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A inauguração da Rádio Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Arlindo Pasqualini discursa na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 30.

Faltando poucos minutos para o meio-dia, a edição de sábado da Folha da Tarde, o principal vespertino do Rio Grande do Sul, acaba de rodar e um grupo de repórteres e redatores do jornal, junto com alguns colegas do Correio do Povo, comprime-se do outro lado do vidro que separa o estúdio do operador de áudio. Ouve-se, então, um arranjo especialmente preparado na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, para o tradicional Boi Barroso, a melodia das trovas tradicionais do cancioneiro gaudério. Com a voz embargada pela emoção, o locutor Aden Rossi anuncia, na sequência, impondo silêncio entre os colegas apinhados no corredor do segundo andar da rua Caldas Júnior, número 219:

– Senhoras e senhores, boa tarde. A partir deste momento, passa a operar regularmente através das suas emissoras de ondas médias, ZYU-58, em 720 quilociclos, e em ondas curtas de 25 e 49 metros, 11.785 e 9.865 quilociclos, a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Brasil. A Rádio Guaíba encetará, a partir deste momento, a sua programação musical de hoje, sábado, 20 de abril de 1957. Como primeiro número, ouviremos, por Frank Pourcell e sua orquestra, Three Coins in the Fountain...

Three Coins in the Fountain, de Frank Pourcell, com Franck Pourcell e sua orquestra

Não é ainda a inauguração oficial, como já sabem desde o início da manhã os leitores do Correio do Povo:
Acontece que, nos dez dias que distam entre uma data e outra, a Guaíba não colocará publicidade alguma em seus programas, transmitindo exclusivamente música para os sintonizadores dos 720 quilociclos. Posteriormente, seguindo religiosamente a linha que se traçou, jamais a publicidade ultrapassará de 1/3 do período de transmissões. Assim, valoriza ao máximo as mensagens comerciais e propicia aos sintonizadores espaços que, realmente, possam ser ouvidos.

Como registra o mesmo jornal no dia seguinte, aos primeiros ouvintes da Guaíba já chama a atenção a qualidade do som da nova emissora, cuja parte técnica está sob a responsabilidade de Homero Carlos Simon, contratado quatro anos antes. Desde 1953, o engenheiro vinha planejando e orientando a instalação dos transmissores colocados na ilha da Pintada de forma a aproveitar a conformação geográfica do local – o espelho d’água formado pelo lago Guaíba – para melhorar as irradiações. Nacionalista militante, o diretor técnico da emissora adquire equipamentos e componentes eletrônicos em sua grande maioria fabricados no Brasil, que são alterados, ajustados e remontados sob a sua supervisão, obrigando, por vezes, um trabalho redobrado, como ele mesmo lembraria anos depois:

Foi uma das lutas, das mais ingratas, mas ao final vencedora, de quatro anos seguidos, pelos problemas técnicos que tivemos de enfrentar para a instalação de transmissores e torres.

A entrada no ar da rádio segue um cronograma planejado pelo diretor da emissora, Arlindo Pasqualini, e aprovado por Breno Caldas, o proprietário do Correio do Povo e da Folha da Tarde, jornais aos quais, então, se junta a Guaíba. Assim, às 6h da quinta-feira, 25 de abril, a ZYU-58 começa a transmitir inclusive com a sua síntese noticiosa, o Correspondente Renner, lido, na época, por Ronald Pinto. A aproximação com os ouvintes vai se dando sem sobressaltos, de modo que, na semana seguinte, nem a chuva ou o frio daquela terça-feira, dia 30, impediriam que, uma hora e meia antes da inauguração oficial, marcada para as 20h30, o Theatro São Pedro – palco cuidadosamente escolhido – já estivesse lotado. Contrastando com a emoção do diretor de broadcasting, Jorge Alberto Mendes Ribeiro, e da locutora Jalma de Arroxelas, que o apresentam ao público, Arlindo Pasqualini transmite serenidade ao discursar:

– Senhoras e senhores. A Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que ora se inaugura aqui no Theatro São Pedro, com a presença para nós tão grata e tão honrosa de todos vós, constitui um empreendimento novo, mas que, embora novo, nasce sob o signo de uma tradição. É que sua vinculação a dois grandes jornais, o Correio do Povo e a Folha da Tarde, lhe traça implicitamente os rumos e a orientação. Tal orientação, como sabeis, é de absoluta independência, a qual tem para nós seus limites naturais e intransponíveis nos princípios da moral e nos imperativos do bem comum. Acerca de nossa programação normal, que deverá ter início amanhã, o que vos posso adiantar, em poucas palavras, é que ela não terá o luxo das grandes montagens. Mas, mesmo quando singela, jamais cairá na vulgaridade.

Mendes Ribeiro e Arlindo Pasqualini na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Proferido nas dependências do mais sofisticado teatro da cidade, o pronunciamento de Pasqualini não poderia mesmo deixar de ser um tanto solene. Solenidade que ultrapassa os limites do discurso em si e do estudado uso da segunda pessoa do plural. Mais do que tudo, o Major, apelido do jornalista desde os tempos da Revolução de 1930, lança as bases de uma programação sóbria e, por vezes, sisuda, tradicionais marcas do Correio do Povo¸ conferindo, ainda que por uma relação quase gregária, uma boa dose de credibilidade ao novo empreendimento de Breno Caldas.

