mas sempre com muita humildade.

Por tudo isso, não consegui, não tive coragem de ir nas cerimônias que antecederam à cremação. Li que lá estavam 200 ou mais pessoas. É pouco pela importância dele. Acho que muitos querem guardar lembranças como essas. Afinal, o Figueredo tinha a simpatia e alegria que só os gordos possuem. Desde o início dos anos 1990, ele trabalhava na assessoria de imprensa da Ulbra, em Canoas, na Grande Porto Alegre. E é muito duro saber que, nas próximas semanas, não vou cruzar nos corredores da universidade com ele ou ouvir a sua voz dizendo:

– Guri! Tenho um pepino pra ti.

Desde 1996, quando assumi a gerência do Centro de Produção Audiovisual da universidade, várias vezes o Fig anunciou, assim, ao telefone algum pedido de última hora para gravação ou produção em vídeo. Também vão faltar aquelas mensagens de e-mail com informações de cocheira sobre o mercado de comunicação. Vou recordar sempre, no entanto, todo o apoio dado ao longo dos 12 meses em que, a pedido da Reitoria da instituição, conduzi e reformulei o curso de Comunicação. Nos outros 12, os anos em que ele coordenou a imprensa da Ulbra, se a universidade ganhou com a presença do Figueredo, os veículos do Sul do país perderam com a ausência de um grande jornalista. E como vai fazer falta o Fig nas redações. Basta voltar os olhos para a sua trajetória profissional e verificar suas realizações, aquelas que ele relativizou numa tarde de primavera para um aluno de doutorado anos atrás.

Nos tempos de colégio, fora uma ou outra tentativa infrutífera nos times de futebol, o guri Luiz Figueredo já se dividia entre o jornalzinho mensal da escola e a locução de notícias transmitidas por um sistema de alto-falante nos recreios. O primeiro emprego com carteira assinada veio aos 17 anos: repórter do jornal Última Hora nas cidades de Novo Hamburgo e São Leopoldo. E seguiu acumulando funções ao longo das quatro décadas seguintes, passando pelos veículos de comunicação mais importantes do Sul do país. Basta lembrar os cargos de chefia, coordenação e direção ocupados em veículos do que são hoje a Rede Brasil Sul, a Rede Pampa e o Sistema Guaíba-Correio do Povo. Para ficar só no âmbito do rádio, lembro do papel do Figueredo na definição ou reformulação de três noticiários fundamentais até hoje nas grades das duas líderes do segmento de radiojornalismo no Rio Grande do Sul: o Chamada Geral, na Gaúcha; e o Jornal da Tarde e o então Correspondente Renner, na Guaíba. Nesta última, por sinal, ele coordenou uma das mais bem-sucedidas coberturas eleitorais do rádio deste estado, a de 1982, quando a Guaíba realizou uma apuração paralela quase tão precisa quanto a do Tribunal Regional Eleitoral.

Na segunda, dia 12 de fevereiro, lá pelas nove da noite, um infarto agudo do miocárdio surpreendeu o cidadão Luiz José Biernfeld Figueredo. A terça seria de perplexidade e de tristeza entre profissionais de diversas gerações que cruzaram, nas últimas quatro ou cinco décadas, com o Fig. A respeito dele, talvez a melhor definição tenha vindo do cronista esportivo Wianey Carlet, ao microfone da Rádio Gaúcha, durante o programa Sala de Redação:

– Era um grande ser humano.

Quis a casualidade que o Figueredo, tão cheio de amigos e de colegas que o admiravam e que gostavam muito dele, morresse sozinho na sua casa. Sozinho não. Um fiel companheiro capa preta estava ao seu lado. Iria latir desesperado nos dias seguintes, sentindo a falta do dono. Fidelidade que nunca falta aos animais para provar uma infinita capacidade na identificação de seres humanos especiais e do vazio deixado pela ausência de alguém como o Fig.

Zero Hora noticia o falecimento de Luiz Figueredo (14 de fevereiro de 2007)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 14 fev. 2007. p. 37.




