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Armindo Antônio Ranzolin e o futebol das tardes de domingo na Guaíba
2005
Luiz Artur Ferraretto


A equipe de esportes da Rádio Guaíba (1983)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA AM. Grêmio campeão da América rumo a Tóquio. Porto Alegre, 1983. Encarte do LP.

A voz de dicção perfeita de Armindo Antônio Ranzolin, de qualidades profissionais acentuadas pela precisa narração lance a lance, fica suspensa no ar quando o plantão de estúdio interrompe de forma quase peremptória:

– Tem gol, Ranzolin!

– Onde, Antônio Augusto?

O diálogo repetido centenas de vezes marca a memória dos ouvintes do rádio esportivo do Sul do país que viveram as tardes futebolísticas de domingo nos anos 1970, ouvido colado ao radinho de pilha, seja no estádio, seja em todos os cantos onde o sinal da Rádio Guaíba alcançava. A qualidade das irradiações da emissora da Caldas Júnior é, na época, um poderoso consolo para quem é torcedor do Grêmio e sofre com as sucessivas vitórias do Internacional ou, em 1977, quando a situação inverte-se um pouco, para os que penam com as agruras do Colorado.

Da superequipe da Guaíba na época ainda fazem parte nomes como Ruy Carlos Ostermann, comentarista que embasa seus argumentos, analisando a partida pelo número de arremates a gol, de chutes, de jogadas bem ou mal finalizadas, de escanteios cobrados ou cedidos, de faltas etc. Enfim, uma série de detalhes cuidadosamente planilhados que podem ser resumidos em uma única palavra: informação. Bacharel em Filosofia, Ruy leva também bagagem cultural ao ambiente esportivo, sem deixar de conferir caráter jornalístico a suas opiniões. Já Lauro Quadros, que desde 1969 ocupa o posto de comentarista, consagra expressões como “esse conhece o rengo sentado e o cego dormindo” ou “ele sabe a cabeça que tem piolho”, para definir profissionais ou elogiar um lance de brilhantismo; “ali é o caminho da roça”, indicando uma área do campo de marcação deficiente do adversário, por onde um time pode chegar ao gol; ou “é isto aí mais meio quilo de farofa”, forma de encerrar um raciocínio. O time se completa, entre outros, com repórteres como João Carlos Belmonte e Lasier Martins.

A partir de 1983, com a crise financeira das empresas da família Caldas Júnior, quase todos estes profissionais passam pela Gaúcha e a Guaíba busca em novos valores a sua recuperação. São eles que vão marcar a memória das décadas seguintes, em especial quando Luiz Carlos Reche assume a chefia do Departamento de Esportes, mas isto já é outra história.


Armindo Antônio Ranzolin abrindo a Jornada Esportiva Ipiranga (1973)
Fonte: Acervo particular.

A Gaúcha, a Guaíba e as grandes conquistas do futebol gaúcho nos anos 1970 e 1980
2014
Bruno Pancot


Futebol e rádio andam juntos há muito tempo. Não foi diferente nos anos 1970 e 1980, quando Grêmio e Internacional projetaram-se no cenário nacional e mundial. Confira alguns destes momentos na vozes dos principais profissionais de rádio do estado, uma homenagem aos que fazem a cobertura esportiva, ao rádio e ao futebol do Rio Grande do Sul.


Escudos do Grêmio e do Internacional


Campeonato Brasileiro de 1975

Para ser campeão brasileiro pela primeira vez, o Internacional passou por três fases classificatórias até chegar às semifinais. Na época, as decisões eram em jogo único. Como na terceira fase o Inter foi segundo em seu grupo, disputou a vaga na final no Maracanã contra o Fluminense, campeão da chave oposta. Na outra eliminatória, o Cruzeiro visitou o Santa Cruz, de Recife, no Arruda.

Diante de quase 100 mil pessoas no maior templo do futebol, o Inter bateu o Flu por 2 a 0, gols de Lula e Carpegiani. Em Recife, o Cruzeiro também avançou ao aplicar 3 a 2 no Santa Cruz.

Dia 14 de dezembro de 1975. O Beira-Rio fervia com 82.568 pagantes. Arbitragem do paulista Dulcídio Wanderley Boschillia. De um lado, entre outros, Manga, Falcão e Figueroa. Do outro, os destaques eram Raul, Piazza e Nelinho. Inter e Cruzeiro. Quem vencesse conquistaria o seu primeiro título brasileiro.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Internacional 1 x 0 Cruzeiro
Participação de Armindo Antônio Ranzolin, João Carlos Belmonte, Lasier Martins e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1975. Porto Alegre, 1975. LP.


