Flávio, Maurício e a chegada do Papai Noel
2008
Luiz Artur Ferraretto

O Papai Noel chega a Porto Alegre, com toda a pompa e circunstância devidas, em uma tarde de sábado, dia 17 de dezembro de 1955. Vem descendo das nuvens em plena Redenção, o mais emblemático e democrático dos parques da capital gaúcha. Tão democrático que ladeia a avenida Osvaldo Aranha, nos lados do Bonfim, o bairro dos judeus e, em um ângulo reto, pela José Bonifácio, os espaços deixados pelas copas das árvores permitem entrever as torres de duas igrejas católicas. O bom velhinho acena, sorriso aberto – Ho! Ho! Ho! – e traje impecável, escolhido a dedo por Vicente Rao, o eterno Rei Momo da cidade, que, neste final de semana, empresta corpo e performance a este símbolo natalino. O trenó paira no céu, por instantes, algo estatal: um helicóptero do governo do Rio Grande do Sul. As renas são hélices a girar numa brisa crescendo em vento, em ventania. Crianças há em grande número, sejam elas de famílias cristãs, judaicas, agnósticas, descrentes... seja lá o que pensam ou acreditam. Chegam a 50 mil na estimativa da Folha da Tarde, parceira da promoção. E, graças aos microfones da Rádio Difusora Porto-alegrense, a festa espraia-se, horizonte hertziano ao longe. Satisfeitos, um católico e um judeu esfregam as mãos. São dois dos mais inventivos – e espertos – profissionais de comunicação do estado: Flávio Alcaraz Gomes e Maurício Sirotsky Sobrinho.

Aquela festa em que Vicente Rao desponta em meio à gurizada envolve, de fato, um dos mais lucrativos negócios em termos de promoção da época. A ideia de Flávio, como ele mesmo lembra em suas memórias, tinha sido, rapidamente, encampada por Maurício, que sugeriu um patrocinador, a Walgás, o novo gás de cozinha há pouco lançado no mercado para concorrer com outras marcas já tradicionais. O total dos custos estimado pela dupla: 20 mil cruzeiros.

– Vendemos por 30 mil e ganhamos 5 mil cada um – Pensaram de início os dois.

Com tal disposição, foram ao diretor da Walgás:

– Imagine, doutor Hercílio. Papai Noel descendo dos céus e materializando o sonho da criança que vive em cada um de nós, enquanto em coro os meninos cantam Noite Feliz...

– Que maravilha, que maravilha! E quanto custa? – Pergunta o empresário quase em êxtase para Flávio, numa inspiração monetariamente divina, responder:

– Cem mil cruzeiros, doutor.

Maurício, em choque, chega a empalidecer – “Porra, mais de três vezes o combinado!” –, mas os prós em relação aos contras contam mais e o doutor Hercílio põe fim àqueles segundos de aflição, dando um murro na mesa:

– Negócio fechado!

Resultado final: 40 mil cruzeiros no bolso de Flávio e 40 mil cruzeiros no de Maurício. Para cada um, o dobro do gasto na brincadeira toda.

Flávio Alcaraz Gomes (7 de dezembro de 2004)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
Fonte: Acervo particular.

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