Roberto Lis e os Serões da Dona Generosa
2007
 Luiz Artur Ferraretto

A desaprovação familiar rebatizou Erico de Carvalho Cramer, mas não mudou a sua firme decisão de enveredar pelo caminho da vida artística, muito malvista pela sociedade dos anos 1930. Com alguma experiência como amador em Rio Grande, município onde nasceu, o futuro escritor, ator e diretor, então segundo secretário do Tribunal de Contas do Estado em Porto Alegre, recebeu com alegria a notícia de que havia sido aceito para integrar a Companhia Teatral Dulcina-Odilon, uma das principais do país.

Roberto Lis (1942)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 14, n. 325, p. 18, 22 ago. 1942.

A reação dos Carvalho Cramer veio de hidroavião, meio mais rápido na época para cobrir os 330 km que separam Porto Alegre da cidade da Zona Sul do estado. A bordo, o pai Gustavo Torres Cramer trazia duas cartas.

– Minha mãe me mandava pedir para que não lhe desse o primeiro desgosto e minha avó, para que eu esperasse o seu desaparecimento antes de misturar o nome ilustre da sua família ao da família do teatro – relembraria Erico Cramer nos anos 1970, em depoimento ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

A preocupação com a reputação familiar faz nascer Roberto Lis, nome com o qual Erico assina seus trabalhos até se transferir para a televisão – no caso, a TV Piratini, canal 5, de Porto Alegre – no final dos anos 1950. A estreia ao microfone, ainda como Erico Cramer, ocorre em outubro de 1935, na Rádio Sociedade Gaúcha. Dois anos depois, recebe um convite do diretor artístico da Difusora, Nelson Lanza, para organizar o radioteatro da emissora. Assim, já com o pseudônimo Roberto Lis, começa a trabalhar em 22 de outubro de 1937, dividindo sketches com Carmen de Alencar. Cinco dias depois, nas comemorações do aniversário da PRF-9, estreavam as cômicas situações vividas por um grupo de moradores do bairro Cidade Baixa, no qual despontava a “agressiva e fiasquenta Dona Generosa”, como o próprio Cramer definia sua criação mais conhecida.


Erico Cramer (1976)
8 de julho de 1976
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa

Entre os scripts do acervo particular de Cramer doados ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, existe um, sem data, que pode ser do primeiro ou de um dos primeiros programas. Na abertura do texto, encimada pela denominação Um Serão na Dona Generosa seguida da expressão “um programa de Roberto Lis”, há uma extensa descrição do ambiente em que os personagens interagem, como se lá estivesse a título de introdução:

AMBIENTE: A sala de visitas da casa de Dona Generosa numa acanhada rua da Cidade Baixa. Sofá e cadeiras antigas, forradas de veludo e cobertas com capas de brim branco engomado. Um antigo piano Gaveau cor de castanha escura ocupa a parede principal da sala, ostentando os seus castiçais de ferro, escuros e desconjuntados. Das paredes de cor indefinida, onde de longe em longe uma mancha azulada nos deixa perceber que foi o azul a cor de sua última caiação, pendem os retratos gigantescos dos pais de Dona Generosa feitos a crayon e circundados de espalhafatosas molduras. Nas duas janelas da frente, cortinas de crochet feitas com fio de pavio, e nas portas que dão acesso para o corredor e o quarto de Dona Generosa, reposteiros de pedacinhos de taquara da Índia, tintos de verde e amarelo. Cobrindo o soalho, um velho tapete de veludo vermelho onde mal se adivinha, sobre os cantos, o seu primitivo desenho. Lustre de antigas mangas de vidro incolor, com ligeiros vestígios de pingentes. Colunas com guardanapos bordados e sobre elas solitários de vidro verde com lírios e rosas de papel crepom. Sobre o chão e as cadeiras, surradíssimas almofadas de crochet e cetineta pintada a óleo.
No mesmo roteiro, aparece uma situação que se tornaria quase um bordão do programa: os insistentes pedidos pelo cafezinho que Dona Generosa – muito mão de vaca, como se dizia na época – evitava sempre servir aos convidados.

Tudinha
Mamãe, o café está servido. Tratem de passar duma vez pra sala de jantar antes que ele esfrie ou caia alguma mosca (uma pausa grande de absoluto silêncio)
Generosa
Vamos passar para a sala de jantar? O café está servido.
Licurgo
(após uma pausa) Podemos passar mesmo, Dona Generosa?
Generosa
Claro que sim. Vamos, passem. O que é que estão esperando?
Licurgo
Mas o café está mesmo servido, Dona Generosa? Não será rebate falso?
Generosa
(rindo) Ora, Seu Licurgo, que ideia!… Esse seu Licurgo, sempre brincalhão. Sempre blaguer. (risos) Vamos, passem. (todos se afastam conversando)
Licurgo
Minha Nossa Senhora dos Recém-nascidos!… O que estará para acontecer!… Parece que desta vez o café vai sair mesmo!…
(Cortina Musical)
Como Erico Cramer gostava de relembrar, a sovinice da Dona Generosa convencia tanto que os ouvintes tentavam, à sua maneira, aliviar a situação de penúria dos amigos e vizinhos participantes dos serões radiofônicos transmitidos nas quartas-feiras à noite:

– Eu me lembro que nós recebíamos muitos presentes. Saíamos carregados nas quartas-feiras. Era café, porque faltava café na casa da Dona Generosa. Então o pessoal mandava café, bolos… Afinal, nos aniversários dela, para economizar, os bolos eram alugados.

Serões da Dona Generosa passou pelas três emissoras de Porto Alegre existentes na época – Difusora, Gaúcha e Farroupilha. No início, ia ao ar às 20h30, depois às 21h30, sempre às quartas. Com o tempo e graças ao sucesso obtido, de 30 minutos passou a uma hora de duração. No programa, o autor pretendia refletir “o próprio espírito da cidade”, mas conseguiu bem mais do que isto. Embora o enredo se esgotasse em cada episódio, havia uma continuidade na semana seguinte, constituindo-se na primeira narrativa seriada do rádio do Rio Grande do Sul. Roberto Lis lançava, assim, as bases da novela, gênero em que seria, anos mais tarde, também o pioneiro no estado.

Carmen de Alencar, a Dona Generosa (1942)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 14, n. 325, p. 18, 22 ago. 1942.

Ao longo dos 11 anos em que Serões da Dona Generosa permanece no ar, o rumo da narrativa altera-se, muitas vezes, como consequência do afastamento de atores e atrizes do elenco. No entanto, o principal papel é sempre interpretado por Carmen de Alencar, pseudônimo de Odete Carmen Becker, que pegou o sobrenome artístico emprestado de Iracema de Alencar, sua tia, atriz conhecida então nacionalmente. De sua interpretação dependia tanto o sucesso do programa que, quando ela decide se casar, em 1948, deixando o rádio, Roberto Lis põe um fim à trajetória da Dona Generosa e de seus vizinhos e amigos.





Reconstituição de Serões da Dona Generosa (1977)
Fonte: RÁDIO DIFUSORA PORTO-ALEGRENSE. Opinião Pública. Porto Alegre, 26 set. 1977. Programa de rádio.

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