A Rádio Gaúcha, a Cirei S.A. e o governo Vargas
2013
Luiz Artur Ferraretto

“A maior transação comercial em matéria de rádio de que se tem conhecimento no sul do país.” Assim, um texto de nítido caráter publicitário define, em outubro de 1951, na Revista do Globo, a transação em que a PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha passa para o controle da Comercial, Industrial, Representações, Exportações e Importações S.A. (Cirei) e na qual, comenta-se, há o dedo de João Belchior Marques Goulart, o Jango, então deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro. O poder econômico da composição acionária restante pode ser atestado pelo valor total do negócio: Cr$ 15 milhões (15 milhões de cruzeiros, a moeda da época), uma pequena fortuna. Deste modo, os herdeiros de Arthur Pizzoli, falecido em 1949, cedem sua participação na sociedade, permanecendo na empresa apenas Breno Martins Futuro, um dos genros do empresário. Como pivô das relações econômicas e políticas que vão se estabelecer a partir daí, está o novo presidente da PRC-2, Sylvio Mottola, também diretor da Cirei e um getulista convicto, de livre trânsito no Palácio do Catete, a então sede do Poder Executivo na capital federal, o Rio de Janeiro.

Antes da negociação, na virada da década, a Gaúcha já vinha enfrentando bem a sua principal concorrente, a Farroupilha, de onde o diretor artístico da PRC-2, Cândido Norberto Santos, contrata Walter Ferreira e Adroaldo Guerra. Em 1948, o trio divide os papéis principais de Os Três Homens Maus, novela de Raymundo Lopes, que faz grande sucesso junto ao público. De segunda a sexta, das 20 às 21h, outro trunfo da emissora, no final dos anos 40, é o programa Tapete Mágico, dividido em três partes: um capítulo diário de novela com meia hora de duração; o comentário Pensando em Voz Alta, apresentando as opiniões do próprio Cândido; e o humorístico Corta Tesourinha, no qual um alfaiate de origem alemã conversa com amigos e fregueses, em uma crítica social sempre marcada pelo bordão que dá nome à atração e serve para interromper as opiniões satíricas mais fortes. A PRC-2 investe, ainda, em uma área pouco explorada pela Farroupilha: as transmissões de futebol, graças ao patrocínio exclusivo da Cervejaria Brahma, que, em 1946, havia se instalado no estado, após comprar uma das principais empresas do setor no Rio Grande do Sul – a Continental.

Desde 1950, a Gaúcha possui também as melhores instalações para radiodifusão do estado. A emissora inaugurara, no 11° andar do Edifício União, um auditório com 660 m² e 237 lugares. Seguindo um cuidadoso projeto do engenheiro Homero Carlos Simon, superfícies poliédricas e um revestimento em celotex acústico garantem uma qualidade sonora nunca antes verificada na capital. As novas instalações incluem salas de locução, controle técnico e ensaios, além de abrigarem a redação e o Departamento Comercial. Um pouco antes, a PRC-2 comemora um feito em termos de audiência. Ouvindo 600 famílias, distribuídas igualmente entre as classes A, B e C, o Anuário de Rádio, da revista Publicidade e Negócios, do Rio de Janeiro, registra a liderança da emissora em Porto Alegre: 37,3% dos ouvintes contra 33,3% da Farroupilha.

É possível supor, por estes motivos, que os envolvidos na transação realizada em 1951 tinham consciência do potencial da Gaúcha frente à Farroupilha. Em especial, isto fica claro ao se observar que a concorrente servia, por sua vez, de instrumento na defesa dos interesses de Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários e Emissoras Associados e forte opositor de Getúlio Vargas, o presidente da República então a ponto de completar o primeiro ano do seu mandato.

Os donos da Cirei, de sua parte, veem no negócio a possibilidade de enfrentar uma série de denúncias publicadas pela imprensa do centro do país – em especial, pelo Diário Carioca, do Rio de Janeiro –, envolvendo a importação de automóveis e caminhões Dodge. Ottoni Câmara Arregui, um dos sócios minoritários e, por coincidência, advogado responsável pelo inventário de Arthur Foltran de Pizzoli, convence Otto Hazelof, idealizador e controlador da empresa, a participar da transação. Para comandar a Gaúcha, escolhem outro diretor da Cirei, Sylvio Mottola, amigo de Getúlio Vargas e, por extensão, próximo também do então deputado federal João Goulart. A família de Mottola tem, ainda, fortes laços com Oswaldo Aranha, que, em 1953, volta a ocupar o Ministério da Fazenda, por onde passara nos anos 1930.

Sylvio Mottola, presidente da Rádio Gaúcha (1951)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 23, n. 545, p. 86, 13 out. 1951.