A escolha do Theatro São Pedro como palco do programa desta noite de gala obedece, portanto, a uma lógica. Sugerida pelo radialista e publicitário Ruy Figueira e acatada pelo diretor comercial Flávio Alcaraz Gomes, a ideia é utilizar a casa de espetáculos da elite porto-alegrense para indicar que uma emissora diferente está surgindo. Armindo Antônio Ranzolin, assistente da direção de 1976 a 1984, dá uma boa definição desta nova forma de fazer rádio, conhecida, no mercado do Rio Grande do Sul, como estilo ou padrão Guaíba:

Numa época em que as suas concorrentes ainda queriam fazer de tudo um pouco, a Rádio Guaíba surgiu com uma proposta nova, transmitindo notícias, esportes, música e programas culturais de muito bom gosto. Impondo um rádio ao vivo, até mesmo nos intervalos comerciais, a Guaíba teve a vantagem de gerar sempre um som limpo. Cuidando dos conteúdos e com uma técnica avançada, a Rádio Guaíba fez com que a voz de seus locutores e repórteres chegasse forte aos ouvintes, mesmo quando transmitida de bem longe. Foi assim que se construiu o padrão Guaíba, resultado do trabalho de anos e anos e realizado por muitos e muitos profissionais. Por tudo isso, a Rádio Guaíba fez escola e se transformou num marco na radiofonia brasileira.

De certa forma, este novo parâmetro introduzido pela Guaíba recupera um pouco das pretensões culturais da elite porto-alegrense comuns às sociedades radiofônicas da década de 1920. Deste modo, logo após o discurso de Pasqualini, encerrado com a garantia de que a emissora será “uma voz a serviço do Rio Grande”, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos, apresenta um cuidadoso repertório com trechos mais conhecidos de peças eruditas. Na sequência, Yara Bernette, uma das mais importantes pianistas do país em todos os tempos, interpreta trechos de obras de Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Sebastian Bach, Ferruccio Busoni, Camargo Guarnieri, Claude Debussy, Franz Liszt e Frédéric Chopin. Encerrando esta “noitada de arte”, como define o Correio do Povo no dia seguinte, o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo, faz a vocalização do Boi Barroso, trilha musical que começa a ser conhecida como a assinatura sonora da Rádio Guaíba.

Apresentação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 14.

Yara Bernette e o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


O Guarani, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

A pianista Yara Bernette (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


Boi Barroso, com o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Primeira apresentação da trilha musical que identifica a Rádio Guaíba.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Primeira rádio do Rio Grande do Sul gestada dentro de uma empresa dedicada ao jornalismo, a estação da família Caldas tem a sua personalidade definida com cuidado, gerando o chamado estilo Guaíba. Tudo consequência de um trabalho em que interferem diversos profissionais. O diretor técnico, Homero Carlos Simon, garante uma qualidade de som cristalino que, já nas transmissões iniciais, diferencia a emissora das demais. Esta particularidade é ressaltada pelo padrão de voz, algo impostado, mas de extrema correção e clareza na pronúncia, definido por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o responsável pela área artística da rádio. O assistente da direção de broadcasting, Osmar Meletti, junto com o seu auxiliar Fernando Veronezi, aproveita também esta vantagem competitiva na programação musical, baseada em comedidas orquestrações, bem ao gosto de Breno Caldas. Outro fator, ainda, serve para reforçar a sobriedade das irradiações: todos os comerciais são lidos ao vivo, com a Guaíba negando-se a aceitar spots e jingles. Assim, na tabela de preços da ZYU-58 vai constar, além do valor dos reclames, a frase “A Rádio Guaíba não aceita anúncios gravados”, o que causa um impacto nas agências da época, como registra o então diretor comercial, Flávio Alcaraz Gomes, no 15° aniversário da emissora:

A Rádio Guaíba automaticamente ficou afastada das grandes verbas de propaganda e inúmeros experts de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo não nos deram mais de dois meses de existência. Apesar de tudo, o bom gosto de nossa programação, a alta qualidade de nosso som, que logo se consagraria como o famoso som local da Guaíba, e o impecável padrão de nossos locutores fizeram com que, quebrando todos os tabus, a Guaíba fosse conquistando o seu lugar ao sol e galgando, um a um e a duras penas, os degraus de uma liderança nacional hoje inconteste.

Quando de sua inauguração, não podendo fugir ao espetáculo radiofônico ainda em voga, a Guaíba organiza, mesmo assim, uma programação diferenciada. Baseando-se em conceitos ouvidos de Jesuíno Antônio D’Ávila, anos antes diretor da Farroupilha, e influenciado pelo rádio europeu e norte-americano, Flávio Alcaraz Gomes cria atrações como Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, e Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, atração televisiva da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Na dramaturgia, o destaque fica para o Grande Teatro Orniex, dirigido por Jorge Muccilo, nos domingos, às 21h, encenando, por vezes, clássicos da literatura, como Moby Dick, de Herman Melville. O final de tarde, de segunda a sexta, é, no entanto, das crianças, com os programas Histórias do Mestre Estrela, às 17h30, com Antônio Gabriel de Moura Coelho interpretando o personagem-título, e o Teatrinho Infantil Cacique, às 18h05, uma parceria com a revista Cacique, então publicada pela Secretaria Estadual da Educação. Como resultado, segundo Flávio Alcaraz Gomes, a rádio atinge a fatia de público pretendida:

O veredito popular consagrou, de imediato, a Guaíba como uma emissora sóbria, noticiosa, musical e herdeira das tradições de sua empresa-mãe, respeitável. O fato de emendar permanentemente duas músicas e de não veicular os estridentes jingles e spots atribuiu-lhe audiência cativa entre as elites.

Em 4 de outubro de 1957, a Guaíba, em um feito tecnológico para a época, capta o sinal do Sputnik, o primeiro satélite artificial da história, lançado horas antes pela União Soviética. A transmissão daquele bip-bip marca, fora a audácia técnica do engenheiro Homero Carlos Simon, o início de uma série de pioneirismos da rádio neste campo. No ano seguinte, chave para compreender o sucesso da emissora em termos de notícias e programação esportiva, ocorre a irradiação do Campeonato Mundial de Futebol, realizado na Suécia, e, um pouco depois, a cobertura das eleições estaduais. Na transmissão do título conquistado pela seleção do Brasil, Flávio Alcaraz Gomes, com o apoio do diretor técnico da Guaíba, introduz o uso de transmissores em single side-band (SSB), contando com a estrutura da Postes Télégraphes et Téléphones, de Berna, na Suíça. Por sua vez, anunciando com precisão e de forma antecipada o resultado do pleito para o governo do Rio Grande do Sul, a equipe comandada por Amir Domingues faz a primeira apuração paralela da história do rádio brasileiro. Com o fim do radioteatro da Guaíba no início dos anos 1960, a ZYU-58 adota o formato música-esporte-notícia em sua programação, no que também é uma das pioneiras no país.


