Ary Rêgo e o Clube do Guri
2007
Luiz Artur Ferraretto

Ary Rêgo e Elis Regina no Clube do Guri (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de Ary Rêgo.

Neste 20 de setembro, feriado farroupilha no Rio Grande do Sul, a chuva que caía em Porto Alegre emoldurou a tristeza das crianças da década de 1950. Morreu Ary Rêgo, o apresentador do mais popular programa infantil de auditório do rádio gaúcho. Morreu o homem do Clube do Guri, aquele que apresentou ao mundo, entre outros tantos artistas, a maior cantora da história do Brasil, Elis Regina. Tinha 89 anos e não perdera certo jeito de lorde inglês, daqueles do imaginário da gente, não os austeros e esnobes da realidade. Era algo que trazia consigo, ex-funcionário de um frigorífico britânico, ainda nos tempos de Pelotas e Rio Grande, antes dos microfones da capital. O inglês apreendido no trabalho e o jeitão sereno renderiam a Ary Rêgo também vários papéis, qualquer um em que fosse necessário certo acento anglo-saxônico. Mas o brilho mesmo era o dos finais de semana da PRH-2 – Rádio Farroupilha.

Então tu, criança de cinco décadas atrás, respira fundo e lê com calma. São, de novo, 10h da manhã de um domingo perdido da década de 1950 e, até às 11h, em uma estimativa algo modesta do próprio Ary Rêgo, pelo menos 35% dos receptores de rádio vão estar sintonizados no que acontece no Auditório Associado, palco para pouco mais de uma dezena de apresentações artísticas infantis, que ocorrem neste horário. Ouve-se mais uma vez a melodia de I’m Looking Over a Four Leaf Clover, de Harry Woods, que, com letra de Mort Dixon, foi pensada como fox-trot norte-americano, mas, no Brasil, transformou-se na marchinha Trevo de Quatro Folhas, de Nilo Sérgio. Para ti, ouvinte gaúcho destes tempos, no entanto, vale mesmo uma versão um tanto diferente que serve de abertura a este Clube do Guri, escrita pelo próprio animador do programa:

– Felizes crianças/ vivemos cantando/ um canto alegre e bom./ A juventude é assim mesmo,/ tudo alegria e sonho sem fim./ Cantando, vivemos a nossa vida./ Tristeza não conhecemos./ E, todo domingo,/ estamos aqui/ no Clube do Guri...

Ary Rêgo revive o programa Clube do Guri (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.

À vista do público, que lota as dependências da Rádio Farroupilha, talvez tu entre eles, criança do passado, já está, então, Ary Rêgo. Com a sobriedade que lhe é peculiar – algo da fleuma britânica –, o animador anuncia:

– Diretamente do palco-auditório da rua Siqueira Campos, a Rádio Farroupilha passa a apresentar mais uma audição do programa preferido pela garotada gaúcha, o Clube do Guri. Temos aqui, como sempre, os nossos doze participantes – dez cantores, dois instrumentistas, temos o nosso velho e dedicado companheiro Ruy Silva ao piano, temos o conjunto regional de Vítor Abarno e a Elis Regina Costa é a secretária do programa nesta manhã.

Auditório Associado durante o Clube do Guri (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de Ary Rêgo.

De junho de 1950 a julho de 1966, o Clube do Guri, programa de auditório baseado em números artísticos de crianças e jovens na faixa dos cinco aos 15 anos, consolida-se como a principal atração deste tipo na radiofonia do Rio Grande do Sul. Lembras bem, não é? E do gosto do Guri Vitaminado, o achocolatado da Ernesto Neugebauer S.A. – Indústrias Reunidas, patrocinadora do programa? O cheirinho de chocolate da lata recém-aberta, um volante amarelo – “Guri Neugebauer. Rico em vitaminas. Sabor agradável. Nutritivo. Estimulante.” – para concorrer a prêmios e assinado pelo próprio seu Ernesto? Talvez tenhas algum guardado, servindo de marcador em um velho livro ou dentro de uma caixa em meio às fotos da infância, junto com algumas figurinhas de um álbum antigo ou um gibi amarelado da Rio Gráfica ou da Editora Brasil-América. Talvez tenhas mesmo participado dos ensaios das tardes de sábado e ganho a oportunidade de se apresentar no programa. Foste chegando, levado pelos pais, com um instrumento musical ou uns versos para declamação ou, como a maioria, a letra decorada de uma canção da moda... Podem ter sido até uns passos ensaiados de dança.

Cupom do achocolatado Guri Vitaminado (anos 1950)
Fonte: Acervo particular.

Ao piano, Ruy Silva, de apurada habilidade musical, faz, de novo, o acompanhamento dos candidatos – de 30 a 40 por tarde para preencher pouco mais de uma dezena de números do programa –, compensando os desvios de tom, naturais em vozes sem estudo e/ou não totalmente definidas. Com o tempo, uns vão se tornar permanentes, integrando quatro grupos que se alternam a cada manhã de domingo, outros se transformam nas secretárias ou nos secretários do Clube do Guri, espécie de coadjuvantes do animador, conduzindo até o palco quem vai se apresentar, ajustando microfones, lendo a nominata de aniversariantes, dando recados, distribuindo brindes – os produtos Neugebauer – e acompanhando as excursões do programa ao interior. Os ouvintes, por sua vez, enviam cartas, tornando-se sócios do Clube. Lembra-se de quando ouviste o teu nome lido ao microfone?

Foi o responsável por tudo isto que o rádio perdeu nesta quinta-feira, um feriado feio, de chuva em Porto Alegre, parecendo chorar junto contigo, criança dos anos 1950. Foi a lembrança de Ary Rêgo, que te fez voltar à infância. Bons tempos aqueles, não?

Ary Rêgo
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 29 de julho de 1999.

Um comentário:

  1. Adorei ouvir meu pai novamente, como se ele estivesse falando a todos nós, assim: Voltei!

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