Duas (sensacionais) do Carlos Nobre
2006
Luiz Artur Ferraretto

Carlos Nobre (anos 1980)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 13 set. 1999. p. 55.

O humorista Carlos Nobre era um figuraço. Sua capacidade natural para fazer rir aparecia também nas mais diversas situações, mesmo que longe dos microfones das emissoras de rádio, das câmeras de televisão ou das páginas dos jornais. Duas historinhas, que têm nele o protagonista, demonstram bem a sua rapidez de raciocínio e presença de espírito.

Pois o Nobre estava se apresentando no interior do estado. Piada vai, piada vem e a reação da plateia permanecia de total indiferença. Lá pelas tantas, resolveu improvisar um número inusitado:

– Todos os senhores e as senhoras sabem que eu sou um humorista. O que ninguém sabe é que também sou um grande mágico.

Com alguma atenção obtida com a revelação algo inusitada, Nobre seguiu em frente:

– E vou fazer um número único aqui para vocês: a mágica do desaparecimento... – e saiu, rapidamente, de cena para não voltar mais, talvez na melhor de suas piadas.

Após 1964, o clima nos veículos de comunicação era de, no mínimo, apreensão devido à repressão política instaurada com o golpe militar que derrubara João Goulart da Presidência da República. Em uma das tantas visitas dos “representantes” da ditadura ao jornal Zero Hora e à Rádio Gaúcha, Nobre foi interpelado:

– O senhor tem simpatias com a esquerda e deve conhecer muitos comunistas!

A resposta do humorista surpreendeu o agente da “revolução redentora”, como a quartelada de 31 de março e 1º de abril de 1964 chegou a ser chamada pelos defensores do regime militar:

– Conheço sim. Conheço vários comunistas.

– E o senhor, então, pode identificá-los?

– Claro que posso.

As palavras seguintes do humorista levaram o policial, quase exultante pela deduragem tão facilmente aceita, da felicidade à irritação conformada e ao sorriso contrafeito.

– Tem o Marx, o Lênin, o Trotsky... e tem o Stalin também.

Carlos Nobre era mesmo uma parada, a da gíria e não a dos desfiles militares.





Show de Carlos Nobre no Teatro Presidente (1961)
Fonte: Acervo particular de Marco Antônio Villalobos.

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