Campeonato Brasileiro de 1976

No ano seguinte ao primeiro título brasileiro, o Internacional manteve o time-base e o técnico Rubens Minelli. Assim como em 1975, foi necessário passar por três fases classificatórias até encontrar o Atlético mineiro, nas semifinais. Este, aliás, foi o famoso jogo da tabela de Falcão e Escurinho, em que os jogadores colorados marcaram o segundo gol do 2 a 1 no Atlético sem deixar a bola cair no chão.

Mas o principal ainda estava por vir. A final contra o Corinthians teve cerca de 84 mil torcedores no Beira-Rio. José Roberto Wright apitou. Em campo, um defenderia o título, enquanto o outro tentaria um feito inédito.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Internacional 2 x 0 Corinthians
Participação de Armindo Antônio Ranzolin, Edegar Schmidt, João Carlos Belmonte e Lauro Quadros.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1976. Porto Alegre, 1976. LP.


Campeonato Gaúcho de 1977 

Após oito anos de hegemonia do arquirrival, o Grêmio voltou a conquistar o Campeonato Gaúcho em 1977. Naquele ano, o tricolor era treinado por Telê Santana e tinha jogadores como Éder e André Catimba.

A tabela inicial separou os 24 times participantes em dois grupos, dos quais se classificavam os 10 melhores. Na fase seguinte, assim como na primeira, Grêmio e Internacional foram os clubes que mais somaram pontos. Por isto, enfrentaram-se em jogo extra para definir quem seria o campeão estadual.

Em 25 de setembro, a grande final. Depois de um lance disputado, Iúra recebeu a bola e tocou por trás da zaga colorada para encontrar André Catimba. Na emoção, o atacante deu uma pirueta e estatelou-se no chão. Pouco importava. O Olímpico estremeceu de alegria. O Grêmio voltava a ganhar o título gaúcho.


Haroldo de Souza, da Gaúcha, na cobertura de Grêmio 1 x 0 Internacional
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão gaúcho de 1977. Porto Alegre, 1977. Compacto.


Campeonato Brasileiro de 1979

Depois de dois anos afastado das grandes decisões, o Internacional voltou a disputar a final do Campeonato Brasileiro em 1979. Após eliminar o Palmeiras, com a disputa de dois jogos em ida e volta, o desafio derradeiro seria contra o Vasco da Gama, primeiro no Rio de Janeiro e, depois, em Porto Alegre. Mais uma vez em Porto Alegre. Mais uma vez no Beira-Rio.

A década de 1970 foi encerrada com a invencibilidade no campeonato nacional, marca que nenhum clube tinha até então e que nenhum outro conquistou depois. Vencendo as duas, 2 a 0 no Maracanã e 2 a 1 no Beira-Rio, o Inter deu à torcida mais um motivo para sorrir, esperando pela nova década.

Armindo Antônio Ranzolin, da Guaíba, na cobertura de Vasco da Gama 0 x 2 Internacional
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1979. Porto Alegre, 1979. LP.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Internacional 2 x 1 Vasco da Gama
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1979. Porto Alegre, 1979. LP.


Campeonato Brasileiro de 1981

Em 1981, o Grêmio montou um time com jogadores como Leão, De León e Baltazar. Nas duas fases classificatórias, teve dificuldades para passar, mas chegou às oitavas-de-final, disputadas pela primeira vez naquele ano em jogos de ida e volta. Nas oitavas e nas quartas, venceu com alguma folga o Vitória, da Bahia, e o Operário, do Mato Grosso do Sul. Mas os grandes desafios ainda estavam por vir.

Nas semifinais, superar a Ponte Preta foi sofrido. No dia 23 de abril, vitória gremista por 3 a 2 no Moisés Lucarelli, em Campinas. Paulo Isidoro, Vílson Taddei e Tarciso marcaram para o Grêmio. Já na partida de volta, em Porto Alegre, mesmo perdendo por 1 a 0, o tricolor avançou para as finais. Encararia o São Paulo, time que só tinha sido derrotado duas vezes na competição – uma delas para o próprio Grêmio.