Correspondente Renner anuncia o lançamento do Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra (outubro de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.
1958: o Rio Grande do Sul vai à Copa com a Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Anúncio da Rádio Guaíba (junho de 1958)
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 28 jun. 1958. p. 15.

Oito de junho de 1958, direto do Estádio Rimervallen, em Uddevalla, a voz grave de Mendes Ribeiro anuncia, com uma qualidade de áudio muito superior aos parâmetros da época e ultrapassando a distância de 17.000 km a separar o Norte da Europa do Sul da América Latina:

– Alô, Brasil. Neste momento, está formada a Rede Ipiranga dos Esportes, comandada pelas emissoras brasileiras da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, falando diretamente de Uddevalla, na Suécia, local do primeiro encontro do Brasil na Copa do Mundo, frente à Áustria. Emissoras brasileiras da Rádio Guaíba, de Porto Alegre: ondas médias de 720 quilociclos, ZYU-58; ondas curtas de 25 metros, 11.785 quilociclos, ZYU-61; ondas curtas de 49 metros, 5.965 quilociclos, ZYU-60; e, ainda, a emissora da PTT, GXX–22; Rádio Guarujá, de Santa Catarina; e mais de 20 emissoras do Rio Grande do Sul.

Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Copa do Mundo de 1958 (junho de 1958)
Fonte: Folha da Tarde Esportiva, Porto Alegre, 29 jun. 1958. p. 20.

Nos anos 1950, quando mal se conseguia falar por telefone da capital do Rio Grande do Sul com o Rio de Janeiro ou com São Paulo, ganha relevo o trabalho realizado pela ZYU-58 – Rádio Guaíba, de Porto Alegre, por iniciativa de Flávio Alcaraz Gomes e sob o patrocínio da Ipiranga S.A. Companhia Brasileira de Petróleos, na VI Copa Jules Rimet, o campeonato mundial de futebol realizado em 1958 na Suécia. Como observa Octavio Augusto Vampré, em Raízes e Evolução do Rádio e da TV, até então nenhuma emissora do Rio Grande do Sul tivera “o atrevimento de concorrer, abertamente, com o rádio do centro do país”. É a Postes Télégraphes et Téléphones (PTT), companhia estatal da Suíça, a responsável por tornar possível a irradiação intercontinental, utilizando uma tecnologia até então desconhecida no Brasil: o single side-band (SSB), ou banda lateral única, que seleciona a faixa lateral com menor interferência no ponto de irradiação, suprimindo as demais e gerando, desta maneira, um sinal de melhor qualidade. Da Suécia, na Região Norte da Europa, à sede da PTT, em Berna, no Centro-Oeste do continente, o sinal vai por via telefônica e, de lá até o Brasil, por ondas eletromagnéticas de SSB. Além disto, o sistema montado permite à equipe da Suécia ter retorno do estúdio da Guaíba em Porto Alegre, interligando os profissionais daqui com os que estão lá.

Para que Mendes Ribeiro fale com a clareza do som local, expressão que a Guaíba passa a utilizar tempos depois, valorizando a qualidade das transmissões que coloca no ar, contribui também a atuação do engenheiro Homero Carlos Simon. É ele quem, com o apoio da equipe técnica sob sua direção, retifica ao longo das irradiações a chamada frequência ótima de trabalho, uma exigência do sistema de transmissão em single side-band, que, devido à distância a ser vencida, não é passível de cálculo preciso. A influência da luz solar sobre as ondas eletromagnéticas constitui-se em outro complicador, uma vez que existe uma diferença de fuso horário: é noite na Suécia e meio da tarde no Brasil. Para garantir a qualidade sonora optando sempre pela melhor frequência de operação, a Guaíba tem de utilizar dois canais, como o próprio Simon esclarece então nas páginas do jornal Folha da Tarde:
Enquanto a transmissão se estiver efetuando através de um canal, o outro canal estará sendo ajustado para acompanhar as alterações da ionosfera, visto que a determinação das frequências ótimas de trabalho, no nosso caso, não é passível de cálculo. E, quando o canal em uso começar a apresentar algum defeito, automaticamente a transmissão passará a ser feita através de outro canal; e o canal defeituoso será imediatamente ajustado.
Sob a supervisão do engenheiro são construídas as antenas rômbicas, cuidadosamente apontadas para Berna, necessárias à recepção das emissões da PTT e à geração do sinal de retorno. Há que observar, ainda, o ineditismo da utilização deste tipo de tecnologia à época no Brasil, que dificulta, por inexperiência, as operações e exige apurados conhecimentos eletrônicos.

