Everton Cunha, o Mister Pi
2015
Luiz Artur Ferraretto

Mister Pi (2001)
Fonte: Revista Atlântida, Porto Alegre, out.-nov. 2001. p. 26

No final dos anos 1990, um DJ vai se destacar, lembrando, com suas performances, os disc-jóqueis de duas décadas antes. Na Atlântida FM, de início da meia-noite às 6h e, logo em seguida, das 10 às 3h, Everton Cunha modula a voz grave em tonalidades ora soturnas e com leve reverberação, ora mais fluentes, misturando idiomas, inventando uma língua própria e zombando do formal sempre com uma única marca comum a toda a sua fala e a todo seu – longo – programa: personalidade. Isto tudo sem atropelar palavras, de modo calmo e pausado:

– Pois, não! [sobe trilha] Pois, sim! [sobe trilha] Cá estamos nós! [sobe trilha, antecedendo a fala que pende para o estridente] PI – ÁI – DJÊI – ÊI – ÉM – ÊIII SHOW [fala volta ao tom normal] Pijama show, na Atlântida, para todo o Sul do Brasil, com Everton Cunha, or simple the best Mister Pi de Pijama. Chegamos na noite da quarta-feira, dez e seis da noite... Vamos até as três da madrugada. Cê vai ficando envolvido com o Pijama, fundamental a sua participação, seja através das linhas telefônicas, ou até mesmo dos Pi-mails. Vamos lembrar os números! Você, menina, deve ligar para zero–operadora–51–32–32–21–74, você, menino, para zero–operadora–51–32–32–19–41 ou você, que tem a possibilidade de enviar os seus pi-mails: pijama.show@atlantida.com.br. À meia-noite, temos o Místico e, depois, vamos até as três da madrugada, sendo que o Pijama sempre é dividido em duas partes: primeira parte até a meia-noite, preferência para as canções, e, a partir dali, aí sim mesclamos com o bate-papo A-GRA-DÁ-VEL, quando já estaremos na quinta-feira.

Abertura do Pijama Show (7 de janeiro de 2004)
Fonte: Acervo pessoal.

Desde o dia 10 de agosto de 1998, quando o Pijama Show vai ao ar pela primeira vez, as madrugadas da Atlântida FM ganham um DJ com uma repercussão junto ao público jovem do Sul do país, só comparável ao de comunicadores como Antonio Carlos “Cascalho” Contursi e Julio Fürst, nos anos 1970, e Katia Suman, na década de 1990. O radialista Everton Cunha não cria, no entanto, um personagem para o microfone como o Julius Brown e o Mister Lee de Julio Fürst. Com os cabelos compridos, roupas personalíssimas, dezenas de anéis, colares e pulseiras e bem diferente de todos os outros DJs do rádio gaúcho, Cunha é o Mister Pi – de pijama – em uma autenticidade que, na Região Metropolitana, garante 20 mil ouvintes em média, das 10h à meia-noite, e de 6 a 8 mil no restante do programa, além de bares, danceterias e clubes lotados para o Bafão de Pijama, as festas animadas por ele.
Ao longo dos anos em que permanece no ar, o Pijama Show oferece, além de música, diversos quadros sempre marcados por um tipo de interação com o público, em que Everton Cunha, na sua própria descrição, posiciona-se como uma espécie de irmão mais velho do ouvinte:

– O comunicador de rádio não é o irmão mais novo, não é o pai, não é o amigo, ele é o irmão mais velho, é um cara que o ouvinte respeita, que tem proximidade mas ao mesmo tempo não pode se confundir com o amigo porque aí perde tudo isso. Desta percepção, eu acabei colocando em prática as coisas que eu achei que seriam ideais.