Homenagem da Assessoria de Comunicação da Ulbra (março de 2007)
Fonte: Acervo particular.
Rede Record compra rádios e TV Guaíba
2007

Este texto não foi atualizado em relação à versão original de 2007. Foi produzido dias depois de a Record, com sede em São Paulo, ter passado a controlar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, além das demais empresas de comunicação até então pertencentes ao empresário Renato Ribeiro. Traz, assim, com seus erros e acertos, a impressão do momento.
Luiz Artur Ferraretto

Logotipo do Grupo Record (2007)

Que me perdoem os arautos da renovação constante, aqueles que vivem esgrimindo a palavra moderno a torto e a direito, por vezes sacando-a da bainha de mais um neologismo de almanaque, desses aprendidos em MBAs ou palestras de marqueteiros da hora. O Rio Grande do Sul ficou mais pobre culturalmente na quarta-feira, dia 21 de fevereiro de 2007 – a de Cinzas, como impõe o calendário. Não se trata de bairrismo, saudosismo ou outros ismos. Não se trata de atávico apegar-se ao velho em detrimento do novo. Trata-se de perder o controle das rádios Guaíba AM e FM, da TV Guaíba, quem sabe daquela Via Láctea verde a ser logo substituída por televisivas cores – azul, verde e vermelha – , as básicas do eletrônico mundo da Rede Record, com sede em São Paulo.

Sai a tradição da Caldas Júnior, de Breno Caldas, de Arlindo Pasqualini, de Jorge Alberto Mendes Ribeiro, de Osmar Meletti, de Pedro Carneiro Pereira, de Amir Domingues, de Milton Ferretti Jung, de Flávio Alcaraz Gomes e de Fernando Veronezi, citados aqui apenas os do panteão, o dos profissionais que fizeram e aconteceram ao longo de 50 anos, desde um outro tempo, o das grandes conquistas do Rio Grande. Entre estes profissionais, os últimos da lista – Amir, Milton, Flávio e Veronezi – são os remanescentes da primeira grande tentativa de fazer rádio fugindo aos padrões únicos do entretenimento, rádio com noticiário de qualidade, cobertura esportiva sem narrações histriônicas, comentários com ponderação, padrões de voz inigualáveis no cenário local e música sem agredir os ouvidos.

Entram em cena os pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, a seu favor a transformação de uma rede decadente, a Record, em potência a enfrentar a Globo e amedrontar os até então principais adversários da família Marinho – o Sistema Brasileiro de Televisão, de Silvio Santos, e o Grupo Bandeirantes de Comunicação, dos Saad.

Não se trata do bairrismo dos cá de baixo, mas os que chegam vêm de muito além desta margem do Mampituba. Trata-se, sim, de constatar a nossa decrepitude como estado, como gaúchos. Falhamos em termos econômicos e já perdemos espaço na política. Um exemplo: foi-se a Varig como sinal de pujança do Rio Grande. E agora será outro? Vai também a Guaíba, a mais tradicional marca de jornalismo no rádio do Sul do país?

Como registram os principais sítios da internet local dedicados à comunicação, a preocupação com tudo de bom que a Guaíba representou ao longo das últimas cinco décadas une entidades como a Associação Rio-grandense de Imprensa, o Sindicato dos Jornalistas, a Federação Nacional dos Jornalistas e o Sindicato dos Radialistas. Ao Coletiva.net, o secretário-geral da Fenaj, Celso Schröder, lembra com propriedade a crise vivida pela Caldas Júnior na primeira metade dos anos 1980 e a resistência do então controlador do grupo formado pelas emissoras agora negociadas e pelos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, de circulação suspensa na época:

Nem quando a Guaíba enfrentou sua pior crise Breno Caldas a vendeu, porque havia um critério de que esses veículos deveriam permanecer locais.

Vencido pela crise, acabou repassando-os para o empresário Renato Bastos Ribeiro, até então ligado ao agrobusiness. Na época, políticos chegaram a interceder para que o controle permanecesse no estado. De fato, antes disto, Caldas recusara-se a negociar seus empreendimentos pelo menos com dois grupos de fora do Rio Grande: as redes Globo e Manchete. Nenhum deles trazia, no entanto, a preocupação com os rumos que podem ser dados a estas emissoras fora do jornalismo ou do entretenimento. A respeito, vale registrar a manifestação do presidente da Associação Rio-grandense de Imprensa, Ercy Torma, divulgada na página da entidade:

Apenas espero que as especulações de que a TV venha a ser usada para fins religiosos não sejam concretizadas, o que seria prejudicial para a sociedade.

