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Gaúcha: de Breno Caldas e Chico Vitrola a Arthur Pizzoli
2013
Luiz Artur Ferraretto

Apesar das crescentes divergências com o governador José Antônio Flores da Cunha, os negócios iam bem para o Correio do Povo e a Folha da Tarde. Inspirado pelo amigo e diretor da Farroupilha, Arnaldo Ballvé, e sem ter ainda completado dois anos à testa dos empreendimentos jornalísticos da família, Breno Caldas aventura-se na radiodifusão, tornando-se um dos proprietários da Rádio Sociedade Gaúcha, repartindo ações, entre outros, com Francisco Garcia de Garcia, da Casa Victor, a quem a PRC-2 devia 360 contos de réis, uma pequena fortuna na época, superior inclusive ao capital social da emissora.

Breno Caldas, sócio-proprietário da Rádio Sociedade Gaúcha
Fonte: CALDAS, Breno. Meio século de Correio do Povo: glória e agonia de um grande jornal. Depoimento a José Antonio Pinheiro Machado. Porto Alegre: L&PM, 1987. p. 156.

O maior mérito de Breno Caldas na Gaúcha foi, sem dúvida, a transferência para Porto Alegre, em 1939, de Oduvaldo Cozzi, profissional que se dividia entre a narração esportiva e a direção artística da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Até então, as transmissões de jogos de futebol limitavam-se a informar o nome do jogador que conduzia a bola, com o espaço entre um tempo e outro preenchido por música. Cozzi, ao contrário, descreve lance a lance e ocupa com comentários o intervalo da partida.

As transformações na PRC-2 não se limitam a sua configuração jurídica e, na sequência, acionária. Por esta época, os estúdios transferem-se do bairro Moinhos de Vento para a rua Sete de Setembro, próximo à esquina com a General Câmara, no centro da cidade. Também a frequência utilizada nas transmissões muda, com a emissora passando a ser sintonizada nos 680 kHz.

Ocorre, no entanto, que o rádio não empolga Breno Caldas do mesmo modo que os jornais, ou melhor, que o Correio do Povo, dirigido diretamente por ele. Em paralelo, conforme Breno Futuro, o empresário Arthur Pizzoli começa a se interessar pela PRC-2, negociando a participação do proprietário da Casa Victor, Francisco Garcia de Garcia:

Com a continuação da guerra, foram se criando e agravando dificuldades para as firmas de eletrodomésticos. Praticamente, tudo era importado, principalmente peças importantes de reposição. As dificuldades começaram a se fazer sentir para os aparelhos vendidos. As oficinas de manutenção das casas Coates e Victor, esta de Chico Garcia, tinham problemas semelhantes. Para a sobrevivência das mesmas e bom andamento, foi proposta por Pizzoli uma negociação em que seria permutado o controle acionário da Casa Coates pelo controle da Rádio Gaúcha, em mãos de Garcia.
O segundo passo de Pizzoli – assumir o controle total – é indicado pelo Relatório da diretoria da Rádio Sociedade Gaúcha S.A. – Exercício 1942, publicado nos jornais. Nele, o empresário já aparece como diretor interino, tendo Alexandre Martins, Breno Alcaraz Caldas e Francisco Garcia de Garcia como integrantes do Conselho Fiscal. Assinando o documento, Arthur Pizzoli informa a existência de um déficit de Cr$ 613.917,00 (613 mil 917 cruzeiros) no balanço da emissora, observando:

Cumpre-me [...] dizer-vos que, ainda, novas e bem avultadas inversões se fazem urgentemente necessárias a fim de levar a nossa estação a um nível técnico e artístico apreciável, única forma em que se pode ter a esperança de equilibrar a receita e a despesa.
O teor do texto anuncia o que ocorre em seguida. Com o assessoramento jurídico do advogado Ernani Estrela, o novo diretor investe em uma série de obras e aprimoramentos técnicos, aumentando o capital social e, por consequência, a sua participação acionária. Com o controle sobre a PRC-2 assegurado, Arthur Pizzoli, em setembro de 1943, contrata Arnaldo Ballvé, afastado do rádio desde a venda da Farroupilha meses antes. Trata, ainda, de aproveitar profissionais da Difusora na Gaúcha. Cândido Norberto Santos, um destes radialistas, descreve, assim, a situação da emissora na época:

Encontramos a Gaúcha [...] tocando disco o dia inteiro, paupérrima de comerciais, tendo como suporte econômico as dedicatórias. Para erguê-la, foi preciso levar adiante um lento trabalho de pôr ordem nas coisas.
Entre 1942 e 1944, a Gaúcha atravessa um período de reformulação, preparando-se para competir com mais força no mercado. Os transmissores são reformados e o auditório ampliado. O balanço de 1943 já registra um faturamento de Cr$ 465.183,00 (465 mil 183 cruzeiros). No entanto, com duas das três estações de Porto Alegre em um mercado ainda incipiente, Pizzoli começa a enfrentar dificuldades de comercialização. Opta, então, por vender a Difusora, direcionando seus investimentos em rádio para a Gaúcha. Assim, até o final da década, a PRC-2 faz frente à Farroupilha, escudando-se na cobertura esportiva – ponto fraco da concorrente – e no espetáculo – área em que a PRH-2 parecia imbatível.
A inauguração da Rádio Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Arlindo Pasqualini discursa na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 30.

Faltando poucos minutos para o meio-dia, a edição de sábado da Folha da Tarde, o principal vespertino do Rio Grande do Sul, acaba de rodar e um grupo de repórteres e redatores do jornal, junto com alguns colegas do Correio do Povo, comprime-se do outro lado do vidro que separa o estúdio do operador de áudio. Ouve-se, então, um arranjo especialmente preparado na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, para o tradicional Boi Barroso, a melodia das trovas tradicionais do cancioneiro gaudério. Com a voz embargada pela emoção, o locutor Aden Rossi anuncia, na sequência, impondo silêncio entre os colegas apinhados no corredor do segundo andar da rua Caldas Júnior, número 219:

– Senhoras e senhores, boa tarde. A partir deste momento, passa a operar regularmente através das suas emissoras de ondas médias, ZYU-58, em 720 quilociclos, e em ondas curtas de 25 e 49 metros, 11.785 e 9.865 quilociclos, a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Brasil. A Rádio Guaíba encetará, a partir deste momento, a sua programação musical de hoje, sábado, 20 de abril de 1957. Como primeiro número, ouviremos, por Frank Pourcell e sua orquestra, Three Coins in the Fountain...

Three Coins in the Fountain, de Frank Pourcell, com Franck Pourcell e sua orquestra

Não é ainda a inauguração oficial, como já sabem desde o início da manhã os leitores do Correio do Povo:
Acontece que, nos dez dias que distam entre uma data e outra, a Guaíba não colocará publicidade alguma em seus programas, transmitindo exclusivamente música para os sintonizadores dos 720 quilociclos. Posteriormente, seguindo religiosamente a linha que se traçou, jamais a publicidade ultrapassará de 1/3 do período de transmissões. Assim, valoriza ao máximo as mensagens comerciais e propicia aos sintonizadores espaços que, realmente, possam ser ouvidos.

Como registra o mesmo jornal no dia seguinte, aos primeiros ouvintes da Guaíba já chama a atenção a qualidade do som da nova emissora, cuja parte técnica está sob a responsabilidade de Homero Carlos Simon, contratado quatro anos antes. Desde 1953, o engenheiro vinha planejando e orientando a instalação dos transmissores colocados na ilha da Pintada de forma a aproveitar a conformação geográfica do local – o espelho d’água formado pelo lago Guaíba – para melhorar as irradiações. Nacionalista militante, o diretor técnico da emissora adquire equipamentos e componentes eletrônicos em sua grande maioria fabricados no Brasil, que são alterados, ajustados e remontados sob a sua supervisão, obrigando, por vezes, um trabalho redobrado, como ele mesmo lembraria anos depois:

Foi uma das lutas, das mais ingratas, mas ao final vencedora, de quatro anos seguidos, pelos problemas técnicos que tivemos de enfrentar para a instalação de transmissores e torres.

A entrada no ar da rádio segue um cronograma planejado pelo diretor da emissora, Arlindo Pasqualini, e aprovado por Breno Caldas, o proprietário do Correio do Povo e da Folha da Tarde, jornais aos quais, então, se junta a Guaíba. Assim, às 6h da quinta-feira, 25 de abril, a ZYU-58 começa a transmitir inclusive com a sua síntese noticiosa, o Correspondente Renner, lido, na época, por Ronald Pinto. A aproximação com os ouvintes vai se dando sem sobressaltos, de modo que, na semana seguinte, nem a chuva ou o frio daquela terça-feira, dia 30, impediriam que, uma hora e meia antes da inauguração oficial, marcada para as 20h30, o Theatro São Pedro – palco cuidadosamente escolhido – já estivesse lotado. Contrastando com a emoção do diretor de broadcasting, Jorge Alberto Mendes Ribeiro, e da locutora Jalma de Arroxelas, que o apresentam ao público, Arlindo Pasqualini transmite serenidade ao discursar:

– Senhoras e senhores. A Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que ora se inaugura aqui no Theatro São Pedro, com a presença para nós tão grata e tão honrosa de todos vós, constitui um empreendimento novo, mas que, embora novo, nasce sob o signo de uma tradição. É que sua vinculação a dois grandes jornais, o Correio do Povo e a Folha da Tarde, lhe traça implicitamente os rumos e a orientação. Tal orientação, como sabeis, é de absoluta independência, a qual tem para nós seus limites naturais e intransponíveis nos princípios da moral e nos imperativos do bem comum. Acerca de nossa programação normal, que deverá ter início amanhã, o que vos posso adiantar, em poucas palavras, é que ela não terá o luxo das grandes montagens. Mas, mesmo quando singela, jamais cairá na vulgaridade.

Mendes Ribeiro e Arlindo Pasqualini na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Proferido nas dependências do mais sofisticado teatro da cidade, o pronunciamento de Pasqualini não poderia mesmo deixar de ser um tanto solene. Solenidade que ultrapassa os limites do discurso em si e do estudado uso da segunda pessoa do plural. Mais do que tudo, o Major, apelido do jornalista desde os tempos da Revolução de 1930, lança as bases de uma programação sóbria e, por vezes, sisuda, tradicionais marcas do Correio do Povo¸ conferindo, ainda que por uma relação quase gregária, uma boa dose de credibilidade ao novo empreendimento de Breno Caldas.

A escolha do Theatro São Pedro como palco do programa desta noite de gala obedece, portanto, a uma lógica. Sugerida pelo radialista e publicitário Ruy Figueira e acatada pelo diretor comercial Flávio Alcaraz Gomes, a ideia é utilizar a casa de espetáculos da elite porto-alegrense para indicar que uma emissora diferente está surgindo. Armindo Antônio Ranzolin, assistente da direção de 1976 a 1984, dá uma boa definição desta nova forma de fazer rádio, conhecida, no mercado do Rio Grande do Sul, como estilo ou padrão Guaíba:

Numa época em que as suas concorrentes ainda queriam fazer de tudo um pouco, a Rádio Guaíba surgiu com uma proposta nova, transmitindo notícias, esportes, música e programas culturais de muito bom gosto. Impondo um rádio ao vivo, até mesmo nos intervalos comerciais, a Guaíba teve a vantagem de gerar sempre um som limpo. Cuidando dos conteúdos e com uma técnica avançada, a Rádio Guaíba fez com que a voz de seus locutores e repórteres chegasse forte aos ouvintes, mesmo quando transmitida de bem longe. Foi assim que se construiu o padrão Guaíba, resultado do trabalho de anos e anos e realizado por muitos e muitos profissionais. Por tudo isso, a Rádio Guaíba fez escola e se transformou num marco na radiofonia brasileira.

De certa forma, este novo parâmetro introduzido pela Guaíba recupera um pouco das pretensões culturais da elite porto-alegrense comuns às sociedades radiofônicas da década de 1920. Deste modo, logo após o discurso de Pasqualini, encerrado com a garantia de que a emissora será “uma voz a serviço do Rio Grande”, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos, apresenta um cuidadoso repertório com trechos mais conhecidos de peças eruditas. Na sequência, Yara Bernette, uma das mais importantes pianistas do país em todos os tempos, interpreta trechos de obras de Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Sebastian Bach, Ferruccio Busoni, Camargo Guarnieri, Claude Debussy, Franz Liszt e Frédéric Chopin. Encerrando esta “noitada de arte”, como define o Correio do Povo no dia seguinte, o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo, faz a vocalização do Boi Barroso, trilha musical que começa a ser conhecida como a assinatura sonora da Rádio Guaíba.

Apresentação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 14.

Yara Bernette e o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


O Guarani, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

A pianista Yara Bernette (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


Boi Barroso, com o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Primeira apresentação da trilha musical que identifica a Rádio Guaíba.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Primeira rádio do Rio Grande do Sul gestada dentro de uma empresa dedicada ao jornalismo, a estação da família Caldas tem a sua personalidade definida com cuidado, gerando o chamado estilo Guaíba. Tudo consequência de um trabalho em que interferem diversos profissionais. O diretor técnico, Homero Carlos Simon, garante uma qualidade de som cristalino que, já nas transmissões iniciais, diferencia a emissora das demais. Esta particularidade é ressaltada pelo padrão de voz, algo impostado, mas de extrema correção e clareza na pronúncia, definido por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o responsável pela área artística da rádio. O assistente da direção de broadcasting, Osmar Meletti, junto com o seu auxiliar Fernando Veronezi, aproveita também esta vantagem competitiva na programação musical, baseada em comedidas orquestrações, bem ao gosto de Breno Caldas. Outro fator, ainda, serve para reforçar a sobriedade das irradiações: todos os comerciais são lidos ao vivo, com a Guaíba negando-se a aceitar spots e jingles. Assim, na tabela de preços da ZYU-58 vai constar, além do valor dos reclames, a frase “A Rádio Guaíba não aceita anúncios gravados”, o que causa um impacto nas agências da época, como registra o então diretor comercial, Flávio Alcaraz Gomes, no 15° aniversário da emissora:

A Rádio Guaíba automaticamente ficou afastada das grandes verbas de propaganda e inúmeros experts de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo não nos deram mais de dois meses de existência. Apesar de tudo, o bom gosto de nossa programação, a alta qualidade de nosso som, que logo se consagraria como o famoso som local da Guaíba, e o impecável padrão de nossos locutores fizeram com que, quebrando todos os tabus, a Guaíba fosse conquistando o seu lugar ao sol e galgando, um a um e a duras penas, os degraus de uma liderança nacional hoje inconteste.

Quando de sua inauguração, não podendo fugir ao espetáculo radiofônico ainda em voga, a Guaíba organiza, mesmo assim, uma programação diferenciada. Baseando-se em conceitos ouvidos de Jesuíno Antônio D’Ávila, anos antes diretor da Farroupilha, e influenciado pelo rádio europeu e norte-americano, Flávio Alcaraz Gomes cria atrações como Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, e Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, atração televisiva da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Na dramaturgia, o destaque fica para o Grande Teatro Orniex, dirigido por Jorge Muccilo, nos domingos, às 21h, encenando, por vezes, clássicos da literatura, como Moby Dick, de Herman Melville. O final de tarde, de segunda a sexta, é, no entanto, das crianças, com os programas Histórias do Mestre Estrela, às 17h30, com Antônio Gabriel de Moura Coelho interpretando o personagem-título, e o Teatrinho Infantil Cacique, às 18h05, uma parceria com a revista Cacique, então publicada pela Secretaria Estadual da Educação. Como resultado, segundo Flávio Alcaraz Gomes, a rádio atinge a fatia de público pretendida:

O veredito popular consagrou, de imediato, a Guaíba como uma emissora sóbria, noticiosa, musical e herdeira das tradições de sua empresa-mãe, respeitável. O fato de emendar permanentemente duas músicas e de não veicular os estridentes jingles e spots atribuiu-lhe audiência cativa entre as elites.

Em 4 de outubro de 1957, a Guaíba, em um feito tecnológico para a época, capta o sinal do Sputnik, o primeiro satélite artificial da história, lançado horas antes pela União Soviética. A transmissão daquele bip-bip marca, fora a audácia técnica do engenheiro Homero Carlos Simon, o início de uma série de pioneirismos da rádio neste campo. No ano seguinte, chave para compreender o sucesso da emissora em termos de notícias e programação esportiva, ocorre a irradiação do Campeonato Mundial de Futebol, realizado na Suécia, e, um pouco depois, a cobertura das eleições estaduais. Na transmissão do título conquistado pela seleção do Brasil, Flávio Alcaraz Gomes, com o apoio do diretor técnico da Guaíba, introduz o uso de transmissores em single side-band (SSB), contando com a estrutura da Postes Télégraphes et Téléphones, de Berna, na Suíça. Por sua vez, anunciando com precisão e de forma antecipada o resultado do pleito para o governo do Rio Grande do Sul, a equipe comandada por Amir Domingues faz a primeira apuração paralela da história do rádio brasileiro. Com o fim do radioteatro da Guaíba no início dos anos 1960, a ZYU-58 adota o formato música-esporte-notícia em sua programação, no que também é uma das pioneiras no país.