Nesta linha, sem abandonar a música – muitas solicitadas pelas linhas telefônicas no Telepijama –, o programa pende para a conversa informal a partir da meia-noite, horário em que o Mister Pi apresenta uma espécie de momento de reflexão. É o Pijama Místico:

– Não tem nenhuma conotação específica de religião, não é tendencioso pelo catolicismo, pelo evangélico, pelo budismo, simplesmente é um momento em que estamos iniciando um dia, encerramos o outro, e é legal que a gente pense um pouco na vida, relativo a valores. Aí serve parábola, fábula, poema, letra de música, frase de pára-choque de caminhão, um comentário que alguém fez durante o dia, frase de um livro, qualquer coisa.

Fora isto, entre os diversos quadros, um que vai se destacar é o Papo de Pijama, uma pergunta que o comunicador coloca no ar e anima as discussões com convidados no estúdio e com os pijanautas – os ouvintes do programa – através de telefone e de pi-mails – as mensagens de correio eletrônico, que chegam a 300 por noite –, reforçando este clima de parceria em meio à madrugada de ouvintes insones:

– É um assunto em pauta durante o tempo em que nós estamos no ar, sem pretensão alguma de ser inteligente, crítico. É simplesmente para que tenhamos alguma coisa para conversar durante a madrugada, de preferência, coisas relacionadas ao comportamento humano. Pode pegar desde a utilidade ou não do bidê no banheiro até passar para a pena de morte ou questionar a situação política atual, ou se o Grêmio cai ou não cai para a Segunda Divisão, a sua paixão pelo futebol, enfim, comportamento e algumas coisas que vão acontecendo. Mas não é uma regra. Os melhores foram coisas que todo mundo um dia já fez, sem que ninguém admita, como caminhar em cima do fio da calçada – ninguém admite, mas um dia fez –; fugir do cimentinho que tem entre uma laje e outra nas calçadas; se dá uma volta para direita, dá outra para esquerda; e assim vai indo... Uns troços meio loucos! Esse foi um dos mais legais. Sempre que se fala da infância é uma coisa que mexe com qualquer um, acaba recordando quem foi seu melhor e mais encantador brinquedo de infância, até porque na madrugada todo mundo está muito sensível, e é inevitável que a cabeça esteja angustiada em função do futuro e rebuscando coisas do passado. Isto é o Papo de Pijama.

O programa serviu, ainda, por vezes, de ponto de encontro dos músicos com apresentações despretensiosas no estúdio da Atlântida de cantores e grupos como Dazaranha, Jota Quest, Marcelo Nova, Nenhum de Nós, Pato Fu... Nelas, tocam canções próprias ou versões, surgindo algumas interpretadas pelo próprio Mister Pi, que são incluídas em CDs distribuídos, por exemplo, como brindes, em 2001, na Revista Atlântida, publicação promocional da rede de emissoras jovens da RBS. Na época, no Telepijama, os ouvintes pediam muito uma das músicas do disco Ninguém me Entende, do próprio DJ e que dá uma ideia da sua forma de se comunicar com o público:

– A maneira de dizer/ Uma forma de falar/ A maneira de fazer/ Uma forma de tocar/ Um jeito novo para entender/ O que se tem para explicar/ Eu penso, falo, digo/ Repito sempre a mesma coisa/ Repito sempre a mesma coisa/ Repito sempre a mesma coisa/ Ninguém me entende/ Ninguém me entende/ Só eu que ouço/ Só eu que ouço/ A verdade vem de quem?/ A palavra está com quem?/ A maneira é de quem?/ A ideia é de ninguém/ Um jeito novo para entender/ O que se tem para explicar/ Eu penso, falo, digo/ Repito sempre a mesma coisa/ Repito sempre a mesma coisa/ Repito sempre a mesma coisa/ Ninguém me entende/ Ninguém me entende/ Só eu que ouço/ Só eu que ouço/ Só eu que ouço/ Ninguém/ Ninguém/ Ninguém/ Ninguém.


Ninguém me entende (2001)
Fonte: Acervo pessoal.

Apresentado pelas rádios da Rede Atlântida FM, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, durante anos, o programa de Everton Cunha, o Mister Pi, transferiu-se para a Rádio Farroupilha.

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