1950: o silêncio do Maracanã no microfone das emissoras de Porto Alegre
2006
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1950 (1950)

Quando, aos 33 minutos do segundo tempo, o goleiro Barbosa sai da meta na expectativa de que Ghigia vá cruzar para outro jogador uruguaio, o Estádio do Maracanã lotado segura a respiração, para segundos depois ver o resultado de um chute direto do ponteiro, quase sem ângulo e em diagonal, transformar-se na derrota do Brasil por 2 a 1, na tarde de domingo, 16 de julho de 1950. A euforia dá lugar, assim, à perplexidade no mesmo dia em que, pela manhã, as manchetes dos jornais do Rio de Janeiro, à época capital federal, já previam a conquista do título, inédito para o país, de campeão mundial de futebol. De seu posto, observando a torcida majoritariamente verde-amarela e o gramado onde o desempenho das equipes dá vantagem ao adversário, o narrador da Rádio Gaúcha, Cândido Norberto Santos, tem a sua frente aquilo que vai guardar na memória como o “silêncio mais ensurdecedor” de toda a sua carreira.

A Copa do Mundo de 1950 chega ao fim, deste modo, como uma espécie de tragédia nacional, relembrada no futuro, a cada quatro anos, pelos programas especiais de rádio que antecedem a disputa desta competição organizada, periodicamente, pela Fédération Internationale de Football Association (Fifa). Meses antes do certame em território brasileiro, mobilizam-se as emissoras de Porto Alegre, até porque a cidade vai sediar, no Estádio dos Eucaliptos, do Sport Club Internacional, os jogos das seleções da Iugoslávia, México e Suíça. Nas transmissões, destacam-se Cândido Norberto e Guilherme Sibemberg, pela PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha, e Antonio Mafuz, Leonel Silveira e Rafael Merolillo, do lado da PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense. Para a viabilização técnica das irradiações do centro do país, são firmados, na época, acordos com outras estações. A Gaúcha utiliza as ondas curtas da Nacional, do Rio de Janeiro, e a Difusora, como integrante dos Diários e Emissoras Associados, faz o mesmo com a Tupi, de São Paulo. É, portanto, a primeira cobertura esportiva de larga escala a mobilizar o rádio do estado. Mobilização que, a garantir comercialmente o trabalho realizado, envolve também os anunciantes, como neste exemplo recuperado por Jamile Dalpiaz, em O futebol no rádio de Porto Alegre, sua dissertação de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul:

Havia [...] concursos envolvendo patrocínios, que aproximavam os torcedores à mídia impressa e à radiofônica, como o Melhoral dos Cracks de 1950. Tratava-se de um concurso no qual torcedores escolhiam seus craques e, naquele ano de Copa, a fim de estimular seus votantes, a The Sydney Ross Company, idealizadora do concurso, resolveu distribuir ingressos para jogos da Copa que seriam realizados em Porto Alegre. Os ouvintes, após depositarem seus votos em urnas espalhadas pela cidade e ligarem seus receptores nos programas Melhoral dos Cracks e No Mundo da Bola irradiados, respectivamente, pelas emissoras Gaúcha e Difusora, ouviriam os nomes dos contemplados.

Em fins da década de 1940 e início dos anos 1950, é a Gaúcha que lidera em termos de cobertura esportiva, conforme admitem inclusive profissionais como Antonio Mafuz e Rafael Merolillo, então na Difusora, principal concorrente da PRC-2 nesta área. A Farroupilha, por sua vez, pertencendo, como a PRF-9, aos Associados, de Assis Chateaubriand, dedica-se ao espetáculo das novelas, humorísticos e programas de auditório, abrindo poucos espaços para este tipo de conteúdo, ao qual a Gaúcha também faz frente. Nos anos seguintes, a PRH-2 mantém, na realidade, a mesma estratégia verificada até então: transmissão de competições esportivas somente em casos muito especiais, condicionada à existência de um bom patrocinador e desde que não seja prejudicada a programação voltada ao entretenimento.

De fato, a Gaúcha registra até o início dos anos 1950 uma série de pioneirismos em termos de rádio esportivo no estado. Em 19 de novembro de 1931, Ernani Ruschel, pelo microfone da emissora, então utilizando o prefixo PRAG, irradia pela primeira vez um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, descrevendo, do Estádio da Baixada, a vitória do Grêmio Foot-ball Porto-alegrense por 3 a 1 frente à Seleção do Paraná. Por coincidência, em meados da década seguinte, no ano de 1944, é o combinado paranaense que a Seleção do Rio Grande do Sul enfrenta em Curitiba, perdendo por 3 a 1, com a já PRC-2 realizando, na voz de Farid Germano, a pioneira transmissão esportiva interestadual. A estação vai ser também a primeira a cobrir um jogo no exterior, o que ocorre em 14 de maio de 1949, com Cândido Norberto ao microfone, narrando do Estádio Centenário, em Montevidéu, a vitória por 3 a 1 do Grêmio frente ao Club Nacional de Football.

Neste contexto, a Copa de 1950 serve para começar a consolidação no Rio Grande do Sul da dobradinha rádio e futebol, útil à sobrevivência, até hoje, tanto de uma quanto de outra parte.

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