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A Gaúcha, a Guaíba e as grandes conquistas do futebol gaúcho nos anos 1970 e 1980
2014
Bruno Pancot


Futebol e rádio andam juntos há muito tempo. Não foi diferente nos anos 1970 e 1980, quando Grêmio e Internacional projetaram-se no cenário nacional e mundial. Confira alguns destes momentos na vozes dos principais profissionais de rádio do estado, uma homenagem aos que fazem a cobertura esportiva, ao rádio e ao futebol do Rio Grande do Sul.


Escudos do Grêmio e do Internacional


Campeonato Brasileiro de 1975

Para ser campeão brasileiro pela primeira vez, o Internacional passou por três fases classificatórias até chegar às semifinais. Na época, as decisões eram em jogo único. Como na terceira fase o Inter foi segundo em seu grupo, disputou a vaga na final no Maracanã contra o Fluminense, campeão da chave oposta. Na outra eliminatória, o Cruzeiro visitou o Santa Cruz, de Recife, no Arruda.

Diante de quase 100 mil pessoas no maior templo do futebol, o Inter bateu o Flu por 2 a 0, gols de Lula e Carpegiani. Em Recife, o Cruzeiro também avançou ao aplicar 3 a 2 no Santa Cruz.

Dia 14 de dezembro de 1975. O Beira-Rio fervia com 82.568 pagantes. Arbitragem do paulista Dulcídio Wanderley Boschillia. De um lado, entre outros, Manga, Falcão e Figueroa. Do outro, os destaques eram Raul, Piazza e Nelinho. Inter e Cruzeiro. Quem vencesse conquistaria o seu primeiro título brasileiro.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Internacional 1 x 0 Cruzeiro
Participação de Armindo Antônio Ranzolin, João Carlos Belmonte, Lasier Martins e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1975. Porto Alegre, 1975. LP.


Campeonato Brasileiro de 1976

No ano seguinte ao primeiro título brasileiro, o Internacional manteve o time-base e o técnico Rubens Minelli. Assim como em 1975, foi necessário passar por três fases classificatórias até encontrar o Atlético mineiro, nas semifinais. Este, aliás, foi o famoso jogo da tabela de Falcão e Escurinho, em que os jogadores colorados marcaram o segundo gol do 2 a 1 no Atlético sem deixar a bola cair no chão.

Mas o principal ainda estava por vir. A final contra o Corinthians teve cerca de 84 mil torcedores no Beira-Rio. José Roberto Wright apitou. Em campo, um defenderia o título, enquanto o outro tentaria um feito inédito.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Internacional 2 x 0 Corinthians
Participação de Armindo Antônio Ranzolin, Edegar Schmidt, João Carlos Belmonte e Lauro Quadros.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1976. Porto Alegre, 1976. LP.


Campeonato Gaúcho de 1977 

Após oito anos de hegemonia do arquirrival, o Grêmio voltou a conquistar o Campeonato Gaúcho em 1977. Naquele ano, o tricolor era treinado por Telê Santana e tinha jogadores como Éder e André Catimba.

A tabela inicial separou os 24 times participantes em dois grupos, dos quais se classificavam os 10 melhores. Na fase seguinte, assim como na primeira, Grêmio e Internacional foram os clubes que mais somaram pontos. Por isto, enfrentaram-se em jogo extra para definir quem seria o campeão estadual.

Em 25 de setembro, a grande final. Depois de um lance disputado, Iúra recebeu a bola e tocou por trás da zaga colorada para encontrar André Catimba. Na emoção, o atacante deu uma pirueta e estatelou-se no chão. Pouco importava. O Olímpico estremeceu de alegria. O Grêmio voltava a ganhar o título gaúcho.


Haroldo de Souza, da Gaúcha, na cobertura de Grêmio 1 x 0 Internacional
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão gaúcho de 1977. Porto Alegre, 1977. Compacto.


Campeonato Brasileiro de 1979

Depois de dois anos afastado das grandes decisões, o Internacional voltou a disputar a final do Campeonato Brasileiro em 1979. Após eliminar o Palmeiras, com a disputa de dois jogos em ida e volta, o desafio derradeiro seria contra o Vasco da Gama, primeiro no Rio de Janeiro e, depois, em Porto Alegre. Mais uma vez em Porto Alegre. Mais uma vez no Beira-Rio.

A década de 1970 foi encerrada com a invencibilidade no campeonato nacional, marca que nenhum clube tinha até então e que nenhum outro conquistou depois. Vencendo as duas, 2 a 0 no Maracanã e 2 a 1 no Beira-Rio, o Inter deu à torcida mais um motivo para sorrir, esperando pela nova década.

Armindo Antônio Ranzolin, da Guaíba, na cobertura de Vasco da Gama 0 x 2 Internacional
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1979. Porto Alegre, 1979. LP.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Internacional 2 x 1 Vasco da Gama
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Internacional campeão brasileiro 1979. Porto Alegre, 1979. LP.


