Balanço do Rádio do RS em 2019
Alguns apontamentos para recordar
a história do rádio no estado

Luiz Artur Ferraretto

Em um ano no qual muitos apostaram em uma recuperação econômica que não veio com o ímpeto prometido, o rádio patinou frente a desafios crescentes impostos pela reconfiguração das mídias e dos hábitos de consumo do público. 2019 também entra para a história como o ano com mais ameaças ao trabalho de jornalistas e radialistas desde a redemocratização. Foram constantes os relatos de produtores e repórteres a respeito de pressões de assessores de políticos em relação a pautas e ao comportamento da imprensa. Os ataques do presidente Jair Bolsonaro deram o tom das tentativas de coibir a liberdade de expressão. Poucos profissionais sérios escaparam de tais pressões. O ponto culminante foi a Medida Provisória 905, na qual o governo federal incluiu a extinção dos registros profissionais de jornalistas, publicitários e radialistas, atingindo duramente os trabalhadores do setor de comunicação em geral e do rádio em particular.

Aqui, resumidamente, algumas observações sobre o que foi o setor no Rio Grande do Sul em 2019.

MAIS RETRAÇÃO DO QUE AVANÇO
A falta de investimento deu a tônica do ano em um mercado que, ao contrário da tendência verificada em meados da década, se apequena. A retração mais evidente ocorreu nos recursos humanos e, nos bastidores, ficou a cargo da diminuição do investimento publicitário, reclamação constante dos gestores e radiodifusores ao longo de 2019. Na prática, não houve semana sem dispensas. Muitas demissões envolveram alguns dos mais destacados profissionais do estado. Como um dos principais protagonistas desse processo foi o Grupo RBS, pode se supor considerável redução também no teto salarial das emissoras em geral, o que indica um futuro menos sorridente – e mal pago – para quem chega ao mercado de trabalho, iniciando-se na profissão.
Outro sintoma da crise aparece na devolução de outorgas, algo impensável tempos atrás, mesmo que tenha se reduzido a poucas emissoras. Foi o que ocorreu, por exemplo, com as rádios Unisinos FM (São Leopoldo) e Açoriana FM (Taquari), repetindo situação verificada com a Rural AM (Porto Alegre) no ano passado.
Em 2019, evidenciou-se o crescimento do podcast, mas, a exemplo de outras praças, ocorre sem grande protagonismo das emissoras de rádio. Cabe lembrar que levantamento da plataforma Podcast Stats Soundbites apontou o Brasil como o segundo mercado para o formato, atrás apenas do dos Estados Unidos.
A migração para a frequência modulada ajudou emissoras do interior, mas a indefinição em relação ao FM estendido coloca carga significativa de apreensão para 2020 em mercados como os da  Grande Porto Alegre e o da Serra gaúcha. Neles, há emissoras urgentemente necessitando chegar à faixa onde se concentra a maioria da audiência.
Tudo indica, portanto, um 2020 de poucas esperanças e de muito cuidado na tomada de decisões. Isso que nem tratamos aqui da crise institucional do Brasil a diminuir o investimento publicitário e as alterações que seguem crescentes nas formas de oferta e de consumo de mídia.