Deste modo, através do novo presidente da PRC-2, entram em cena, mais diretamente, os interesses dos trabalhistas. Fernando Mottola, filho do ex-diretor da Cirei, explica como ocorreu a inserção da Gaúcha na esfera de influência do governo:

[...] houve um momento [...], quando o Getúlio voltou para o segundo governo, eleito, em que o grupo que cercava o presidente, especialmente o Jango, achava importante ter uma rádio no Sul para difundir as ideias do governo e dar sustentação ao governo. Isso foi o que gerou a compra da Rádio Gaúcha. Quando souberam que a Gaúcha estava para ser vendida, eles compraram a rádio com essa finalidade. O pai foi não o intermediário, mas o homem escolhido para dirigir esse empreendimento. Foi quem articulou a negociação e assumiu a compra, porque, na verdade, ele não iria pagar o negócio. O dinheiro era providenciado por esse grupo.
Antes do negócio, Breno Futuro dividia o controle da empresa com a viúva e os outros dois genros de Arthur Pizzoli e buscava um empréstimo para adquirir as cotas dos demais sócios. O então deputado federal João Goulart faz o primeiro contato em uma visita a Mostardas, no litoral do Rio Grande do Sul, município governado pelo PTB e cujo prefeito, Dario Futuro, é irmão de Breno. Na evolução das tratativas, ingressa a Cirei S.A.. Para efetivar a negociação, uma parte do dinheiro – Cr$ 3 milhões – vem de um empréstimo do Banco da Província. Breno Futuro conta como o restante – Cr$ 15 milhões – foi obtido junto ao Banco do Brasil:

A Cirei assumiu a responsabilidade daqueles títulos no Banco da Província. Eu, que não ia me desfazer da minha parte, já estava entrosado com eles e fui enviado ao Rio de Janeiro. O Jango me pediu que entrasse em contato com o doutor Getúlio Vargas, então presidente da República, para justificar um empréstimo no Banco do Brasil a fim de adquirir as cotas da Rádio Gaúcha. No Rio, procurei o Jango na Câmara dos Deputados. Ele me disse para ir para Petrópolis, onde o doutor Getúlio estava despachando. O encontro já tinha sido agendado com o doutor Getúlio pelo Jango. Conversar com o doutor Getúlio era só para ele tomar ciência do que estávamos fazendo. [...] Prontamente, ele autorizou a transação. Levantamos este dinheiro e foi efetivado o negócio.
Na época, proximidade com o governo significa, também, proximidade com a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, emissora encampada por ordem do mesmo Getúlio Vargas nos tempos do Estado Novo. Como consequência, artistas do elenco da principal estação brasileira passam a frequentar a programação da Gaúcha. Graças ao livre trânsito no governo federal, a Gaúcha obtém, no Ministério da Viação e Obras Públicas, a concessão de canais de ondas curtas e a autorização para ampliar sua potência para 10 kW. Em julho de 1952, quando a PRC-2 aumenta a abrangência do seu sinal, irradiando nas faixas de 31 e 49 metros, uma caravana da Nacional, comandada pelo diretor artístico da emissora carioca, Edmundo Souza, vem a Porto Alegre, trazendo, entre outros, Francisco Alves, um dos mais populares cantores do país.

Em 1954, no auge desta situação de proximidade com o trabalhismo, a Rádio Sociedade Gaúcha conta com um elenco de radioteatro com 36 profissionais e uma orquestra com 18 músicos. A emissora possui, ainda, 60 mil discos, além de equipamentos de frequência modulada para transmissões externas. Quando, no dia 24 de agosto, irrompe a fúria popular após o suicídio do presidente, a PRC-2, repetindo incessantemente a carta-testamento, é poupada pela multidão, enquanto as instalações da Farroupilha são destruídas. Naquele momento, parece que a Gaúcha tem plenas condições de dominar o mercado. Ocorre que, no dia seguinte ao suicídio de Getúlio Vargas, o PTB rompe com o novo presidente da República, João Café Filho, do Partido Social Progressista, decidindo fazer oposição ao novo governo por considerá-lo reacionário e inimigo dos trabalhadores. A partir de então, falta o apoio oficial e começam as dificuldades para o resgate dos títulos junto ao Banco do Brasil.

Um dos últimos lances do que havia sido planejado inicialmente por uma parte dos sócios ocorre em 30 de outubro de 1956, quando é constituída a Indústria de Veículos Automotores Cirei S.A. (Ivacirei), tendo Ottoni Câmara Arregui na direção e pretendendo instalar no Rio Grande do Sul uma fábrica com capacidade para produzir 30 mil veículos. O acordo com a empresa francesa Régie Nationale des Usines, a Renault, acaba, tempos depois, sendo cancelado, sepultando os planos dos pioneiros da indústria automobilística do estado. Como consequência, com a reversão dos interesses políticos e econômicos envolvidos na origem do negócio, os sócios vão vender a Gaúcha, em meados de 1957, para o grupo integrado por Arnaldo Ballvé, Frederico Arnaldo Ballvé, Maurício Sirotsky Sobrinho e Nestor Rizzo.

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