Milton Jung, a pronúncia mais precisa do Brasil
2005

Uma observação de 2014 neste texto da década passada, anterior à compra da Guaíba pelo Grupo Record: preferi não atualizá-lo, embora o Milton tenha deixado a rádio em março de 2014. Na minha memória, dos seus bons colegas e na dos ouvintes, tenho certeza, este grande profissional segue pelo vetusto prédio da Caldas Júnior com Andradas, no centro de Porto Alegre. Nos corredores – os antigos, não os de hoje –, ainda se pode vê-lo do outro lado do aquário, mão meio em concha próxima ao ouvido a garantir a qualidade da emissão de voz. E ecoam suas palavras: “Aqui fala o Correspondente Renner...”. Grande Milton Ferretti Jung, boa aposentadoria!

Luiz Artur Ferraretto

Milton Ferretti Jung (1979)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA AM/ TV2 GUAÍBA. 1969-1979 – 10º aniversário do Estádio Beira-Rio, Porto Alegre, 1979. Encarte do LP.

Quem acompanha o noticiário radiofônico no Sul do Brasil sabe. Não há pronúncia mais perfeita do que a de Milton Ferretti Jung, locutor titular do principal informativo da Rádio Guaíba, de Porto Alegre:

– Aqui fala o Correspondente Renner, editado pelo departamento de Jornalismo da Rádio Guaíba com notícias da France Press, UPI, Associated Press, AJB, Agência Estado, EBN e da Central do Interior da Empresa Jornalística Caldas Júnior – entoava na abertura-padrão utilizada na segunda metade da década de 1980, como segue fazendo até hoje. Aliás, como tem feito desde que, ainda, na década de 1960, assumiu o posto.

Correspondente Renner com Milton Ferretti Jung (1987)
Fonte: Acervo Rádio Guaíba.

Ao longo do tempo, o noticiário da emissora sofreu poucas alterações estruturais, embora tenha trocado duas vezes, nos últimos anos, de patrocinador. Em 1º de março de 1999, a Associação dos Profissionais Liberais Universitários do Brasil substitui as Organizações Renner, que davam nome ao informativo desde a inauguração da Guaíba, em 1957. O Correspondente Aplub transforma-se, por sua vez, em Correspondente Portocred, no dia 1º de fevereiro de 2004. Com esta denominação, é apresentado, de segunda a sábado, em quatro edições – às 9h, 13h, 18h50 e 20h – e, nos domingos e feriados, às 13h e 20h. Seja nos grandes momentos da Guaíba, na crise que se abateu sobre o grupo de empresas da família Caldas no início dos anos 1980 ou sob a nova administração do empresário Renato Ribeiro, a voz de Jung sempre foi a marca mais forte do noticiário. Tão forte que, quando o jornalista Luiz Figueredo empreendeu uma alteração na estrutura do então Correspondente Renner, em 1982, o locutor-noticiarista acabaria por dar a última palavra. O responsável pelo jornalismo da rádio pretende, na época, modernizar o Renner, procurando aproximá-lo dos noticiários da British Broadcasting Corporation, que, antes do encerramento, resumem os fatos mais importantes de cada edição. Nos pilotos gravados, no entanto, o modelo da BBC provoca uma perda de força no final do Correspondente. Por sugestão de Milton Jung, a proposta inicial transforma-se, demarcando o já noticiado como a indicar que, a partir daí, vão ser veiculadas apenas informações novas e de relevância:

– Aqui fala o Correspondente Renner, editado pelo Departamento de Jornalismo da Rádio Guaíba, com notícias das agências France Press, UPI, Associated Press, AJB, Estado, ABR e da Central do Interior do Correio do Povo. Estas foram as principais notícias das últimas horas: governo e Congresso começam a definir a política salarial; metalúrgicos paulistas apoiam iniciativa do presidente da Força Sindical de ingressar na justiça contra o aumento dos parlamentares; cai Gorbatchov e militares assumem o poder na União Soviética.

Milton Jung levou para os estádios a mesma precisão verificada na leitura das notas do Correspondente. Como narrador esportivo, acompanhou as copas da Alemanha (1974), Argentina (1978) e México (1986). O posto de titular do noticiário principal da Guaíba restringe, no entanto, a sua participação aos jogos realizados em Porto Alegre. As exceções são algumas partidas em São Paulo, onde está radicado o filho Milton Jung (Jr.), um dos âncoras da CBN e autor do livro Jornalismo Radiofônico.

Do início de carreira nas rádios Canoas e Metrópole, da família Sperb, passando décadas à frente do Correspondente, na Guaíba – um recorde, provavelmente –, Milton Ferretti Jung, com sua voz grave e de correta pronúncia, segue marcando o dia a dia dos ouvintes do Sul do país.

Milton Ferretti Jung no último Grenal do Estádio Olímpico (2 de dezembro de 2012)
Gremista confesso, o narrador é homenageado pela equipe de esportes da Guaíba comandando o microfone da emissora no trecho inicial do jogo.
Fonte: Acervo particular.

Trecho da transmissão da Rádio Guaíba na chegada das 12 horas de Porto Alegre (6 de maio de 1962)
Milton Ferretti Jung narra parte da prova junto com outros profissionais da emissora como Enio Berwanger.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

9 comentários:

  1. Milton é uma lenda viva do rádio-jornalismo gaúcho, é uma voz límpida, vibrante e inconfundível, vai ficar na história da rádio comunicação.

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  2. Muito legal, saudoso daqueles tempos e daquelas vozes . . .

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  3. Tem a íntegra da narração do último GreNal com o Milton e/ou o último Correspondente Banco Renner que ele apresentou? Se puder disponibilizar em alguma plataforma ficaria enormemente agradecido!

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    1. Matheus:
      Não temos o último Correspondente com a voz do Milton. O trecho do Grenal é uma parte da narração inicial dele, mas não temos o jogo na íntegra. Aproveitamos para agradecer a leitura e os comentários teus e das demais pessoas.

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  4. Eu que agradeço por disponibilizar esse material precioso e que, sem dúvida alguma, faz parte da história do radiojornalismo não só gaúcho; mas sim do Brasil e também do mundo.

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