A narração peculiar de Jorge Alberto Mendes Ribeiro
2007
Luiz Artur Ferraretto

Mendes Ribeiro na final da Copa de 1958 (8 de junho de 1958)
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.

Ao receber o convite de Arlindo Pasqualini em 1956 para se transferir para a Rádio Guaíba, Jorge Alberto Mendes Ribeiro talvez lembrasse daquele teste no início da década lá na Gaúcha, que então se transformava em seu ex-emprego. De fato, o recém-contratado diretor de broadcasting da nova emissora, anos antes, passara por uma constrangedora reprovação em seu teste de microfone na PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha. Foi salvo, então, por Cândido Norberto, mais condescendente do que seus colegas. Ouvindo o teste do fundo do auditório, Cândido, ao saber que o pessoal do radioteatro não tinha interesse em Mendes, acabou sentenciando:

– Pois então é minha. A participação dele daqui por diante na rádio é minha responsabilidade.

E lá se foi Mendes a fazer um pouco de tudo: locução comercial, locução esportiva, radioteatro, esportes, notícias... Até que passa a ocupar a chefia dos locutores, do Departamento de Notícias. Ironia maior que o dono da voz rejeitada, inicialmente, na Gaúcha iria definir aquele que é, talvez, o padrão de locução mais marcante da história do rádio do Rio Grande do Sul. Nas cinco décadas seguintes, os vozeirões estariam presentes nos 720 kHz da Guaíba quase como uma assinatura sonora, tão forte como o Boi Barroso, aquele instrumental gaudério que serve de característica da emissora até hoje.
A voz de Mendes Ribeiro faria também a alegria ou a tristeza dos candidatos no programa de perguntas e respostas Dê Asas a sua Inteligência. Primeira grande atração de entretenimento da Guaíba, a disputa de conhecimentos levaria o vencedor após várias semanas a Paris, com todas as despesas pagas, desde que, continuamente, suas respostas fossem saudadas pelo apresentador, pegando emprestado, assim, o bordão de outro programa, O Céu é o Limite:

– Absolutamente ceeerrrto!

É a voz de Mendes também que vai trazer a alegria da primeira grande conquista da Seleção Brasileira de futebol da Suécia para Porto Alegre em 1958:

– Os 200 brasileiros começam a acenar os lencinhos aqui. São poucos lenços! São poucas bandeiras! São poucas vozes gritando Brasil! Mas a verdade é que o Brasil é campeão! Lenços brancos para o Brasil! Duzentos brasileiros... Bola com Vavá, caiu na área, atingido novamente. Pelo meu cronômetro, está esgotado o tempo regulamentar! Vem Garrincha com a bola. Está terminando a Copa do Mundo! Garrincha com a bola. Garrincha para Djalma. Brasil 4 a 2! Djalma para Didi. Entra na área. Para Vavá, para Zagalo, para Pelê. Entra Zagalo na área, vai à linha de fundo, atira. Agarra o sueco. Quarenta e cinco minutos de jogo! Brasil 4, Suécia 2! Pelo meu cronômetro, terminou! Duzentos lenços brancos contra 60 mil! Atirou Zagalo. Cabeceou Pelê. Goool! Goool do Brasil! Gol do Brasil! Peleeê! Ficou estendido no gramado, Peleeê. Quarenta e cinco minutos. Entrou Zagalo, entrou Pelê e, de cabeça, atirou nas redes. Gol de Pelê para o Brasil! Gol de Pelê para o Brasil! Eu tenho a impressão que o árbitro não deu o gol... [hesita] Terminou o jogo! Terminou o jogo! Terminou o jogo! Brasil, campeão do mundo de 1958!

O que ninguém saberia explicar era a insistência na Copa de Mendes pronunciar Pelê e não Pelé. Óbvio que ninguém se importou muito em meio à festa que tomou conta de Porto Alegre, do Sul do país, do país inteiro. Uma das tantas conquistas do futebol brasileiro e da Guaíba. Sabor especial para a primeira delas. Guaíba que completava, então apenas um ano e já mudava a história do rádio do Rio Grande do Sul. Mudança, é claro, com a colaboração forte do seu diretor de broadcasting, seu principal narrador esportivo, de Jorge Alberto Mendes Ribeiro.

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