De O Solar dos Alvarengas e Em Busca da Felicidade à radionovela diária
2013
Luiz Artur Ferraretto

Até 1943, no radioteatro gaúcho, preponderavam sketches e peças isoladas. Naquele ano, o Rio Grande do Sul começa a ingressar na era das novelas. No dia 28 de março, um domingo, às 20h, os ouvintes da Rádio Difusora Porto-alegrense passam a acompanhar o Folhetim Sonoro da PRF-9, com O Solar dos Alvarengas, novela escrita por Roberto Lis e de título assim mesmo com Alvarengas, no plural. Os poucos roteiros remanescentes indicam que a obra pode ter começado, no entanto, como estória seriada, ou seja, os mesmos personagens de episódio a episódio, mas com tramas que se resolviam a cada programa. No Setor de Rádio e Fonografia do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, existem os textos de oito capítulos esparsos de O Solar dos Alvarengas. Neles, é possível notar uma evolução gradual para o formato de novela. O de estreia, já na abertura, procura introduzir a estória:

Fazendo hoje a primeira apresentação de O Solar dos Alvarengas, a Rádio Difusora, de Porto Alegre, inicia, com os seus elementos de radioteatro, um novo programa que o seu autor intitulou de Folhetim Sonoro da PRF-9. Será ele irradiado todos os domingos às 20h e cada um dos seus capítulos constituirá uma estória diferente vivida pelos diversos representantes do austero e fidalgo solar que nos áureos tempos da monarquia viu passar pelos seus luxuosos salões de requintado gosto grandes figuras do nosso Império e da corte portuguesa. Do antigo fundador da Casa dos Alvarenga, resta apenas um grande retrato colocado sobre a lareira da biblioteca – ladeado por dois candelabros de bronze cinzelado – e o nome ilustre que seus filhos tão orgulhosamente ostentaram e fizeram por honrar e que hoje pertence aos netos e bisnetos, uma vez que a ronda implacável do tempo, na sua faina devastadora, à medida que oxidava a prataria dos orgulhosos fidalgos, ia também prateando os seus cabelos anelados até fazer com que desaparecessem no mistério insondável da morte. Restam hoje no velho casarão silencioso, entre a prataria sem brilho e os damascos desbotados, o velho comendador Carlos Alvarenga e seus netos Lucília, Suzana e Jorge, uma vez que os seus próprios filhos, levados pelo imperativo de um desejo forte de viver uma vida diferente, há muito se afastaram da casa que os viu nascer e onde viveram a sua meninice.

Quando Roberto Lis afirma, no texto de abertura de O Solar dos Alvarengas, que “cada um dos seus capítulos constituirá uma estória diferente”, fica clara a intenção inicial de apresentar uma trama completa todo domingo. Os indícios existentes, no entanto, permitem levantar a possibilidade de que a transformação em novela tenha se concretizado entre os capítulos transmitidos em 5 e 12 de setembro de 1943. No primeiro deles, o de número 20, não há nenhuma remissão ao que ocorrera até aquele momento. No domingo seguinte, no entanto, Roberto Lis preocupa-se em resumir o capítulo anterior, dando uma real noção de continuidade à trama, o que é repetido a partir de então:

Antes de darmos início ao episódio desta noite, façamos uma ligeira recapitulação dos acontecimentos desenrolados no capítulo anterior que se poderá resumir no seguinte: 
Jorge vai à casa de Maribel acusá-la de ter sido a culpada dos comentários escandalosos que giram em torno do nome de sua irmã Lucília com o industrial Paulo Henrique de Viveiros. Acusa-o de ter levado sua irmã para um dos cassinos da cidade, embebedando-a. Maribel diz-lhe que Paulo pretende com Lucília o que Jorge não acredita. Retirando-se indignado, o rapaz jura que há de vingar-se do industrial, o que deixa Maribel seriamente preocupada. Indo Jorge à casa de Paulo, lá encontra-se, enquanto o espera, com Clarisse, que, mais uma vez, pretende insinuar-se aos olhos do rapaz sem o conseguir. Como Paulo esteja demorando, Clarisse retira-se, deixando Jorge sozinho a esperá-lo. 
Paulo chega um pouco depois e Jorge começa a censurar-lhe o procedimento. Em sua cólera, entretanto, dirige ao seu contendor palavras ofensivas e Jorge tira do bolso um revólver e antes que Paulo tenha tempo de se defender atira contra ele no justo momento em que Maribel vem entrando apressada. Paulo cai morto quase que instantaneamente e, enquanto na porta do apartamento um guarda bate violentamente, Maribel arranca das mãos de Jorge a arma assassina, indicando-lhe a escada de serviço para que ele fuja sem perda de tempo. Ao retirar-se o rapaz apressadamente, Maribel vai abrir a porta do apartamento, ainda com o revólver na mão, dizendo ao guarda: ‘Prenda-me. Matei um homem’. Vejamos agora o que depois aconteceu.