Campeonato Brasileiro de 1981

Em 1981, o Grêmio montou um time com jogadores como Leão, De León e Baltazar. Nas duas fases classificatórias, teve dificuldades para passar, mas chegou às oitavas-de-final, disputadas pela primeira vez naquele ano em jogos de ida e volta. Nas oitavas e nas quartas, venceu com alguma folga o Vitória, da Bahia, e o Operário, do Mato Grosso do Sul. Mas os grandes desafios ainda estavam por vir.

Nas semifinais, superar a Ponte Preta foi sofrido. No dia 23 de abril, vitória gremista por 3 a 2 no Moisés Lucarelli, em Campinas. Paulo Isidoro, Vílson Taddei e Tarciso marcaram para o Grêmio. Já na partida de volta, em Porto Alegre, mesmo perdendo por 1 a 0, o tricolor avançou para as finais. Encararia o São Paulo, time que só tinha sido derrotado duas vezes na competição – uma delas para o próprio Grêmio.

Dia 30 de abril de 1981. Diante de 90 mil torcedores no Olímpico, o Grêmio venceu os paulistas por 2 a 1. Mesmo que tenha saído perdendo, com gol de Serginho Chulapa, o tricolor lutou e virou com Paulo Isidoro marcando duas vezes.

Uma semana depois, o Morumbi recebeu 95 mil torcedores. José Roberto Wright era o homem do apito. Cederia o Grêmio à pressão do São Paulo? Pelo contrário, com um gol de Baltazar, o time gremista se tornava o primeiro clube gaúcho a ser campeão brasileiro longe do Rio Grande do Sul.

Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Grêmio 2 x 1 São Paulo
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de São Paulo 0 x 1 Grêmio
Participação de Antônio Augusto, Armindo Antônio Ranzolin, João Carlos Belmonte, Laerte de Franceschi e Lauro Quadros.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de Grêmio 2 x 1 São Paulo
Participação de Darci Rodrigues de Mello Filho, Haroldo de Souza, Raul Moreau e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de São Paulo 0 x 1 Grêmio
Participação de Haroldo de Souza, Raul Moreau, Ruy Carlos Ostermann e Wianey Carlet.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Chamada especialmente produzida pela Gaúcha para a final do Campeonato Brasileiro de 1981
Voz principal de João Batista Schüller, o Johnny Megaton.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão brasileiro 1981. Porto Alegre, 1981. LP.


Copa Libertadores da América de 1983

A maior conquista do Grêmio iniciou justamente contra o time que fora seu algoz  na decisão do Brasileiro de 1982: o Flamengo. Na estreia da primeira fase, 1 a 1 contra o rubro-negro, no Olímpico. Depois, quatro jogos contra os bolivianos Blooming e Bolívar – vitórias em todos. Para completar, 3 a 1 sobre o Flamengo, no Maracanã, e classificação para a outra etapa.

Na fase seguinte, o tricolor passou por dificuldades épicas. Iniciou vencendo o Estudiantes de La Plata, no Olímpico, por 2 a 1. Já contra o América de Cali, somou apenas dois pontos – premiação para vitórias na época – ao perder na Colômbia por 1 a 0 e ganhar em Porto Alegre pelo mesmo placar.

O time gaúcho partiu para o último jogo da fase contra o Estudiantes no acanhado Jorge Luis Hirschi. Entre as muitas versões para aquele 8 de julho de 1983, o certo é que quatro jogadores do time argentino foram expulsos em um jogo marcado pelo clima tenso e pelas agressões. O Grêmio vencia por 3 a 1, mas o time de La Plata, enfurecido, empatou em 3 a 3.

No fim classificado, o Grêmio foi para a final contra o Penãrol, de Montevidéu. No primeiro jogo, 1 a 1 com os carboneros. Uma semana depois, dia 28 de julho, 73 mil pessoas foram ao Olímpico assistir à vitória do time gaúcho por 2 a 1. Com gols de Caio e César, o Rio Grande ganhava a América pela primeira vez.



Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Peñarol 1 x 1 Grêmio
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte. 
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Grêmio 2 x 1 Peñarol
Participação de Armindo Antônio Ranzolin, João Carlos Belmonte e Lauro Quadros.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP. 


Haroldo de Souza , da Gaúcha, na cobertura de Peñarol 1 x 1 Grêmio
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de Grêmio 2 x 1 Peñarol
Participação de Darci Rodrigues de Mello Filho, Haroldo de Souza e Ruy Carlos Ostermann.  
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão da América 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Campeonato Mundial de 1983

11 de dezembro de 1983. O maior dia da história de 111 anos do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Grêmio versus Hamburgo, no Estádio Nacional de Tóquio. De um lado, o time de Mazarópi, Paulo Roberto, Baidek, De León, P.C. Magalhães, China, Osvaldo, Mário Sérgio, Renato Portaluppi, Tarciso e Paulo César Lima. Do outro, o Hamburgo, campeão europeu e alemão da temporada 1982-83.

