Flávio Alcaraz Gomes e a liderança da Gaúcha
2007
Luiz Artur Ferraretto


Maurício Sirotsky Sobrinho e Flávio Alcaraz Gomes (1986)
Fonte: GOMES, Flávio Alcaraz. Diário de um repórter. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1995. p. 252.


Um dos fundadores da Rádio Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes vai conduzir na Gaúcha o processo que leva a emissora da Rede Brasil Sul à liderança do segmento de jornalismo no Rio Grande do Sul. Antes de colocar o jornalista à frente deste empreendimento, a RBS vai, no entanto, penar com seus erros e indecisões.

Em 1981, a Gaúcha dá dois passos para trás após um para frente. Já ocorrera antes. Nos anos 1970, várias vezes. O jornalista Luiz Figueredo impulsionou o noticiário em meados da década e viu a empresa quase desistir da ideia em seguida. Na virada para os anos 1980, foi a vez de Ruy Carlos Ostermann viver situação semelhante. Nos anos que se seguiram à estreia e à consolidação do programa Sala de Redação, nunca, no entanto, a emissora apostara em uma programação tão eclética – e fora de seu contexto – como em janeiro de 1981, quando o jornalismo restringe-se às poucas entrevistas do Atualidade, com Mendes Ribeiro, e aos textos informativos do Correspondente Maisonnave, então com quatro edições, e do Gaúcha Notícias, veiculado quase de hora em hora. Pendendo para o popular, programas como Gaúcha Hoje, com Cláudio Monteiro, no início da manhã, e Tudo sob Controle, com Celso Ferreira, à tarde, incluem personagens humorísticos, atendem ouvintes, apresentam listas de preços de feiras livres e música voltada às classes B e C. Além disto, conforme o então editor do Correspondente Maisonnave, Cláudio Moretto do Nascimento, também os repórteres têm suas funções reduzidas:

– Repórter não falava na rádio, os repórteres serviam só para fazer apuração, eles tinham excelentes fontes, eles ligavam para as fontes, eles iam nos locais, mas era só texto. Eles pegavam o telefone, ou voltavam para a rádio, passavam as informações para os redatores, os redatores faziam o texto, os editores botavam no ar.

Quase na mesma época, a compra da Farroupilha dota a RBS de uma estação que canaliza para si os recursos humanos de perfil mais adequado às classes C, D e E. Por outro lado, o insucesso da Gaúcha indica a necessidade de encontrar um profissional capaz de dirigir a rádio no rumo do jornalismo em tempo integral. Em 1983, a Rede Brasil Sul conclui que o profissional talhado para a função é Flávio Alcaraz Gomes, “uma explosão de ideias e de trabalho”, na definição de Pedrinho Sirotsky, naquele momento diretor-adjunto da Divisão Rádio da RBS. Deste modo, Flávio assume a gerência-executiva da emissora, colocando a Gaúcha, novamente, no rumo do jornalismo, que, gradativamente, vai ocupando cada turno da programação. Com o esporte já se igualando – e mesmo superando – a equipe da Guaíba, criam-se as condições necessárias para que a estação da família Sirotsky torne-se a líder no segmento.

Em outubro, estreia o Gaúcha Repórter, apresentado à tarde por José Antônio Daudt, que, fiel à sua denominação, deixa, por vezes, o estúdio da rádio, ora descrevendo o cotidiano – por exemplo, o do Juizado de Pequenas Causas de Porto Alegre, então uma novidade e tema de um dos primeiros programas –, ora acompanhando um fato importante direto do seu palco de ação – para citar um destes locais, o Congresso Nacional, em Brasília, de onde é irradiado, no dia 14 de janeiro de 1985, véspera da reunião do Colégio Eleitoral que vai escolher Tancredo Neves como presidente da República. No Gaúcha Repórter, a música começa a ceder lugar à informação dentro da emissora.

As transmissões ao vivo dos grandes fatos, estendendo-se por horas, começam a caracterizar o jornalismo da Gaúcha. É assim, em 13 de abril de 1984, com “o maior comício da história de Porto Alegre”, como a imprensa da capital define, no dia seguinte, a concentração que reúne entre 100 mil e 200 mil pessoas no largo da Prefeitura de Porto Alegre, defendendo as eleições diretas para a Presidência da República.

Repete-se com a eleição indireta de Tancredo Neves, encerrando o regime militar em 15 de janeiro de 1985. Exigindo o envolvimento de toda a equipe da Gaúcha, volta, em seguida, ao longo dos 38 dias em que o Brasil acompanha o quadro de saúde do presidente eleito, que se agrava após a cirurgia intestinal de urgência realizada às vésperas da posse. Da morte de Tancredo, em 21 de abril, até o enterro, três dias depois, a rádio da RBS, falando de vários pontos do país, relata as repercussões e as homenagens póstumas ao político mineiro.


Anúncio do programa Flávio Alcaraz Gomes Repórter (março de 1985)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 24 mar. 1985. p. 58.


Em meio a este esforço jornalístico, a Gaúcha reestrutura a sua programação matutina, que, no dia 25 de março, passa a incluir duas novas atrações: Flávio Alcaraz Gomes Repórter, das 7h30 às 8h e das 9h30 às 10h30, apresentado pelo próprio gerente-executivo da emissora; e Debates Rádio Gaúcha, das 10h30 às 11h30, comandado por Enio Melo e contando com a participação de Jussara Gauto, Paulo Sant’Ana e Pedro Américo Leal. Um pouco antes, no dia 4 de fevereiro, o horário da meia-noite às 3h já havia sido preenchido com a estreia de Jayme Copstein no Gaúcha na Madrugada. A música fica restrita, assim, a poucos períodos ao longo da programação, em que, cada vez mais, repete-se o slogan criado por Flávio Alcaraz Gomes, gestor de todo este processo, e pela Símbolo Propaganda – “Gaúcha – A fonte da informação” –, sem dúvida um dos mais fortes da história do rádio no Rio Grande do Sul.


Flávio Alcaraz Gomes Repórter (14 de dezembro de 1987)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

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