Dia 30 de abril de 1981. Diante de 90 mil torcedores no Olímpico, o Grêmio venceu os paulistas por 2 a 1. Mesmo que tenha saído perdendo, com gol de Serginho Chulapa, o tricolor lutou e virou com Paulo Isidoro marcando duas vezes.

Uma semana depois, o Morumbi recebeu 95 mil torcedores. José Roberto Wright era o homem do apito. Cederia o Grêmio à pressão do São Paulo? Pelo contrário, com um gol de Baltazar, o time gremista se tornava o primeiro clube gaúcho a ser campeão brasileiro longe do Rio Grande do Sul.

Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Grêmio 2 x 1 São Paulo
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de São Paulo 0 x 1 Grêmio
Participação de Antônio Augusto, Armindo Antônio Ranzolin, João Carlos Belmonte, Laerte de Franceschi e Lauro Quadros.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de Grêmio 2 x 1 São Paulo
Participação de Darci Rodrigues de Mello Filho, Haroldo de Souza, Raul Moreau e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de São Paulo 0 x 1 Grêmio
Participação de Haroldo de Souza, Raul Moreau, Ruy Carlos Ostermann e Wianey Carlet.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Chamada especialmente produzida pela Gaúcha para a final do Campeonato Brasileiro de 1981
Voz principal de João Batista Schüller, o Johnny Megaton.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Copa Libertadores da América de 1983

A maior conquista do Grêmio iniciou justamente contra o time que fora seu algoz  na decisão do Brasileiro de 1982: o Flamengo. Na estreia da primeira fase, 1 a 1 contra o rubro-negro, no Olímpico. Depois, quatro jogos contra os bolivianos Blooming e Bolívar – vitórias em todos. Para completar, 3 a 1 sobre o Flamengo, no Maracanã, e classificação para a outra etapa.

Na fase seguinte, o tricolor passou por dificuldades épicas. Iniciou vencendo o Estudiantes de La Plata, no Olímpico, por 2 a 1. Já contra o América de Cali, somou apenas dois pontos – premiação para vitórias na época – ao perder na Colômbia por 1 a 0 e ganhar em Porto Alegre pelo mesmo placar.

O time gaúcho partiu para o último jogo da fase contra o Estudiantes no acanhado Jorge Luis Hirschi. Entre as muitas versões para aquele 8 de julho de 1983, o certo é que quatro jogadores do time argentino foram expulsos em um jogo marcado pelo clima tenso e pelas agressões. O Grêmio vencia por 3 a 1, mas o time de La Plata, enfurecido, empatou em 3 a 3.

No fim classificado, o Grêmio foi para a final contra o Penãrol, de Montevidéu. No primeiro jogo, 1 a 1 com os carboneros. Uma semana depois, dia 28 de julho, 73 mil pessoas foram ao Olímpico assistir à vitória do time gaúcho por 2 a 1. Com gols de Caio e César, o Rio Grande ganhava a América pela primeira vez.



Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Peñarol 1 x 1 Grêmio
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte. 
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Grêmio 2 x 1 Peñarol
Participação de Armindo Antônio Ranzolin, João Carlos Belmonte e Lauro Quadros.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP. 


Haroldo de Souza , da Gaúcha, na cobertura de Peñarol 1 x 1 Grêmio
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de Grêmio 2 x 1 Peñarol
Participação de Darci Rodrigues de Mello Filho, Haroldo de Souza e Ruy Carlos Ostermann.  
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Campeonato Mundial de 1983

11 de dezembro de 1983. O maior dia da história de 111 anos do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Grêmio versus Hamburgo, no Estádio Nacional de Tóquio. De um lado, o time de Mazarópi, Paulo Roberto, Baidek, De León, P.C. Magalhães, China, Osvaldo, Mário Sérgio, Renato Portaluppi, Tarciso e Paulo César Lima. Do outro, o Hamburgo, campeão europeu e alemão da temporada 1982-83.

A história do confronto nenhum gremista pode esquecer. Aos 37 minutos, Renato entrou pela direita, driblou duas vezes o jogador Hieronymus e, sem ângulo, bateu para o gol. Era o 1 a 0. Quase no fim, do jogo, no entanto, Shröder empatou. Seria necessária a prorrogação.