A história do confronto nenhum gremista pode esquecer. Aos 37 minutos, Renato entrou pela direita, driblou duas vezes o jogador Hieronymus e, sem ângulo, bateu para o gol. Era o 1 a 0. Quase no fim, do jogo, no entanto, Shröder empatou. Seria necessária a prorrogação.

Na volta, não demorou para que tudo se decidisse. Caio levantou, Tarciso ajeitou e Renato fez outro gol. Euforia gremista. Só mais alguns minutos e o maior título em disputa para os times brasileiros seria do Grêmio.


Armindo Antônio Ranzolin e a equipe da Guaíba na cobertura de Grêmio 2 x 1 Hamburgo
Participação de Armindo Antônio Ranzolin e João Carlos Belmonte. 
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Hino Grêmio Campeão do Mundo (Rádio Guaíba) 
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Haroldo de Souza e a equipe da Gaúcha na cobertura de Grêmio 2 x 1 Hamburgo
Participação de Antônio Augusto, Darci Rodrigues Mello Filho, Haroldo de Souza e Ruy Carlos Ostermann.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Hino Grêmio Campeão do Mundo (Rádio Gaúcha)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Grêmio campeão do mundo 1983. Porto Alegre, 1983. LP.


Créditos

A partir de material originalmente digitalizado pelos sonoplastas João Blattner e Otto Bede, do então Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
O bordão dos cronistas esportivos
2007
Luiz Artur Ferraretto

Está lá no bom e sempre útil Dicionário Aurélio: “Palavra ou frase que se repete a cada frase na conversa ou na escrita”. Já no rádio, bordão é um pouco mais do que isto, quase uma marca pessoal, uma exclusividade deste ou daquele profissional, deste ou daquele programa e, até, desta ou daquela emissora, marcando e/ou demarcando uma personalidade para o ouvinte. E há para todos os gostos, logo neste veículo, aquele que, nos bancos da universidade, é vítima das críticas dos professores a respeito de clichês e de redundâncias. Clichês e redundâncias que fazem, não raro, a delícia de ouvintes na sintonia de comunicadores muito especiais.

Comecemos, então, pelo esporte, sempre rico quando o assunto são frases de efeito, exageradas por vezes, mas vá lá. No Rio Grande do Sul, quem foi guri nos anos 1960 vai lembrar da narração sóbria de Pedro Carneiro Pereira, aquele de precisas descrições ao microfone da Rádio Guaíba. Mesmo que não recorresse a figuras de linguagem, recurso usual nas emissoras do centro do país, ele sempre abria as jornadas esportivas com uma frase, sua marca registrada:

– O árbitro olha o seu relógio, nós o nosso e inicia partida...

Da mesma escola, o grande Armindo Antônio Ranzolin não dispensaria um “Alô, amigos” na abertura de suas intervenções como apresentador, narrador ou comentarista. Da mesma geração e colega de ambos, o já irreverente Lauro Quadros seria – e é até hoje – um caso à parte, criando dezenas de bordões. Para definir profissionais ou elogiar um lance de brilhantismo, saía com um “esse conhece o rengo sentado e o cego dormindo” ou “ele sabe a cabeça que tem piolho”. Quando queria indicar uma área do campo de marcação deficiente do adversário por onde um time poderia chegar ao gol, soltava um “ali é o caminho da roça”. E, para encerrar um raciocínio, largava sempre: “É isto aí mais meio quilo de farofa”. De segunda a sexta, conduzindo o seu Polêmica, na Gaúcha, ainda brinca com as palavras, incentivando os ouvintes a ligarem para o programa:

– Não se esconda, responda! – em meio a outras frases que vão surgindo conforme o andamento dos debates.

Agora, os reis dos bordões são mesmo os narradores de teor mais conotativo, como os estudiosos definem os que abusam das metáforas, metonímias e outros que tais. Neste estilo, quem mais fez sucesso no Rio Grande do Sul nas últimas três décadas foi um paranaense aqui chegado de Minas Gerais: Haroldo de Souza, hoje na Rádio Guaíba. O radialista vai escandindo vogais na sua maneira particular de anunciar o gol – “Adiviiiiiinheeee...” – para, logo em seguida, incentivar a comemoração do momento máximo do futebol – “As bandeiras estão tremuuulaaando, tremuuulaaando... torcedor do Brasil” –, fala secundada, em meados da década de 1970, por uma vinheta repetindo-a na forma de música. Quando o time local está em desvantagem, Haroldo transporta-se para as arquibancadas: “E, agora, tchê?” ou “Isto é profundamente lamentável, torcedor do Brasil”. Esta última é usada, ainda, quando alguém comete uma falta grave. Se o jogador erra em gol ou, para evitar o ataque do adversário, chuta para fora do campo de jogo, vem um “É bola pro mato que é jogo de campeonato”. Ironia do destino, ao se transferir para a Gaúcha, na sua primeira escala no estado, Haroldo de Souza chega justamente para contrapor com o seu estilo a sobriedade da concorrente, a Guaíba, sua emissora nos anos 1990 e 2000.