Como apoio a Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes, a direção da empresa destaca Francisco Antônio Caldas – filho de Breno Caldas – e Manuel Dias, enviado especial do jornal Folha da Tarde. Na Europa, é acertada, ainda, a participação de Otávio Muniz, cronista esportivo paulista com passagens, entre outras, pelas rádios América, Difusora, Panamericana e Tupi. Um exemplo do trabalho realizado por esta equipe aparece descrito na Folha da Tarde de 25 de junho de 1958, dia seguinte à semifinal entre Brasil e França, jogo no qual Mendes Ribeiro cunha uma expressão marcante no restante de sua carreira como narrador esportivo:
Como, no primeiro tempo, o juiz da contenda estivesse envidando esforços para desclassificar a seleção canarinho, Otávio Muniz, ao ocupar o microfone da U-58 para os comentários de meio-tempo, não poupou palavras para condenar a atuação do árbitro. Mendes Ribeiro também condenou tal atuação, com palavras causticantes, expressando seu pensamento numa feliz tirada: “Deus não joga, mas fiscaliza”. E esse comentário veio a propósito da sensacional reação da equipe brasileira, que encerrou o jogo com o marcador em cinco a seu favor, enquanto os franceses conseguiram marcar apenas dois tentos. 
[...] Informando os ouvintes da Guaíba sobre o jogo, pelas semifinais, que se desenvolvia em Gotemburgo, atuou Flávio Gomes, com informações precisas sobre os tentos conquistados por ambos os lados na contenda Suécia x Alemanha, da qual a seleção de casa saiu-se vitoriosa. Além de fornecer informes técnicos sobre o desenrolar da partida, Flávio Gomes narrou, ainda, para os ouvintes da grande Rede Ipiranga dos Esportes, comandada pela Rádio Guaíba, de Porto Alegre, as reações dos franceses que assistiam ao jogo Suécia x Alemanha, para não sofrer em Estocolmo. A voz de Flávio foi vibrante quando informou: “Os franceses choram em Gotemburgo”.
Do estúdio da Guaíba em Porto Alegre, Amir Domingues e Antônio Carlos Porto reproduzem as gravações dos gols e descrevem a repercussão do jogo na capital gaúcha, aproveitando, ainda, o recurso, até então inédito, da transmissão em duas vias para trocar impressões com Mendes Ribeiro sobre o desempenho da Seleção Brasileira. Graças a um sistema de alto-falantes instalado pela equipe técnica da rádio, a população aglomera-se em frente ao prédio da emissora e no Largo dos Medeiros para acompanhar a partida, fato que vinha se repetindo nas demais irradiações, mas que atinge proporções multitudinárias na decisão contra a Suécia no dia 29 de junho, em especial no último minuto da partida, quando Pelé – sabe-se lá por que chamado de Pelê por Mendes – marca o quinto gol brasileiro na vitória por 5 a 2 contra a Suécia.

À transmissão da Guaíba, envolvendo ainda 23 emissoras do interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, integrantes da chamada Rede Ipiranga dos Esportes, soma-se o interesse do público pelo futebol, crescente desde a Copa disputada, oito anos antes, em território brasileiro, mas frustrado pela derrota do selecionado nacional. Interesse que chega ao nível, até então, máximo com a conquista do primeiro título mundial, a coincidir com o sucesso da estrutura de irradiação montada pela ZYU-58. Até porque a Gaúcha, concorrente direta em matéria de cobertura esportiva, apenas reproduz o sinal gerado pela Nacional, do Rio de Janeiro, embora a estação carioca tenha aceito integrar Guilherme Sibemberg à sua equipe. A partir daí, e até a melhoria da rede de telecomunicações, equipamentos de single side-band incorporam-se às transmissões de longa distância realizadas pela Guaíba, que, na Europa, passa a contar sempre com o apoio da PTT. Para o público, após a Copa, em 1958, fica a impressão sintetizada numa frase de Flávio Alcaraz Gomes, o artífice da ida de um microfone gaúcho à Suécia:
Foi a vitória do Brasil e a vitória da Guaíba!



Flávio Alcaraz Gomes entrevista Amir Domingues e Jorge Alberto Mendes Ribeiro (4 de maio de 1997)
Trecho do programa Fórum alusivo aos 40 anos da Rádio Guaíba.
Fonte: TV2 GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 4 maio 1997. Programa de televisão.

Flávio Alcaraz Gomes (8 de dezembro de 2004)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.

Fonte: Acervo particular.

Flávio Alcaraz Gomes (6 de janeiro de 2005)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
Fonte: Acervo particular.
A narração peculiar de Jorge Alberto Mendes Ribeiro
2007
Luiz Artur Ferraretto

Mendes Ribeiro na final da Copa de 1958 (8 de junho de 1958)
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.

Ao receber o convite de Arlindo Pasqualini em 1956 para se transferir para a Rádio Guaíba, Jorge Alberto Mendes Ribeiro talvez lembrasse daquele teste no início da década lá na Gaúcha, que então se transformava em seu ex-emprego. De fato, o recém-contratado diretor de broadcasting da nova emissora, anos antes, passara por uma constrangedora reprovação em seu teste de microfone na PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha. Foi salvo, então, por Cândido Norberto, mais condescendente do que seus colegas. Ouvindo o teste do fundo do auditório, Cândido, ao saber que o pessoal do radioteatro não tinha interesse em Mendes, acabou sentenciando:

– Pois então é minha. A participação dele daqui por diante na rádio é minha responsabilidade.

E lá se foi Mendes a fazer um pouco de tudo: locução comercial, locução esportiva, radioteatro, esportes, notícias... Até que passa a ocupar a chefia dos locutores, do Departamento de Notícias. Ironia maior que o dono da voz rejeitada, inicialmente, na Gaúcha iria definir aquele que é, talvez, o padrão de locução mais marcante da história do rádio do Rio Grande do Sul. Nas cinco décadas seguintes, os vozeirões estariam presentes nos 720 kHz da Guaíba quase como uma assinatura sonora, tão forte como o Boi Barroso, aquele instrumental gaudério que serve de característica da emissora até hoje.
A voz de Mendes Ribeiro faria também a alegria ou a tristeza dos candidatos no programa de perguntas e respostas Dê Asas a sua Inteligência. Primeira grande atração de entretenimento da Guaíba, a disputa de conhecimentos levaria o vencedor após várias semanas a Paris, com todas as despesas pagas, desde que, continuamente, suas respostas fossem saudadas pelo apresentador, pegando emprestado, assim, o bordão de outro programa, O Céu é o Limite:

– Absolutamente ceeerrrto!