Na volta, não demorou para que tudo se decidisse. Caio levantou, Tarciso ajeitou e Renato fez outro gol. Euforia gremista. Só mais alguns minutos e o maior título em disputa para os times brasileiros seria do Grêmio.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Grêmio 2 x 1 Hamburgo
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte. 
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Hino Grêmio Campeão do Mundo (Rádio Guaíba) 
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de Grêmio 2 x 1 Hamburgo
Participação de Antônio Augusto, Darci Rodrigues Mello Filho, Haroldo de Souza e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Hino Grêmio Campeão do Mundo (Rádio Gaúcha)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Créditos

A partir de material originalmente digitalizado pelos sonoplastas João Blattner e Otto Bede, do então Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
Armindo Antônio Ranzolin e a Rede Gaúcha Sat
2007
Luiz Artur Ferraretto

Anúncio da Rede Gaúcha Sat (março de 1996)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 2 mar. 1996. p. 25.

Dono de uma das vozes mais identificadas pelo ouvinte da Guaíba ao longo dos anos 1970, Armindo Antônio Ranzolin transferiu-se para a Gaúcha em maio de 1984, assumindo, três anos depois, a gerência-executiva da emissora, cargo transformado no de diretor em 1992. É sob sua gestão que a rádio passa a encabeçar uma rede via satélite.

Um ensaio acontece durante a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Já durante os amistosos da Seleção Brasileira, precedendo o certame, o sinal é liberado para que qualquer emissora retransmita os jogos, atraindo até mesmo rádios em espanhol e português instaladas no país sede da copa. Em junho e julho, os ouvintes das 358 estações em cadeia vão acompanhar a conquista do tetracampeonato. No dia 20 de março de 1995, uma edição especial do programa Gaúcha Atualidade inaugura, oficialmente, a Rede Gaúcha Sat, a primeira deste tipo fora do eixo Rio-São Paulo. Com 12 afiliadas por contrato – todas do interior do estado –, a RBS pretende, então, atingir um universo potencial de 7 milhões de consumidores e ultrapassar as fronteiras do Rio Grande do Sul. A própria programação ganha características nacionais. Um exemplo é o Gaúcha na Madrugada, de Jayme Copstein. que se transforma em Brasil na Madrugada. Também se altera um pouco o enfoque dos noticiários para que incluam apenas fatos de maior abrangência, sem perderem, dentro do possível, as características regionais.

Dez anos mais tarde, em 2004, conforme dados do site corporativo da RBS, a Rede Gaúcha Sat abrangia 117 emissoras: 71 no Rio Grande do Sul, 17 em Santa Catarina, 11 no Paraná, cinco no Mato Grosso e duas no Mato Grosso do Sul, além de outras 11 em Rondônia, Acre, Maranhão e na cidade de Campinas, interior de São Paulo. Os Sirotsky conseguiram, deste modo, barrar o avanço de grupos do centro do país sobre os mercados da Região Sul, como destaca Armindo Antônio Ranzolin, diretor da Gaúcha de 1991 a 2004:

– Nós barramos a entrada da Jovem Pan, da Band, da própria Globo, da própria CBN, que queria encher de retransmissoras no interior e só conseguiu este ponto de retransmissão aqui em Porto Alegre. Nós, ao contrário, barramos a entrada deles e exercemos uma força de invasão do Rio Grande do Sul a partir de Santa Catarina e do Paraná. O nosso produto invadiu aquele território.

Com esta força, a Gaúcha chegou ao início do século 21 como a terceira marca radiofônica mais prestigiada do país, conforme pesquisa realizada, em 2001, pela Jaime Troiano Consultoria para a revista Meio & Mensagem. Perdia para a Central Brasileira de Notícias e a Jovem Pan FM, mas superava operações em radiodifusão sonora de empresas do centro do país como 89 FM, Bandeirantes AM, Globo AM, Jovem Pan AM e Transamérica FM, entre outras.

No final de 2006, Ranzolin anunciou a sua aposentadoria, deixando no ar a indagação dos ouvintes sobre quem serão os comunicadores a marcar os próximos anos da emissora. De fato, ao completar oito décadas, no ano seguinte, a Gaúcha tinha por desafio renovar-se, compensando, com novos profissionais, a ausência de conhecidíssimos jornalistas e radialistas.


