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Anos 1960
O sucesso de Teixeirinha, a inauguração de Brasília, a Legalidade, o radinho de pilha, a repressão a tudo e a todos após o golpe de 1964, as grandes reportagens de Flávio Alcaraz Gomes, as vozes da cidade de Dilamar Machado, a vez do povão na Rádio Itaí e vários outros fatos a contar a trajetória do mais popular dos meios de comunicação. É a história da década de indefinições. São os anos de transição do espetáculo para a segmentação.

Destaques da década
O sucesso popular de Teixeirinha
José Braz de Oliveira, o primeiro empresário de Teixeirinha
A Guaíba e a cobertura da inauguração de Brasília
“Varre, varre vassourinha” e as lembranças da infância
Rede da Legalidade: do porão do Palácio Piratini para o Brasil
"Avante brasileiros de pé..."
Pedro Carneiro Pereira e a excursão do Grêmio à Europa
1962, a copa do radinho de pilha
A organização institucional do rádio gaúcho
Milton Jung, a pronúncia mais precisa do Brasil
Julio Rosemberg, o homem do "Viuuuuu!!!"
Carlos Alberto Carvalho e os programas Lacta Clube e  Clube Difusora Banrisul
Antenor Modula e a crítica do rádio no jornal Última Hora
"De ordem superior, ficam proibidas notícias sobre..."
Golpe de 1964: do humor à censura
Golpe de 1964: da censura à falta de humor
Nos "anos de chumbo": as calcinhas subversivas
Lorenzo Gabellini e a Itaí, pioneira do rádio povão
Aconteceu, o radioteatro em ritmo de programa policial
Dilamar Machado e os 40 anos do Vozes da Cidade
1966: Flávio Alcaraz Gomes e o off tube na Copa da Inglaterra
As várias guerras de Flávio Alcaraz Gomes
Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros: os dois principais comentaristas esportivos da década de 1970
Ivete Brandalise e a mulher no rádio do Rio Grande do Sul
Glênio Peres e a guerrilha de Che Guevara
A Guaíba acompanha a Missão Apollo


O sucesso popular de Teixeirinha
2006
Luiz Artur Ferraretto


Teixeirinha e Mary Terezinha no Teixeirinha Amanhece Cantando
Fonte: Aplauso, Porto Alegre: Plural, ano 5, n. 42, p. 26, 2002.

Nos anos 1960 e 1970, da simbiose inerente às indústrias fonográfica e de radiodifusão sonora surge o maior fenômeno massivo do regionalismo do Rio Grande do Sul, embora rejeitado por parcelas do tradicionalismo devido ao tom popularesco de suas músicas e filmes: Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha. Até sua morte, há 20 anos, em 4 de dezembro de 1985, vende 18 milhões de discos, compõe em torno de 1.200 canções, das quais grava cerca de 800 em 49 álbuns, fora antologias. No cinema, protagoniza 12 produções. A relação com o rádio vem do início da década de 1950, quando se apresenta, com frequência, em emissoras de Estrela, Lajeado, Rio Pardo, Santa Cruz do Sul e Taquara. Em 1957, Teixeirinha assume seu primeiro programa, Entardecer do Rio Grande, transmitido das 17h30 às 18h, pela Municipal, de Passo Fundo. Começa, ainda, a frequentar os palcos radiofônicos da capital nos espaços destinados à música gauchesca.

Em 1960, o selo Chantecler lança um compacto, colocando, no lado B, a toada Coração de Luto. Em seis meses, registrada também no álbum O Grande Coração do Rio Grande, o sucesso inesperado da canção – a gravadora apostava em Gaúcho de Passo Fundo, a outra música lançada – transforma Teixeirinha, de acordo com a Revista do Rádio, em um dos artistas de maior cachê do país, expondo o drama pessoal do cantor e compositor, órfão aos nove anos, quando a mãe, epilética, sofreu uma convulsão enquanto incinerava uma pilha de folhas, galhos e gravetos, sobras da poda de um arvoredo, caindo sobre as chamas e falecendo devido às graves queimaduras. A história aparece em um filme também denominado Coração de Luto, que leva 1 milhão de espectadores ao cinema na estreia de Teixeirinha como ator, em 1967.
O sucesso popular da temática algo contestada no Rio Grande do Sul – onde o cantor chega a ser considerado, por alguns críticos do seu trabalho, sertanejo e não tradicionalista – coincide com a decadência do espetáculo radiofônico, que tira do ar atrações regionalistas apresentadas em auditórios, transferindo-as para dentro do estúdio. É neste tipo de espaço, também, que Vitor Mateus Teixeira vai se destacar em diversas emissoras de Porto Alegre, fazendo dupla com a acordeonista Mary Terezinha – nome artístico de Mari Terezinha Cabral Brum – e marcando na memória de seus ouvintes um bordão frequente nos diálogos entre os dois:

– Ceeerto, Mary Terezinha?