É a voz de Mendes também que vai trazer a alegria da primeira grande conquista da Seleção Brasileira de futebol da Suécia para Porto Alegre em 1958:

– Os 200 brasileiros começam a acenar os lencinhos aqui. São poucos lenços! São poucas bandeiras! São poucas vozes gritando Brasil! Mas a verdade é que o Brasil é campeão! Lenços brancos para o Brasil! Duzentos brasileiros... Bola com Vavá, caiu na área, atingido novamente. Pelo meu cronômetro, está esgotado o tempo regulamentar! Vem Garrincha com a bola. Está terminando a Copa do Mundo! Garrincha com a bola. Garrincha para Djalma. Brasil 4 a 2! Djalma para Didi. Entra na área. Para Vavá, para Zagalo, para Pelê. Entra Zagalo na área, vai à linha de fundo, atira. Agarra o sueco. Quarenta e cinco minutos de jogo! Brasil 4, Suécia 2! Pelo meu cronômetro, terminou! Duzentos lenços brancos contra 60 mil! Atirou Zagalo. Cabeceou Pelê. Goool! Goool do Brasil! Gol do Brasil! Peleeê! Ficou estendido no gramado, Peleeê. Quarenta e cinco minutos. Entrou Zagalo, entrou Pelê e, de cabeça, atirou nas redes. Gol de Pelê para o Brasil! Gol de Pelê para o Brasil! Eu tenho a impressão que o árbitro não deu o gol... [hesita] Terminou o jogo! Terminou o jogo! Terminou o jogo! Brasil, campeão do mundo de 1958!

O que ninguém saberia explicar era a insistência na Copa de Mendes pronunciar Pelê e não Pelé. Óbvio que ninguém se importou muito em meio à festa que tomou conta de Porto Alegre, do Sul do país, do país inteiro. Uma das tantas conquistas do futebol brasileiro e da Guaíba. Sabor especial para a primeira delas. Guaíba que completava, então apenas um ano e já mudava a história do rádio do Rio Grande do Sul. Mudança, é claro, com a colaboração forte do seu diretor de broadcasting, seu principal narrador esportivo, de Jorge Alberto Mendes Ribeiro.
Dê Asas à sua Inteligência e o apogeu dos programas de perguntas e respostas
2008
Luiz Artur Ferraretto

Jorge Alberto Mendes Ribeiro e a candidata Fé Ema Xavier (1957)
O apresentador sabatina a candidata, que participa do programa respondendo sobre a vida do profeta Maomé.
Fonte: Nomes que fizeram a imprensa gaúcha. Porto Alegre: Press & Advertising, n. 2, p. 73, set. 2003.

A capital do Rio Grande do Sul viveu um momento de grandes embates radiofônicos e de premiações de vulto no final da década de 1950. Muito diferente de atrações de gosto duvidoso e de interesse quase zoológico como os Big Brothers de hoje, os programas de perguntas e respostas chamavam a atenção por delimitar a disputa no campo do conhecimento e não do esdrúxulo. Foi o então o diretor comercial da Rádio Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes, que lançou a onda ao idealizar uma versão do quiz show televisivo The $64,000 Question, da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Assim, lançado em 18 de junho de 1957, Dê Asas à sua Inteligência desencadeia um processo que vai além do êxito rápido obtido na recém-inaugurada estação da família Caldas Júnior. “Um sucesso de arrasa-quarteirão”, na definição de seu criador, a atração da Guaíba vai obrigar uma reação por parte da Farroupilha, que introduz no estado outras atrações baseadas na mesma fórmula.

Este tipo de programa não era propriamente uma novidade nem no Rio Grande do Sul, nem em outros estados. Flávio Alcaraz Gomes, de fato, soube identificar uma tendência e aproveitá-la com habilidade. No centro do país, no ano de 1955, estreia o programa O Céu é o Limite, na TV Tupi, de São Paulo, com o apresentador Aurélio Campos lançando o bordão “absolutamente certo”. É, no entanto, J. Silvestre que, apresentando o programa, vai tornar a frase conhecida nacionalmente. Os candidatos, respondendo sobre um tema da sua escolha, acumulam prêmios até desistirem ou cometerem algum erro. O sucesso obtido pelo O Céu é o Limite alerta Flávio para as possibilidades comerciais de uma atração deste tipo, então ausente nas emissoras de rádio de Porto Alegre. Como não há verba para prêmios milionários, o diretor comercial da Guaíba negocia passagens aéreas com a Panair do Brasil. A cada etapa ultrapassada, o patrocinador oferece viagens para capitais de estados cada vez mais distantes até chegar ao prêmio máximo – e internacional –, Paris, com as despesas de transporte aéreo e de estada pagas. Assim, todas as terças-feiras, a partir das 21h30, entre a primeira e a segunda sessões do Cinema Imperial, Jorge Alberto Mendes Ribeiro sabatina quatro candidatos que respondem a três questões cada um. De O Céu é o Limite, o apresentador empresta o “absolutamente certo”, utilizando ainda, em uma referência indireta, a expressão “Paris é o limite”. Com os bordões, brinda as respostas corretas e instiga os participantes, que têm de demonstrar sua capacidade em perguntas cada vez mais detalhistas e, portanto, de dificuldade também crescente, elaboradas por Roberto Eduardo Xavier com o auxílio de Eloy Terra.

A repercussão do programa associada à de outro sucesso da Rádio Guaíba, Histórias do Mestre Estrela, leva a emissora, no final de 1957, a apostar em uma ideia de Roberto Eduardo Xavier, criando uma nova atração baseada em perguntas e respostas, mas para o público infanto-juvenil. Assim, Antônio Gabriel passa a apresentar, nas manhãs de domingo, no Cinema Cacique, Você é o Sabichão. Sob o patrocínio da Casa Victor, o programa oferece prêmios variados: de elepês e brinquedos a cadernetas de poupança.