Explicam-se as ponderações de Torma que se estendem às possibilidades de descaracterização das estações de rádio. A TV Guaíba, canal 2, era uma das poucas estações em VHF não vinculadas às grandes redes do eixo Rio-São Paulo. Todos no ar há décadas, programas como Câmera Dois, Cadeira Cativa e Flávio Alcaraz Gomes e os Guerrilheiros da Notícia estão entre os mais tradicionais espaços de produção local de Porto Alegre. Já a rádio em amplitude modulada liderou durante anos o segmento de jornalismo no estado; de fato, criou este espaço no mercado. E a FM, no formato com orquestrações, basicamente, e locução sóbria, tem um público selecionado.
Igualmente válida por constatar o triste cenário do descontrole social sobre a radiodifusão é a manifestação do sempre atento Sindicato dos Radialistas, em seu sítio, alertando para a transformação das concessões – que, é bom lembrar, são públicas – em “balcão de negócios”.

Há vários cenários a considerar no mercado do Rio Grande do Sul com o ingresso da Record como proprietária de veículos de comunicação. A negociação capitaneada pela rede paulista ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, na realidade, afeta três grupos de comunicação com sede em Porto Alegre. O chamado Sistema Guaíba-Correio do Povo deixa de existir e restringe-se ao jornal Correio do Povo e ao provedor de acesso à internet CPovo.net, sob o controle de Renato Bastos Ribeiro. A Rede Pampa de Comunicação, de Otávio Dumit Gadret, tende a perder, a médio prazo, a retransmissão do sinal da Record. Há contratos em andamento até o próximo ano, no caso do canal 4, de Porto Alegre, e 2009, nas estações do interior. Com todas as redes de televisão já operando na capital gaúcha, é uma incógnita qual o rumo que tomarão as operações de TV do grupo de Gadret, proprietário também de diversas emissoras de rádio e do jornal O Sul. A Rede Brasil Sul, por sua vez, pode ser afetada. A transação, fala-se, pode incluir valores de R$ 60 milhões a R$ 200 milhões, quantia que pode ser aplicada no Correio do Povo, principal concorrente de Zero Hora, carro-chefe dos empreendimentos da família Sirotsky em mídia impressa. Em um cenário de investimentos da Record tanto nas rádios quanto na TV, altera-se, assim, a situação da concorrência com a RBS TV Porto Alegre e a Rádio Gaúcha. Aí, a jogada do grupo da Igreja Universal seria de mestre pelos impactos no mercado. De fato, teríamos um cenário ideal neste caso.

Todos ganhariam na hipótese de um investimento crescente com aposta nas possibilidades de mercado de estações que são patrimônio da sociedade, independente dos sempre particulares interesses deste ou daquele grupo empresarial, seja laico ou religioso. Neste caso, como já se mobilizam os sindicatos de trabalhadores, há que preservar o material humano destas emissoras. Gente que, com salários muitas vezes reduzidos, construiu e constrói o lucro para os Caldas, os Ribeiros ou os pastores da Universal.

A pior situação – e seria uma burrice tamanha – é desconsiderar tudo isto e reduzir a Rádio Guaíba, com suas poderosas ondas curtas, à pregação religiosa e o canal 2 a uma mera retransmissora do sinal que vem de São Paulo. Se a Record pender para o primeiro, vai transformar positivamente o mercado do Rio Grande do Sul. Quanto mais se aproximar deste segundo cenário, mais pobre, cultural, política e economicamente fica o estado.