– Certo, Teixeirinha!

Ao longo dos anos 1970, em diversas rádios da capital, por vezes com retransmissão por estações do interior e de outros estados, popularizam-se programas como Teixeirinha Amanhece Cantando (matutino) e Teixeirinha Comanda o Espetáculo (noturno). Nos domingos pela manhã, o cantor conduz Teixeirinha Canta para o Brasil. Os dados existentes indicam o primeiro como o mais marcante, embora todos registrem, então, altos índices de audiência. Na época, o cantor descreve o sucesso desta atração radiofônica sempre transmitida de modo a acompanhar o início da jornada diária de seus ouvintes:

– Em meu programa de rádio Teixeirinha Amanhece Cantando, eu acordo o povo que constrói o Brasil, o povo simples, sofrido, que me aprecia e com quem tenho compromisso. Respeito o meu público. Recebo de nove a 10 mil cartas de fãs por mês e tenho duas secretárias para responder a essa correspondência porque ninguém fica sem resposta. Tem coisas em que você nem acredita. Um dos produtos que eu anuncio é para o fígado. Pois as pessoas chegam na farmácia procurando “o remédio do Teixeirinha” e os balconistas vendem o remédio certo.

Além de veicularem muitos causos e músicas da dupla Teixeirinha e Mary Terezinha, os programas reforçam a divulgação de filmes como Ela Tornou-se Freira, de 1971, assistido, na época, por 600 mil espectadores. No entanto, além da Região Sul, onde as ondas do programa Teixeirinha Amanhece Cantando não chegavam, os borderôs de seus outros filmes não repetiram o êxito comercial do fenômeno Coração de Luto. O que nunca impediu, pelo interior do Rio Grande, que as estreias lotassem cinemas, sendo sempre anunciadas com faixas e cartazes pelas ruas, dando cara de grande produção aos quase singelos e algo toscos filmes de Vitor Mateus Teixeira.

Coração de Luto, de Teixeirinha

Com Teixeirinha (1960)


A Revista do Rádio e o sucesso de Teixeirinha
Fonte: CHORANDO suas mágoas ficou rico. Revista do Rádio, Rio de Janeiro, ano 16, n. 724, p. 22-3, 3 ago. 1963.
José Braz de Oliveira, o primeiro empresário de Teixeirinha
2008
Luiz Artur Ferraretto


José Braz de Oliveira (2005)
Fonte: Acervo particular.

Tempos atrás, eu soube pelo pesquisador Israel Lopes do falecimento de José Braz de Oliveira. Foi meio por acaso. Junto com o seu livro Teixeirinha, o Gaúcho Coração do Rio Grande, Lopes me enviou um artigo do jornal Letras Santiaguenses sobre a morte do delegado Braz em 27 de setembro de 2007. Anos antes, um exemplar da Revista TV me chamara a atenção num dos inúmeros sebos do centro de Porto Alegre. Nele, no expediente, aparecia o nome do mesmo Braz de Oliveira. Tornou-se um desafio, então, localizar o antigo proprietário da publicação para ter acesso à coleção completa da revista, que circulou de novembro de 1954 a novembro de 1960 e que tratava também de rádio e música. Folhear aqueles exemplares iria facilitar em muito a recuperação da história das emissoras de Porto Alegre naquela segunda metade da década de 1950, parte importante da tese de doutorado que eu então desenvolvia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi com certa estranheza que, ao falar com ele por telefone, recebi o convite para ter acesso à coleção:

- Dá uma passada aqui na Ugapoci amanhã cedo...

Minha primeira reação: “Poxa, vou pesquisar sobre rádio na União Gaúcha de Policiais Civis...”. Passaria lá algumas semanas folheando as revistas, entre um cafezinho e outro, por vezes levando exemplares para casa, escaneando, fotografando... De vez em quando, o delegado dava uma passadinha por lá. E aí contava histórias daquela paixão pelo rádio, décadas atrás. Falava do orgulho de ter sido o primeiro empresário de Teixerinha, de ter dado espaço para Glênio Reis nas páginas da revista, de ter apoiado o animador-galã Salimen Júnior. A lembrança movia-se para a cidade de Pelotas. A pequena rodoviária cheia de gente. Teixeirinha chegando e, ali mesmo, tocando para a multidão. Um Braz de Oliveira assombrado, não acreditando no que via. Logo aquele gaudério que, na capital, muitos encaravam com preconceito! De gole em gole, ia voltando no tempo com gosto... e saudade.