No entanto, a repercussão mais forte do interesse despertado pelo Dê Asas à sua Inteligência vem mesmo da Farroupilha. Pouco mais de dois meses depois da estreia do programa, a emissora dos Associados lança, em 29 de agosto de 1957, Do Zero ao Infinito. O patrocínio da Viação Aérea Rio-grandense garante, então, prêmios em um total de Cr$ 1,5 milhão, o equivalente, na época, a US$ 20 mil. É a Varig também que paga as passagens para o Rio de Janeiro e a estada dos candidatos que atingem a décima rodada de perguntas, automaticamente tendo a sua participação garantida em O Céu é o Limite, na TV Tupi carioca. Além disto, para conduzir as apresentações nas quintas-feiras, às 21h30, o animador J. Silvestre e a, como define o Diário de Notícias, “famosa estrela do cinema nacional” Ilka Soares deslocam-se para Porto Alegre a cada semana. De início, a produção está a cargo da Standard Propaganda, no Rio de Janeiro. Em seguida, quando fica sob a responsabilidade de Athayde de Carvalho, Gilberto Lehnen e Afonso Neto, do escritório da agência em Porto Alegre, a condução do De Zero ao Infinito passa para Ernani Behs, com Lourdes Helena de auxiliar.

Ilka Soares e J. Silvestre no Do Zero ao Infinito (1957)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 29 ago. 1957. p. 5.

Ao longo de agosto, os Diários e Emissoras Associados, detentores dos direitos de O Céu é o Limite, começam uma intensa campanha de divulgação, preparando também o lançamento deste programa em Porto Alegre, na Rádio Farroupilha. O diretor artístico da PRH-2, Ruy Rezende, e o futuro apresentador da versão gaúcha Ary Rêgo viajam a São Paulo, no início do mês, para acompanhar as rotinas de produção na TV Tupi, onde Aurélio Campos conduz o programa original. Trazem de lá o modelo de uma das atrações mais rentáveis da televisão – Cr$ 125 mil por audição –, aqui adaptada ao rádio. Assim, cada candidato é submetido a uma seleção preliminar, na qual tem de responder a 15 perguntas sobre o assunto escolhido, garantindo que só cheguem ao microfone os participantes mais qualificados e interessantes. A estreia acontece no domingo, 1º de setembro de 1957, às 22h05, prometendo distribuir, sob o patrocínio da Real Aerovias, “dinheiro a rodo” aos vencedores.

Já no início dos anos 1960, com a TV, dia a dia, ocupando o espaço antes pertencente ao rádio, esta fórmula vai sendo abandonada. Já era, então, muito difícil carrear verbas publicitárias para este tipo de atração. Aos anunciantes, parecia bem mais eficiente a opção de investir em conteúdo semelhante produzido por emissoras de televisão do centro do país.
Os desenhos de Renato Canini para a Revista TV
2013
Luiz Artur Ferraretto

Cresci lendo as histórias em quadrinhos do Zé Carioca, personagem da Disney, aquelas, as do papagaio abrasileirado no início dos anos 1970 pelo traço de Renato Canini. Assim, quando fazia a pesquisa para o meu doutorado em Comunicação e Informação, foi uma enorme surpresa encontrar em meio ao acervo da Revista TV, emprestado por José Braz de Oliveira, o antigo proprietário da publicação, vários desenhos arte-finalizados a nanquim com caricaturas de grandes nomes do rádio gaúcho e até uma do cantor e ator mexicano Miguel Aceves Mejía. Como vários nem chegaram a ser publicados na revista, compartilho com vocês este material. De fato, não há muito mais a dizer. Só a apreciar.

Glênio Reis

Lupicínio Rodrigues

Miguel Aceves Mejía

Adroaldo Guerra

Carlos Nobre

Fábio Silveira

Ivan Castro

Mendes Ribeiro

Maurício Sirotsky Sobrinho

Pinguinho

Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.


Entrevista de Canini à Bastião (2011)
Fonte: Bastião, Porto Alegre, ano 1, out. 2011.


O cartunista Renato Canini em entrevista à Bastião (2011)
Fonte: Bastião, Porto Alegre, ano 1, out. 2011.
1962, a copa do radinho de pilha
2014
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1962 (1962)

As transmissões radiofônicas da Copa do Mundo de 1962 popularizam no país ainda mais a utilização dos aparelhos transistorizados, tornando comum a imagem do torcedor com o radinho a pilha colado no ouvido. De fato, quando quatro anos antes o Brasil sagrou-se campeão na Suécia, muita gente já escutara as transmissões neste tipo de receptor. Na copa do Chile, no entanto, os aparelhinhos iriam se disseminar. No estado, apesar de já existir alguma produção nacional, os receptores – em sua maioria, da marca Spica – chegam, então, não raro, contrabandeados pelo porto de Rio Grande.

A mania pelos radinhos de pilha toma conta do Brasil desde o início da década, rendendo uma reportagem, em janeiro de 1960, na revista Visão, a demonstrar certa estupefação de algum jornalista mais conservador a respeito daquela “avassaladora epidemia desses aparelhinhos”:

Nas filas de ônibus, nas lotações, bondes e ônibus, nas praias e estádios, nas repartições e nas ruas, em toda parte, até nos cinemas, os rádios portáteis se fazem presentes. Uma conversa na condução é, não raro, perturbada pela intromissão do instrumento sintonizado em altos brados. Como se isso não bastasse, surgem as situações mais esdrúxulas: num jogo de futebol há sempre espectadores que parecem não acreditar naquilo que enxergam no campo e mantêm os seus ouvidos colados aos radiozinhos; na Bienal de São Paulo se podiam surpreender vários visitantes observando as obras de arte, enquanto ouviam os seus aparelhos; na praia, o rádio incorporou-se à bagagem dos banhistas, tornando-se elemento tão importante ou mais que a barraca, o pé de pato, a bola de vôlei ou o cachorrinho que a grã-fina leva às areias de Copacabana; e nos cinemas, em meio aos filmes de maior suspense, espectadores veem-se obrigados a reclamar contra vizinhos que ligam o respectivo rádio, que muitos já denominam de “maquininha infernal”.

É a mobilidade proporcionada pela transistorização um dos fatores que vai salvar o rádio abalado pelo gradativo e cada vez mais acelerado crescimento das emissoras de televisão. O que, antes, era estático e exigia atenção constante – o aparelho valvulado de grandes proporções em destacada posição na sala de estar – torna-se, com os radinhos de pilha, dinâmico, posicionando-se junto ao ouvinte, em toda parte e a qualquer momento, como um ágil companheiro do dia a dia.