Jornalismo
Destacamos aqui dois problemas referentes às emissoras dedicadas ao jornalismo:
(1) Redução no quadro e acúmulo excessivo de trabalho dos que ficam, com o já citado processo de demissões de profissionais de projeção, cada vez mais substituídos por estagiários e novatos, que se ressentem da falta de perspectivas de futuro. Em termos de conteúdo, houve impacto significativo na reportagem em profundidade, com profissionais de destaque submetidos à cobertura da agenda cotidiana. Entre os demitidos ao longo de 2019, nomes fortemente associados aos grupos de comunicação em que atuavam: Artur Chagas, Caco da Mota, Cláudio Brito, Cléber Grabauska, Daniel Oliveira, Guilherme Baumhardt, Lizemara Prates, Luís Henrique Benfica, Luiz Zini Pires e Renato Dornelles. A lista, no entanto, é muito maior.
(2) Submissão a imposições dos novos donos do poder na restrição ao trabalho da imprensa ou por similaridade de posições, caso das emissoras cujos proprietários anunciaram apoio irrestrito a Jair Bolsonaro, já durante as eleições de 2018. Nessa onda, ganhou espaço, mas sem o planejamento e a organicidade do rádio paulistano, o fenômeno dos programas opinativos de direita, embora alguns de seus protagonistas, prudentemente, tenham pendido de um apoio total ao governo Bolsonaro para uma posição mais crítica à medida que se multiplicavam as declarações bizarras de integrantes do Poder Executivo federal. É um dos pontos negativos de um jornalismo de fachada, com poucos ou mesmo sem repórteres e calcado apenas em um tipo de opinião que desconsidera o contraditório. Em algumas emissoras, chamou a atenção a cobertura excessivamente prudente, chegando a evitar polêmicas – ? – de grandes temas nacionais como a votação da reforma da previdência. Um contraponto foi o programa Esfera Pública, da Guaíba, de Juremir Machado da Silva e Taline Oppitz.
No jornalismo, a Gaúcha seguiu liderando. A maior ameaça à sua posição no ranking veio da Caiçara, portanto de fora do leque das emissoras dedicadas à notícia. Só isso já demonstra a contínua degradação do radiojornalismo em Porto Alegre, onde quem se destacou o fez por diferenciação – Grenal, esportiva, e Pampa, opinativa – e não pela concorrência direta – papel que, ao natural, seria da Guaíba e da Band, distanciadas das demais em termos de audiência. Essa última, no entanto, após o retorno de Leonardo Meneghetti ao comando do Grupo Bandeirantes no Rio Grande do Sul, fez movimentos em direção a um posicionamento mais opinativo. Enfraquecendo a Guaíba, contratou Rogério Mendelski, notório por suas posições políticas à direita. A Band realizou ainda uma pesquisa para saber a opinião do público sobre a possibilidade de suas emissoras adotarem narradores identificados com o Grêmio ou com o Inter. No dia 8 de dezembro, ensaiou parte desse processo, separando a narração dos jogos dos dois clubes. As estações da Band 640 AM e 94,9 FM ficaram com Inter e Atlético, enquanto a da BandNews 99,3 FM transmitia Goiás e Grêmio.
Em um ano de tantas ameaças à liberdade de expressão, chamou a atenção a cobertura realizada, durante o Festival de Gramado, pelo repórter Eduardo Borile Júnior, da UCS FM, com o apoio de Fernando Machado no estúdio da emissora educativa da Universidade de Caxias do Sul. Ouvida hoje, lembra em muito o que jornalistas chilenos e catalães fizeram nas manifestações realizadas, respectivamente, em Santiago e Barcelona: no meio do povo e sem travas censórias, está o repórter, descrevendo o que vê e dando voz aos que protestam.

Reportagem sobre a manifestação contra a censura durante o Festival de Gramado 
Fonte: UCS FM. Cobertura do Festival de Gramado, Caxias do Sul, 24 agosto 2019. Reportagem.

Musical
Ao contrário das dedicadas ao jornalismo, as musicais seguem, em alguma medida, em um processo concorrencial. Mais para o popular, a 104, da Rede Pampa, viu o crescimento da 92, do Grupo RBS, embora tenha se saído bem frente à adversária. Nas focadas no pop, Atlântida e Mix seguem em destaque. Esse quadro pode, no entanto, sofrer alterações caso emissoras como as da Rede Massa, de Curitiba, cheguem à capital. Em 2019, o sinal gerado pelo bem sucedido empreendimento de Carlos Roberto Massa, o Ratinho, entrou no estado com uma emissora na Serra. Entre o jornalismo e o adulto contemporâneo, a União FM, de Novo Hamburgo, seguiu com uma das melhores e mais estáveis programações da Grande Porto Alegre.

Popular
Com o suicídio assistido da Farroupilha – um dos maiores erros do Grupo RBS nos últimos anos –, a Caiçara deitou e rolou, incomodando, inclusive, a Gaúcha, desde 2015 a líder geral em audiência. Imagine como seria diferente o quadro atual se, lá atrás, a RBS não tivesse cometido o equívoco de demitir Sergio Zambiasi e de tentar modernizar a Farroupilha em um mix que ainda vitimou Everton Cunha, o Mr. Pi, um dos principais profissionais do rádio jovem. Deram armas ao inimigo e a audiência de Zambiasi na Caiçara cresceu, ameaçando a antes tranquila liderança geral da Gaúcha. Na Farroupilha, o ex-senador seria uma vacina a impedir um quadro semelhante e ficaria tudo em família, a dos Sirotski.

