O comentário de Jimmy Rodrigues
2013
Marcell Bocchese
Professor do Centro de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul

Jimmy Rodrigues
Fonte: RODRIGUES, Jimmy. A voz e a palavra: o fluir da vida sob o olhar do cronista.
Caxias do Sul: Belas Letras, 2008. p. 121.


Jimmy Rodrigues homenageia Joaquim Pedro Lisboa (1948)
Fonte: Acervo da Rádio Caxias.

Era adolescente o jovem que trabalhava em um cartório da cidade, mas já se imaginava longe das burocracias que envolviam a profissão. Pensava se fazer presente no cenário mágico do rádio, um veículo que reinava soberano em todo o país, mas ainda um rebento na Caxias do Sul da década de 1940. Antes mesmo da inauguração da primeira emissora de rádio da cidade, a ZYF-3 – Rádio Caxias do Sul, Jimmy Rodrigues já flertava com a então novidade da cidade: um serviço de emissão de informação e entretenimento via alto-falantes, – embrião do que seria a futura primeira emissora da cidade e região –, instalado na Praça Dante Alighieri (na época, chamada Praça Rui Barbosa).

A época era a dos vozeirões do rádio: só falava ao microfone quem possuía, por capricho da natureza, aquela voz impostada, grave e timbrada, que competia com as péssimas condições técnicas de emissão das ondas hertzianas dos primórdios do rádio. Mas o jovem Jimmy Rodrigues não possuía tal dom. Sua autocrítica, inclusive, era cruel, direta. Anos depois, profissional consagrado, lembraria no livro A Voz e a Palavra: "a minha era uma legítima ‘voz de taquara rachada'". Nada, porém, impediria que o então jovem desistisse de seu sonho. Depois de ser reprovado em um teste para speaker do serviço de alto-falantes existente na praça, Jimmy veio a ter sua primeira experiência como locutor nos clubes e nas festas de igreja da cidade.

A porta de entrada no cenário do radiojornalismo caxiense não seria mesmo a voz, mas sim o texto. Hábil e eficaz no uso das palavras, Jimmy – a convite de Ernani Falcão, um dos primeiros locutores da Rádio Caxias –começa a atuar como redator já no início das atividades da emissora, no ano de 1946.

Desde que entrou para o cenário do rádio caxiense, Jimmy sempre foi um dos principais protagonistas. Na emissora, o jornalista e radialista é responsável, por exemplo, pela redação dos primeiros textos da emissora, lidos pelo mesmo Ernani Falcão, e pela redação das notícias do radiojornal pioneiro na história da cidade, o Grande Jornal Falado F-3, hoje Jornal Formolo.

Comentarista nato, como excelente formador de opinião, seus textos puderam ser ouvidos pelas ondas do rádio desde as primeiras transmissões de partidas de futebol. Também atuou como uma espécie de faz tudo: repórter, apresentador, animador de programas, redator de textos publicitários, comediante, redator de radionovelas e ator.

Em meados de 1970, acometido de um câncer na garganta, foi forçado a deixar de realizar locuções. Mesmo assim, não se calou. Sua opinião seguiu sendo veiculada, tanto na Rádio Caxias, como na Rádio São Francisco, a partir da voz de outros importantes jornalistas da cidade, como o filho Paulo Rodrigues.
Ao longo de sua carreira, Jimmy teve importante atuação também no cenário do jornalismo impresso de Caxias do Sul. Trabalhou em jornais da região como Correio Riograndense, Pioneiro, Jornal de Caxias e Folha de Hoje, além de escrever para a Jornal do Comércio e a Última Hora, de Porto Alegre.

Cronista de Caxias do Sul, o estilo satírico-humorístico do texto de Jimmy Rodrigues marcou época, tanto nas ondas do rádio, quanto nas letras dos jornais. Estilo que o Rio Grande do Sul perdeu no dia 9 de junho de 2013, quando faleceu vítima de insuficiência respiratória aguda. Cala-se a voz que, por décadas, ecoou pelas ondas do rádio nos lares caxienses. Foram quase 70 anos de serviço ao jornalismo, que agora perde uma de suas figuras mais expressivas. Aos 87 anos, Jimmy parte, e já deixa saudade.



Trechos do documentário A voz que não se cala – A história de Jimmy Rodrigues (2009)
Produção dos alunos de Radiojornalismo 3 do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul.
Locução: Jeferson Ageitos e Lilian Ferrari.
Produção: Bárbara Lipp, Jeferson Ageitos, Juliana Wilbert, Lilian Ferrari e Rafael Poletto.
Participação especial: Everton Pradella
Gravações originais do acervo da Rádio Caxias.
Edição: Rafael Poletto
Pós-produção: Marcell Bocchese
Professor Responsável: Luiz Artur Ferraretto
Gravado no Centro de Teledifusão Educativa da Universidade de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul.
Fonte: Acervo particular.

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