Correspondente Renner anuncia o lançamento do Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra (outubro de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.
O Doutor e o Major
2007
Luiz Artur Ferraretto

Arlindo Pasqualini e Breno Caldas
Fonte: GALVANI, Walter. Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. p. 368.

Para Breno, Arlindo era “o Major”. Para “o Major”, o diretor era simplesmente “o Breno”. Pasqualini era o único que rompia o sagrado silêncio e o recolhimento do gabinete do diretor da toda-poderosa Companhia Caldas Júnior, na hora em que “Doutor Breno” – como o chamavam os demais simples mortais – dedicava-se a folhear algum volume da fabulosa Enciclopédia Espasa Calpe, que recheava as prateleiras envidraçadas do armário de livros. Seu divertimento favorito.

O jornalista Walter Galvani define assim, em seu livro Um Século de Poder, a proximidade entre Breno Caldas, um dos empresários mais poderosos da história da imprensa gaúcha, e Arlindo Pasqualini, sem dúvida o seu mais próximo colaborador. Aliás, nesta proximidade está a origem da Rádio Guaíba, que em abril completa 50 anos de existência. Se o patrão era homem de jornal com uma mal-sucedida experiência anterior com as pêerres da época, o funcionário se dedicaria a convencê-lo das possibilidades do rádio, superando esta contrariedade. De fato, no início da década de 1940, Breno Caldas havia perdido o controle acionário da Rádio Sociedade Gaúcha para Arthur Pizzoli, gerando todo receio possível a respeito de empreendimentos deste gênero. Mesmo assim, acabaria adquirindo uma concessão dada pelo governo a um grupo de políticos, como recorda Flávio Alcaraz Gomes, primeiro diretor comercial da Guaíba:

A concessão foi obtida pelo Partido Social Democrático. Na época, existiam apenas três emissoras em Porto Alegre: Gaúcha, Difusora e Farroupilha. Depois, surgiu a Itaí, em Guaíba. Foi obtida uma concessão pelo PSD, que era o partido dominante, no governo do Eurico Gaspar Dutra, por um grupo encabeçado por Victor Issler e Oscar Fontoura. Por volta de 1948 ou 1949, Breno Caldas compra esta concessão. Ele sempre protelou a entrada no ar da emissora, porque havia tido um fracasso muito grande com a Rádio Gaúcha.

É Pasqualini quem vai dobrar a resistência de Breno e, se o jornalista influencia o empresário, também acaba se deixando levar pelas ideias de Flávio Alcaraz Gomes e Jorge Alberto Mendes Ribeiro, derivando daí, desta química muito particular, o projeto da Rádio Guaíba. Acrescente-se a eles o engenheiro Homero Carlos Simon, a garantir um nível de excelência técnica nunca antes visto, e o programador musical Osmar Meletti, secundado por Fernando Veronezi.

Mas quem era Arlindo Pasqualini, tão próximo de Breno que chegava a ser uma espécie de porta-voz do empresário, por índole um sujeito muito reservado? Se Breno recolhia-se ao gabinete, Pasqualini expunha ideias compartilhadas por ambos. Assim, envolvem-se nas articulações políticas anteriores ao golpe de 1964 e que levam à derrubada de João Goulart. É quando, de um lado, está o governador Leonel Brizola com sua verve ao microfone da Farroupilha e, de outro, Pasqualini com seus textos no vespertino da Caldas Júnior. Já em torno da Revolução de 30, décadas antes, houve convergência entre os dois. O então jovem redator Arlindo Pasqualini engaja-se, na época, ao esforço das tropas que vão derrubar o presidente Washington Luiz e colocar no poder Getúlio Vargas. Deste seu envolvimento militar, guardaria para sempre o apelido de “Major” dado pelos colegas de jornal. Como explica Walter Galvani, há uma aproximação, por sua vez, de Breno Caldas em relação a Getúlio Vargas em função de serem ambos proprietários rurais, embora o empresário vá rejeitar sempre a vertente do político representada pelo Partido Trabalhista Brasileiro:

A Caldas Júnior apoiou claramente a Revolução de 1930. O comportamento do Correio do Povo é, absolutamente, favorável aos revolucionários e, depois, ao governo, inclusive, durante o Estado Novo. Ao Getúlio, o doutor Breno dedicava elogios constantes. Sempre foi considerado amigo da casa. Ele inaugurou a tradição de chefes de Executivo manifestarem-se no aniversário do Correio do Povo. Ao longo do tempo, o jornal e o doutor Breno, no entanto, vão se manter fiéis à sua tradição de representante dos produtores rurais. Quais eram os partidos que representavam os produtores rurais? Evidentemente, não eram os de trabalhadores urbanos como o PTB. Eram os partidos mais tradicionais da área rural, como o Partido Libertador. O PL sempre teve, apesar do seu pequeno número de adeptos, um espaço muito grande no Correio do Povo. O seu presidente, Raul Pilla, tinha uma coluna junto ao editorial. Isto nos anos 1930. O Correio do Povo apoiou os revolucionários de 1923. O Correio do Povo, portanto, apoiava Assis Brasil. Estava em oposição ao borgismo. O Getúlio, sabiamente, soube unificar as duas correntes políticas do estado. Como produtor rural, Vargas estava de um lado e, como ex-membro do governo Borges de Medeiros, aproximava-se do outro lado. Basta lembrar que, mais adiante, ele fundaria o PTB e o PSD, com posturas diversas. O Getúlio tinha, então, a simpatia do Correio como produtor rural, mas, evidentemente, não era um parlamentarista, principal bandeira do PL. O Breno Caldas era parlamentarista na política. Aqui, dentro da casa, não podia ser mais presidencialista do que era.

