Glênio Peres e a guerrilha de Che Guevara
2007
Luiz Artur Ferraretto

Glênio Peres na entrega do Prêmio ARI (1967)

Da esquerda para a direita, Glênio Peres, Francisco Brochado da Rocha e Alberto André.
Fonte: ASSOCIAÇÃO RIO-GRANDENSE DE IMPRENSA. Prêmio ARI de Jornalismo – 46 anos de história. Porto Alegre, 2005. p. 23.

Já faz uns anos, não sei se durante um dos fóruns mundiais que trouxeram centenas de militantes de esquerda à capital do Rio Grande do Sul. Era um tempo ainda de uma esquerda melhor definida, sem que suas ideias fossem desbotadas pelas benesses de ser o poder. Foi no centro de Porto Alegre em uma caminhada apressada. Ao olhar para o chão, vi por acaso uma carteira de cigarros. Era chilena, produzida sob licença de La Tabacalera Central S.A., uma empresa paraguaia. Na embalagem box, acima a fotografia estilizada – famosa – capturada por Alberto Korda, abaixo a marca El Che – Ultralights. Lembrei desta curiosidade, semanas atrás, quando alguns jornais estamparam a mesma carteira como um lançamento comemorativo aos 40 anos da execução do comandante argentino-cubano na Bolívia. Coisa curiosa, mais uma das tantas notícias algo apressadas a respeito de Ernesto Che Guevara e de seu legado. Encontrar a velha carteira de seis, sete anos atrás, como uma novidade para os meios de comunicação, me fez recordar a coincidência do local onde este pequeno objeto da sociedade de consumo chegou às minhas mãos: o Largo Glênio Peres. Logo ali, onde a cidade homenageia o jornalista, político e escritor que, também há quatro décadas, esteve cobrindo a tentativa de fazer, da América Latina, um, dois, três, mil Vietnãs. Para a Gaúcha, garantiria com o trabalho o segundo lugar na categoria rádio do prêmio anual concedido pela Associação Rio-grandense de Imprensa.

Na Bolívia, já homem de esquerda, Peres acompanhou a prisão e o julgamento do filósofo francês Regis Debray, na época um fervoroso defensor da teoria do foco guerrilheiro. Há duas décadas, lembraria a cobertura da guerrilha em depoimento ao então Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Porto Alegre:

– A montagem desta cobertura foi penosa. Tivemos inúmeros problemas com as autoridades. E chegamos a ser presos. Entramos na Bolívia de forma ilegal, usando vários artifícios. A primeira entrevista foi com a mãe de Regis Debray, que localizamos em La Paz e que também procurava um meio de chegar ao interior da Bolívia, onde se desenvolvia o julgamento. Entrevistamos também o general Renê Barrientos. E foi a partir da cobertura desse acontecimento que, posteriormente, tivemos condições de chegar ao local onde morreu Che Guevara. Durante o julgamento, tivemos a informação de que as forças bolivianas apoiadas por soldados norte-americanos haviam cercado um grupo guerrilheiro. Eu tive oportunidade de ver de perto as forças norte-americanas. A informação do cerco do grupo guerrilheiro abalou bastante Regis Debray, que a partir desse fato passou a admitir sua participação na guerrilha. Cheguei ao local da morte, mas não foi possível ver seu corpo.

Tudo isto em um momento muito difícil para a cobertura jornalística em terras brasileiras, os tempos da ditadura militar, o mesmo regime que acabaria caçando o mandato de Peres como vereador do Movimento Democrático Brasileiro um pouco antes da declaração reproduzida acima.

Caderno de Notícias, de Glênio Peres (1978)
Fonte: Acervo particular.

Se não ficaram registros gravados do trabalho de Glênio Peres na Bolívia, restam alguns poemas que o jornalista deixou publicados no livro Caderno de Notícias. Um deles recorda a entrevista com Barrientos, o general-presidente que ordenara a morte de Guevara. Lembra ainda da memória que fica do algoz e de sua vítima. Do militar que, em conluio ou não com o governo dos Estados Unidos, decide pela rajada de metralhadora de um tal Mario Terán em direção ao prisioneiro, a memória de um Barrientos que, tempo depois, explode em voo de helicóptero. “Quem dá mais?”, pergunta, ainda, Glênio no título das suas estrofes e continua:

No Palácio Quemado
de La Paz
Barrientos me disse:
– Dou cinquenta mil dólares
pela cabeça de Guevara.

