Mostrando postagens com marcador Pedro Carneiro Pereira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Carneiro Pereira. Mostrar todas as postagens
Pedro Carneiro Pereira e a excursão do Grêmio à Europa
2014
Luiz Artur Ferraretto

Pedro Carneiro Pereira na cobertura da excursão do Grêmio à Europa (16 de abril de 1961)
À beira do gramado, em Atenas, o narrador descreve a vitória do Grêmio por 4 a 1 sobre o Panathinaikos Athlitikos Omilos.
Fonte: Acervo particular da família Pereira.

Baseando-se na experiência bem-sucedida na Copa de 1958, quando foram usadas linhas telefônicas para a conexão até Berna, na Suíça, e, de lá, para Porto Alegre via single side band, a Guaíba começa a se destacar em coberturas internacionais. Acompanha, assim, de março a junho de 1961, com o narrador Pedro Carneiro Pereira, a primeira excursão do Grêmio à Europa. No entanto, a ousadia maior da aventura radiofônica pelos gramados europeus vai ocorrer, justamente, quando falha o esquema contratado previamente.

Um dos 24 jogos disputados pelo time gaúcho vai demonstrar, no entanto, as dificuldades ainda existentes e exigir uma significativa dose de improvisação. No domingo, dia 11 de junho de 1961, graças ao tirocínio do narrador, a Guaíba torna-se a primeira emissora do Brasil a irradiar um jogo de futebol do outro lado da chamada Cortina de Ferro. Chegando ao estádio em Moscou, onde o Grêmio vai enfrentar a seleção da União Soviética, Pedro Carneiro Pereira constata que, embora solicitada, a linha telefônica até Berna não foi providenciada. A presença de um brasileiro do serviço em português da Rádio Central de Moscou indica uma solução para o problema. Convencido por Pedro Carneiro Pereira, ele aceita ceder o microfone da estatal soviética desde que não seja veiculada publicidade durante a transmissão. O radialista começa, então, a repetir pelas ondas curtas, na esperança de que alguém no Brasil capte a transmissão:

– Alô, alô, Brasil. Quem estiver ouvindo ligue para a Rádio Guaíba e informe que o locutor Pedro Carneiro Pereira está chamando da Rússia, pela onda da Rádio Central de Moscou para irradiar o jogo do Grêmio Foot-ball Porto-alegrense com o selecionado local...

Um ouvinte em Pelotas, na Zona Sul do estado, ouve o apelo do narrador e consegue entrar em contato com Homero Carlos Simon. O engenheiro capta o sinal em ondas curtas, enquanto, sem a certeza de que está no ar pela Guaíba, Pedro Carneiro Pereira, “em colaboração com a Rádio Central de Moscou”, descreve a derrota do Grêmio por 2 a 0 frente ao selecionado soviético.

Pedro Carneiro Pereira relembra a irradiação de União Soviética x Grêmio (1973)
Depoimento gravado por alunos do terceiro ano do curso de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Fonte: Arquivo de Vozes da Rádio Guaíba.
A morte de Pedro Carneiro Pereira
2008
Luiz Artur Ferraretto


Pedro Carneiro Pereira (início dos anos 1970)
Fonte: Acervo particular da família Pereira.

Nos Estados Unidos, quem estava vivo em 22 de novembro de 1963 lembra do que fazia e de onde estava quando ficou sabendo do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy abatido por uma – uma? – bala de trajetória estranha e irregular no desfile em carro aberto nas ruas de Dallas. Uma geração antes, no Brasil, teve efeito semelhante a informação sobre o suicídio de Getúlio Vargas, e, na Argentina, a morte por câncer progressivo e irredutível de Eva Perón. Pois, no Rio Grande do Sul, o ouvinte de rádio do início dos anos 1970 lembra, com certeza, o que fazia, onde estava, com quem conversava, que roupa usava naquele momento dramático e único. Aquele instante, o da voz embargada de Armindo Antônio Ranzolin, microfone da Guaíba, palmas respeitosas de um Beira-Rio lotado. Um Arnaldo César Coelho parando a partida, gesto inusitado e inédito. Jogadores do Internacional e do São Paulo silenciosos. O estádio inteiro silencioso. A crônica esportiva silenciosa. E a Guaíba tocando música na tarde de domingo, de futebol e de primavera. A Gaúcha seguindo na irradiação dos jogos do campeonato brasileiro em homenagem ao colega da emissora concorrente. Um Luiz Carlos Prates emocionado na descrição lance a lance de um jogo que já não interessava a ninguém. Tudo, respeitosamente, para marcar a morte e lembrar a vida do maior narrador esportivo do estado na época: Pedro Carneiro Pereira, o Pedrinho, morto naquela tarde de sol, de primavera, dia 21 de outubro de 1973, há três décadas.


Luiz Fernando Verissimo homenageia Pedro Carneiro Pereira (22 de outubro de 1973)
Fonte: Folha da Manhã, Porto Alegre, 22 out. 1973. p. 8.

