O eterno (e necessário) mediador
4 de dezembro de 2015
Luiz Artur Ferraretto


FERRARETTO, Luiz Artur. O eterno (e necessário) mediador. Zero Hora, Porto Alegre, 4 dez. 2015. p. 35.

Desde o surgimento da imprensa até esta segunda década do século 21, o jornalismo já morreu, foi velado sem devoção e enterrado sob lápide anônima dezenas de vezes. Também ressuscitou com igual frequência, não raro antes do bíblico terceiro dia. Os próprios profissionais fizeram e fazem isto em ambas as margens dos rios Estige e Aqueronte, sem ter de recorrer a nenhum mitológico barqueiro.

É histórico o alerta sobre o fim do jornalismo previsto por alguns profissionais quando a imprensa, ainda no século 19, começou a adotar a entrevista como uma das bases do relato noticioso. Sobre esta prática tornada banal nas décadas seguintes, um jornal chegou a escrever: “pode ser o conluio de um politiqueiro farsante com um farsante repórter”. Hoje, saudosistas do seu próprio passado vivem de reclamar do jornalismo, louvando o de ontem, quando, no caso brasileiro, vivia-se sob intensa censura governamental.

Hoje, reafirma-se a necessidade do jornalismo toda vez que alguém posta conteúdo de forma irrefletida em redes sociais. Sem o conhecimento profissional, fruto do estudo e da experiência, o leigo deixa-se levar por seus próprios preconceitos e difunde inverdades e boatos. Este leigo, no entanto, garante a necessidade do exercício do jornalismo. De um lado, por sua inabilidade na difusão de fatos e opiniões. De outro, por, com frequência, também colocar o dedo na moleira da grande imprensa. De suas críticas, vão saindo os elementos para encurralar a autocensura e os podres poderes a tentar sobrepor o interesse dos proprietários dos meios aos dos diversos públicos de seus veículos.

A forma de agir de empresários, gestores de conteúdo e daqueles que vão em busca da notícia torna-se, portanto, fundamental para a garantia do próprio regime democrático. O golpe civil-militar de 1964, sempre é bom lembrar, foi sustentado por uma mídia a compartilhar interesses com os novos grupos que passaram a dominar o país. A palavra básica, neste caso, é ética, algo que parece ter desaparecido em vários níveis da sociedade. No entanto, há outras – honestidade, prudência, respeito, sagacidade, sensatez... – que precisam também estar presentes no cotidiano de todos, em especial no dos responsáveis por registrar este mesmo cotidiano.

A sociedade muda. O jornalismo, como prática cotidiana, não pode transformá-la se empresários, gestores e profissionais permanecem aferrados a velhos paradigmas. A tecnologia, neste sentido, não é boa nem má. De fato, falta compreender que a transformação é feita por pessoas, necessariamente valorizadas por bons salários, mas dedicadas à causa. E qual a causa do jornalismo? Ah, esta aparece assinalada por um personagem do filme O vento será sua herança, inspirado em um profissional real: “O jornalismo existe para afligir aqueles que vivem no conforto e para confortar aqueles que vivem na aflição”. Não se trata de pregar uma revolução. Trata-se, apenas, de reafirmar o papel transformador de uma atividade de interesse público: o próprio jornalismo.

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