João Bergmann: o cronista da cidade e descobridor de Cândido Norberto
2013
Gustavo Monteiro Chagas
Estudante de Jornalismo (UFRGS)

Se cada leitor tem um colunista de jornal favorito, nos anos 1950, Porto Alegre como um todo tinha lá o seu também: João Bergmann. O sucesso era tanto, que ganhou o epíteto “O cronista da cidade”, graças às crônicas publicadas sob o pseudônimo Jotabê nos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, ambos da Caldas Júnior. João também foi locutor de rádio, levando, quase sem querer, Cândido Norberto para o meio. Mesmo morrendo jovem, com apenas 38 anos, o cronista marcou a história da imprensa gaúcha. Era uma espécie de Luiz Fernando Verissimo daqueles tempos.

João Bergmann nasceu em Porto Alegre em 1922. Formou-se em Direito no portentoso palacete que ainda abriga a faculdade hoje ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalhou como consultor jurídico do Sindicado dos Lojistas. Sua carreira no jornalismo começou na Folha da Tarde, no início dos anos 1940. O emprego foi obtido com ajuda de Arlindo Pasqualini, anos depois, seu colega no curso de jornalismo. Na Folha, Jotabê começou escrevendo reportagens da editoria de geral e, mais tarde, trabalhou na editoria nacional.

Ainda naquela década, Jotabê trabalhou na Rádio Difusora Porto-alegrense. Era locutor (ou, como se dizia na época, speaker). Seu dia era dividido entre a rotina do jornal pela manhã e a da emissora de rádio pela tarde. Nas idas diárias para a Difusora, Jotabê era acompanhado por Cândido Norberto, seu colega da Folha. Certa vez, Cândido teve que substituir o amigo na locução enquanto o cronista atendia ao telefone. E assim, por um acaso, o Rio Grande do Sul ganhava um dos maiores radialistas de sua história.

Mesmo com carreira consolidada, Bergmann seguiu os estudos, formando-se no curso de Jornalismo em 1954, na primeira turma da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O cronista foi o orador da turma de 47 alunos que havia iniciado a graduação dois anos antes. Ainda em 1954, Bergmann ganhou um espaço próprio para seus textos na Folha. Era o De Ontem para Hoje.

Irônico e bem-humorado, Jotabê tratava dos assuntos do cotidiano dos porto-alegrenses da época. Suas crônicas tinham espaço para economia, política, problemas da cidade, entre outros temas. Até o trânsito, complicado já naquela época, era alvo do sarcasmo do cronista. Nos domingos, Jotabê mantinha coluna no Correio do Povo, intitulada O Domingo é Meu. Junto com suas crônicas, vinham ilustrações de profissionais como Sampaio, Xico Stockinger e George Duque Estrada.

Jotabê morreu em julho de 1960, vítima de um ataque cardíaco. Foi casado com Bernardina Assis e teve quatro filhos (entre eles o dirigente e conselheiro do Grêmio, João Luiz Bergmann, morto em 1983). Em 1964, suas crônicas publicadas na Folha e no Correio renderam o livro Crônicas de Jotabê, lançado pelo Instituto Estadual do Livro da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. Hoje, João Bergmann é nome de uma praça na Vila Assunção, na Zona Sul de Porto Alegre.

Nas crônicas que abrem o livro, o jornalista brinca com as radionovelas da época, criando a fictícia Almas irmãs gêmeas nascidas no mesmo dia com a diferença de cinco minutos apenas ou Os grilhões de uma consciência agrilhoada. Confira:


NOVELA 
Inúmeros críticos cinematográficos a quem submeti, modestamente, os screen-plays dos meus dois primeiros filmes nacionais, não foram capazes de esconder a surpresa diante do fato de ter eu podido fazer, assim de saída, uma coisa que os americanos levaram anos e anos fazendo. Um deles declarou, textualmente, que os meus filmes só eram comparáveis ao incomparável Radische Yuywzrvqspklmxesxch Srqthgflçbn, filme croata-esloveno que, como os meus, ainda não foi exibido no Brasil. Outro, foi ao ponto de classificar-me como autor claroescuramente precoce, iludido, por certo, com este meu natural bem cuidado e jovial que dá, aos circunstantes menos avisados, a impressão de estarem à frente de um simples garoto, em idade de bambolê. O que, no fundo, não passa de mera ilusão de ótica, mas ainda assim tão perfeita que nem os sinais de uma calvície com entradas pela frente e pelos fundos conseguem prejudicar, tanto mais que como todos sabem, um dos mais meninos prodígios do cinema, o querido Pablito, de Marcelino, pão e vinho, também é Calvo. 
Devo, entretanto, a bem da verdade, esclarecer que não alcancei aquelas culminâncias, logo no primeiro voo. Antes de abalançar-me à produção de enredos cinematográficos, produzi uma novela radiofônica, a qual só não chegou a ser lançada ao ar, por falta de patrocinador. No geral, os dirigentes das firmas procuradas eram para esse fim, não queriam assumir compromissos tão longos, alegando que não sabiam se os seus netos desejariam manter o programa e interromper, assim, no meio, uma novela de sucesso, como a minha, poderia criar um grave caso de comoção intestina. 
O título que escolhi, modéstia à parte, é bastante sugestivo e capaz de provocar enorme sintonia: Almas irmãs gêmeas nascidas no mesmo dia com a diferença de cinco minutos apenas ou Os grilhões de uma consciência agrilhoada. 
A história é simples, porém emocionante. Trata-se de dois irmãos que não sabem que são irmãos, pois viveram, sempre, em quartos separados e faziam refeições em horas diferentes, sem jamais terem descoberto o terrível segredo que cercava as suas origens. 
Uma vez, graças à bisbilhotice de uma vizinha, quase que fica tudo esclarecido, estragando-se a novela, antes, mesmo, de começar. Felizmente, porém, a megera é fulminada no momento em que ia contar tudo a André: − Meu pobre André, como tens vivido na ilusão! Ao que André retruca: − Fale claro, D. Esmeralda. Eu tenho o direito de saber tudo, tudo, t-u-d-o, tudo! Pelo amor de Deus, D. Esmeralda. Fale por favor! Fa (soluça) le! Pelo que, D. Esmeralda, já com voz sumida de quem vai ter uma coisa daí a pouco, resolve abrir-se: “Não sei se deva, meu filho. O segredo não é só meu. Mas aquele que m’o confiou em seu leito de molas, já não mais existe. (Ofega, bem perto do microfone que deverá ser convenientemente desinfetado, logo após) André! Ó meu pobre André! És ir... (cai, vitimada por um mal súbito, cujo mal, um quintanista de medicina, chamado às pressas, informa ser nó nas tripas, pois a novela se passa antes da invenção do apêndice). 
Vai daí que André e Maurício (o outro irmão que também não sabe que é irmão) apaixonam-se pela mesma moça, a loira e doce Margarida, a qual – vejam só a sutileza da trama – apaixona-se por André, acreditando que ele é o Maurício. Margarida, por seu turno, também tem uma irmã, a quem não vê há vários anos, porque foi dada como perdida durante o incêndio de um circo, mas, na verdade, fora recolhida pela mulher barbuda que a criou como um pai, ocultando-lhe, sempre, a história de sua vida. No circo, Martha, (é o seu nome verdadeiro, conforme assentamento constante a fls. 137 verso do livro 3-AB do Cartório de Registro de Nascimentos e Óbitos da Comarca) por uma dessas coincidências que nos fazem acreditar em inspirações sobrenaturais, passa a se chamar Margarida, o que, até hoje, me espanta, pois asseguro-vos que a mulher barbuda não conhecia a família de Martha, ignorando, completamente, o nome da irmã dela, não podendo, assim, ser intencional o uso daquele prenome. 
Um dia, depois de muitas voltas pelo mundo, o circo retorna à cidade e anuncia a sua grande atração: “Margarida, a única mulher barbuda que não tem barbas, em números de arrepiar os cabelos”. Preços reduzidos. 
Irá Margarida-Margarida ao circo para ver Margarida-Martha? E, se for, lá estarão, também, nas gerais, André e Maurício? E será que Margarida-Martha, durante o seu número do trapézio da morte não sentirá uma vertigem e cairá lá de cima?’ E André e Maurício, quando todo o mundo ficar sem saber o que fazer, não saltarão, ao mesmo tempo, para o picadeiro, a fim de socorrerem a jovem e bela moça? E não acabarão, a instâncias do Sr. Cordeiro (pai das Margaridas) levando-a para a case dele, a fim de, ali, ser melhor atendida? E não será isso, afinal, o que proporcionará ao Autor a possibilidade de, 53 capítulos após, escrever uma das mais comoventes páginas do rádio brasileiro, quando o Sr. Cordeiro descobre que é pai de sua filha e esta, por sua vez, fica sabendo que é filha de seu pai, caindo, ambos, de joelhos, um à frente do outro, com mal disfarçada emoção: “Minha filha! Minha pobre filha!” – “Meu pai! Meu pobre pai!”? 
Será.
Fonte: BERGMANN, João. Novela. In: DUARTE, Júlio; REVERBEL, Carlos (Org.).
Crônicas JotaBe. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1964. p. 15-18. 