Desta convergência, vem a confiança que coloca Arlindo Pasqualini à frente do projeto inicial da estação de rádio ligada aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, resumido em seu discurso naquela noite de chuva e frio, 30 de abril de 1957, no Theatro São Pedro, o momento da inauguração oficial da Guaíba. Discurso, vale lembrar, ideologias à parte, que sintetiza, em uma das frases, o projeto da emissora e também a forma de o próprio Pasqualini ser e escrever: uma programação sem o “luxo das grandes montagens”, mas que prometia “mesmo quando singela” jamais cair “na vulgaridade”.

Palavras diferentes, ideias muito semelhantes. Basta comparar a fala inaugural de Pasqualini com este trecho, 30 anos depois, do depoimento de Breno Caldas a José Antonio Pinheiro Machado:

Sempre procurei fazer uma estação de rádio impessoal. O mais impessoal possível. Tanto que alguns programas que surgiam com o nome do fulano ou do beltrano, eu sempre procurava cortar. Às vezes, deixava passar um pouco, mas logo arrumava um pretexto para acabar com aquilo. Eu era contrário a esse negócio. Achava que o programa devia ter um nome impessoal, porque amanhã ou depois o titular, o figurão, desaparece ou faz uma mancada... e o programa fica ali, não há problema. E assim, desde o início, a Guaíba buscou um padrão sóbrio, sem jingles, procurando respeitar a inteligência... a seriedade do ouvinte...

Os contemporâneos de ambos contam que, por vezes, o doutor Breno e o Major saíam para uma caminhada na Rua da Praia, a mais conhecida das vias de Porto Alegre. Desde a Caldas Júnior, andavam quadras e mais quadras, retornando ao ponto de origem. O detalhe: quase sempre mantinham reservado silêncio, trocando uma ou outra impressão ocasional. Será que precisavam mesmo de palavras?

Homenagem dos funcionários da Rádio Guaíba a Arlindo Pasqualini no dia do seu falecimento (9 de setembro de 1964)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.
A Rádio Guaíba e a crise na Caldas Júnior
2014
Luiz Artur Ferraretto


A década de 1980 inicia com os veículos de comunicação controlados pela família Caldas Júnior demonstrando fragilidades que pareciam impossíveis de serem reais para quem, dez anos antes, observasse a vitalidade de um grupo a controlar, entre outros, jornais como o Correio do Povo e a principal emissora voltada ao público de classes A e B no Rio Grande do Sul, a Rádio Guaíba. De fato, alguns episódios já remetiam para a possibilidade de uma crise futura.

Na primeira metade dos anos 1970, época de concentração de capital e formação de grandes grupos econômicos, Breno Caldas, proprietário da Companhia Jornalística Caldas Júnior e da Rádio Guaíba, recusa duas transações que, se realizadas, além de impedirem o crescimento de concorrentes já existentes, poderiam ter imposto poderosas barreiras à entrada de novas empresas no mercado de comunicação de massa do Rio Grande do Sul. Na primeira delas, em 1971, o publicitário Antonio Mafuz serve de intermediário para a tentativa de Maurício Sirotsky Sobrinho de desfazer-se do jornal Zero Hora, o que deixaria a Caldas Júnior com um quase monopólio na grande imprensa estadual, dotando-a ainda de um parque gráfico moderno. Na segunda negociação recusada, em dezembro de 1973, o grupo assumiria os veículos dos Diários e Emissoras Associados, ganhando uma rádio com canal livre internacional, uma emissora de televisão e também, pelo menos, mais um jornal.

Bem-sucedido em seus empreendimentos na área de imprensa – especialmente, na condução do Correio do Povo –, Breno Caldas era mesmo um homem de jornal, dos antigos, extremamente culto e centralizador, mas com proximidade também com o Rio Grande agrário. Concessões apenas a alguns poucos – e próximos – colaboradores, entre eles, Arlindo Pasqualini, um dos únicos a tratar o patrão por “tu”, e não como os demais com o habitual “doutor Breno”. Não quer dizer que fosse despótico, mas sim se adequava ao padrão do capitalista dos anos 1930 e 1940: algo instintivo, um tanto avesso a mudanças, reagindo ao momento e de cada experiência vivenciada tirando lições, nem sempre as mais adequadas.

Quem, por volta de 1970, visse a pujança da Companhia Jornalística Caldas Júnior, publicando três jornais – Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde –, e a tranquila situação da Rádio Guaíba jamais imaginaria a crise do início da década seguinte. Em 1969, por exemplo, de acordo com a revista Visão, Breno Caldas possui a sexta fortuna pessoal do país. Três anos depois, outra publicação, a Exame, atesta a vitalidade do Correio, carro-chefe da Caldas Júnior: é o diário de maior rentabilidade do país e o sexto em lucro líquido, além de contar com 93 mil assinantes. Para se ter uma ideia, em 1976, registra o Anuário brasileiro de Propaganda, o capital social de suas empresas – Cr$ 28,3 milhões  – chega a ser mais de duas vezes superior ao da Rede Brasil Sul de Comunicação – Cr$ 12,3 milhões –, que, dez anos depois, vai se tornar quase hegemônica no mercado gaúcho.