GRANDES COBERTURAS
Mais do que nunca, em termos de grandes coberturas, a Gaúcha reinou absoluta, aproveitando-se de sua estrutura e de sua sinergia com Zero Hora, dentro do portal GaúchaZH. Assim, contou com enviados especiais acompanhando a crise na Venezuela e tragédias como a de Brumadinho e a de Suzano, além de fatos políticos como a libertação do ex-presidente Lula. Esses são apenas alguns exemplos, citados aqui para destacar o fato de que raramente alguma outra emissora fez o mesmo. Uma das exceções foi a ida de Milton Cardoso, da Band, até a fronteira Brasil-Venezuela no início do ano. No horizonte possível das demais, restaram coberturas locais como a do julgamento do Caso Bernardo, em Três Passos, ou a da Cúpula do Mercosul, em Bento Gonçalves, onde estiveram equipes da Band, Gaúcha e Guaíba.
No esporte, a Gaúcha seguiu como a única emissora local a acompanhar, com equipe própria, grandes competições como a Copa América e os Jogos Panamericanos.


A MARCA DOS GRANDES COMUNICADORES
Cada vez mais desconsiderados em prol de profissionais jovens e com salários menores, grandes comunicadores de rádio remaram contra a corrente. E tiveram sucesso. Dois chamam a atenção. Sergio Zambiasi segue forte, liderando o crescimento da Caiçara, ele que, há 29 anos, é o comunicador de rádio mais lembrado pelo público no Top of Mind da revista Amanhã.

Reportagem sobre o 29º Top of Mind de Sergio Zambiasi
Fonte: REDE PAMPA. Jornal da Pampa, Porto Alegre, 16 maio 2019. Reportagem.

Já Arlindo Sassi causou impacto, retomando o seu Love Songs, destaque desde janeiro na programação da Continental, sucesso atestado em promoções como a do Dia dos Namorados.

Reportagem sobre a promoção do Dia dos Namorados do Love Songs
Fonte: REDE PAMPA. Jornal da Pampa, Porto Alegre, 12 jun. 2019. Reportagem.


TECNOLOGIAS E INOVAÇÕES
No ano da chegada ao mercado brasileiro das caixas inteligentes da Amazon, com a assistente virtual Alexia falando português (outubro), poucas emissoras locais preocuparam-se com o potencial desses equipamentos. Nesse aspecto, a única a pensar neste futuro mercado de modo estruturado é a Gaúcha. Desde fevereiro, por exemplo, a emissora do Grupo RBS produz conteúdo para o Google Home.

Reportagem sobre smart speakers e o novo serviço da Gaúcha
Fonte: GAÚCHAZH,  Porto Alegre, 25 fev. 2019. Reportagem.


PRESENÇA FEMININA NO RÁDIO ESPORTIVO
Na vitória da equipe feminina do Inter por quatro a zero sobre o Grêmio, a Rádio Grenal fez a primeira transmissão de um jogo com equipe exclusivamente de mulheres de uma emissora de antena do Rio Grande do Sul, um fato relevante para o crescimento da presença feminina ao microfone em coberturas de futebol. Já Clairene Giacobe, da Estação Web, destacou-se como a mais frequente narradora do rádio esportivo do Rio Grande do Sul. No entanto, 2019 teve novas manifestações de machismo em relação a profissionais de rádio. Em abril, a vítima foi a repórter Laura Gross, da Guaíba, antes de um jogo no Beira-Rio. Já no mês de outubro, na Arena, a repórter Jéssica Degrandi, da Rádio Estação Web, também sofreu assédio por parte de torcedores.

AS PERDAS DO ANO DE 2019
O rádio e a comunicação do Rio Grande do Sul perderam, entre outros: Luiz Antônio Borba, o Lua (16 de janeiro); Cláudio Monteiro (16 de março); Ivan Dorneles Rodrigues (23 de abril); Milton Ferretti Jung (28 de julho); Alexandre Brum, o Bola Sete (31 de julho); Renato Bastos Ribeiro (20 de setembro); Tufy Salomão (22 de outubro); e Fernando Esbroglio (31 de outubro). É preciso registrar ainda o falecimento de Ricardo Boechat (11 de fevereiro), um dos mais influentes profissionais do Brasil, que também tinha considerável número de ouvintes aqui no Rio Grande do Sul.

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