Rádio: a necessidade de pensar o conteúdo
2011
Luiz Artur Ferraretto


FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: a necessidade de pensar o conteúdo. Tendências, Porto Alegre: Coletiva.net, 2011. p. 64-5..

A primeira década do século terminou e, embora a imensa gama de alterações na comunicação, algumas características do mercado brasileiro de rádio seguem em sua essência as mesmas dos anos 1990. Superestimar a tecnologia em detrimento do conteúdo em si é a principal delas. Se antes a salvação do rádio era a digitalização e, há mais tempo ainda, o AM estereofônico, agora a ampliação da faixa de frequência modulada parece, para alguns, resolver todos os problemas do meio.

Não que esteja equivocada a ideia de estender a banda de FM, utilizando os canais 5 e 6 de VHF a serem liberados ao final da transição da televisão analógica para a digital. É de fato uma necessidade ocupar este espaço com as atuais estações que operam apenas em AM. Afinal, o principal receptor de rádio tende a ser o celular, onde as ondas médias não se fazem presentes e reina absoluto o FM. Não se pode esquecer que o número de telefones móveis ultrapassou a marca dos 200 milhões no Brasil, cada um deles um radinho em potencial.

Ocorre, no entanto, que, em termos práticos, pouco surgiu de novo no rádio brasileiro desde os anos 1990. O jornalismo 24 horas é da década anterior, com a Gaúcha, de Porto Alegre, e, antes dela, sem emplacar por problemas administrativos, a Jornal do Brasil AM, do Rio de Janeiro. Menos opinativa, a CBN, com suas várias emissoras, algumas em FM, surgiu na sequência. E, já neste século, bem mais próxima dos modelos estadunidenses, veio a rede BandNews. Em síntese, no entanto, a ideia é a mesma.

No rádio jovem, a maioria, no pop, ainda reprisa a carioca Rádio Cidade FM, lá dos anos 1970. Pelo lado do rock, seguem como referenciais a Fluminense FM, do Rio, a 89 FM, de São Paulo, e a Ipanema FM, de Porto Alegre. De novo, talvez apenas o humorismo à la Pânico e seus seguidores.
Pelo lado dos comunicadores populares, seguimos com uns mais policialescos e, outros, mais aquela voz amiga e algo assistencialista. Com acréscimo de muita música, este segmento desembarcou faz tempo na frequência modulada, com rádios focadas em pagode, sertanejo etc. Inclusive, voltou-se também à parcela jovem das classes B e C.

Fenômeno novo mesmo, mas caso à parte, são as rádios evangélicas de música gospel. De início, a presença religiosa desta linha restringia-se à pregação, mas, agora, cresce no segmento mais musical. Talvez sejam uma variante, com suas inevitáveis e repetidas citações às igrejas a que pertencem, das emissoras branded content, aquelas que, na denominação, trazem a marca de um empreendimento externo ao rádio: Disney FM, Mitsubishi FM, Oi FM, Sulamérica Trânsito FM...

O rádio comercial, de fato, investe pouco em formatação de conteúdo, algo que, nos Estados Unidos, remonta às décadas de 1940 e de 1950 com fórmulas bem particulares para oferecer conteúdo, algumas transpostas para a realidade brasileira. O Top 40, com sua repetição incessante dos 40 principais sucessos musicais, chegou a ser usado por aqui até a exaustão. O all-news foi importado apenas no nome, já que as emissoras de jornalismo brasileiras misturam esse formato de “só notícias”, em uma tradução algo macarrônica, com o all-talk, “só conversa”. Há outros exemplos.
Os manuais de rádio dos Estados Unidos falam em, pelo menos, uma centena de formatos de rádio em uso naquele país. Em síntese, cada um deles pega uma fatia da audiência, analisa suas características e cria conteúdo com personalidade. O que isto quer dizer? Quer dizer que todos os funcionários daquela emissora trabalham no mesmo sentido a partir de um conceito claro. Podem ser três ou quatro palavras que resumem tudo, um slogan até, a cara da rádio em última análise.

Portanto, faz-se necessário perguntar, perguntar de novo e perguntar sempre:
– Você, gestor de emissora, ou você, funcionário, sabe com certeza qual é a rádio que está fazendo? O que você criou de verdadeiramente novo e de interesse nos últimos tempos para o seu público?

As principais emissoras brasileiras até fazem isto ou chegam perto. No mercado lá de cima, o da América do Norte, quem começou este processo foram, no entanto, as pequenas estações, abandonadas pelas grandes redes, então deslumbradas com as possibilidades oferecidas pela TV.

Formatar uma rádio – qualquer rádio, independente do porte – é pensar o design da estação em AM ou FM, coisa que, na área gráfica – qualquer bom planejador visual sabe bem disso –, não depende apenas da forma. Óbvio que a criatividade constitui-se, neste caso, em um ativo importantíssimo. E, muitas vezes, escasso. Tanto lá como cá.

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