Um fanático pelo automobilismo, Pedrinho, correndo com um Opala, número 22, sofrera um acidente, no qual se envolve também o automóvel de Ivan Iglesias. Foi pouco antes do início do jogo. A Guaíba, além de estar presente nos estádios Beira-rio, em Porto Alegre, e Engenheiro Araripe, na cidade de Vitória, no Espírito Santo, mantinha um posto no Autódromo de Tarumã, em Viamão. De lá, o repórter Clóvis Rezende informara, primeiro, o choque entre os dois carros, chegando a descrever as chamas que tomaram conta dos veículos. Minutos depois, confirmada a morte dos pilotos, Armindo Antônio Ranzolin, após narrar os primeiros 15 minutos de Internacional e São Paulo, interrompe as transmissões esportivas da emissora:

– Bem, este tipo de informação nós não estávamos preparados para receber. O Pedrinho corre há tanto tempo. Morre tanta gente nos autódromos, mas nós sempre imaginamos que, com o Pedrinho, isso não aconteceria. Confesso para os ouvintes da Rádio Guaíba que não há a menor condição para que o nosso trabalho prossiga. A partir deste momento, o Departamento de Esportes da Rádio Guaíba, hoje, vai encerrar as suas atividades. Nós não transmitiremos o jogo do Internacional e São Paulo, nem o jogo do Grêmio contra a Desportiva Ferroviária. Vamos colocar um ponto final na participação do Departamento de Esportes da Rádio Guaíba nesta Jornada Esportiva Ipiranga e nesta transmissão aqui do Beira-Rio.

Em meio ao comunicado, a reação do público, com aplausos que partem de todos os pontos do estádio, atesta o impressionante predomínio da Guaíba no rádio do Rio Grande do Sul. O narrador da descrição precisa, sem bordões ou adjetivos exagerados, morria em uma tarde de céu azul, muito azul, parecendo uma saudação, uma homenagem da primavera acompanhada, assim, pelo reconhecimento do público e de seus colegas.


Documentário Pedrinho Morreu na Primavera (2004)
Produção: Cristiane Viegas, Juliana Sembranelli, Marcelo Steffen e Marcus Reis.
Produção Geral: Marcus Reis.
Imagens: Adelmo Prestes, Daniel Fernandes e Sérgio Cabral.
Edição: Marcus Reis.
Edição / Pós-produção: Daniel Fernandes.
Computação Gráfica: Daniel Fernandes.
Sonoplastia: João Blattner e Otto Bede.
Programação Visual: Daniel Fernandes.
Professor responsável: Luiz Artur Ferraretto.
Jornalista responsável: Vera Méndez.
Fonte: Acervo particular.
O bordão dos cronistas esportivos
2007
Luiz Artur Ferraretto

Está lá no bom e sempre útil Dicionário Aurélio: “Palavra ou frase que se repete a cada frase na conversa ou na escrita”. Já no rádio, bordão é um pouco mais do que isto, quase uma marca pessoal, uma exclusividade deste ou daquele profissional, deste ou daquele programa e, até, desta ou daquela emissora, marcando e/ou demarcando uma personalidade para o ouvinte. E há para todos os gostos, logo neste veículo, aquele que, nos bancos da universidade, é vítima das críticas dos professores a respeito de clichês e de redundâncias. Clichês e redundâncias que fazem, não raro, a delícia de ouvintes na sintonia de comunicadores muito especiais.

Comecemos, então, pelo esporte, sempre rico quando o assunto são frases de efeito, exageradas por vezes, mas vá lá. No Rio Grande do Sul, quem foi guri nos anos 1960 vai lembrar da narração sóbria de Pedro Carneiro Pereira, aquele de precisas descrições ao microfone da Rádio Guaíba. Mesmo que não recorresse a figuras de linguagem, recurso usual nas emissoras do centro do país, ele sempre abria as jornadas esportivas com uma frase, sua marca registrada:

– O árbitro olha o seu relógio, nós o nosso e inicia partida...

Da mesma escola, o grande Armindo Antônio Ranzolin não dispensaria um “Alô, amigos” na abertura de suas intervenções como apresentador, narrador ou comentarista. Da mesma geração e colega de ambos, o já irreverente Lauro Quadros seria – e é até hoje – um caso à parte, criando dezenas de bordões. Para definir profissionais ou elogiar um lance de brilhantismo, saía com um “esse conhece o rengo sentado e o cego dormindo” ou “ele sabe a cabeça que tem piolho”. Quando queria indicar uma área do campo de marcação deficiente do adversário por onde um time poderia chegar ao gol, soltava um “ali é o caminho da roça”. E, para encerrar um raciocínio, largava sempre: “É isto aí mais meio quilo de farofa”. De segunda a sexta, conduzindo o seu Polêmica, na Gaúcha, ainda brinca com as palavras, incentivando os ouvintes a ligarem para o programa:

– Não se esconda, responda! – em meio a outras frases que vão surgindo conforme o andamento dos debates.

Agora, os reis dos bordões são mesmo os narradores de teor mais conotativo, como os estudiosos definem os que abusam das metáforas, metonímias e outros que tais. Neste estilo, quem mais fez sucesso no Rio Grande do Sul nas últimas três décadas foi um paranaense aqui chegado de Minas Gerais: Haroldo de Souza, hoje na Rádio Guaíba. O radialista vai escandindo vogais na sua maneira particular de anunciar o gol – “Adiviiiiiinheeee...” – para, logo em seguida, incentivar a comemoração do momento máximo do futebol – “As bandeiras estão tremuuulaaando, tremuuulaaando... torcedor do Brasil” –, fala secundada, em meados da década de 1970, por uma vinheta repetindo-a na forma de música. Quando o time local está em desvantagem, Haroldo transporta-se para as arquibancadas: “E, agora, tchê?” ou “Isto é profundamente lamentável, torcedor do Brasil”. Esta última é usada, ainda, quando alguém comete uma falta grave. Se o jogador erra em gol ou, para evitar o ataque do adversário, chuta para fora do campo de jogo, vem um “É bola pro mato que é jogo de campeonato”. Ironia do destino, ao se transferir para a Gaúcha, na sua primeira escala no estado, Haroldo de Souza chega justamente para contrapor com o seu estilo a sobriedade da concorrente, a Guaíba, sua emissora nos anos 1990 e 2000.