Balanço do Rádio do RS em 2021
Alguns apontamentos para recordar
a história do rádio no estado

Luiz Artur Ferraretto


O ano de 2021 fica para a história do rádio do Rio Grande do Sul como um período de pouquíssimos destaques, talvez o pior em termos de arrojo, criatividade, iniciativas e inovações neste século. Também, foi mais um ano de baixos investimentos em pessoal, de muitas demissões e de extrema sobrecarga de trabalho, desqualificando o conteúdo ofertado ao público.

Na sequência, alguns dos poucos pontos a registrar em um ano, portanto, pobre de novidades.

A ABORDAGEM RESPONSÁVEL DA PANDEMIA 
Enquanto o negacionismo e o apoio explícito ao governo federal tomou conta de parcela ou da totalidade de outras emissoras dedicadas ao jornalismo, a Gaúcha registrou alguns bons momentos em sua cobertura da pandemia de covid-19. O primeiro ocorreu  em 18 de janeiro, quando a emissora acompanhou o início da vacinação no Rio Grande do Sul, em um trabalho envolvendo muitas e muitos profissionais, com destaque para Daniel Scola. O momento mais esperado pela população aconteceu por volta das 11 e meia da noite, sendo transmitido dentro do Estúdio Gaúcha:

Início da vacinação contra a covid-19 no Rio Grande do Sul (18 de janeiro de 2021)

O senso de oportunidade garantiu um dos poucos momentos em que o presidente da República foi inquerido jornalisticamente por uma emissora de Porto Alegre ao longo do ano. Cabe observar que Jair Bolsonaro raríssimas vezes aceita falar para rádios fora do círculo de propaganda hertziana formado desde a campanha eleitoral de 2018. Provavelmente por descuido de sua entourage, Eduardo Matos conseguiu se aproximar de Bolsonaro durante a motociata realizada na Grande Porto Alegre em 10 de julho. Apesar da costumeira agressividade do presidente e de seus seguidores, fez as perguntas que todo jornalista deveria fazer, naquele momento, sobre a CPI da Covid-19:

Eduardo Matos entrevista Jair Bolsonaro (10 de julho de 2021)

Grandes repórteres vivem do factual e da criatividade. Em tempos de convergência, o seu trabalho transborda para outros meios e para as redes sociais. Um lado da função, é chegar em cima do acontecimento e narrá-lo. Na noite de 20 de fevereiro, foi o que fez o jornalista Eduardo Matos, ao mostrar o total descumprimento das normas de funcionamento determinadas pelo governo do Rio Grande do Sul em Capão da Canoa:

Série de vídeos postados por Eduardo Matos em sua conta do Twitter (20 de fevereiro de 2021)

Olhar para além do senso comum, do horizonte do público, constitui-se em uma característica dos profissionais especializados nas narrativas de interesse humano. Trata-se do caso da repórter Larissa Roso. Em 5 de fevereiro, o seu trabalho sobre o radinho da alta, o receptor usado na CTI do Hospital de Clínicas para auxiliar na recuperação dos paciente de covid emocionou o público de vários veículos do Grupo RBS e valorizou em muito o papel do meio na vida das pessoas. Não foi diferente com os da Rádio Gaúcha:

No Supersábado, o radinho da alta narrado por Larissa Roso (6 de fevereiro de 2021)

O artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Profissionais deixa bem claro: é dever do profissional "opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos". Em 4 de março, indignados com a afirmação esdrúxula do presidente Jair Bolsonaro, qualificando a dor de milhares de pessoas como "frescura" e "mimimi", Marta Sfredo, Marcela Panke, Luciano Périco e Mauricio Saraiva reagiram. E honraram a ética profissional do jornalismo em um dos momentos mais emocionantes da história recente do rádio brasileiro.

Passagem do Chamada Geral para o Hoje nos Esportes (4 de março de 2021)


UM RARO MOMENTO
No Dia Nacional do Doador de Sangue, o rádio de Porto Alegre viveu um momento cada vez mais raro. A redução no quadro das emissoras não é um processo iniciado após a pandemia. Vem de algum tempo e tem como causa não só a crise econômica, mas também as crises gerencial e do modelo de negócio. Nada justifica, portanto, a falta de criatividade vigente no meio. Por isso, a edição do Timeline, da Gaúcha, em 25 de novembro, destaca-se. A apresentadora Kelly Matos, lembrando sua fase como uma das principais repórteres do estado, conduziu o programa enquanto doava sangue no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. De forma leve, mas sem deixar de ser jornalístico, o Timeline prestou um serviço importantíssimo, explicando detalhadamente como se dá esse processo. E fez rádio de alta qualidade. Os ouvintes agradecem.

No Timeline, o testemunhal jornalístico e a doação de sangue (25 de novembro de 2021)


OS JOGOS OLÍMPICOS
Infelizmente, foi-se o tempo da concorrência acirrada. Há resquícios de disputa na cobertura de futebol. No entanto, apenas o Grupo RBS tem sistematicamente apostado no acompanhamento de grandes eventos esprotivos. Os Jogos Olímpicos de Tóquio são exemplo disso. Na cobertura integrada dos vários veículos do grupo, destacou-se o conhecimento, a experiência e a versatilidade, em especial, de André Silva, José Alberto Andrade e Rodrigo Oliveira, todos vinculados diretamente à Gaúcha. Alice Bastos Neves, da RBS TV, também brilhou em suas participações na rádio.
Zero Hora noticia o esquema de cobertura dos Jogos Olímpicos pelo Grupo RBS (2 de julho de 2021)


O JÚRI DA BOATE KISS E O DESGASTE DO RADIOJORNALISMO DE PORTO ALEGRE
No final do ano, de 1º a 10 de dezembro, a cobertura do júri da Boate Kiss trouxe à tona as fragilidades do radiojornalismo, evidenciando ainda as mudanças no padrão de acompanhamento dos fatos. Alguns fatores foram determinantes nesse processo: a constante redução de pessoal nas emissoras, a desvalorização e/ou demissão de profissionais mais experientes, a despersonalização da comunicação ao microfone e a crescente transparência de algumas instituições. Assim, faltaram recursos humanos e o rádio preferiu se submeter à internet, desconsiderando o seu público mais numeroso, o ouvinte tradicional, aquele que segue a programação via transmissões por ondas eletromagnéticas, seja no radinho de pilha, no autorrádio ou até mesmo no celular.
Quem pretendia acompanhar o júri de forma mais intensiva precisou recorrer a um dispositivo com conexão à rede mundial de computadores. Algumas emissoras preferiram insossas discussões esportivas ou populismo de ultradireita à transmissão dos depoimentos dos principais indiciados. Em paralelo, nas redes sociais, jornais, por exemplo, disponibilizavam nas redes sociais o sinal fornecido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que deu uma aula de assessoria de comunicação ao longo do júri.
Líder de audiência na Grande Porto Alegre, a Gaúcha dedicou um canal auxiliar no seu aplicativo para a cobertura mais intensiva com seus profissionais dividindo-se entre a emissora, o portal GZH e as redes sociais. As demais ditas de jornalismo dependeram do corre-corre de seus repórteres e de algumas entrevistas com especialistas.

Postagem de Eduardo Matos no Twitter (10 de dezembro de 2021)



Postagem de Cid Martins no Twitter (10 de dezembro de 2021)

No entanto, nenhuma emissora da capital fez uma transmissão tão completa quanto a da CDN, de Santa Maria. No bom e velho rádio de antena, a emissora dedicada 24 horas ao jornalismo levou à sua comunidade as informações sobre a maior tragédia da história da cidade. Pelo seu aplicativo, foi ouvida em muitos outros lugares, provando que apostar na cobertura intensiva ainda é extremamente válido, algo esquecido por muitas estações de Porto Alegre. Essas últimas perderam a oportunidade de oferecer um diferencial em relação à líder geral em audiência.


Aplicativo do Grupo Diário, do qual a Rádio CDN faz parte




MARCOS IMPORTANTES EM TERMOS DE DIVERSIDADE
Dois passos significativos em termos de diversidade foram dados em 2021 no rádio e na comunicação do Rio Grande do Sul. Com o afastamento, por motivo de doença, do jornalista Daniel Scola, o Gaúcha Atualidade, mais importante programa do rádio do estado, passou a ser comandado por um time exclusivamente feminino: Andressa Xavier, Giane Guerra e Rosane de Oliveira. Mesmo que seja algo provisório, nunca antes uma emissora do porte da Gaúcha fez isso no estado.
Anúncio da presença de Giane Guerra no Gaúcha Atualidade (setembro de 2021)

Pela primeira vez também, as duas principais entidades da área de imprensa do Rio Grande do Sul passaram a ser comandadas por profissionais afrodescendentes. Em 2021, José Nunes assumiu a presidência da Associação Riograndense de Imprensa, tendo como vice Jurema Josefa. Já o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, desde o ano passado, é presidido por Vera Daisy Barcellos.
José Nunes e Jurema Josefa da Associação Riograndense de Imprensa (dezembro de 2020)
 

A MIGRAÇÃO PARA A FM E A AGONIA DO RÁDIO EM AM
Sem muito impacto, até pela ausência de receptores e de divulgação, o FM estendido chegou a Porto Alegre no mês de maio. A primeira emissora a operar na nova faixa foi a Liberdade, da Rede Pampa de Comunicação, que passou a ser sintonizada nos 83,3 MHz.

Certificado emitido para a Rádio Liberdade como pioneira na faixa estendida de FM (maio de 2021)

Em paralelo, foram descontinuadas emissoras tradicionais em AM como Bandeirantes, Farroupilha, Gaúcha e Pampa. Para se ter uma ideia, essas marcas estavam há muito tempo na amplitude modulada. Em ordem cronológica:
 Gaúcha, 1927;
– Bandeirantes, 1934 (como Difusora até 1986);
– Farroupilha, 1935;
– Pampa, 1960.
O fim da operação em AM impactou mesmo apenas a Farroupilha, emissoras, na prática, descontinuada, já que se mantém apenas como um canal em aplicativo. Gugu Streit, seu principal comunicador, estreou na 92 FM, ocupando a faixa das 5 às 8h de segunda-feira a sábado com o seu Bom dia, 92.
Gugu Streit ao microfone da 92 FM (novembro de 2021)


AS ALTERNATIVAS DO VALE DO RIO DOS SINOS

 


ABC e União, ambas de Novo Hamburgo, consolidaram-se como alternativas no desolador panorama do rádio da Grande Porto Alegre. As duas pendem entre a música   o adulto contemporâneo – e o jornalismo. A emissora do Grupo Editorial Sinos aposta mais na notícia e na cobertura esportiva. Mais musical, a da Fundação Sinodal de Comunicação, com persistência, firmou-se também em Pelotas e chegou a Blumenau. Na ABC, ocorreu algo raro no rádio brasileiro. No Ponto e Contraponto, Guilherme Trescastro entrevistou tanto o presidente Jair Bolsonaro (3 de outubro) quanto o líder do PT Luiz Inácio Lula da Silva (10 de outubro). A arte da conversa em prol do jornalismo também é o destaque da União. Toda terça-feira, Rodrigo Giacomet a exercita às 20h no Lado B, atração que pode ser conferida também em vídeo nas redes sociais, independentemente do horário em que o ouvinte e internauta decidir acessá-la.

IN MEMORIAN
Em 2021, o rádio e a comunicação do Rio Grande do Sul perderam grandes profissionais: Professor Nathanael (21 de janeiro), Plínio Nunes (26 de janeiro), Bira Mangoni (1º de fevereiro), Antônio Luis Piccoli (17 de fevereiro), Sandra Simon (23 de fevereiro), Jorge Estrada (13 de abril), Ercy Pereira Torma (28 de abril), Roberto Tavares (6 de maio), Eugênio Spier (1º de junho), Paulo Nogueira (21 de junho), José Paulo Bisol (26 de junho), Laerte Santos (27 de junho), Walter Galvani (29 de junho), Roberto Figueiredo (27 de julho), Magro Lima (22 de agosto), Pedro Dias (13 de outubro), Flávio Antônio Camargo Porcello (7 de novembro) e Célio Soares (12 de novembro).

E O FUTURO?
O ano de 2022 configura-se como uma encruzilhada para o Brasil. Não será diferente para o rádio do Rio Grande do Sul. No jornalismo, duas grandes coberturas estão no horizonte: a da Copa do Mundo, no Catar, e a das eleições. Aliás, o rádio dedicado à notícia precisará se recuperar de alguns exageros relacionados ao entretenimento e às soft news, caso da Gaúcha, e da guinada bolsonarista de emissoras como Band – em alguns horários –, Guaíba e Pampa. O adulto contemporâneo – Antena 1, 102, ABC e União – vai crescer, como parece ser uma tendência em outros mercados? O jovem fugirá ainda mais do rádio? Iniciativas em podcast vão se firmar ou o que é produzido hoje nem será lembrado em um ano? Perguntas a serem respondidas ao longo de 365 dias que todas e todos esperam deixem no passado a pandemia e as ameaças à democracia. Afinal, nada avança sem estabilidade econômica e política, algo escasso nos últimos anos neste canto do planeta.

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