Osmar Meletti, Fernando Veronezi e a música da Guaíba
2007
Luiz Artur Ferraretto

Osmar Meletti (1958)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 5, p. 3, dez. 1958.

O gosto musical era mesmo o de Breno Caldas, mas a precisa escolha de intérpretes e orquestrações passava por Osmar Meletti e Fernando Veronezi. Desta combinação, em cinco décadas, a música da Guaíba transforma-se em um estilo próprio de veiculação, um segmento à parte, corporificado nos últimos anos na programação da emissora em frequência modulada inaugurada em 1980.

Na velha Guaíba, aquela dos primeiros anos, a seleção musical baseada em orquestrações conferia ainda mais credibilidade na associação da emissora ao tradicional e austero Correio do Povo. Daquela música da Guaíba, denominação genérica deste tipo de conteúdo na então ZYU-58, não fazia parte nem mesmo o sucesso do quarteto inglês The Beatles, uma novidade na primeira metade da década de 1960. De fato, as canções do grupo vão ser executadas somente após uma autorização do diretor da rádio, Arlindo Pasqualini, e, assim mesmo, incluídas apenas nos programas em que Meletti ou Veronezi, além de rodarem músicas, fazem comentários sobre o assunto e entrevistam artistas locais ou de passagem pela cidade, inclusive do cinema, do teatro, da literatura e das artes em geral.

A mais importante destas atrações estreia em março de 1963. É o Discorama, apresentado por Osmar Meletti. Na abertura, serve de característica ao programa O Barquinho, com a música de Roberto Boscoli sem a letra de Roberto Menescal transformada em sucesso por João Gilberto. Discorama vai marcar as tardes de segunda a sexta-feira, trazendo para o estúdio gente como o maestro francês Paul Mauriat, que chega a dedilhar músicas, ao vivo, no piano da rádio, ou o cantor italiano Sergio Endrigo, a responder em português às questões propostas por Meletti.

Com frequência, o radialista, abrindo espaço sempre à cultura brasileira, convida, também, intérpretes e compositores nacionais – Agostinho dos Santos, Beth Carvalho, Carlos Lyra, Clara Nunes, Dalva de Oliveira, Dick Farney, Elis Regina, Elizete Cardoso, Lupicínio Rodrigues, Tito Madi... –, além de ser o responsável pela transmissão do primeiro grande festival de música regionalista, a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, de Uruguaiana. O Discorama, fato raro para um programa dedicado à música, conquista ainda o primeiro lugar do Prêmio ARI de Jornalismo no ano de 1977 com a homenagem ao escritor gaúcho Erico Verissimo.

Programa Discorama em homenagem a Osmar Meletti (abril de 1979)
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Fernando Veronezi (1997)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 21 abr. 2002, p. 20.

Colega de Meletti durante anos, inclusive na Gaúcha, de onde ambos se transferiram para a Guaíba, Fernando Veronezi, como registrou o Correio do Povo nos 45 anos da emissora, transformou-se em uma espécie de guardião da memória musical da rádio. Em várias ocasiões, como em 1961, 1962 e 1963, recebeu o prêmio de Melhor Sonoplasta. No ano de 1994, foi condecorado pelo prefeito da capital gaúcha, Tarso Genro, com a medalha Cidade de Porto Alegre, em função do seu trabalho de pesquisa musical.
Responsável pela programação da Guaíba FM, para onde a música se transferiu com o crescimento do jornalismo nos 720 kHz da estação em amplitude modulada, Veronezi parece fazer jus a uma frase sua:

Nasci dentro de uma vitrola.

É claro que não se tratava de uma vitrola qualquer, a julgar pela Música da Guaíba, que se escreva assim mesmo, com maiúscula a indicar o denominativo de um estilo próprio, aquele de Osmar Meletti e de Fernando Veronezi, apresentador neste ano de 2007 do seu Noturno Guaíba.

Encerramento do Noturno Guaíba (julho de 1985)
Fonte: Acervo particular.

2 comentários:

  1. Leitor assíduo do que o grande Professor Luiz Artur Ferrareto escreve, só posso elogiar e agradecer pelo que ele nos oferece aqui nestas páginas e em seus livros. Parabéns e, mais uma vez, obrigado!

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