O Doutor e o Major
2007
Luiz Artur Ferraretto

Arlindo Pasqualini e Breno Caldas
Fonte: GALVANI, Walter. Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994. p. 368.

Para Breno, Arlindo era “o Major”. Para “o Major”, o diretor era simplesmente “o Breno”. Pasqualini era o único que rompia o sagrado silêncio e o recolhimento do gabinete do diretor da toda-poderosa Companhia Caldas Júnior, na hora em que “Doutor Breno” – como o chamavam os demais simples mortais – dedicava-se a folhear algum volume da fabulosa Enciclopédia Espasa Calpe, que recheava as prateleiras envidraçadas do armário de livros. Seu divertimento favorito.

O jornalista Walter Galvani define assim, em seu livro Um Século de Poder, a proximidade entre Breno Caldas, um dos empresários mais poderosos da história da imprensa gaúcha, e Arlindo Pasqualini, sem dúvida o seu mais próximo colaborador. Aliás, nesta proximidade está a origem da Rádio Guaíba, que em abril completa 50 anos de existência. Se o patrão era homem de jornal com uma mal-sucedida experiência anterior com as pêerres da época, o funcionário se dedicaria a convencê-lo das possibilidades do rádio, superando esta contrariedade. De fato, no início da década de 1940, Breno Caldas havia perdido o controle acionário da Rádio Sociedade Gaúcha para Arthur Pizzoli, gerando todo receio possível a respeito de empreendimentos deste gênero. Mesmo assim, acabaria adquirindo uma concessão dada pelo governo a um grupo de políticos, como recorda Flávio Alcaraz Gomes, primeiro diretor comercial da Guaíba:

A concessão foi obtida pelo Partido Social Democrático. Na época, existiam apenas três emissoras em Porto Alegre: Gaúcha, Difusora e Farroupilha. Depois, surgiu a Itaí, em Guaíba. Foi obtida uma concessão pelo PSD, que era o partido dominante, no governo do Eurico Gaspar Dutra, por um grupo encabeçado por Victor Issler e Oscar Fontoura. Por volta de 1948 ou 1949, Breno Caldas compra esta concessão. Ele sempre protelou a entrada no ar da emissora, porque havia tido um fracasso muito grande com a Rádio Gaúcha.

É Pasqualini quem vai dobrar a resistência de Breno e, se o jornalista influencia o empresário, também acaba se deixando levar pelas ideias de Flávio Alcaraz Gomes e Jorge Alberto Mendes Ribeiro, derivando daí, desta química muito particular, o projeto da Rádio Guaíba. Acrescente-se a eles o engenheiro Homero Carlos Simon, a garantir um nível de excelência técnica nunca antes visto, e o programador musical Osmar Meletti, secundado por Fernando Veronezi.

Mas quem era Arlindo Pasqualini, tão próximo de Breno que chegava a ser uma espécie de porta-voz do empresário, por índole um sujeito muito reservado? Se Breno recolhia-se ao gabinete, Pasqualini expunha ideias compartilhadas por ambos. Assim, envolvem-se nas articulações políticas anteriores ao golpe de 1964 e que levam à derrubada de João Goulart. É quando, de um lado, está o governador Leonel Brizola com sua verve ao microfone da Farroupilha e, de outro, Pasqualini com seus textos no vespertino da Caldas Júnior. Já em torno da Revolução de 30, décadas antes, houve convergência entre os dois. O então jovem redator Arlindo Pasqualini engaja-se, na época, ao esforço das tropas que vão derrubar o presidente Washington Luiz e colocar no poder Getúlio Vargas. Deste seu envolvimento militar, guardaria para sempre o apelido de “Major” dado pelos colegas de jornal. Como explica Walter Galvani, há uma aproximação, por sua vez, de Breno Caldas em relação a Getúlio Vargas em função de serem ambos proprietários rurais, embora o empresário vá rejeitar sempre a vertente do político representada pelo Partido Trabalhista Brasileiro:

A Caldas Júnior apoiou claramente a Revolução de 1930. O comportamento do Correio do Povo é, absolutamente, favorável aos revolucionários e, depois, ao governo, inclusive, durante o Estado Novo. Ao Getúlio, o doutor Breno dedicava elogios constantes. Sempre foi considerado amigo da casa. Ele inaugurou a tradição de chefes de Executivo manifestarem-se no aniversário do Correio do Povo. Ao longo do tempo, o jornal e o doutor Breno, no entanto, vão se manter fiéis à sua tradição de representante dos produtores rurais. Quais eram os partidos que representavam os produtores rurais? Evidentemente, não eram os de trabalhadores urbanos como o PTB. Eram os partidos mais tradicionais da área rural, como o Partido Libertador. O PL sempre teve, apesar do seu pequeno número de adeptos, um espaço muito grande no Correio do Povo. O seu presidente, Raul Pilla, tinha uma coluna junto ao editorial. Isto nos anos 1930. O Correio do Povo apoiou os revolucionários de 1923. O Correio do Povo, portanto, apoiava Assis Brasil. Estava em oposição ao borgismo. O Getúlio, sabiamente, soube unificar as duas correntes políticas do estado. Como produtor rural, Vargas estava de um lado e, como ex-membro do governo Borges de Medeiros, aproximava-se do outro lado. Basta lembrar que, mais adiante, ele fundaria o PTB e o PSD, com posturas diversas. O Getúlio tinha, então, a simpatia do Correio como produtor rural, mas, evidentemente, não era um parlamentarista, principal bandeira do PL. O Breno Caldas era parlamentarista na política. Aqui, dentro da casa, não podia ser mais presidencialista do que era.

Desta convergência, vem a confiança que coloca Arlindo Pasqualini à frente do projeto inicial da estação de rádio ligada aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, resumido em seu discurso naquela noite de chuva e frio, 30 de abril de 1957, no Theatro São Pedro, o momento da inauguração oficial da Guaíba. Discurso, vale lembrar, ideologias à parte, que sintetiza, em uma das frases, o projeto da emissora e também a forma de o próprio Pasqualini ser e escrever: uma programação sem o “luxo das grandes montagens”, mas que prometia “mesmo quando singela” jamais cair “na vulgaridade”.

Palavras diferentes, ideias muito semelhantes. Basta comparar a fala inaugural de Pasqualini com este trecho, 30 anos depois, do depoimento de Breno Caldas a José Antonio Pinheiro Machado:

Sempre procurei fazer uma estação de rádio impessoal. O mais impessoal possível. Tanto que alguns programas que surgiam com o nome do fulano ou do beltrano, eu sempre procurava cortar. Às vezes, deixava passar um pouco, mas logo arrumava um pretexto para acabar com aquilo. Eu era contrário a esse negócio. Achava que o programa devia ter um nome impessoal, porque amanhã ou depois o titular, o figurão, desaparece ou faz uma mancada... e o programa fica ali, não há problema. E assim, desde o início, a Guaíba buscou um padrão sóbrio, sem jingles, procurando respeitar a inteligência... a seriedade do ouvinte...

Os contemporâneos de ambos contam que, por vezes, o doutor Breno e o Major saíam para uma caminhada na Rua da Praia, a mais conhecida das vias de Porto Alegre. Desde a Caldas Júnior, andavam quadras e mais quadras, retornando ao ponto de origem. O detalhe: quase sempre mantinham reservado silêncio, trocando uma ou outra impressão ocasional. Será que precisavam mesmo de palavras?

Homenagem dos funcionários da Rádio Guaíba a Arlindo Pasqualini no dia do seu falecimento (9 de setembro de 1964)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

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