NOVELA (II) 
Nos 162 capítulos anteriores desta emocionante novela radiofônica que escrevi em prantos e que só não chegou a ser levada ao ar por absoluta falta de um patrocinador de boa visão, sobretudo, vida longa, vimos que André e Maurício, dois irmãos bastante gêmeos, ignorando completamente essa circunstância, apaixonaram-se pela mesma moça, a qual, por sua vez, perdeu-se de amores por André, acreditando que ele fosse Maurício, sem falar em que ela possuía, também, uma irmã, cuja irmã perdera-se no verdor dos anos, durante um incêndio de um circo, nunca mais se ouvindo falar nela. Mas eis que o circo volta (os circos sempre voltam ao local do incêndio) e por uma série de coincidências felizes, a irmã circense, pois a meninazinha não morrera carbonizada como noticiou um órgão de imprensa local (o esqueletinho achado no dia seguinte, entre os escombros, era da macaca Balduina, com quem Martha nutria, apenas leve parecença) e, sim, acolhida pela mulher barbuda que a criou como um pai. Dezenas de capítulos após, o pai das moças descobre que a artista do circo que caiu do trapézio fraturando a bacia, sendo levada para sua casa, dele, não era nada mais nem menos do que a sua querida filhinha Martha, lançando-se um nos braços do outro, com tanto entusiasmo que se verificou nova fratura da moça, desta vez no ante-braço esquerdo, pois como todos estarão lembrados, a vítima era completamente canhota. Encanado o braço, ficou resolvido o problema das irmãs, permanecendo de pé, entretanto, o dos irmãos. Ah! Esqueci-me de dizer que um era de caráter honesto, trabalhador, cumpridor de seus deveres, incapaz de dizer uma leve mentira, ainda que em seu próprio benefício, motivo pelo qual estava bastante mal de vida, mas não se queixava nem pedia dinheiro emprestado, sendo, por isso, muito bem-quisto. O outro, era um refinado patife, hipócrita e falso, jogador profissional de bambolê a dinheiro, o que lhe dava grossos lucros, no geral obtidos com trapaças e com o uso de arcos falsos que trazia escondidos na manga, pelo que era muito considerado nas altas rodas, prevendo-se para ele uma bonita carreira na política, mediante a compra de votos nas eleições. Maurício era o bom; André era o canalha. Digo, o canalha era Maurício e André o bom. Não, o bom era Maurício. Aliás, confesso-vos que não me recordo muito bem desse detalhe, mas no final não faz muita diferença, pois tocado pelo amor angelical de Margarida, o ruim regenera-se e o bom, por ela desprezado, dá para beber, matando um pobre velho que veio lhe oferecer um buquê de margaridas, num dia em que, como de costume, bebera mais do que habitualmente, motivo pelo qual foi recolhido à Ilha-Presídio, com um espantalho vestido de guarda à porta da sua cela, da qual só conseguiu fugir 12 horas depois, aproveitando-se de um descuido do carcereiro. Esclareço-vos que cheguei a pensar, seriamente em fazer surgir um romance entre este irmão e a irmã reencontrada de Margarida, mas a coitada também não deu em boa coisa, fugindo de cada com um vendedor de cachorro quente, sem mostarda, o que ocasionou a morte, em 5 capítulos, do seu pobre pai, vitimado por insidiosa falta de ar, segundo diagnosticou um quinta-anista de medicina, pois a ação se passa antes da descoberta do enfarte do miocárdio. 
No último capítulo, na última cena, há, modéstia à parte, um diálogo belíssimo, entre Maurício e Margarida. Ele pega e diz – Amar-me-ás, sempre, Margarida? Ao que ela retruca, docemente: Amar-te-ei sempre, sempre, sempre. Daí ele vai e ela vai e dizem: 
− Minha Margarida...  
− Meu André... 
Não sei, até hoje, como foi que ela descobriu.
Fonte: BERGMANN, João. Novela. In: DUARTE, Júlio; REVERBEL, Carlos (Org.).
Crônicas JotaBe. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1964. p. 19-21.

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