Dê Asas a sua Inteligência e o apogeu dos programas de perguntas e respostas
2008
Luiz Artur Ferraretto

Jorge Alberto Mendes Ribeiro e a candidata Fé Ema Xavier (1957)
O apresentador sabatina a candidata, que participa do programa respondendo sobre a vida do profeta Maomé.
Fonte: Nomes que fizeram a imprensa gaúcha. Porto Alegre: Press & Advertising, n. 2, p. 73, set. 2003.

A capital do Rio Grande do Sul viveu um momento de grandes embates radiofônicos e de premiações de vulto no final da década de 1950. Muito diferente de atrações de gosto duvidoso e de interesse quase zoológico como os Big Brothers de hoje, os programas de perguntas e respostas chamavam a atenção por delimitar a disputa no campo do conhecimento e não do esdrúxulo. Foi o então o diretor comercial da Rádio Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes, que lançou a onda ao idealizar uma versão do quiz show televisivo The $64,000 Question, da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Assim, lançado em 18 de junho de 1957, Dê Asas à sua Inteligência desencadeia um processo que vai além do êxito rápido obtido na recém-inaugurada estação da família Caldas Júnior. “Um sucesso de arrasa-quarteirão”, na definição de seu criador, a atração da Guaíba vai obrigar uma reação por parte da Farroupilha, que introduz no estado outras atrações baseadas na mesma fórmula.

Este tipo de programa não era propriamente uma novidade nem no Rio Grande do Sul, nem em outros estados. Flávio Alcaraz Gomes, de fato, soube identificar uma tendência e aproveitá-la com habilidade. No centro do país, no ano de 1955, estreia o programa O Céu é o Limite, na TV Tupi, de São Paulo, com o apresentador Aurélio Campos lançando o bordão “absolutamente certo”. É, no entanto, J. Silvestre que, apresentando o programa, vai tornar a frase conhecida nacionalmente. Os candidatos, respondendo sobre um tema da sua escolha, acumulam prêmios até desistirem ou cometerem algum erro. O sucesso obtido pelo O Céu é o Limite alerta Flávio para as possibilidades comerciais de uma atração deste tipo, então ausente nas emissoras de rádio de Porto Alegre. Como não há verba para prêmios milionários, o diretor comercial da Guaíba negocia passagens aéreas com a Panair do Brasil. A cada etapa ultrapassada, o patrocinador oferece viagens para capitais de estados cada vez mais distantes até chegar ao prêmio máximo – e internacional –, Paris, com as despesas de transporte aéreo e de estada pagas. Assim, todas as terças-feiras, a partir das 21h30, entre a primeira e a segunda sessões do Cinema Imperial, Jorge Alberto Mendes Ribeiro sabatina quatro candidatos que respondem a três questões cada um. De O Céu é o Limite, o apresentador empresta o “absolutamente certo”, utilizando ainda, em uma referência indireta, a expressão “Paris é o limite”. Com os bordões, brinda as respostas corretas e instiga os participantes, que têm de demonstrar sua capacidade em perguntas cada vez mais detalhistas e, portanto, de dificuldade também crescente, elaboradas por Roberto Eduardo Xavier com o auxílio de Eloy Terra.

A repercussão do programa associada à de outro sucesso da Rádio Guaíba, Histórias do Mestre Estrela, leva a emissora, no final de 1957, a apostar em uma ideia de Roberto Eduardo Xavier, criando uma nova atração baseada em perguntas e respostas, mas para o público infanto-juvenil. Assim, Antônio Gabriel passa a apresentar, nas manhãs de domingo, no Cinema Cacique, Você é o Sabichão. Sob o patrocínio da Casa Victor, o programa oferece prêmios variados: de elepês e brinquedos a cadernetas de poupança.

No entanto, a repercussão mais forte do interesse despertado pelo Dê Asas à sua Inteligência vem mesmo da Farroupilha. Pouco mais de dois meses depois da estreia do programa, a emissora dos Associados lança, em 29 de agosto de 1957, Do Zero ao Infinito. O patrocínio da Viação Aérea Rio-grandense garante, então, prêmios em um total de Cr$ 1,5 milhão, o equivalente, na época, a US$ 20 mil. É a Varig também que paga as passagens para o Rio de Janeiro e a estada dos candidatos que atingem a décima rodada de perguntas, automaticamente tendo a sua participação garantida em O Céu é o Limite, na TV Tupi carioca. Além disto, para conduzir as apresentações nas quintas-feiras, às 21h30, o animador J. Silvestre e a, como define o Diário de Notícias, “famosa estrela do cinema nacional” Ilka Soares deslocam-se para Porto Alegre a cada semana. De início, a produção está a cargo da Standard Propaganda, no Rio de Janeiro. Em seguida, quando fica sob a responsabilidade de Athayde de Carvalho, Gilberto Lehnen e Afonso Neto, do escritório da agência em Porto Alegre, a condução do De Zero ao Infinito passa para Ernani Behs, com Lourdes Helena de auxiliar.

Ilka Soares e J. Silvestre no Do Zero ao Infinito (1957)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 29 ago. 1957. p. 5.

Ao longo de agosto, os Diários e Emissoras Associados, detentores dos direitos de O Céu é o Limite, começam uma intensa campanha de divulgação, preparando também o lançamento deste programa em Porto Alegre, na Rádio Farroupilha. O diretor artístico da PRH-2, Ruy Rezende, e o futuro apresentador da versão gaúcha Ary Rêgo viajam a São Paulo, no início do mês, para acompanhar as rotinas de produção na TV Tupi, onde Aurélio Campos conduz o programa original. Trazem de lá o modelo de uma das atrações mais rentáveis da televisão – Cr$ 125 mil por audição –, aqui adaptada ao rádio. Assim, cada candidato é submetido a uma seleção preliminar, na qual tem de responder a 15 perguntas sobre o assunto escolhido, garantindo que só cheguem ao microfone os participantes mais qualificados e interessantes. A estreia acontece no domingo, 1º de setembro de 1957, às 22h05, prometendo distribuir, sob o patrocínio da Real Aerovias, “dinheiro a rodo” aos vencedores.


Já no início dos anos 1960, com a TV, dia a dia, ocupando o espaço antes pertencente ao rádio, esta fórmula vai sendo abandonada. Já era, então, muito difícil carrear verbas publicitárias para este tipo de atração. Aos anunciantes, parecia bem mais eficiente a opção de investir em conteúdo semelhante produzido por emissoras de televisão do centro do país.

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