Com radinhos transistorizados ou em grandes aparelhos valvulados, os ouvintes de Porto Alegre puderam optar, em 1962, entre duas equipes de profissionais do Rio Grande do Sul enviadas para o Chile, a da Gaúcha – com Antonio Carlos Resende, Willy Gonzer, Samuel Madureira Coelho e Holmes Aquino – e a da Guaíba, com Mendes Ribeiro, Pedro Carneiro Pereira, Amir Domingues, Lauro Quadros, Ataíde Ferreira, Adroaldo Streck, Bruno Steiger e Alcides Krebs. Na coordenação da equipe da Gaúcha, estava um dos grandes nomes da cobertura esportiva do estado, Ari dos Santos, assim descrito por Octávio Augusto Vampré em seu livro Raízes e Evolução do Rádio e da Televisão:

O segundo destaque entendemos dever ser para Ari dos Santos, um homem de retaguarda, um comandante de equipe, avesso ao microfone, mas que sabia chefiar, como ninguém, seu quadro de auxiliares no departamento esportivo da Rádio Gaúcha, mais tarde também, na TV Gaúcha, e com rápida passagem pela Rádio Difusora Porto-alegrense. Chamavam-no, carinhosamente, Chinês por semelhança física, e de Coronel, pelas ordens que determinava ao seu grupo.

Pelo lado da Guaíba, a emissora da família Caldas Júnior recorre, novamente a Flávio Alcaraz Gomes. Vale a pena ler o seu relato a respeito das dificuldades e das peripécias dos radialistas gaúchos em terra chilenas, registrado, décadas depois, em seu livro Diário de um Repórter:

Assim sendo, a organização da cobertura do novo campeonato mundial de futebol ficou a cargo do engenheiro Homero Simon. Homero viajou para Santiago com um ano de antecedência, ali permanecendo durante quase um mês e voltando com tudo conseguido, tendo inclusive alugado um apartamento para alojar a equipe. Fiquei tranquilo e prossegui na minha rotina de diretor comercial e comentarista, criando e vendendo programas. Assim foi até a manhã de 31 de dezembro de 1961. Estávamos reunidos no hall da rádio, um grupo de colegas, quando Homero assomou lívido, com um ofício na mão. Era do Comitê Organizador do Mundial do Chile, firmado por Carlos Dittborn, seu diretor. Dizia que desgraciadamente a Rádio Guaíba não poderia transmitir porque todas as linhas e canais haviam sido prioritariamente contratados pelas emissoras do Rio e de São Paulo. “E agora?” – perguntaram todos, mais ou menos em coro. E se voltaram para mim. Eu, modestamente, baixei os olhos. Na primeira semana de janeiro, embarquei para o Chile. Em contraste com a Suécia e a Suíça, onde quatro anos antes só tinha lidado com gente séria e cumpridora, passei a defrontar-me com a situação extremamente fácil-extremamente difícil. Extremamente fácil obter a palavra de um técnico comprometendo-se a fornecer equipamento e/ ou prestar assistência. Extremamente difícil fazer com que cumprisse a mesma palavra. A princípio tentei por todos os meios obter licença do governo para autorizar-nos linhas e frequência de transmissão. Graças à minha amizade com o embaixador do Brasil, Fernando Ramos de Alencar, aproximei-me de Carlos Dittborn, encarregado da organização do certame, que morreu antes de sua realização e que, como homenagem, teve seu nome dado ao estádio de Sausalito de Viña del Mar, onde o Brasil, de calças na mão, passou pelas oitavas de final. Dittborn me disse que o homem-chave do circuito era um certo Jayme Schatz Prilutsky, chefe do Serviço de Eletricidade e Gás, que fazia as vezes de ministro de Comunicações. Schatz, marxista convicto, recebeu-me com uma frieza dura como seus olhos azuis. Isso a princípio. Mais tarde, ao sabê-lo apreciador literal da música Bebida, mulheres e orgia, fiz os três ingredientes chegarem ao seu colo. Resultado: consegui a autorização. Faltava o transmissor, e acabei descobrindo um antigo agente secreto, informante de submarinos alemães, mas técnico eletrônico de renome: don Pedro del Campo Benavente. Ele possuía um transmissor de single side band, cuja banda de cima (o transmissor opera em três bandas, a superior, uma neutra e uma inferior) estava cedida à Rádio Record de São Paulo. Ele poderia, se pagássemos bem, alugar-nos a banda de baixo. recheei o contrato e voltei a Porto Alegre. ‘É uma temeridade. As três bandas são para trocar o som de uma única emissora, caso haja interferência na de cima ou na de baixo. Em todo o caso, como não há outra maneira...’ - comentou Homero.[...] Vendido o patrocínio e com a reiteração da palavra de Schatz de que não concederia mais nenhum canal, redigi – e nossos jornais publicaram em manchete – que a Rádio Guaíba seria a única emissora do sul do Brasil a transmitir com exclusividade o campeonato mundial do Chile, graças a dois conceituados técnicos chilenos etc. Duas semanas depois, vindo com a minha família de Belém Novo, e corujando a Gaúcha no rádio do automóvel, quase morro de susto: a Guaíba estava sendo gozada em prosa e verso no programa esportivo da concorrente: “o que eles conseguiram em três meses, nós conseguimos em três dias”. E oficialmente anunciava-se sua presença na transmissão, utilizando o moderno transmissor do eminente engenheiro don Pedro del Campo Benavente. Bufei de raiva: “Aquele traidor!”. Mas, pensando melhor, vi que a traição tinha sido dupla, já que havia sido necessária também a autorização de Schatz. Mais tarde fiquei sabendo que Frederico Arnaldo Ballvé, que dirigia a Gaúcha com Maurício, tão logo soubera o caminho que eu havia trilhado (e que ingenuamente revelara na reportagem em que me gabolei da façanha), viajou para o Chile, onde deu aos dois pilantras o dobro do que eu dera, conseguindo exatamente o mesmo que me fora autorizado. Sem ter como reagir, viajei em maio para Santiago, onde permaneci quase dois meses, lutando palmo a palmo com a concorrência. Nosso som foi parelho até as quartas de final, quando então nos salientamos com vantagem, pois comprei e passei a utilizar um moderno transmissor Collins livrando-me das bandas do SSB de Del Campo. Em Porto Alegre, a exemplo do que acontecera nas transmissões de 1958, a recepção era feita na minha casa, no morro de Santa Tereza, em cujo quintal foi construída uma antena rômbica em direção ao Chile. Duas horas antes de cada jogo, os técnicos da Guaíba percorriam as casas da vizinhança, implorando para que não usassem liquidificadores e aparelhos assemelhados, a fim de não interferir em nossa transmissão, que, no jogo final e com o Brasil bicampeão, consagrou mais uma vez o som local da Guaíba.

