E a galáxia foi para o espaço
2007

Este texto não foi atualizado em relação à versão original de 2007. Foi produzido dias depois de a Record, com sede em São Paulo, ter passado a controlar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, além das demais empresas de comunicação até então pertencentes ao empresário Renato Ribeiro. Traz, assim, com seus erros e acertos, a impressão do momento.
Luiz Artur Ferraretto

Logotipo da Rádio Guaíba (2007)

Pouca gente notou, mas, no domingo, dia 11 de agosto de 2007, pela primeira vez o logotipo da Rede Record substituiu em um anúncio a velha Via Láctea em verde que, há anos, identificava a Rádio Guaíba AM, de Porto Alegre. Foi no rodapé de capa do Correio do Povo, no aviso de outra mudança, a da programação de início de manhã, agora ancorada por Rogério Mendelsky.

Nisto tudo, uma coincidência, meio de cunho pessoal, me chamou a atenção. Foram quase os mesmos fatores de anos atrás, na primeira vez em que despertei para este fenômeno da Guaíba, da credibilidade até uma adesão quase irracional de alguns ouvintes, pouco recursos sendo mais valorizados do que a enorme estrutura do Grupo RBS a serviço da Rádio Gaúcha. Era, então, um final de manhã de segunda-feira. No sábado, estudante pobre sem ter o que fazer – leia-se ter dinheiro para fazer alguma coisa –, eu ouvia rádio, o botão girando duma para outra estação. Na voz, acho que do José Fontella, veio a notícia da suspensão do Correio do Povo e da Folha da Tarde. Juntei umas moedas, as únicas que eu tinha, e fui até o supermercado a uma quadra e meia, margens da BR-116. Sentia que estava comprando dois exemplares históricos de jornais, os últimos da Caldas Júnior, me perdoem a repetição e a redundância, da Caldas Júnior da família Caldas. Embora possua hoje considerável coleção de periódicos, sabe-se lá por que, estes dois ou sumiram mesmo, ou, no meio de tanta coisa, nunca mais consegui achá-los.

Pois, na segunda, lá estava o mesmo Rogério Mendelsky de hoje ao lado de Adroaldo Streck, ambos na tentativa de mobilizar autoridades, empresários e o público para reativar os dois mais tradicionais diários do Sul do país. Cheguei a me empolgar com as falas deles e os telefonemas do público. Era algo fantástico, aquelas páginas em standard do Correio e o tabloide pioneiro da Folha pareciam parte da vida daquelas pessoas, parte da minha vida também. Tive, no entanto, de rumar para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a dois ônibus de distância, um Vicasa Canoas–Porto Alegre e um São Manoel, que passava na frente da Fabico, a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Sacolejando até a capital – Que coisa louca! – o motorista estava como eu, antes, em casa. Ia ouvindo a Guaíba e comentando: “Isso não pode ficar assim!”. Em volta, outros passageiros repetiam o mesmo.

Dá pra entender a minha emoção quando, no meu primeiro emprego de carteira assinada, lá na TV2 Guaíba, vi um enorme logotipo verde, desses de colocar nos carros da casa, a Via Láctea de esperança da comunicação, na mesa do chefe de externas, o cinegrafista Lace Cirne. Não resisti: em um descuido dos outros, a folha de plástico foi direto para a minha pasta de estudante. É essa galáxia, criação do locutor James Bocaccio, a mesma que cede lugar à Terra envolta pelo televisivo azul-vermelho-e-verde da Rede Record. É muito mais colorido e moderno, bonito até, mas – porra! – pra quem teve a galáxia, de que vale apenas um planeta? 

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