No entanto, no plano interno, a mecânica de funcionamento do grupo dá mostras de fadiga. Acostumado a uma estrutura hierárquica centralizada – ele, os subordinados mais próximos e todos os outros, na definição de Walter Galvani, autor dos livros Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior e Olha a Folha: amor, traição e morte de um jornal –, Breno Caldas mantém as características familiares do negócio, rejeitando, inclusive, a tendência, deste tipo de empreendimento, em que, à participação direta dos proprietários, junta-se “o aproveitamento de especialistas e profissionais”.

Neste sentido, chamam a atenção algumas declarações de Breno Caldas à revista Propaganda, em 1975, sobre a forma como os negócios do grupo são conduzidos em um âmbito quase que estritamente familiar:


Capa da revista Propaganda (novembro de 1975)
Breno Caldas ao lado do filho, Francisco Antônio Caldas. A reportagem da revista descreve a pujança do grupo.
Fonte: GALVANI, Walter. Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. p. 438.

Além do intenso e progressivo crescimento da concorrência representada pela RBS, que se ampara em sua associação na área de TV com a Rede Globo, Breno Caldas começa a ter atritos com representantes do regime militar. Até então, era considerado de confiança junto ao poder fardado. O desgaste começa em um episódio de rebeldia contra a censura, no qual o empresário procura ser fiel às suas convicções em relação ao jornal Correio do Povo. De histórica proximidade com o grupo paulista da família Mesquita, onde o seu meio-irmão Fernando Caldas fizera carreira, Breno resolve publicar o telex encaminhado pelo diretor de O Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde, Ruy Mesquita, ao Ministério da Justiça, reclamando de uma determinação – apócrifa, mas atribuída ao titular da pasta, Armando Falcão – proibindo “a publicação de notícias, comentários, entrevistas ou críticas de qualquer natureza sobre a abertura política ou democratização, ou assuntos correlatos, anistia a cassados ou revisão parcial dos seus processos, críticas ou comentários ou editoriais desfavoráveis sobre a situação econômico-financeira ou problema sucessório e suas implicações”. Mais do que isto, o diretor do Correio do Povo manda incluir, além do texto, a determinação ministerial. Assim, na madrugada de 20 de setembro de 1972, os exemplares do jornal vão sendo apreendidos pela Polícia Federal à medida que saem da rotativa da Caldas Júnior.

A partir deste rompante do empresário, crescem as restrições dos militares a Breno Caldas. Fora isto, mantém em seus quadros funcionais conhecidos comunistas – como o locutor Lauro Hagemann –, assunto recorrente em conversas com partidários do regime, encerradas sempre taxativamente pelo empresário:

– Eu faço o que bem entendo. Boto no meu jornal as pessoas que eu entender, comunistas ou não, a critério meu. Eu não aceito qualquer imposição neste sentido!

Uma auditoria interna indica, em 1975, a existência de problemas financeiros no complexo de empresas liderado por Breno Caldas. Na época, os três jornais publicados pela Caldas Júnior – Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde – possuem estruturas independentes, com equipes próprias, muitas vezes destacadas para a cobertura de um mesmo acontecimento. Em paralelo, prevê-se para breve a inauguração da TV2 Guaíba e da Rádio Guaíba FM. Face a esta realidade, como registra Walter Galvani, em seu livro Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior, Breno Caldas é alertado para a necessidade de uma reestruturação do grupo:

A maioria dos analistas e consultores recomendava a concentração de forças no Correio do Povo e o fechamento das Folhas, manutenção da Rádio Guaíba apenas e, se a televisão viesse mesmo, como acabou vindo, em 1979, que operasse em rede com a Globo ou a Manchete, pois oferecimentos neste sentido havia, e muitos.

No momento em que a TV impulsiona o crescimento do principal adversário, atender aos apelos e oferecimentos do empresário Roberto Marinho das Organizações Globo afetaria, diretamente, à Rede Brasil Sul de Comunicação. Já aceitar os convites de Adolpho Bloch, da Rede Manchete, cujo slogan “Televisão de primeira classe” descrevia bem uma cadeia de emissoras voltada, de início, às classe A e B, iria ao encontro de uma perspectiva muito próxima daquela que norteava os veículos da família Caldas. Do primeiro, Breno Caldas recebe uma proposta para que a Rede Globo de Televisão se encarregue da montagem da TV Guaíba. O segundo hospeda-se no Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre, tentando uma reunião para negociar a compra ou a participação nas empresas Rádio Guaíba S.A e Televisão Guaíba Ltda., mas nem chega a ser recebido pela direção do grupo Caldas Júnior, avessa à ideia de integrar redes do centro do país.

Com o mercado começando a se transformar de modo crescente, o incêndio no edifício da matriz das Lojas Renner, no dia 27 de abril de 1976, põe à prova a falta de ousadia da Rádio Guaíba, embora a emissora contasse com profissionais como Armindo Antônio Ranzolin ou Flávio Alcaraz Gomes. Situado na esquina da rua Doutor Flores com a avenida Otávio Rocha – portanto, a menos de dez quarteirões dos estúdios da Guaíba –, o prédio de oito andares queima durante sete horas, deixando 40 mortos, dezenas de feridos e o prestígio da emissora abalado. Embora o Correspondente Renner seja o primeiro informativo a dar a notícia, por volta das 14h, não há repórteres para acompanhar o fato. A emissora não contava com repórteres próprios, baseando-se apenas no trabalho de redatores e das equipes dos jornais da Caldas Júnior. Como observou Armindo Antônio Ranzolin:

[...] a Guaíba – que havia falado do outro lado do globo, que fizera copas do mundo, que fora à guerra com Flávio Alcaraz Gomes –, naquele dia, não conseguia vencer alguns quarteirões para transmitir um incêndio.