Esclarece-se, em relação ao escrito no momento das primeiras notícias sobre a venda para o Grupo Record que este também acabaria comprando o jornal Correio do Povo.
E a galáxia foi para o espaço
2007

Este texto não foi atualizado em relação à versão original de 2007. Foi produzido dias depois de a Record, com sede em São Paulo, ter passado a controlar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, além das demais empresas de comunicação até então pertencentes ao empresário Renato Ribeiro. Traz, assim, com seus erros e acertos, a impressão do momento.
Luiz Artur Ferraretto

Logotipo da Rádio Guaíba (2007)

Pouca gente notou, mas, no domingo, dia 11 de agosto de 2007, pela primeira vez o logotipo da Rede Record substituiu em um anúncio a velha Via Láctea em verde que, há anos, identificava a Rádio Guaíba AM, de Porto Alegre. Foi no rodapé de capa do Correio do Povo, no aviso de outra mudança, a da programação de início de manhã, agora ancorada por Rogério Mendelsky.

Nisto tudo, uma coincidência, meio de cunho pessoal, me chamou a atenção. Foram quase os mesmos fatores de anos atrás, na primeira vez em que despertei para este fenômeno da Guaíba, da credibilidade até uma adesão quase irracional de alguns ouvintes, pouco recursos sendo mais valorizados do que a enorme estrutura do Grupo RBS a serviço da Rádio Gaúcha. Era, então, um final de manhã de segunda-feira. No sábado, estudante pobre sem ter o que fazer – leia-se ter dinheiro para fazer alguma coisa –, eu ouvia rádio, o botão girando duma para outra estação. Na voz, acho que do José Fontella, veio a notícia da suspensão do Correio do Povo e da Folha da Tarde. Juntei umas moedas, as únicas que eu tinha, e fui até o supermercado a uma quadra e meia, margens da BR-116. Sentia que estava comprando dois exemplares históricos de jornais, os últimos da Caldas Júnior, me perdoem a repetição e a redundância, da Caldas Júnior da família Caldas. Embora possua hoje considerável coleção de periódicos, sabe-se lá por que, estes dois ou sumiram mesmo, ou, no meio de tanta coisa, nunca mais consegui achá-los.

Pois, na segunda, lá estava o mesmo Rogério Mendelsky de hoje ao lado de Adroaldo Streck, ambos na tentativa de mobilizar autoridades, empresários e o público para reativar os dois mais tradicionais diários do Sul do país. Cheguei a me empolgar com as falas deles e os telefonemas do público. Era algo fantástico, aquelas páginas em standard do Correio e o tabloide pioneiro da Folha pareciam parte da vida daquelas pessoas, parte da minha vida também. Tive, no entanto, de rumar para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a dois ônibus de distância, um Vicasa Canoas–Porto Alegre e um São Manoel, que passava na frente da Fabico, a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Sacolejando até a capital – Que coisa louca! – o motorista estava como eu, antes, em casa. Ia ouvindo a Guaíba e comentando: “Isso não pode ficar assim!”. Em volta, outros passageiros repetiam o mesmo.

Dá pra entender a minha emoção quando, no meu primeiro emprego de carteira assinada, lá na TV2 Guaíba, vi um enorme logotipo verde, desses de colocar nos carros da casa, a Via Láctea de esperança da comunicação, na mesa do chefe de externas, o cinegrafista Lace Cirne. Não resisti: em um descuido dos outros, a folha de plástico foi direto para a minha pasta de estudante. É essa galáxia, criação do locutor James Bocaccio, a mesma que cede lugar à Terra envolta pelo televisivo azul-vermelho-e-verde da Rede Record. É muito mais colorido e moderno, bonito até, mas – porra! – pra quem teve a galáxia, de que vale apenas um planeta? 
Alexandre Fetter e o Pretinho Básico
2008
Luiz Artur Ferraretto

Escrito pouco mais de um ano após a contratação de Alexandre Fetter pela Atlântida FM, este texto não foi atualizado em relação à versão original de 2008. Vale para medir os acertos e os equívocos de quase dez anos atrás.

Anúncio do Pretinho Básico (15 de maio de 2007)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 15 maio 2007. p. 48.