Por estes capítulos, pode-se, ainda, ter uma ideia do enredo desenvolvido por Roberto Lis: a oposição entre o novo e o antigo no seio de uma família decadente, de origem aristocrática, em uma cidade interiorana com a estória dos relacionamentos amorosos envolvendo, em especial, Lucília, Suzana e Jorge – o presente e o futuro –, netos do outrora poderoso comendador Carlos Alvarenga – o passado. Mais do que isto, pelo que indicam os roteiros restantes, o autor procurou colocar um algo mais de fundo psicológico na caracterização dos personagens, relacionada sempre a um sentimento definido. O comendador Carlos Alvarenga, patriarca da família, com seus 73 anos, lembrando sempre os tempos do Império, quando a corte frequentava o solar, representa, neste contexto, o preconceito. Entre os netos, Lucília encarna a ilusão, Jorge, a ambição e Suzana, a desilusão. Aurora, a sobrinha do comendador, é a razão e Seu Félix, o confidente do patriarca dos Alvarenga, o coração. A preta velha Tia Esperança demonstra a resignação, enquanto o neto dela Donguinha, também descendente dos escravos do velho solar, significa a bondade. O mesmo ocorre com cada um dos protagonistas restantes. Do elenco, faziam parte, entre outros, João Bergmann, Carmen de Alencar, Lourdes Cotrim, Raymundo Gray, Cláudio Real, Branca Margarita e Lilia Maria.

Um pouco antes de O Solar dos Alvarengas migrar em definitivo para a narrativa novelada, Em Busca da Felicidade estreia na Rádio Farroupilha, como anuncia no dia 29 de junho de 1943 o Diário de Notícias:

Pela primeira vez, os radiouvintes deste estado irão desfrutar as mais fortes emoções jamais proporcionadas por um espetáculo radiofônico com a irradiação da sensacional novela do Radioteatro Colgate, Em Busca da Felicidade, na Rádio Farroupilha, a partir de 2 de julho, às segundas, quartas e sextas, das 10h30 às 11h.

No mês anterior, a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, completara a transmissão dos 284 capítulos da obra do cubano Leandro Blanco, traduzida e adaptada por Gilberto Martins. Detentora da conta publicitária da Colgate-Palmolive, a Empresa de Propaganda Standard sugeriu a importação do texto para impulsionar as vendas do creme dental da indústria norte-americana. O estúdio da própria agência abriga, assim, a montagem da primeira radionovela transmitida no país. Quando Em Busca da Felicidade começa a ser transmitida pela PRH-2, no dia 2 de julho, vem precedida do sucesso anterior obtido por sua irradiação pela Nacional. A trama é acompanhada pelos ouvintes da Farroupilha, portanto, em sua versão original, gravada e distribuída a várias emissoras do país dentro da campanha publicitária dos produtos da Colgate-Palmolive.

Abertura de Em Busca da Felicidade (1943)
Fonte: BASF BRASILEIRA S.A. 1934 - 1984, 50 anos de memória brasileira.
São Paulo, 1984. Fita cassete.

A partir do sucesso dos capítulos transmitidos nas segundas, quartas e sextas, das 10h30 às 11h, a PRH-2 parte para a estruturação do chamado Conjunto de Radioteatro Novela, dirigido pelo então locutor e ator Walter Ferreira.

Walter Ferreira (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 5 nov. 1943, p. 5.

Assim, estreia, no dia 28 de setembro de 1943, Rosa de Sangue, de Arsênio Mármol. Sob o patrocínio dos “Produtos de Beleza Pindorama – Óleo, Petróleo e Água de Rosas Pindorama”, a novela transporta o ouvinte para a Viena imperial, cidade em que a nobreza austríaca dançava valsas de Strauss e onde se podia ouvir o ruído dos sabres em românticos e idealizados duelos. Os capítulos com 30 minutos de duração vão ao ar às 16h, nas terças, quintas e sábados. Graças à receptividade do público, a Farroupilha prepara ainda Penumbra, de Amaral Gurgel, que vai ao ar a partir de 5 de novembro.

Elenco de Rosa de Sangue (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 28 set. 1943. p. 5.

No ano seguinte, com a Difusora também sob o controle dos Associados, o gênero começa a se firmar na capital gaúcha. Na PRF-9, Adroaldo Guerra comanda o Conjunto de Radioteatro, que, em 4 de setembro de 1944, irradia o primeiro capítulo de Almas Inquietas, de Saint-Clair Lopes. Patrocinada pela Casa Guaspari, a produção é apresentada nas segundas e nas sextas, das 11h30 às 12h, com um elenco formado, além do próprio Adroaldo Guerra, por Joaquim L. Braga, Jorge Muccilo, Nelson Cardoso da Silva, Terezinha Furtado, Zilda Elaine e Linda Gay.

Falta, no entanto, um detalhe para que a novela se constitua na principal atração do rádio: a transmissão diária dos capítulos. No final dos anos 1940, o diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido Norberto Santos, elabora uma estratégia de concorrência em relação à Farroupilha e à Difusora. Contrata, entre outros, Walter Ferreira, Adroaldo Guerra e Tânia Maria, constituindo em torno deles um grupo de diretores, atores e atrizes. Com este cast, cria o programa Tapete Mágico, transmitido de segunda a sexta, das 20 às 21h, no horário nobre do rádio da época. Nos primeiros 30 minutos, o ouvinte acompanha o capítulo diário de uma novela. Entra em seguida Pensando em Voz Alta, com as opiniões de Cândido Norberto. O comentário faz as vezes de divisor entre o radioteatro e a atração seguinte, o humorístico Corta Tesourinha, no qual um alfaiate de origem alemã ia dialogando com amigos e fregueses em uma crítica social sempre marcada pelo bordão que dava nome a esta parte do programa e interrompia as opiniões satíricas mais fortes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário