Dilamar Machado e os 40 anos do Vozes da Cidade
2007
Luiz Artur Ferraretto

Dilamar Machado (1968)
Fonte: Nomes que fizeram a imprensa gaúcha. Porto Alegre: Press & Advertising, n. 2, p. 31-2, set. 2003.

Na Gaúcha, em Porto Alegre, há umas quatro décadas, um programa vai explorar o caráter assistencial, dando espaço para as reclamações da população em uma época de extremo controle sobre tudo o que possa ser considerado uma crítica ao poder constituído, neste caso, os militares e aos interesses por eles representados dentro do governo ditatorial imposto ao país em 1964. Primeiro grande sucesso do gênero no rádio do Rio Grande do Sul, o programa Vozes da Cidade coloca o ouvinte e seus problemas no ar. Lançado em 1967 e apresentado por Cândido Norberto, explora, de início, a tecnologia disponível para levar ao público gravações de ruídos e de depoimentos pinçados do cotidiano porto-alegrense – do dia a dia do vendedor ambulante ao dos motoristas de táxi –, tudo “costurado” pela palavra fácil característica do apresentador. Já com Dilamar Machado no comando, abre espaço, das 13h15 às 14h, para as queixas da população de baixa renda e se torna um fenômeno de audiência:

– Comecei com os problemas comunitários. Eu me lembro que durante uma semana critiquei o prefeito Célio Marques Fernandes, porque a Vila Santa Rosa não tinha saneamento básico, água potável e pavimentação. Até que o prefeito não aguentou e foi no meu programa dizer que já havia providenciado água para a vila. Aquilo me mostrou a força que o rádio tinha. Esse fato popularizou muito o programa.

O repórter Benami Salts, antes escalado para a gravação dos sons das ruas de Porto Alegre, passa a percorrer a cidade, registrando as queixas e os problemas da população. Ao prédio da Rádio e TV Gaúcha, no morro Santa Teresa, acorrem de 200 a 300 pessoas em média, lotando, muitas vezes, o pátio da empresa. Motoristas de táxi participam, buscando, como voluntários, donativos nas residências de classe média e alta em bairros como Bela Vista, Moinhos de Vento e Petrópolis, a indicar uma abrangência bem maior deste tipo de programa.

A popularidade de Dilamar Machado vai se refletir nas eleições para a Câmara Municipal de Porto Alegre, realizadas em 1968, quando, concorrendo pelo oposicionista Movimento Democrático Brasileiro, o apresentador do Vozes da Cidade recebe o apoio de 13 mil eleitores, representando 5% do total de votos considerados válidos na capital gaúcha. No ano seguinte, já com o país sob a tutela do Ato Institucional n. 5, o vereador usa a tribuna para denunciar o chamado Caso das Mãos Amarradas, o assassinato por forças da repressão política do sargento Manoel Raimundo Soares. Preso em 11 de março de 1966, o militar ligado ao Movimento Revolucionário 26 de Março, organização de esquerda, fica sob a guarda da Polícia do Exército e do Departamento de Ordem Política e Social. Cinco meses depois, o corpo do sargento, com sinais de tortura, é encontrado boiando no rio Jacuí, com as mãos e os pés atados às costas. Uma audácia em tempos de ditadura militar, o discurso de Dilamar vai levar, na sequência, à cassação dos seus direitos políticos. Na época, já havia se transferido para a Difusora Porto-alegrense. Sem poder utilizar a denominação Vozes da Cidade, de propriedade da Gaúcha, apresenta, no mesmo estilo, o Programa Dilamar Machado. Cada vez que um ouvinte ia entrar no ar, o apresentador aproveitava, no entanto, para fazer uma referência:

– Mais uma voz da cidade que vai falar conosco...

A cassação de Dilamar vai lhe custar o emprego. Em tempos de ditadura, para os donos do poder, era mais interessante calar as vozes da cidade.

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