Star-system à moda gaúcha
2013
Luiz Artur Ferraretto

 “Nossa radiolândia é como um lindo Cadillac, mas com algumas peças fora do lugar.” A afirmação do pernambucano Jesuíno Antônio D’Ávila, ao completar dois meses como diretor artístico da Farroupilha, publicada no jornal Diário de Notícias, em 1952, demonstra a ambiguidade do mercado de rádio do Rio Grande do Sul. Ambiguidade aplicável, inclusive, ao que já vinha acontecendo na década anterior e que seguiria valendo até a metade dos anos 1960, quando deixa de predominar o espetáculo das novelas, humorísticos e programas de auditório. Na programação das emissoras e na imprensa especializada, vende-se um universo de astros e de estrelas – versão do star-system de Hollywood, que chega através dos cinemas –, mas os protagonistas desta radiolândia dos pampas dividem-se, para sobreviver, em inumeráveis funções e convivem, não raro, com salários reduzidos. A julgar pelos jornais da época, a própria expressão usada por D’Ávila não cola no jargão do rádio gaúcho, embora no centro do país dê título a uma revista semanal lançada pela Rio Gráfica e Editora, no mesmo ano de 1952 em que ele se transfere de São Paulo para Porto Alegre.

Na criação deste sistema de vedetes no imaginário do ouvinte, a imprensa tem papel fundamental. É nas seções e nos anúncios dos grandes jornais da época e nas reportagens das revistas especializadas – estas de circulação irregular e enfrentando, quase sempre, graves dificuldades econômicas – que se reforçam imagens reais e/ou ilusórias a respeito de atores, músicos, humoristas e animadores. Nos jornais da década de 1940 e início dos anos 1950, por exemplo, Walter Ferreira e Ernani Behs, os dois principais galãs de radionovela, são chamados de “Tyronne Power e Clark Gable da rua da Praia”. Recebem pilhas de cartas dos fãs, mas, ao contrário do que é publicado, os seus salários não resistem à comparação com os pagos aos astros de Hollywood, como recordaria Ernani Behs:

Os jornais mentiam descaradamente sobre o que nós ganhávamos. Quando eu me aposentei, saí ganhando o equivalente a uns R$ 1.200,00 de hoje. Quando era galã de novela, eu recebia algo como uns R$ 1.100,00. Na época, as fãs me atacavam na saída da Farroupilha, agarravam-se na lapela do meu paletó e eu só tinha dois ternos completos...

Fora as seções dos jornais – em especial do Diário de Notícias, que dá sustentação à Farroupilha e, até a negociação da rádio com a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, também à Difusora –, circulam, nos anos 1950 e 1960, publicações de periodicidade irregular. Algumas destas revistas dedicam-se quase que totalmente ao rádio e, depois de 1959, à televisão, abrindo pequenos espaços para a música e o teatro locais. É o caso de Onde...ando (1949 até meados da década de 1950), inicialmente uma coluna assinada por Dinarte Armando em O Craque, publicação criada pelo tipógrafo Marcely Conceição; da Revista TV (novembro de 1954 a novembro de 1960), de propriedade do jornalista Raul Quevedo, mas, em seguida, adquirida pelo seu diretor comercial, José Braz de Oliveira; e de Radial (novembro de 1963 a março de 1965), de José Ribeiro Fontes, boletim que, a partir do seu segundo número, já se transforma em uma pequena revista. Outras – como O Rouxinol e A Serenata – têm por tema básico a música, enfocando, vez por outra, as atrações das emissoras de Porto Alegre.

Capa da primeira edição da Revista TV (novembro de 1954)
Na capa deste primeiro número da Revista TV, aparece Luely Figueiró, cantora da Gaúcha e escolhida, tempos depois, rainha do rádio daquele ano no concurso organizado pela Casa do Artista Rio-grandense.
Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.

De todas estas publicações, os dados existentes indicam que, apesar dos problemas de circulação, a mais importante para o delineamento de um star-system à moda gaúcha é a Revista TV. A escolha do título antecipa o início das operações das primeiras emissoras de televisão em Porto Alegre, coincidindo com as articulações neste sentido que ocorrem em meados da década de 50. O atraso daquilo que parecia eminente, no entanto, faz com que Braz de Oliveira trace outras estratégias para a publicação:

Por que Revista TV? Nós preparávamos o lançamento da televisão em Porto Alegre. (...) o Raul Quevedo resolveu botar uma publicação, a Revista TV, que já fazia a preparação para quando chegasse a televisão, mas, antes disto, como nós não tínhamos televisão, nós fazíamos os concursos: Melhores do Rádio, O Mais Simpático, A Mais Simpática, A Mais Bela Voz, o melhor disso e daquilo.

De periodicidade mensal raramente cumprida e com tiragem de 2 mil a 3 mil exemplares, a Revista TV vai promover vários concursos, alguns não durando mais do que a intenção de realizá-los, manifestada em um número e esquecida na edição seguinte. Um deles, no entanto, ganha repercussão na imprensa, nas próprias emissoras e junto aos ouvintes. É o Melhores do Rádio, que, de 1955 a 1959, aponta os vencedores em diversas categorias, de início escolhidos pelo público por meio de cupons publicados pela revista e, mais tarde, por jornalistas especializados. O principal prêmio – o de radialista do ano – vai para o profissional de maior destaque nas estações locais.

