FM: o grande lance da Gaúcha em 2008
2008


Este texto não foi atualizado em relação à versão original de 2008. Foi produzido dias depois de a Gaúcha ter espelhado sua programação em frequência modulada. Vai aqui em sua versão original como registro de impressões daquele momento.

Luiz Artur Ferraretto


Comercial da Rádio Gaúcha (maio de 2008)
Fonte: RBS TV. Comercial da Rádio Gaúcha. Porto Alegre, 2008. Vídeo publicitário.

O Grupo RBS iniciou um processo que vai garantir a continuidade do projeto de radiojornalismo da Gaúcha AM, de Porto Alegre, uma das principais do país neste formato. O lance é de uma simplicidade absurda: deixou de existir a Metrô FM nos 91,3 MHz, migrando para os 93,7, onde passa, no dia 28 de maio, a ser retransmitido o sinal da Gaúcha AM, em uma mudança de frequências autorizada pela Agência Nacional de Telecomunicações. A chegada da emissora ao FM repercute diretamente em duas outras iniciativas de empresas concorrentes nesta faixa e com sede fora do Rio Grande do Sul. A BandNews, do Grupo Bandeirantes, pode ter seu processo de consolidação e crescimento freado, enquanto a Record terá de repensar o uso quase singelo da Guaíba FM para reproduzir o sinal de sua tradicional coirmã em AM durante algumas jornadas esportivas. Pode-se, inclusive, dizer que o lance da Gaúcha é, de fato, uma resposta a estes movimentos da concorrência.

A iniciativa faz parte de um reposicionamento geral das emissoras de rádio da Rede Brasil Sul, que remonta ao primeiro semestre de 2007. Jovem e popular como a Cidade FM, mas com menor público e marca mais fraca, a Metrô sai de cena. Seus principais comunicadores passam para a Rádio Cidade, que ganha poder de fogo na disputa por audiência em relação a outras emissoras, em especial a Eldorado e a Alegria, pelo segmento musical popular, e até mesmo a Jovem Pan, pelo musical jovem. Nesta parcela do mercado, mas pelo viés das classes A e B, a contratação de Alexandre Fetter reconduziu a Atlântida FM a uma posição predominante, enfraquecendo a Pop Rock, sua principal concorrente. Prova disto, a enorme diferença de público entre duas promoções destas emissoras: o Atlântida Festival esgotou ingressos dias antes de sua realização, enquanto na festa de aniversário da emissora ligada à Universidade Luterana do Brasil sobraram entradas. Nesta estratégia, pode-se incluir também a contratação de um dos nomes históricos da Ipanema FM, Kátia Suman, pela TVCom. No campo do rádio jovem, no entanto, esta emissora do Grupo Bandeirantes é a menos afetada. A Ipanema, alheia aos modismos, segue apostando na fidelização do seu público, sem se preocupar muito com a posição que ocupa nos levantamentos do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Ao assumir, junto com a Atlântida, a Itapema, de Porto Alegre, Fetter deu mostras também de capacidade em um segmento de público mais adulto.

Nos primeiros meses do ano, os executivos da RBS devem ter se dado conta do que os 52% de audiência em amplitude modulada da Farroupilha, emissora também pertencente ao grupo, significavam para além dos anúncios e do marketing difundido pela própria empresa. De fato, sem um aumento significativo no número de ouvintes, o percentual de público da emissora sobre o total crescera. Era um indicativo de que o público do radiojornalismo poderia estar migrando para outras mídias ou, na melhor das hipóteses, para a frequência modulada. Talvez, então, tenha pesado o que alguns comunicadores da casa já comentavam nos corredores e em reuniões: era necessário fazer algo para ir ao encontro dos que, de modo crescente, sintonizam rádio em tocadores de MP3 ou em celulares, onde apenas as estações em FM estão presentes.

A presença da Gaúcha em frequência modulada vai, assim, na direção do que será o público do futuro, mais usuário multimídia do que ouvinte, mais afeito a suportes como o celular do que aos antigos radinhos transistorizados. O lance da RBS põe em xeque a Guaíba, que, desde o ano passado, aposta nas irradiações simultâneas de jogos de futebol por suas estações em AM e FM. A ideia bancada pelo Departamento de Esportes da Guaíba, chefiado por Luiz Carlos Reche, estava certa e chegara ao momento apropriado, o da convergência de tecnologias, o da popularização dos players de MP3 e dos celulares. Anos antes, a Bandeirantes, de Porto Alegre, adotara medida semelhantes, mas o momento era outro. O Grupo Record não soube dar continuidade à ideia, expandi-la, havendo mesmo uma discrepância entre a tradicional e sóbria programação musical da Guaíba FM e a empolgação das jornadas esportivas de sua congênere em AM. Pelo lado da BandNews, calcada no modelo americano do all news, fica o desafio de aproximar o modelo, que é nacional, de uma perspectiva mais conversada, ampliando os espaços locais e – por que não? – abrindo-se também a mais e mais irradiações esportivas. O certo é que, no dia 28 de maio de 2008, o rádio do Rio Grande do Sul entra em uma nova fase, a da disputa de audiência no segmento de jornalismo não mais restrita ao AM, chegando também à frequência modulada. O próximo lance, portanto, fica a cargo das demais emissoras do segmento: Guaíba e Bandeirantes, ambas com o pé no FM, e Pampa, esta sim ainda somente na amplitude modulada.

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