Armindo Antônio Ranzolin

Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 4 de outubro de 1999.
Alguns causos de Armindo Antônio Ranzolin e Lauro Quadros
2014
Luiz Artur Ferraretto


Dois grandes profissionais do rádio do Rio Grande do Sul estiveram juntos na noite de 10 de agosto de 2004 para homenagear um terceiro, ex-colega de ambos e ídolo de todos. Comum aos três, o fato de serem ícones de várias gerações de ouvintes do Sul do país. Foi uma aula inaugural especialíssima aquela do curso de Comunicação Social da Universidade Luterana do Brasil. Armindo Antônio Ranzolin e Lauro Quadros lembraram Pedro Carneiro Pereira, narrador esportivo falecido três décadas antes e homenageado ali no auditório do Prédio 11 da Ulbra, em Canoas. Trouxeram de volta momentos marcantes da comunicação do estado, alguns dramáticos e outros hilariantes. Contaram uma série de causos a provar a importância de profissionais como eles para o cotidiano do público gaúcho. Aqui, alguns trechos do áudio da palestra – o mais correto é bate-papo – daquela noite.



Lauro Quadros e Armindo Antônio Ranzolin, "os malucos que não se contentam apenas em ver o gol"
Fonte: Acervo pessoal.



Armindo Antônio Ranzolin e seus primeiros contatos com o rádio
Fonte: Acervo pessoal.



Lauro Quadros e seus primeiros contatos com o rádio
Fonte: Acervo pessoal.



Outros tempos na versão de Lauro Quadros
Fonte: Acervo pessoal.



Lauro Quadros relembra o seu início de carreira e sua transformação em comentarista esportivo
Fonte: Acervo pessoal.



Armindo Antônio Ranzolin e a narração esportiva
Fonte: Acervo pessoal.

A aposentadoria de Armindo Antônio Ranzolin,
o principal narrador do rádio gaúcho
2017

Embora postado em 2017, este texto não foi atualizado em relação à versão original escrita em cima da notícia de quase onze anos antes. A emoção daquele momento segue a mesma. E o texto também.
Luiz Artur Ferraretto


Ranzolin no comando do Gaúcha Atualidade (26 de julho de 2002)
Da esquerda para a direita, Armindo Antônio Ranzolin, Luiz Felipe Scolari, Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 27 jul. 2002. p. 48.

1975, o Internacional conquista pela primeira vez o Campeonato Brasileiro de Futebol. 1976 é o bi. 1981, o Grêmio chega lá, vencendo o Brasileirão. 1983, vai mais longe, é o campeão da Taça Libertadores da América. Mais longe ainda e se torna o primeiro clube do Rio Grande do Sul a conquistar um título mundial. Sem falar outros jogos, outras coberturas, do esporte à política, em todas elas, Armindo Antônio Ranzolin.

Quinta-feira, dia 6 de dezembro de 2006. Estúdio da Rádio Gaúcha, Porto Alegre, programa Gaúcha Atualidade. Ranzolin, titular do programa desde agosto de 1992, não está mais lá. No final da tarde, uma nota da Rede Brasil Sul de Comunicação anuncia a aposentadoria, aos 69 anos de idade, de um dos mais importantes profissionais do rádio do Sul do país.

Mas a voz clara e precisa de Armindo Antônio Ranzolin vai seguir presente na memória dos seus ouvintes como o narrador das maiores conquistas do esporte do Rio Grande do Sul, com passagens não só por esta função, mas também por cargos de chefia em emissoras de rádio como a Difusora, a Farroupilha, a Guaíba e a Gaúcha. Afinal, são quase cinco décadas, boa parte deste período como um dos principais nomes das jornadas esportivas do Sul do país. Sou uma destas tantas pessoas que cresceram escutando-o e, por isto, me arrisco aqui a um depoimento inteiramente pessoal e nada jornalístico.

Quando eu era um guri de merda como tantos outros que as universidades despejam, semestre a semestre, no mercado, cheios de convicções e certezas, sem experiência alguma, conheci o Ranzolin de forma prosaica. Eu era um fedelho, destes que seguem abundantes nas redações de hoje, vendo na experiência um problema e não uma solução. Ah, a arrogância dos ignorantes! Óbvio que, de experiência, nada possuía. Então, supria a falta desta com sobras daquela e um olharzinho de dúvida a fingir senso crítico e pitadas de niilismo infanto-juvenil.