Radialistas do ano do concurso Melhores do Rádio (1955-1959)
Fonte: Coleção Revista TV, 1955-1960.

O ponto máximo do concurso acontece na entrega dos prêmios, divulgada à exaustão pelas emissoras. Desta forma, em 1° de maio de 1959, a Revista TV atrai um bom público para o Cinema Castelo, na avenida Azenha, trazendo a Porto Alegre César de Alencar, da Nacional, do Rio de Janeiro, o mais popular animador do país na época. Na edição do ano seguinte, o Melhores do Rádio ocupa o mais importante palco do estado, o do Theatro São Pedro. Marcando, então, o apogeu do evento, as festividades, realizadas em fevereiro de 1960, também envolvem o programa Vesperal Farroupilha, no Auditório Associado, e um baile na Sociedade de Ginástica Porto Alegre (Sogipa).

Folheto de divulgação do Melhores do Rádio 1959 (fevereiro de 1960)
Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.

José Braz de Oliveira
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 12 de julho de 2001.

Antes da promoção da Revista TV, a Casa do Artista Rio-grandense também chega a organizar um prêmio anual entregue aos melhores do rádio e do teatro do Rio Grande do Sul. A exemplo do que ocorre no centro do país, a entidade, sob a presidência de Cândido Norberto, promove, ainda, a escolha da Rainha do Rádio, premiando, entre outras, as cantoras Luely Figueiró (1954), Maria Helena Andrade (1955) e Cândida Rosa (1956).

Neste clima de valorização dos artistas locais, talvez incentivado pelo reaquecimento do mercado de radiodifusão após a crise gerada em agosto de 1954, há uma tentativa de constituição de fã-clubes em torno das principais cantoras das emissoras porto-alegrenses, coincidentemente as mesmas que disputam os votos dos ouvintes no concurso Rainha do Rádio. Por exemplo, Maria Helena Andrade, a vencedora de 1955, possui o seu. O de Noêmia Selva, “a canção feita mulher”, princesa na edição de 1954, chega a reunir 70 pessoas. De sua parte, as estações incentivam o assédio do público, enviando fotografias do seu elenco e flâmulas pelo correio a quem solicitar.

No Rio Grande do Sul, no entanto, não existe nada que se compare ao ardoroso assédio dos fãs em torno da rivalidade, criada e incentivada pela Revista do Rádio, entre as cantoras Emilinha Borba, estrela do Programa César de Alencar, e Marlene, sua contraparte do Programa Manoel Barcelos, ambos na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Há, no entanto, uma semelhança: o espaço por excelência da versão gaúcha do star-system é também o dos programas de auditório, concentrado, no caso de Porto Alegre, em torno de três animadores: Ary Rêgo, Maurício Sobrinho e José Salimen Júnior.

O primeiro deles, Ary Rêgo, da Rádio Farroupilha, conduz três programas, em que se faz presente a ideia do sucesso ao alcance de todos na figura do artista iniciante, o calouro. No Clube do Guri, apresentam-se crianças de até 12 ou 13 anos. É nele que surge Elis Regina, uma das maiores cantoras da história da música brasileira. Já no Colégio Musical, voltado a adolescentes, aparece Lourdes Rodrigues, grande intérprete das canções de Lupicínio Rodrigues. Ary Rêgo também faz a animação da etapa local do Voz de Ouro ABC, concurso no qual Edgar Pozzer, mais tarde crooner do Conjunto Melódico Norberto Baldauf, fica em segundo lugar na fase final realizada na Rádio Tupi, de São Paulo. Já pelo Programa Maurício Sobrinho, como antes acontece com o Tômbola Musical, ambos apresentados na PRH-2 pelo futuro diretor da Gaúcha, e, depois, com o Vesperal Farroupilha, de José Salimen Júnior, passam, a cada final de semana, os principais cartazes do rádio brasileiro. Cantores e cantoras do centro do país têm suas apresentações antecedidas de sucessivos anúncios no Diário de Notícias e, ainda, participam de outros programas, como o Rádio Sequência, amplificando o interesse dos ouvintes.

Pelo lado da encenação ficcional, o impacto de algumas novelas – em especial, as do horário noturno – é de tal ordem que a Farroupilha apresenta o último capítulo no Auditório Associado, em Porto Alegre, ou, conforme promoções baseadas na quantidade de cartas enviadas desta ou daquela cidade, em cinemas do interior do estado. Nesta vertente do espetáculo, fazer parte do universo radiofônico atrai, ainda, pessoas para iniciativas como as escolas de radioteatro. A Farroupilha chega a organizar a sua. Alguns profissionais fazem o mesmo. É o caso da Escola Mário Hornes de Rádio, Teatro e Cinema, inaugurada em 1953, ou de uma iniciativa semelhante do ator e diretor Túlio Amaral, fundada em 1956.

Ao longo da década de 1960, o espetáculo eletrônico concentra-se no Rio de Janeiro e em São Paulo, deixando para trás os tempos do star-system à gaúcha, aquele que é atiçado pelas emissoras de rádio e pela imprensa, se esboça, se esboça, e, por fim, desaparece do imaginário do público, sem ter existido, concretamente, em toda a sua potencialidade.

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