1962, a copa do radinho de pilha
2014
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1962 (1962)

As transmissões radiofônicas da Copa do Mundo de 1962 popularizam no país ainda mais a utilização dos aparelhos transistorizados, tornando comum a imagem do torcedor com o radinho a pilha colado no ouvido. De fato, quando quatro anos antes o Brasil sagrou-se campeão na Suécia, muita gente já escutara as transmissões neste tipo de receptor. Na copa do Chile, no entanto, os aparelhinhos iriam se disseminar. No estado, apesar de já existir alguma produção nacional, os receptores – em sua maioria, da marca Spica – chegam, então, não raro, contrabandeados pelo porto de Rio Grande.

A mania pelos radinhos de pilha toma conta do Brasil desde o início da década, rendendo uma reportagem, em janeiro de 1960, na revista Visão, a demonstrar certa estupefação de algum jornalista mais conservador a respeito daquela “avassaladora epidemia desses aparelhinhos”:

Nas filas de ônibus, nas lotações, bondes e ônibus, nas praias e estádios, nas repartições e nas ruas, em toda parte, até nos cinemas, os rádios portáteis se fazem presentes. Uma conversa na condução é, não raro, perturbada pela intromissão do instrumento sintonizado em altos brados. Como se isso não bastasse, surgem as situações mais esdrúxulas: num jogo de futebol há sempre espectadores que parecem não acreditar naquilo que enxergam no campo e mantêm os seus ouvidos colados aos radiozinhos; na Bienal de São Paulo se podiam surpreender vários visitantes observando as obras de arte, enquanto ouviam os seus aparelhos; na praia, o rádio incorporou-se à bagagem dos banhistas, tornando-se elemento tão importante ou mais que a barraca, o pé de pato, a bola de vôlei ou o cachorrinho que a grã-fina leva às areias de Copacabana; e nos cinemas, em meio aos filmes de maior suspense, espectadores veem-se obrigados a reclamar contra vizinhos que ligam o respectivo rádio, que muitos já denominam de “maquininha infernal”.

É a mobilidade proporcionada pela transistorização um dos fatores que vai salvar o rádio abalado pelo gradativo e cada vez mais acelerado crescimento das emissoras de televisão. O que, antes, era estático e exigia atenção constante – o aparelho valvulado de grandes proporções em destacada posição na sala de estar – torna-se, com os radinhos de pilha, dinâmico, posicionando-se junto ao ouvinte, em toda parte e a qualquer momento, como um ágil companheiro do dia a dia.

Com radinhos transistorizados ou em grandes aparelhos valvulados, os ouvintes de Porto Alegre puderam optar, em 1962, entre duas equipes de profissionais do Rio Grande do Sul enviadas para o Chile, a da Gaúcha – com Antonio Carlos Resende, Willy Gonzer, Samuel Madureira Coelho e Holmes Aquino – e a da Guaíba, com Mendes Ribeiro, Pedro Carneiro Pereira, Amir Domingues, Lauro Quadros, Ataíde Ferreira, Adroaldo Streck, Bruno Steiger e Alcides Krebs. Na coordenação da equipe da Gaúcha, estava um dos grandes nomes da cobertura esportiva do estado, Ari dos Santos, assim descrito por Octávio Augusto Vampré em seu livro Raízes e Evolução do Rádio e da Televisão:

O segundo destaque entendemos dever ser para Ari dos Santos, um homem de retaguarda, um comandante de equipe, avesso ao microfone, mas que sabia chefiar, como ninguém, seu quadro de auxiliares no departamento esportivo da Rádio Gaúcha, mais tarde também, na TV Gaúcha, e com rápida passagem pela Rádio Difusora Porto-alegrense. Chamavam-no, carinhosamente, Chinês por semelhança física, e de Coronel, pelas ordens que determinava ao seu grupo.

Pelo lado da Guaíba, a emissora da família Caldas Júnior recorre, novamente a Flávio Alcaraz Gomes. Vale a pena ler o seu relato a respeito das dificuldades e das peripécias dos radialistas gaúchos em terra chilenas, registrado, décadas depois, em seu livro Diário de um Repórter:

Assim sendo, a organização da cobertura do novo campeonato mundial de futebol ficou a cargo do engenheiro Homero Simon. Homero viajou para Santiago com um ano de antecedência, ali permanecendo durante quase um mês e voltando com tudo conseguido, tendo inclusive alugado um apartamento para alojar a equipe. Fiquei tranquilo e prossegui na minha rotina de diretor comercial e comentarista, criando e vendendo programas. Assim foi até a manhã de 31 de dezembro de 1961. Estávamos reunidos no hall da rádio, um grupo de colegas, quando Homero assomou lívido, com um ofício na mão. Era do Comitê Organizador do Mundial do Chile, firmado por Carlos Dittborn, seu diretor. Dizia que desgraciadamente a Rádio Guaíba não poderia transmitir porque todas as linhas e canais haviam sido prioritariamente contratados pelas emissoras do Rio e de São Paulo. “E agora?” – perguntaram todos, mais ou menos em coro. E se voltaram para mim. Eu, modestamente, baixei os olhos. Na primeira semana de janeiro, embarquei para o Chile. Em contraste com a Suécia e a Suíça, onde quatro anos antes só tinha lidado com gente séria e cumpridora, passei a defrontar-me com a situação extremamente fácil-extremamente difícil. Extremamente fácil obter a palavra de um técnico comprometendo-se a fornecer equipamento e/ ou prestar assistência. Extremamente difícil fazer com que cumprisse a mesma palavra. A princípio tentei por todos os meios obter licença do governo para autorizar-nos linhas e frequência de transmissão. Graças à minha amizade com o embaixador do Brasil, Fernando Ramos de Alencar, aproximei-me de Carlos Dittborn, encarregado da organização do certame, que morreu antes de sua realização e que, como homenagem, teve seu nome dado ao estádio de Sausalito de Viña del Mar, onde o Brasil, de calças na mão, passou pelas oitavas de final. Dittborn me disse que o homem-chave do circuito era um certo Jayme Schatz Prilutsky, chefe do Serviço de Eletricidade e Gás, que fazia as vezes de ministro de Comunicações. Schatz, marxista convicto, recebeu-me com uma frieza dura como seus olhos azuis. Isso a princípio. Mais tarde, ao sabê-lo apreciador literal da música Bebida, mulheres e orgia, fiz os três ingredientes chegarem ao seu colo. Resultado: consegui a autorização. Faltava o transmissor, e acabei descobrindo um antigo agente secreto, informante de submarinos alemães, mas técnico eletrônico de renome: don Pedro del Campo Benavente. Ele possuía um transmissor de single side band, cuja banda de cima (o transmissor opera em três bandas, a superior, uma neutra e uma inferior) estava cedida à Rádio Record de São Paulo. Ele poderia, se pagássemos bem, alugar-nos a banda de baixo. recheei o contrato e voltei a Porto Alegre. ‘É uma temeridade. As três bandas são para trocar o som de uma única emissora, caso haja interferência na de cima ou na de baixo. Em todo o caso, como não há outra maneira...’ - comentou Homero.[...] Vendido o patrocínio e com a reiteração da palavra de Schatz de que não concederia mais nenhum canal, redigi – e nossos jornais publicaram em manchete – que a Rádio Guaíba seria a única emissora do sul do Brasil a transmitir com exclusividade o campeonato mundial do Chile, graças a dois conceituados técnicos chilenos etc. Duas semanas depois, vindo com a minha família de Belém Novo, e corujando a Gaúcha no rádio do automóvel, quase morro de susto: a Guaíba estava sendo gozada em prosa e verso no programa esportivo da concorrente: “o que eles conseguiram em três meses, nós conseguimos em três dias”. E oficialmente anunciava-se sua presença na transmissão, utilizando o moderno transmissor do eminente engenheiro don Pedro del Campo Benavente. Bufei de raiva: “Aquele traidor!”. Mas, pensando melhor, vi que a traição tinha sido dupla, já que havia sido necessária também a autorização de Schatz. Mais tarde fiquei sabendo que Frederico Arnaldo Ballvé, que dirigia a Gaúcha com Maurício, tão logo soubera o caminho que eu havia trilhado (e que ingenuamente revelara na reportagem em que me gabolei da façanha), viajou para o Chile, onde deu aos dois pilantras o dobro do que eu dera, conseguindo exatamente o mesmo que me fora autorizado. Sem ter como reagir, viajei em maio para Santiago, onde permaneci quase dois meses, lutando palmo a palmo com a concorrência. Nosso som foi parelho até as quartas de final, quando então nos salientamos com vantagem, pois comprei e passei a utilizar um moderno transmissor Collins livrando-me das bandas do SSB de Del Campo. Em Porto Alegre, a exemplo do que acontecera nas transmissões de 1958, a recepção era feita na minha casa, no morro de Santa Tereza, em cujo quintal foi construída uma antena rômbica em direção ao Chile. Duas horas antes de cada jogo, os técnicos da Guaíba percorriam as casas da vizinhança, implorando para que não usassem liquidificadores e aparelhos assemelhados, a fim de não interferir em nossa transmissão, que, no jogo final e com o Brasil bicampeão, consagrou mais uma vez o som local da Guaíba.

Foi, portanto, a copa das dificuldades técnicas para os profissionais do Rio Grande do Sul e a do radinho de pilha para os ouvintes. No campo, apesar de alguns percalços, o Brasil não decepcionou o torcedor, uma vitória que você pode relembrar em um Reportagem Especial, da Rádio Guaíba, programa que lembrou o feito da seleção, 40 anos depois, dentro de uma série de programas sobre o tetracampeonato.


Programa Reportagem Especial relembra o bicampeonato brasileiro no Chile (8 de junho de 2002)
 


Produção: Márcio Beyer, Ramiro Ruschel e Eduardo Cutti.
Gravações: Rogério Petry, Valdinei Lima e Carlos Roberto Pereira.
Locução: Vladimir Oliveira, Paulo Amauri da Cunha, Mario Mazeron e Rui Strelow.
Seleção musical: Fernando Veronezi.
Coordenação e apresentação: Rodrigo Koch.
Chefia de esportes: Luiz Carlos Reche.
Fonte: Acervo particular de Rodrigo Koch.

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