Lembro que, selecionado como free-lancer para a cobertura das eleições de 1986, acabei chegando para uma reunião bem antes do horário. Logo em seguida, apareceu o Ranzolin, voz perfeita e quase dois metros de altura. O rosto eu conhecia da RBS TV, onde na época ele mantinha um comentário diário. Se não fosse por isto, eu o identificaria, como todo o Rio Grande, pela voz. Eu estava nervoso e fiquei mais ainda. Ele, ao contrário, leu inexperiência no guri e talvez alguma capacidade profissional futura. Ranzolin, de forma muito amável, foi, então, me explicando todo o funcionamento do sistema informatizado a ser utilizado na cobertura e, de lambuja, me deu alguns conselhos sobre reportagem. Fiquei calmo e – acho – fiz um bom trabalho, acabando por ser contratado em definitivo, dias depois. Anos mais tarde, quando eu havia pedido demissão na Gaúcha para iniciar minha carreira como professor, recordo conversa semelhante nos corredores da rádio, ele insistindo para que eu desistisse da decisão já tomada. Recordo também, com orgulho, de ser entrevistado pelo Ranzolin, um apaixonado por rádio. Mais carinho ainda, no dia da defesa de minha tese de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, quando ele ligou confirmando que estaria presente. São pequenas coisas, que dão a dimensão verdadeiramente humana dos grandes profissionais. E fazem com que eu sinta muita falta da voz de Armindo Antônio Ranzolin ao microfone da Rádio Gaúcha, da Rádio Guaíba, de qualquer rádio. Como naquelas tardes, mais guri ainda, sentado no chão brincando, lá em Rio Grande, na casa dos meus velhos, comecei a me dar conta da existência do rádio, meu irmão estudando e acompanhando jogos e mais jogos de futebol, ouvido colado no radinho National, voz do Ranzolin preenchendo o ambiente com a “Grande Rede Ipiranga dos Esportes”.

Se falo de lembranças específicas e minhas, há que registrar as de todos. Esta, por exemplo. Que narração em 3 de maio de 1981, jogo em que o Grêmio vence por 1 a 0 ao São Paulo! Que narração, Ranzolin!

Armindo Antônio Ranzolin (narrador) – Paulo Isidoro arrancou no campo de ataque, prendendo a bola como convém, deixando respirar a sua meia-cancha. Entregou, agora, para Paulo Roberto. Paulo Roberto levantou. Chuveiro na área para Renato Sá. Subiu para cabeçada, atrasou para Baltazar... Matou no peito, experimentou, uma bomba, atirou... Gooooooooooooooooooooooool do Grêmio! Baltazar! Dezenove minutos e 35, no segundo tempo! Gol do iluminado, Baltazar! Gol do Chuteira de Ouro! O Grêmio faz 1 a 0 contra o São Paulo! Zero a zero serve! Um a zero, senhores, pode fazer do Grêmio, com 77 anos, campeão brasileiro em 1981! Cristalizou o Morumbi! Está derretendo o iceberg! O Grêmio está transformando o iceberg em picolé – e muito gostoso – no Morumbi, João Carlos Belmonte...

João Carlos Belmonte (repórter) – Quando ele perdeu o pênalti em Porto Alegre, no final da partida ele disse para a Guaíba: “Deus está reservando algo melhor para mim”. Estava com a razão! Renato Sá se deslocou pelo comando do ataque, cabeceou para trás, Baltazar dominou no peito e, antes que a bola caísse, emendou em um sem pulo sensacional! Venha comigo, ouvinte da Guaíba, e repita comigo, torcedor gremista: Grêmio 1, São Paulo 0! Campeão do Brasil, se Deus quiser!

Antônio Augusto (plantão) – É o décimo gol de Baltazar em 21 jogos. Gol 32 do Grêmio, que, agora, precisa o São Paulo fazer dois.

Lauro Quadros (comentarista) – Olha, zero a zero já servia. Um a zero é sensacional, mas não precisava ser golaço. Pegou na veia. Foi de voleio. Foi na gaveta com Valdir adiantado. Mas, importante: Renato Sá entrou e, em seguida, fez este jogadaço, a deixa de cabeça para Baltazar estufar as redes. A participação de Renato Sá. O São Paulo, agora, vai ficar louco, maluco, atucanado. Ótimo para o Grêmio, Ranzolin...