Entre as transferências de profissionais verificadas desde 2007, apenas uma teve real efeito em termos de audiência no rádio do Rio Grande do Sul. Como registrou o jornalista Célio Romais em mensagem de correio eletrônico, somente Alexandre Fetter, ao sair da Pop Rock para a Atlântida, conseguiu levar consigo uma quantidade significativa de ouvintes de forma a alterar o posicionamento das emissoras nos levantamentos do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. De fato, o retorno de Fetter à principal estação musical jovem do Grupo RBS, após dez anos de trabalho na rádio ligada à Universidade Luterana do Brasil, teve um forte efeito em termos de audiência, não só em FM como em AM.

Ao criar o programa Pretinho Básico, atração que completou, em abril, um ano, Fetter levou da Pop Rock os comunicadores Cagê e Maurício Amaral, seus colegas do Cafezinho, então líder de audiência na faixa das 13 às 14h. A acirrada disputa entre as duas emissoras, tendo como catalisador o poder de mídia do Grupo RBS ao divulgar as suas novas contratações, pode ter induzido ainda a migração de ouvintes jovens de atrações como o Sala de Redação, da Gaúcha AM, e o Apito Final, da Band AM. Confirmada ou não esta hipótese, o certo é que o Pretinho Básico dá sequência a uma espécie de novo humor radiofônico, calcado em piadas e tiradas adolescentes, puro besteirol, mas com fortes efeitos sobre o público.

Nesta linha, a primeira grande experiência, ainda nos anos 1990, foi o Programa X, justamente com Alexandre Fetter no comando, inspirado então no sucesso de atrações como o Pânico, em sua versão da Jovem Pan FM, de São Paulo. Em 1998, Fetter, Mauro Borba e outros comunicadores da Pop Rock criaram o Cafezinho, de sucesso imediato. A estação dos 107.1 MHz, antes pouco conhecida, já se alçava com uma programação ao estilo da Rock & Pop, de Buenos Aires. Com o Cafezinho, passaria a ameaçar a todo-poderosa Atlântida FM, do Grupo RBS, e, mais do que isto, estaria à frente desta, várias vezes, em uma disputa acirrada ao longo dos anos. Com este histórico todo, a ida de Fetter para a Atlântida transfere, em março de 2007, a dor de cabeça e a preocupação dos executivos da RBS para os gestores da Ulbra.

Com a disputa, no entanto, quem saiu ganhando foi o ouvinte deste segmento, com respingos também no rádio dedicado ao formato Adulto Contemporâneo, por onde Fetter andou reformulando a Itapema FM, de Porto Alegre. Ganharam, aliás, os que se mantiveram fiéis à Pop Rock, emissora de Mauro Borba, Arthur de Farias e Carlos Couto. Ali, profissionais como Luciano Barth Lopes e Paulo Inchauspe ampliaram seus espaços, a eles se agregando recém-chegados como Bivis, o maior, no bom sentido, palhação do rádio gaúcho na atualidade, e o seu, por vezes, fiel escudeiro Oliver. Fora estes, a Pop Rock abriga profissionais experientes como Eron Dal Molin, Marcio Paz e Tadeu Malta. Este último, recentemente contratado para coordenar a programação da emissora e fazer frente à Atlântida. Provas de que, no segmento jovem, a transferência de Fetter ainda gera repercussões mesmo um ano depois de ter se efetivado. Sem dúvida, dá para afirmar que ele é, hoje, o mais popular comunicador jovem do estado. Para o ouvinte do Pretinho Básico, Fetter está, ainda, bem acompanhado ao lado de Cagê, L. Potter, Maurício Amaral, Piangers e Porã.


Pretinho Básico comemora 10 anos do programa (3 de abril de 2017)
Fonte: RÁDIO ATLÂNTIDA. Pretinho Básico. Edição das 13h. Porto Alegre, 3 abr. 2017. Programa de rádio.

Nos anos seguintes, a Pop Rock seria engolida pela crise na Universidade Luterana do Brasil, processo do qual só iria se recuperar mais recentemente, com a adesão da emissora à rede da Mix FM, de São Paulo. O Pretinho Básico atravessou os últimos 10 anos como o principal programa jovem do Sul do Brasil. Parte significativa dos resultados obtidos pela atração e pela emissora deve-se, obviamente, à gestão de Alexandre Fetter à frente da Atlântida.