Desde o início de 1976, no entanto, um grupo de funcionários articula-se, buscando junto aos proprietários da empresa a aprovação de algumas medidas para a modernização da rádio. Cria-se, então, informalmente, uma espécie de comitê, integrado, entre outros, por Amir Domingues, Antônio Britto Filho, Armindo Antônio Ranzolin, Adroaldo Streck, Ênio Berwanger, Flávio Alcaraz Gomes e Homero Carlos Simon, que redigem um documento submetido a Breno Caldas. É a sequência lógica de um processo que se baseia, de um lado, na reformulação do Departamento de Esportes e, de outro, na revolução representada pelo programa Agora. Conforme Ranzolin, o memorando encaminhado à direção da empresa faz um preciso diagnóstico da situação da emissora:

Nós fizemos um comitê de 15, 16 pessoas e exigimos uma definição do doutor Breno. Afinal, quem é que mandava na rádio? Fizemos uma grande discussão sobre os problemas da Rádio Guaíba. Primeira conclusão: a rádio não tem diretor. Morreu o Arlindo Pasqualini e nunca mais foi nomeado outro diretor. Este comitê produziu uma ata da reunião e encaminhou ao doutor Breno. É um documento importantíssimo na história da Rádio Guaíba. Começava com a exigência de definição de um diretor. Nós analisávamos as ameaças de mercado à emissora. Não tínhamos televisão. Não tínhamos frequência modulada. Tínhamos uma rádio velha – cada vez mais lenta, nos seus processos de decisão – e acéfala. O documento mostrava claramente que havia uma ameaça da Rede Brasil Sul à Caldas Júnior na mídia eletrônica e que nós tínhamos de reagir, botando no ar, imediatamente, o FM. Tínhamos de passar o nosso transmissor de ondas médias de 50 para 100 kW, para o que já havia autorização do Ministério das Comunicações. Tínhamos de modernizar a operação da rádio.

Armindo Antônio Ranzolin
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 4 de outubro de 1999.

Como resultado destas articulações, Francisco Antônio Caldas assume a direção da Guaíba, tendo Ranzolin como seu assistente, que escolhe Antônio Britto para coordenar o jornalismo da emissora. A partir daí, estrutura-se uma equipe de reportagem e são adquiridos equipamentos para dotar a rádio de unidades móveis. A figura do repórter ganha espaço na programação, em especial após o surgimento, no ano de 1977, do Linha Aberta, o primeiro radiojornal moderno da Guaíba, transmitido de segunda a sexta, das 13h15 às 14h. Este processo de recuperação, no entanto, perde força à medida que, de modo geral, se agrava o quadro econômico da Companhia Jornalística Caldas Júnior e da Rádio Guaíba S.A, devido, em especial, aos gastos expressivos com a instalação da TV2 Guaíba, finalmente inaugurada em 10 de março de 1979. Um ano depois, aproveitando a torre da televisão no morro Santa Teresa, entra no ar a Guaíba FM, exclusivamente dedicada ao tipo de música veiculado desde 1957 por sua coirmã de amplitude modulada e transmitindo para um público adulto das classes A e B. Quase simultaneamente, a Companhia Jornalística Caldas Júnior suspende, no dia 22 de março, a circulação da Folha da Manhã. Nesta época, o grupo deve, apenas ao Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul), cerca de US$ 2 milhões.

Em plena abertura política, Breno Caldas, que apoiara com editoriais e artigos o golpe de 1964, mas já olhado com desconfiança pelo regime, começa a ter dificuldades nas negociações das dívidas da Caldas Júnior com as instituições financeiras estaduais e federais. Mesmo assim, ainda consegue acesso aos círculos oficiais e aceita a recomendação para contrair empréstimos em moeda estrangeira, permitidos pela chamada Resolução n. 63, do Banco Central, datada de 21 de agosto de 1967. Com base neste dispositivo, ao longo de 1981, o grupo obtém US$ 7,830,000 junto ao Banrisul. Isto, quando o valor médio mensal do dólar para venda sobe de Cr$ 67,521, em janeiro, para Cr$ 131,21, um ano depois. A dívida vai se avolumando, chegando a um total geral de US$ 11,686,694.00 no dia 24 de janeiro de 1983.

Apesar da crise que atinge a Empresa Jornalística Caldas Júnior e a Televisão Guaíba Ltda., nova razão social adotada em 1982, a Rádio Guaíba S.A consegue manter-se ainda em condições de competitividade. Nas eleições de novembro de 1982, anuncia com precisão o resultado em uma apuração paralela coordenada pelo jornalista Luiz Figueredo, enquanto a Gaúcha amarga uma série de dificuldades na totalização dos seus dados. No entanto, um pouco antes, durante a cobertura da Copa do Mundo na Espanha, há um empate técnico na audiência ao longo do mês de junho, com ligeira vantagem para a emissora da RBS, que registra 15,95% dos receptores ligados contra 15,6% da Guaíba.