Foi, portanto, a copa das dificuldades técnicas para os profissionais do Rio Grande do Sul e a do radinho de pilha para os ouvintes. No campo, apesar de alguns percalços, o Brasil não decepcionou o torcedor, uma vitória que você pode relembrar em um Reportagem Especial, da Rádio Guaíba, programa que lembrou o feito da seleção, 40 anos depois, dentro de uma série de programas sobre o tetracampeonato.


Programa Reportagem Especial relembra o bicampeonato brasileiro no Chile (8 de junho de 2002)
 


Produção: Márcio Beyer, Ramiro Ruschel e Eduardo Cutti.
Gravações: Rogério Petry, Valdinei Lima e Carlos Roberto Pereira.
Locução: Vladimir Oliveira, Paulo Amauri da Cunha, Mario Mazeron e Rui Strelow.
Seleção musical: Fernando Veronezi.
Coordenação e apresentação: Rodrigo Koch.
Chefia de esportes: Luiz Carlos Reche.
Fonte: Acervo particular de Rodrigo Koch.
Atualidade, jornalismo nas manhãs da Gaúcha
2014
Luiz Artur Ferraretto

Anúncio do programa Atualidade (agosto de 1977)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 1º ago. 1977. p. 3.

No dia 1º de agosto de 1977, às 8h, a Gaúcha lança o programa Atualidade, baseado nos bons resultados obtidos pelo Sala de Redação e pelo próprio Agora, de quem a nova atração matutina da emissora pretende ser concorrente. Enquanto, na Guaíba, a tônica do horário é dada pelos correspondentes internacionais, a Rede Brasil Sul opta por centrar o foco nas questões do estado e do país. Até 1992, Jorge Alberto Mendes Ribeiro conduz o Atualidade, intercalando opiniões às entrevistas e reportagens. Ao longo deste período de 15 anos, a trajetória do apresentador é marcada pela defesa do salário mínimo unificado, de aposentadorias e pensões dignas, da contribuição sindical voluntária e do ensino superior público e gratuito, posições explicitadas também em espaços diários de outros veículos da RBS – uma coluna em Zero Hora e um comentário na RBS TV. Todos estes elementos vão garantir o maior número de votos – 325.497 – entre todos os deputados federais eleitos para a Assembleia Nacional Constituinte em 1986. A defesa, ao microfone, dos associados do Montepio da Família Militar exemplifica a atuação do jornalista nesta época. Durante um debate no estúdio da rádio, no dia 6 de março daquele ano, Mendes Ribeiro investe contra irregularidades na instituição, chegando a ser agredido pelo coronel reformado Hélio Prates da Silveira, ex-presidente do MFM, ao comparar os Cr$ 15 milhões do contracheque do militar com os Cr$ 300 mil pagos às viúvas e pensionistas.

Ao se reeleger em 1990, então como o deputado federal mais votado pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro em todo o país, Mendes Ribeiro começa a almejar a candidatura ao governo do estado, o que vai de encontro à nova postura oficial da Rede Brasil Sul anunciada na época: comunicadores que optassem pela carreira política devem a partir de então deixar a empresa. O jornalista transfere-se, assim, em julho de 1992, para o Sistema Guaíba-Correio do Povo. Em seu lugar, com o programa sofrendo uma leve mudança na denominação – Gaúcha Atualidade –, a direção da Rede Brasil Sul coloca como apresentadores, a partir de 9 de agosto daquele ano, Armindo Antônio Ranzolin, no estúdio da emissora em Porto Alegre, e Ana Amélia Lemos, no de Brasília, além de incluir três comentaristas fixos: Augusto Nunes, diretor de redação do jornal Zero Hora; Fernando Gabeira, deputado federal pelo Partido do Trabalhadores carioca; e Flávio Tavares, correspondente da RBS em Buenos Aires. 



Programa Atualidade (1º de agosto de 2002)
Armindo Antônio Ranzolin relembra os tempos de Jorge Alberto Mendes Ribeiro com a abertura de um programa de 10 de outubro de 1990.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA AM. Gaúcha Atualidade, Porto Alegre: 1º de agosto de 2002. Programa de rádio.



Programa Gaúcha Atualidade (1º de agosto de 2002)
Abertura do programa com Armindo Antônio Ranzolin.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA AM. Gaúcha Atualidade, Porto Alegre: 1º de agosto de 2002. Programa de rádio.



Programa Gaúcha Atualidade (1º de agosto de 2002)
Nelson Sirotsky, então presidente do Grupo RBS, relembra o início do programa.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA AM. Gaúcha Atualidade, Porto Alegre: 1º de agosto de 2002. Programa de rádio.




Programa Gaúcha Atualidade (1º de agosto de 2002)
Nelson Sirotsky relembra as alterações no programa após a saída de Mendes Ribeiro.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA AM. Gaúcha Atualidade, Porto Alegre: 1º de agosto de 2002. Programa de rádio.



Programa Gaúcha Atualidade (1º de agosto de 2002)
Coberturas e participações históricas do programa Gaúcha Atualidade.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA AM. Gaúcha Atualidade, Porto Alegre: 1º de agosto de 2002. Programa de rádio.