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Os 20 anos do Caso Daudt
2008
Luiz Artur Ferraretto

José Antônio Daudt (1988)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 6 jun. 1988. p.

No dia 5 de junho de 2008, o assassinato do radialista e deputado estadual José Antônio Daudt prescreveu, ao se cumprir o prazo legal de 20 anos para que o Estado apontasse o responsável pelo crime. Duas décadas atrás, fazia um frio danado em Porto Alegre. Repórter, ainda meio foca, na Rádio Gaúcha, onde Daudt mantinha um comentário, eu estava escalado para o plantão do Departamento de Jornalismo no domingo, iria trabalhar, como de hábito, das oito da manhã até a hora que fosse necessário, nunca saindo antes das sete da noite. Lá pela meia-noite de sábado, o telefone tocou. Era o coordenador de Jornalismo, Cláudio Moretto, avisando:

– Mataram o Daudt. Um carro tá indo te buscar.

Personagem secundário da cobertura da qual participariam todos os principais funcionários da rádio na época, passei a madrugada na Assembleia Legislativa, onde o corpo de José Antônio Daudt seria velado. Lá, lembro, já falavam no nome do também deputado estadual Antônio Dexheimer, que chegou a ser julgado e absolvido tempos depois. Antes de ir ao Tribunal de Justiça, no entanto, ele enfrentou as insinuações e maledicências habituais da imprensa em geral. Nós, na Gaúcha, chegamos a refazer dezenas de vezes e em horários variados o trajeto que servia de álibi a Dexheimer. Conferíamos o tempo e verificávamos se havia a possibilidade de ele estar nos locais em que afirmava ter estado naquela noite fria de sábado. Óbvio que não se chegou a conclusão alguma. Até porque, se tem papel investigativo, o jornalismo não é tarefa policial. Ao mesmo tempo, poucas dúvidas eram levantadas pela imprensa a respeito dos rumos das investigações, aceitas muitas vezes como absolutas. Com certeza, faltou a combatividade do próprio Daudt, conhecido pelo soco na mesa após cada uma de suas manifestações mais enérgicas ao microfone ou em frente às câmeras, uma espécie de marca registrada sua.

De fato, fora as polêmicas pessoais e profissionais, Daudt fez história no rádio do Rio Grande do Sul. Em meados dos anos 1970, chamava a atenção com o seu Opinião Pública, na Difusora (hoje Band AM), enquanto, no canal 10, no Portovisão – o principal concorrente do Jornal do Almoço, da então TV Gaúcha –, marcava com uma porrada o fim de seus comentários. Depois, já na RBS, ocuparia, com o Gaúcha Repórter, as tardes dos 600 kHz, consolidando um novo espaço dedicado ao jornalismo. Pela primeira vez, a música ficava de lado na programação vespertina, dando lugar a entrevistas, debates e participações de repórteres. Talvez a melhor definição a respeito dele seja a da excelente série de reportagens publicada pelo jornal Zero Hora na semana da prescrição do crime:
Fumante, ele presidiu um clube de corredores de rua. Belicoso, nunca foi visto distribuindo tiros ou socos. Destemido, teve de ser empurrado em algumas de suas mais importantes decisões profissionais e políticas. Charmoso para as mulheres, envolveu-se em casos homossexuais que, passados 20 anos de sua morte, ainda despertam um misto de escândalo e incredulidade. Vivo, foi um símbolo. Morto, um mistério. Múltiplo em sua singularidade, José Antônio Lopes Daudt passou à história como quem ingressa numa casa de espelhos onde nada é o que parece e tudo está fora do lugar.
Passados 20 anos, o Caso Daudt permanece como um alerta sobre os limites, as competências – e as incompetências, por que não? – tanto de jornalistas como de policiais.

Último comentário de José Antônio Daudt na Rádio Gaúcha (4 de junho de 1988)
Durante o programa Gaúcha Hoje, que, aos sábados, era apresentado pelo jornalista Flávio Pereira.
Fonte: Acervo particular.

O jornal Zero Hora descreve o último comentário de José Antônio Daudt
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 6 jun. 1988. p. 53.

O jornal Zero Hora relembra a trajetória de José Antônio Daudt
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 6 jun. 1988. p. 53.
Duas historinhas em meio ao motim no Presídio Central de Porto Alegre
2007
Luiz Artur Ferraretto

Zero Hora noticia o motim do Presídio Central (29 de julho de 1987)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 29 jul. 1987. p. 1.


Em julho de 1987, a capital gaúcha se deu conta, pela primeira vez, do agravamento das condições gerais de segurança, que iriam, aos poucos, mergulhar a sociedade brasileira no caos dos dias de hoje, com os traficantes representando uma espécie de poder paralelo, em especial nas comunidades marginalizadas das favelas. Com o sistema penitenciário do Rio Grande do Sul vivendo “o dia mais agitado de sua história”, na definição do jornal Zero Hora, as rádios vão narrar minuto a minuto o primeiro grande motim do Presídio Central de Porto Alegre.

A cobertura atesta, no entanto, o poder de mobilização da Rádio Gaúcha. A emissora, na realidade, noticia a rebelião iniciada às 10h20 com cerca de uma hora de atraso em relação à sua principal concorrente – a Guaíba –, deslocando um repórter – o jornalista Vitor Bley de Moraes – apenas no final da manhã. No entanto, a partir daí, rapidamente, outros profissionais dirigem-se para pontos-chave como o Hospital de Pronto Socorro e a Secretaria Estadual da Segurança Pública. Juntam-se à equipe, nas proximidades do presídio e em outros locais importantes, os apresentadores José Antônio Daudt e Rogério Mendelski, além de integrantes do Departamento de Esportes como Pedro Ernesto Denardin. Durante as oito horas e meia de motim e, após, acompanhando a perseguição e captura dos foragidos, vai se destacar, ainda, a repórter Tânia Regina da Silva.

O trabalho realizado pela Gaúcha, sempre sob a supervisão de Marco Antônio Baggio e a coordenação de Cláudio Moretto do Nascimento, vai ser reconhecido pela Associação Rio-grandense de Imprensa em sua premiação anual. Na edição de 1987, Tânia Regina da Silva e equipe conquistam o prêmio de radiojornalismo com a cobertura do motim no Presídio Central, tragédia do cotidiano que encobriria pelo menos dois fatos curiosos. Ambos só ocorridos devido a uma eventualidade: os amotinados concentram-se ao lado de uma janela muito próxima da cerca que dá para a rua, onde estão os repórteres de vários veículos de comunicação.

Logo no início da confusão, o jornalista Vitor Bley de Moraes estende o braço direito e, com o gravador em punho na direção da tal janela, onde está um dos líderes do motim, o então líder no tráfico no Morro da Cruz, pede:

– Carioca, dá um relato para os ouvintes da Gaúcha sobre como está a situação aí dentro...

– Tu queres saber como está aqui... – diz Carioca, voltando-se para um dos outros amotinados, por coincidência um dos mais perigosos do estado – Mostra pra ele como tá aqui, Vico...

O preso aproxima-se da janela e grita:

– Aqui, tá assim... – e vai apontando uma cano cerrado para os jornalistas, que, amedrontados, jogam-se no chão, em meio a um barral sem tamanho, tentando fugir de balas que não chegam, por sorte, a ser disparadas.

Horas depois, com a Gaúcha já com toda a sua equipe mobilizada, o jornalista José Antônio Daudt passa a comandar a cobertura no mesmo local. Em uma época sem as facilidades do celular, longos cabos são estendidos das unidades móveis, permitindo a transmissão ao vivo. Com 31 funcionários do Instituto de Biotipologia Criminal em poder dos presos, Daudt, usando o fato de ser deputado estadual pelo PMDB, chega a se oferecer em uma troca para garantir a segurança dos reféns. A resposta, algo depreciativa, algo agressiva, dos amotinados é captada pelo microfone da Gaúcha:

– Tu não tá com essa bola toda!

No final, morrem duas pessoas e os oito presos conseguem fugir do Presídio Central em dois automóveis cedidos pelas autoridades.

Cobertura realizada pela Rádio Gaúcha (28 de julho de 1987)
O repórter Vitor Bley de Moraes resume a situação no Presídio Central de Porto Alegre.

José Antônio Daudt entrevista Luiz Ronaldo Silva, o Prego, um dos amotinados.

A repórter Tânia Regina descreve quem são os amotinados.

José Antônio Daudt e Rogério Mendelski descrevem um momento de tensão com ameaças dos presos aos jornalistas.

A equipe da Rádio Gaúcha descreve a fuga dos presos.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Cobertura do motim no Presídio Central. Porto Alegre, 1987. Programa de rádio.
Gaúcha Repórter, de José Antônio Daudt a Lasier Martins
2015

Luiz Artur Ferraretto
José Antônio Daudt (1987)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 6 jun. 1988. p. 53.

Lasier Martins (anos 1970)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA AM/ TV2 GUAÍBA. 1969-1979 – 10º aniversário do Estádio Beira-Rio, Porto Alegre, 1979. Encarte do LP.


Um marco na definição do segmento de radiojornalismo no Rio Grande do Sul, o Gaúcha Repórter estreou em outubro de 1983, ocupando parte do turno da tarde e tendo José Antônio Daudt como apresentador. Gradativamente, consolida a sua pretensão de ser um programa que vai até a notícia. Fiel à sua denominação e a este objetivo, o programa saiu várias vezes do estúdio, ora descrevendo o cotidiano – por exemplo, o do Juizado de Pequenas Causas de Porto Alegre, então uma novidade e tema de um dos primeiros programas –, ora acompanhando um fato importante direto do seu palco de ação – para citar um destes locais, o Congresso Nacional, em Brasília, de onde é irradiado no dia 14 de janeiro de 1985, véspera da reunião do Colégio Eleitoral que vai escolher Tancredo Neves como presidente da República. Conforme Claiton Selistre, na época gerente de Jornalismo da Gaúcha, no Gaúcha Repórter, a música começa a ceder lugar à informação dentro da emissora:

De início, o Gaúcha Repórter tinha a pretensão de cobrir o espaço das duas às cinco da tarde, mas sem entrevistas ao longo de todo o tempo. A ideia era rodar música. Eu me lembro muito bem disto, que o Daudt não gostava de ouvir a música no programa. Quando ele saía no intervalo comercial, ele dava uma saidinha, passava na minha sala e dizia: “Chefe, não dá para ouvir música neste programa. Vou esticar a próxima entrevista”. E aí (...), ao invés de fazer três, quatro minutos, o Daudt ia a 10, 12 minutos... De modo, que ao fim, ao longo de um tempo, no programa, não existia mais música.
De início, o Gaúcha Repórter vai ao ar de segunda a sexta-feira das 14 às 17h. José Antônio Daudt, eleito deputado estadual pelo PMDB em 1986, é substituído por Lasier Martins no ano seguinte. Entre vários comentaristas que passam pelo programa ao longo do tempo, destaca-se Melchíades Stricher, de voz arrastada e forte dose de sarcasmo ao analisar, em especial, o cotidiano político, deixando para o final do seu espaço a boazinha, uma anedota quase a lembrar o rádio de outros tempos. Às 16h, inclui uma mesa-redonda de uma hora de duração sobre o assunto do dia, sempre com ponto e contraponto. Esta parte final vai originar, no mesmo espaço da programação, o Gaúcha Debate, com Cândido Norberto Santos, posteriormente transformado em Gaúcha Entrevista, sob o comando de Ruy Carlos Ostermann e se voltando mais às questões da cultura.
Um dos principais comentaristas esportivos do rádio do Sul do país, o novo âncora do programa vai, gradativamente, tornar-se, nas décadas seguintes, uma espécie de marca das tardes do radiojornalismo no estado. De fato, Lasier deixa as jornadas esportivas da Gaúcha para se dedicar com afinco crescente ao programa e a alguns outros espaços na rádio e em outros veículos do Grupo RBS. É ele, por exemplo, um dos que o conglomerado da família Sirotsky desloca para o Oriente Médio, quando o Iraque ataca, em agosto de 1990, o Kuait, anexando este emirado islâmico como uma de suas províncias.
Já um profissional conhecido nos anos 1970 e 1980, quando se destaca na grande equipe de esportes da Rádio Guaíba, Lasier Martins projeta-se ainda mais ao se transferir para o grupo da família Sirotsky. Além de apresentar, de segunda a sexta-feira, o Gaúcha Repórter, participa diariamente do Jornal do Almoço, programa de variedades do meio-dia da RBS TV. É a base para que, já afastado destas atividades, seja eleito senador pelo Partido Democrático Trabalhista em 2014.




Cleiton Selistre, gerente de Jornalismo da Rádio Gaúcha em outubro de 1983
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Repórter, Porto Alegre, 15 out. 2003. Programa de rádio.


Rita Campos Daudt, primeira produtora do Gaúcha Repórter em outubro de 1983
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Repórter, Porto Alegre, 16 out. 2003. Programa de rádio.


Lasier Martins relembra José Antônio Daudt e Melchíades Stricher
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Repórter, Porto Alegre, 21 out. 2003. Programa de rádio.