O jornal Microfone, última publicação especializada em rádio no Rio Grande do Sul
2007
Luiz Artur Ferraretto

Capa do número 2 do jornal Microfone (1983)
Fonte: Acervo particular de Luiz Artur Ferraretto.

Em meados de 1983, eu vivia entre um apartamento minúsculo na Salgado Filho, o restaurante universitário na João Pessoa, tudo no centro de Porto Alegre, e a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lá para os lados da Ipiranga, próximo à Ramiro Barcelos, a um ônibus de distância ou, quando faltava grana, a uma caminhada de 30 minutos. E tentava me adaptar à capital gaúcha naquele primeiro semestre do curso de Jornalismo. Um dia, na ida para o RU, dei de cara, na banca da esquina, com um jornalzinho de 12 páginas, meio perdido entre revistas e diários. Na capa, o plantão esportivo da Rádio Guaíba, Antônio Augusto, que eu conhecia de ouvido, do radinho de pilha do meu irmão sempre ligado, madrugada adentro na emissora da Caldas Júnior. Foi num impulso e com um lanche ou janta a menos que comprei aquele exemplar, do número dois, do Microfone.

Eu não sabia, mas o jornal seria a última publicação especializada em rádio de Porto Alegre, digno herdeiro das experiências dos pioneiros dos anos 1920 e 30, do Duque de Antena, animador das peerres e também criador de vários pequenos boletins e revistas dedicados ao meio naquele período. Claro que houve outras, como a Onde...ando (1949 até meados da década de 1950), de início uma coluna assinada por Dinarte Armando em O Craque, publicação criada pelo tipógrafo Marcely Conceição; ou a Revista TV (novembro de 1954 a novembro de 1960), de propriedade do jornalista Raul Quevedo, mas, em seguida, adquirida pelo seu diretor comercial, José Braz de Oliveira; ou a Radial (novembro de 1963 a março de 1965), de José Ribeiro Fontes, boletim que, a partir do seu segundo número, já se transforma em uma pequena revista. Todas sempre marcadas por dificuldades financeiras e sobrevivendo com base na dedicação de seus proprietários. Com o Microfone, “o jornal do rádio”, como aparecia no expediente, não seria diferente. Foram poucas edições, mas feitas com cuidado e com o respeito devido aos profissionais do rádio e aos seus ouvintes.

Uma iniciativa do jornalista Plínio Nunes, o Microfone trazia colunas dedicadas aos programas e aos comunicadores. Descrevia o mercado em reportagens como “Onze anos de FM em Porto Alegre” ou “O samba pedindo seu lugar no rádio brasileiro”. Do rádio popular, com Sayão Lobato e Tia Eva, ao esporte com Antônio Augusto e ao jornalismo com Flávio Alcaraz Gomes, todos os segmentos apareciam com a mesma importância dada a eles por seus ouvintes. De quebra, na página dois, sempre o traço de Santiago, mostrando uma outra visão sobre o veículo, por vezes irônica, por vezes singela ou cândida.
Anos depois, trabalhando na Gaúcha, me dei conta que o Plínio, ao meu lado, um dos redatores, era o mesmo Plínio do jornalzinho, meu primeiro contato mais direto com o rádio de Porto Alegre. Conversamos sobre o Microfone e ele me perguntou se eu não tinha um exemplar do número um, o único que faltava na sua coleção. Por coincidência, também o único que faltava na minha. Hoje pergunto:

– Será que ninguém aí nesta internet imensa resolve este problema para mim ou para o Plínio?

Um comentário:

  1. Bravo. Infelizmente nunca vi esta publicação. Informações preciosas.

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