Por momentos como este, Ranzolin, que já estava afastado da narração esportiva desde a segunda ida do Grêmio a Tóquio, vai fazer muita falta. Que outros guris, como aquele Ferraretto, o de 1986, tenham a certeza disto! Este, de 20 anos depois, não tem a menor dúvida! E vai repetir sempre, me perdoem todos os demais: Armindo Antônio Ranzolin é o principal narrador esportivo da história do rádio do Rio Grande do Sul, um digno continuador de um Cândido Norberto, de um Mendes Ribeiro, de um Pedro Carneiro Pereira... Do final dos anos 1950 até a semana passada, sempre nos microfones, agora na memória, provando, como os citados, que ele é mesmo insubstituível.

Ranzolin comanda a equipe da Guaíba na narração do gol do Grêmio sobre o São Paulo (3 de maio de 1981)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio – Campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.

O bordão dos cronistas esportivos
2007
Luiz Artur Ferraretto

Está lá no bom e sempre útil Dicionário Aurélio: “Palavra ou frase que se repete a cada frase na conversa ou na escrita”. Já no rádio, bordão é um pouco mais do que isto, quase uma marca pessoal, uma exclusividade deste ou daquele profissional, deste ou daquele programa e, até, desta ou daquela emissora, marcando e/ou demarcando uma personalidade para o ouvinte. E há para todos os gostos, logo neste veículo, aquele que, nos bancos da universidade, é vítima das críticas dos professores a respeito de clichês e de redundâncias. Clichês e redundâncias que fazem, não raro, a delícia de ouvintes na sintonia de comunicadores muito especiais.

Comecemos, então, pelo esporte, sempre rico quando o assunto são frases de efeito, exageradas por vezes, mas vá lá. No Rio Grande do Sul, quem foi guri nos anos 1960 vai lembrar da narração sóbria de Pedro Carneiro Pereira, aquele de precisas descrições ao microfone da Rádio Guaíba. Mesmo que não recorresse a figuras de linguagem, recurso usual nas emissoras do centro do país, ele sempre abria as jornadas esportivas com uma frase, sua marca registrada:

– O árbitro olha o seu relógio, nós o nosso e inicia partida...

Da mesma escola, o grande Armindo Antônio Ranzolin não dispensaria um “Alô, amigos” na abertura de suas intervenções como apresentador, narrador ou comentarista. Da mesma geração e colega de ambos, o já irreverente Lauro Quadros seria – e é até hoje – um caso à parte, criando dezenas de bordões. Para definir profissionais ou elogiar um lance de brilhantismo, saía com um “esse conhece o rengo sentado e o cego dormindo” ou “ele sabe a cabeça que tem piolho”. Quando queria indicar uma área do campo de marcação deficiente do adversário por onde um time poderia chegar ao gol, soltava um “ali é o caminho da roça”. E, para encerrar um raciocínio, largava sempre: “É isto aí mais meio quilo de farofa”. De segunda a sexta, conduzindo o seu Polêmica, na Gaúcha, ainda brinca com as palavras, incentivando os ouvintes a ligarem para o programa:

– Não se esconda, responda! – em meio a outras frases que vão surgindo conforme o andamento dos debates.

Agora, os reis dos bordões são mesmo os narradores de teor mais conotativo, como os estudiosos definem os que abusam das metáforas, metonímias e outros que tais. Neste estilo, quem mais fez sucesso no Rio Grande do Sul nas últimas três décadas foi um paranaense aqui chegado de Minas Gerais: Haroldo de Souza, hoje na Rádio Guaíba. O radialista vai escandindo vogais na sua maneira particular de anunciar o gol – “Adiviiiiiinheeee...” – para, logo em seguida, incentivar a comemoração do momento máximo do futebol – “As bandeiras estão tremuuulaaando, tremuuulaaando... torcedor do Brasil” –, fala secundada, em meados da década de 1970, por uma vinheta repetindo-a na forma de música. Quando o time local está em desvantagem, Haroldo transporta-se para as arquibancadas: “E, agora, tchê?” ou “Isto é profundamente lamentável, torcedor do Brasil”. Esta última é usada, ainda, quando alguém comete uma falta grave. Se o jogador erra em gol ou, para evitar o ataque do adversário, chuta para fora do campo de jogo, vem um “É bola pro mato que é jogo de campeonato”. Ironia do destino, ao se transferir para a Gaúcha, na sua primeira escala no estado, Haroldo de Souza chega justamente para contrapor com o seu estilo a sobriedade da concorrente, a Guaíba, sua emissora nos anos 1990 e 2000.