No início de 1983, em meio às dificuldades para negociar as dívidas com o Banrisul, Breno Caldas, em dois artigos – Palmo e meio e Palmo e meio 2 – ataca, duramente, o então governador do estado, José Augusto Amaral de Souza, chegando a insinuar, em depoimento a José Antônio Pinheiro Machado no livro Meio século de Correio do Povo: glória e agonia de um grande jornal, a influência de concorrentes: “houve gente de fora do banco trabalhando para que a execução fosse iniciada logo”. Em resposta, Amaral de Souza revelaria, dez anos depois, ao jornalista Walter Galvani:

[A situação] chegou a um ponto em que o débito da Caldas Júnior era igual ao capital nominal do banco. Isso é uma situação completamente irregular. O que se pedia à Caldas Júnior era a normalização dos seus débitos. Com o oferecimento de garantias reais, e o diretor-presidente da empresa as tinha, de sobra. Era uma solução facílima, esta repactuação das dívidas e o oferecimento de garantias reais. Eu, honestamente, não consigo ver hoje por que o doutor Breno, como diretor-presidente da Caldas Júnior na época, não acertou.

Em dezembro de 1983, a Guaíba consegue, ainda, fazer uma boa cobertura da disputa do Mundial Interclubes, quando o Grêmio Foot-ball Porto-alegrense derrota por 2 a 1 o Hamburgo (Hamburger Sportverein), em Tóquio. No entanto, quando a equipe de esportes retorna a Porto Alegre, a situação do grupo Caldas Júnior é muito grave. Sem receber os salários dos meses de outubro e novembro, os funcionários do Correio do Povo e da Folha da Tarde entram em greve, no dia 12, menos de 24 horas após a vitória gremista na Ásia. A paralisação, esvaziada e em meio a disputas no Tribunal Regional do Trabalho, termina em fevereiro de 1984, depois de 56 dias e sem que os salários sejam integralmente pagos. Breno Caldas tenta, sem sucesso, uma composição da dívida com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, apostando na grande quantidade de gaúchos nos altos escalões do governo Figueiredo.

Protelando ações executórias do Banrisul contra a Caldas Júnior e sem condições sequer para pagar o papel necessário à impressão do Correio do Povo e da Folha da Tarde, o empresário manda, no sábado, dia 16 de junho de 1984, comunicar ao público do Rio Grande do Sul que a circulação dos dois jornais está suspensa. É o que faz, no início da tarde, o locutor José Fontella na Rádio Guaíba, em uma mensagem várias vezes repetida naquele final de semana. Semanas depois, o próprio Breno Caldas iria à televisão explicar a suspensão na circulação dos jornais. Ao microfone da rádio, Adroaldo Streck e Rogério Mendelski vão tentar mobilizar, sem resultados efetivos, a sociedade gaúcha para a retomada da circulação dos jornais, enquanto o chamado Comitê de Salvação, um grupo eleito pelos funcionários, mantém contatos com lideranças políticas e empresariais.



Breno Caldas (1984)
Áudio da entrevista concedida por Breno Caldas ao jornalista Amir Domingues na TV2 Guaíba.
Fonte: Arquivo pessoal.


Prédio da Caldas Júnior e da Rádio Guaíba durante a mobilização pelo retorno do Correio do Povo e da Folha da Tarde (junho de 1984)
Fonte: GALVANI, Walter. Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. p. 481.

Na Rádio Guaíba, o segundo semestre de 1984 vê o desmonte da equipe da emissora. Para a Gaúcha, saem, logo em seguida ao fechamento dos jornais, Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte. Em dezembro, para a Pampa, que passa a investir em jornalismo, transfere-se um contingente significativo de profissionais do grupo: Adroaldo Streck, José Barrionuevo, Lauro Hagemann, Lauro Quadros, Luiz Figueredo, Rogério Mendelski, Tânia Carvalho e Walter Galvani, entre outros.

Quem fica na rádio convive com salários atrasados, pagamentos em vale e o descumprimento de obrigações trabalhistas. No dia 30 de setembro de 1985, o juiz Sérgio José Dulac Müller, do 2° Juizado da Vara de Falências e Concordatas, decreta a falência da Empresa Jornalística Caldas Júnior, aceitando o pedido do ex-funcionário Otildo Castilho Filho para que a dívida trabalhista dele seja transformada em título executivo. A Guaíba, uma outra empresa, não é afetada pela decisão judicial. Desde o início do ano, os funcionários remanescentes tentam obter o controle da rádio, com base nos salários e encargos atrasados, o que, efetivamente, conseguem no dia 18 de dezembro. A respeito, vai publicar a Revista Sul, em junho de 1986:

O advogado Carlos Gomes articulou uma ação de usufruto. Este tipo de ação transfere aos empregados a gestão de uma empresa até que ela salde os débitos trabalhistas. Quando eles estiverem em dia, a empresa volta a ser administrada pelo proprietário. Mas é preciso que o dono concorde em ceder o controle.E foram necessários quatro meses para Breno Alcaraz Caldas concordar. A ação foi apoiada pelo advogado de Breno, Pedro Ferreira da Silva Filho, que se encarregou de convencer o cliente de que esta era a melhor saída.

Organiza-se, então, um novo corpo diretivo – Demostenes Anildo Martins Pinto, administrador geral; Marcelo Feijó, diretor financeiro; e Lasier Martins, diretor operacional –, que permanece até 5 de maio de 1986. Na véspera, o empresário do setor agroindustrial Renato Bastos Ribeiro compra a Empresa Jornalística Caldas Júnior, a Rádio Guaíba S.A e a Televisão Guaíba Ltda., assumindo todas as dívidas do grupo e impedindo o leilão dos prédios, marcado para aquela mesma semana. Sob sua administração, são modernizados os equipamentos das emissoras, a Guaíba AM passa a transmitir com 100 kW e o Correio do Povo volta a circular. No entanto, embora saneado financeiramente, em poucos momentos o Sistema Guaíba-Correio do Povo, denominação genérica adotada nos anos 1990, faz frente nos seus segmentos de atuação à hegemonia da Rede Brasil Sul. Posteriormente, em 2007, as empresas são repassadas ao Grupo Record, com sede em São Paulo e ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.