Fracassou o negócio
porque ninguém dedou o Che
embora os rangers do Norte
tenham mostrado o caminho para Higueras.

Um helicóptero levou Barrientos
para o Inferno
e mataram Che Guevara
em uma escola de Ñancauazu.

Em matéria de negócios te pergunto?
– Quanto vale a memória de Guevara
e quem se lembra que Barrientos existiu?

E só para seguir na linha de raciocínio de Peres, a das ironias e coincidências da memória a reger meu texto, há que reproduzir uma notícia do jornal cubano Granma. É do dia 29 de setembro deste 2007 e serve de fecho a um artigo, algo fora do rádio, mas redigido neste dia 8 de outubro, quando, contra ou a favor, muitos recordam de Ernesto Guevara de La Serna:

Che vuelve a ganar otro combate
Héctor Arturo
Lean bien este nombre: Mario Terán. Mañana nadie lo recordará, como ya le ocurrió hace cuatro décadas, cuando lo convirtieron en noticia. Pero ahora solo les pido que al menos por un instante graben bien este nombre en las memorias, para que nadie olvide y todos juzguemos.
El hijo de este señor se presentó en el periódico El Deber, de Santa Cruz, en Bolivia, con el ruego de que publicaran una nota de agradecimiento a los médicos cubanos que habían devuelto la vista a su anciano padre, tras intervenirlo quirúrgicamente de cataratas, mediante la Operación Milagro, un verdadero milagro.
El padre de este boliviano agradecido es Mario Terán. A los que tenemos más edad, puede que el nombre nos suene a haberlo escuchado antes. Los jóvenes quizás jamás hayan oído hablar de él. 
Mario Terán fue el suboficial que asesinó al Comandante Ernesto Che Guevara el 9 de octubre de 1967, en la escuelita de La Higuera. 
Al recibir la orden de sus jefes, tuvo que acudir al alcohol para llenarse de valor y poder cumplirla. Él mismo narró después a la prensa que temblaba como una hoja ante aquel hombre a quien en aquel momento vio ‘grande, muy grande, enorme’.
Che, herido y desarmado, sentado en el piso de tierra de la humilde escuelita, lo observó vacilante y temeroso, y tuvo todo el coraje que le faltaba a su asesino para abrirse la raída camisa verdeolivo, descubrirse el pecho y gritarle: ‘No tiembles más y dispara aquí, que vas a matar a un hombre…’
El suboficial Mario Terán, cumpliendo órdenes de los generales René Barrientos y Alfredo Ovando, de la Casa Blanca y de la CIA, disparó sin saber que las heridas mortales abrían huecos junto a aquel corazón para que continuara marcando la hora de los hornos.
Che ni siquiera cerró sus ojos después de muerto, para seguir acusando a su asesino.
Mario Terán, ahora, no tuvo que pagar un solo centavo por haber sido operado de cataratas por médicos cubanos en un hospital donado por Cuba e inaugurado por el presidente Evo Morales, en Santa Cruz.
Anciano ya, podrá volver a apreciar los colores del cielo y de la selva, disfrutar la sonrisa de sus nietos y presenciar partidos de fútbol. Pero seguramente jamás será capaz de ver la diferencia entre las ideas que lo llevaron a asesinar a un hombre a sangre fría y las de este hombre, que ordenaba a los médicos de su guerrilla que atendieran por igual a sus compañeros de armas que a los soldados enemigos heridos, como siempre lo hicieron en Bolivia, al igual que antes lo había hecho en las montañas de la Sierra Maestra, por órdenes estrictas del Comandante en Jefe Fidel Castro.
Recuerden bien este nombre: Mario Terán, un hombre educado en la idea de matar que vuelve a ver gracias a los médicos seguidores de las ideas de su víctima. 
A cuatro décadas de que Mario Terán intentara con su crimen destruir un sueño y una idea, Che vuelve a ganar otro combate. Y continúa en campana.


Ernesto Che Guevara discursa nas Nações Unidas (11 de dezembro de 1964)
Fonte: Acervo particular.

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