João Aveline, um dos pioneiros do radiojornalismo
2005
Luiz Artur Ferraretto

João Aveline (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de João Aveline.

No domingo, dia 13 de novembro, os jornalistas do Rio Grande do Sul perderam uma de suas referências éticas. Quem passou pelas redações de Porto Alegre nas últimas décadas acostumou-se a ter em João Aveline, falecido aos 86 anos, um exemplo de coerência não só profissional como política. Militante histórico do Partido Comunista Brasileiro, foi preso diversas vezes, ao longo da ditadura militar, sem abdicar de sua ideologia. Seguia crendo na revolução marxista como forma única de transformação social e redenção dos oprimidos. Quem passou pelas redações de Porto Alegre sabe disto. Muitos, no entanto, esquecem o papel fundamental de Aveline para a estruturação do radiojornalismo no Rio Grande do Sul. Papel, aliás, coerente com sua atuação em defesa da profissão que, junto com o comunismo, abraçou décadas atrás, também como instrumento de luta contra a alienação e a favor do progresso da sociedade.

No final da década de 1950, ao assumir o Departamento de Notícias da Gaúcha, João Aveline procura valorizar ao máximo a profissão de jornalista, contrariando a prática, comum na época, de pagar um cachê aos locutores ou outros profissionais para a produção dos textos informativos. Até então, as notícias vêm dos jornais ou do reaproveitamento do que é veiculado por estações do centro do país. Vez por outra, os improvisados redatores passam-se um pouco e se pode escutar algo como “Senhoras e senhores, como se vê no clichê fotográfico acima...” ou “Atenção, moradores do Leme, vai faltar água hoje à tarde...”. Pior quando uma das atrações do radioteatro encerra, de modo imprevisto, antes do horário e, preenchendo o tempo vago, irrompem edições extraordinárias dos noticiários, sem o mínimo valor informativo. Em meio a este quase amadorismo de referências a fotos, bairros cariocas e total falta de critério, a escuta e a recortagem ainda são, portanto, habituais, até mesmo por questões de custo em uma fase da radiodifusão na qual o lucro advém, em sua grande maioria, do entretenimento. A dupla função é uma forma deste tipo de conteúdo sair mais barato para as emissoras. Deste modo, sem uma pontuação adequada e redigido bem à moda do próprio locutor, o texto não tem como ser lido em sua entonação exata por outro profissional.

João Aveline
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 7 de Janeiro de 2005.

No início dos anos 1950, apenas a edição gaúcha do Repórter Esso escapa um pouco a esta lógica. A maioria do noticiário, produzido pela United Press International, vem, via telegráfica, do Rio de Janeiro. No entanto, o locutor exclusivo do principal informativo da Farroupilha e do rádio do Rio Grande do Sul, Lauro Hagemann, também ganha uma remuneração extra para produzir os textos referentes a acontecimentos locais:

– Eu recebia um adicional de 500 cruzeiros para inserir a parte local, que eu pegava dos jornais, reduzia e fazia um texto obrigatoriamente enxuto. As locais eram só as notícias muito importante mesmo. Nos domingos, eles exigiam as notícias locais do esporte.

De outra parte, a inauguração da Rádio Guaíba, em 1957, vai começar a alterar este panorama, associando-se a outros fatores externos ao meio rádio, como a introdução da TV no ambiente comunicacional do estado. Surgida em uma empresa jornalística, responsável pelos diários Correio do Povo e Folha da Tarde, é quase um imperativo natural que a emissora de propriedade da família Caldas abra espaços ao noticiário. Assim, amparada na credibilidade de seus coirmãos impressos, a Guaíba faz frente ao Esso com o Correspondente Renner, que, aos poucos, vai desbancar a tradicional síntese noticiosa irradiada pela Farroupilha. Chefiado de início por Neu Reinert, substituído por Amir Domingues em 1958, o Departamento de Notícias conta com uma dezena de profissionais para produção de textos a partir de material da agência Associated Press e das redações do Correio e da Folha, além da escuta do programa governamental Voz do Brasil e de emissoras do centro do país. É buscando montar uma estrutura que concorra com o trabalho destes redatores que o diretor da Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho, convida João Aveline para chefiar o Departamento de Notícias da rádio:

– Formei equipe de profissionais de comprovada competência, redatores e noticiaristas, entre os quais: João Souza, Paulo Totti, João Ferreira dos Santos Netto, Nilson Guimarães, Gervásio Neves e o saudoso Ivo Correa Pires. Mais, Carlos Bastos que gravava e selecionava discursos na Assembleia Legislativa e editava um programa com a participação de dois deputados debatendo tema polêmico vigente, obviamente um a favor, outro contra. Programa de grande repercussão, batizado de Tribuna Parlamentar. Outros três jornalistas completavam a equipe: dois radiorrepórteres e um repórter político. Os dois primeiros, Norberto Silveira e Dilamar Machado, gravadora em punho, entrevistavam pessoas relacionadas com os fatos do dia, em todas as áreas. Índio Vargas fazia cobertura política, redigindo textos para os noticiosos, notadamente para o principal deles, o Repórter Único, que ia ao ar às 9, às 13 e às 20h30.

Este trabalho diário realizado pelos repórteres da Gaúcha vai marcar uma profunda diferença em relação ao verificado nas demais emissoras. A rádio conta, deste modo, com uma equipe própria para a apuração das informações locais, formada por profissionais que não têm apenas uma dicção correta ou uma adequada técnica de colocação vocal, mas sim possuem os conhecimentos necessários para decidir, no palco de ação do fato, se este pode ou não ser considerado notícia e que, definido isto, entram no ar, com frequência, ao vivo, por telefone. Gravam, ainda, entrevistas, de início, com um pesado aparelho da marca Grundig, a exigir a presença de um operador e uma conexão à rede elétrica. Depois, passam a usar os equipamentos portáteis então recém-adquiridos pela emissora dirigida por Maurício Sirotsky Sobrinho, fabricados pela italiana Societá per Azione Geloso e que podem ser alimentados a pilha.

Com João Aveline na chefia do Departamento de Notícias, as três edições diárias do noticiário patrocinado pelo vinho Único, produto da Vinícola Mônaco, de Bento Gonçalves, procuram fazer frente à concorrência. Privilegiam, assim, as informações locais, colhidas pela equipe de reportagem, que, ao contrário do Esso e do Renner, interfere no ar, durante o noticiário, quando o valor jornalístico do fato assim o exige. Edições extraordinárias referindo-se a fatos de interesse maior também são uma constante no trabalho da equipe montada por Aveline.

Incorporando rotinas de trabalho semelhantes às das redações dos periódicos impressos, a reorganização do Departamento de Notícias na Gaúcha, a partir de 1957, delimita, desta maneira, a chegada de uma nova fase para o jornalismo radiofônico no Rio Grande do Sul. Além da adoção de critérios mais profissionais para a seleção do que vai ou não ser informado ao ouvinte, a equipe liderada por João Aveline dedica-se à captação diária de informações junto às fontes:

– O radiorrepórter surge pela necessidade de termos, então, uma notícia que não fosse copiada, mas colhida na fonte.

A prática de gravar e irradiar entrevistas, ilustrando reportagens com vozes dos protagonistas dos acontecimentos, torna-se habitual no dia a dia da Gaúcha, sendo logo seguida pelos de outras emissoras, como na Difusora, estação que, ao longo da década de 1960, também adota sistemáticas operacionais semelhantes.

Em outubro de 1961, nova inovação que chega a surpreender o diretor da Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho. O empresário surpreende-se, mas entende a importância de ter no estúdio da rádio um dos industriais mais importantes e influentes do Rio Grande do Sul até então. É assim que, dias depois, Antônio Jacob Renner, idealizador e primeiro presidente do Centro da Indústria Fabril do Rio Grande do Sul, participa de uma mesa-redonda, que Aveline sempre reivindicou ser a primeira da história do rádio no estado a tratar do tema economia. A presença do empresário é tão importante que a direção da Gaúcha, representada pelo próprio Maurício, aceita realizar o programa em gravação, algo não usual na época. Ao ritmo do seu tempo, o proprietário da A. J. Renner & Cia., uma das maiores fábricas do setor de fiação e tecelagem do Sul do país, é um homem muito reservado que, afeito às coisas do trabalho e da família, não sai à noite, obrigando o registro da mesa-redonda em fita rolo para posterior transmissão ali pelas 20 ou 21h, faixa liberada, eventualmente, pelo diretor da Gaúcha para este tipo de atração jornalística. À época, segue predominando o espetáculo, mas a PRC-2 já veicula, eventualmente, um ou outro programa semelhante a este, mas colocando frente a frente lideranças políticas.

Sem ser artífice único do processo que vai levar ao surgimento das emissoras voltadas ao jornalismo, João Aveline é, mesmo assim, uma das figuras mais importantes deste processo que adentra os anos 1960 e vai ganhando força nas décadas seguintes. Tudo a partir daquela ideia quase singela: valorizar o profissional de notícia, o jornalista. Lição ainda não totalmente compreendida em muitas emissoras, luta constante de uma categoria que, agora, coisas da vida, tem um batalhador a menos a reivindicar direitos e remar contra a maré.

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