Quando defendi minha tese Rádio e Capitalismo no Rio Grande do Sul, o delegado Braz esteve lá na plateia. Foi um dos que me deu apoio e confiança na apresentação desse relato sobre a história do rádio na segunda metade do século 20. Quando saiu publicada em livro, no ano passado, estranhei a sua ausência. Um ou dois meses antes, ele já deixara estes pagos. E, agora, se você leu até aqui, esperando informações sobre Vitor Mateus Teixeira, falecido em um início de dezembro, 23 anos atrás, sinto muito. Esta semana, o dia 4 de dezembro, data da morte do cantor, serviu aqui para lembrar do seu primeiro empresário. De Teixeirinha também, é claro. Os dois, talvez, andem lá por cima, um cantando as dores e as mazelas do seu povo. O outro, ainda, extasiado pela popularidade daquele gaudério baixinho, violão em acordes e acordes a acompanhar um gaiteiro n’alguma rodoviária das lembranças, perdida no tempo e no espaço, mas presente na memória.

José Braz de Oliveira
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 12 de julho de 2001.


A Guaíba e a cobertura da inauguração de Brasília
2013
Luiz Artur Ferraretto

Em abril de 1960, o microfone da Guaíba está presente na inauguração de Brasília. A cobertura demonstra as dificuldades de transporte e telecomunicações da época, vencidas por um transmissor de single side band, tecnologia que a emissora havia incorporado após o sucesso verificado nas irradiações da Suécia durante a Copa do Mundo 1958.

No caso da cobertura em Brasília, a primeira dificuldade a superar é, então, a distância entre a nova capital e o Sul do país. Até São Paulo, a equipe da rádio desloca-se de avião. De lá até o destino final – 1.280 km de estrada, dos quais 250 de chão batido – utilizam uma Kombi. No Planalto Central, há que localizar um terreno de 280 por 160 metros, adequado à instalação das antenas rômbicas, posicionadas, com o auxílio de uma bússola, de modo a direcionar o sinal para Porto Alegre. Utilizando uma área próxima da torre da Rádio Nacional, emissora que cede a energia elétrica para a Guaíba, quatro mastros de eucalipto com 11 metros de altura são colocados formando um losango: 240 metros de fio de cobre nos lados maiores, 160 nos menores, raspados e emendados com solda a cada 10. Junto com a instalação de um pesado transmissor de SSB, o trabalho em seu conjunto consome parte da madrugada e do dia seguinte.

Na sequência, dada a inexistência de linhas telefônicas para efetivamente irradiar as cerimônias, o jornalista Jorge Alberto Mendes Ribeiro, com o apoio dos técnicos Alcides Krebs e Bruno Steiger, sustenta as transmissões ao microfone no improvisado estúdio junto às antenas, a 15 km do Eixo Monumental, fazendo a escuta da Tupi e Nacional. A artimanha envolve o restante da equipe, formada por Amir Domingues, Pedro Carneiro Pereira e Petrônio Cabral. Dando mais credibilidade ao seu posto volante, Amir Domingues chega a se deslocar entre o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Brasília Palace Hotel, gravando entrevistas de tal modo que, ao serem colocadas no ar, pareçam irradiadas ao vivo. Revelado somente anos mais tarde, o embuste passa despercebido e acaba por aumentar o prestígio já crescente da rádio.


Flávio Alcaraz Gomes entrevista Amir Domingues e Jorge Alberto Mendes Ribeiro (4 de maio de 1997)
Trecho do programa Fórum alusivo aos 40 anos da Rádio Guaíba.
Fonte: TV2 GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 4 maio 1997. Programa de televisão.
“Varre, varre vassourinha” e as lembranças da infância
2008
Luiz Artur Ferraretto


Propaganda de Jânio Quadros (1960)
Fonte: Acervo particular.

“Varre, varre, vassourinha!/ Varre, varre a bandalheira/ Que o povo já está cansado/ de sofrer desta maneira/ Jânio Quadros é a esperança/ deste povo abandonado.” Lá por 1960, quando a TV no interior gaúcho ainda não passava de uma curiosidade bem distante e o rádio reinava absoluto, o jingle do candidato da coligação liderada pela UDN ecoava no quartinho dos fundos da casa da minha família na rua Francisco Marques, em Rio Grande, no litoral sul gaúcho. Todo o dia era a mesma coisa. Meu pai, não interessa se simpático ou não a Jânio ou aos adversários do então governador de São Paulo, empunhava uma vassoura e meio que marchando saía de um lado a outro com meu irmão às costas, que adorava a sonoridade repetitiva das palavras escolhidas a dedo pelo radialista Jesuíno Antônio D’Ávila para a campanha presidencial de Jânio. O velho Ferraretto preferia mesmo o marechal Teixeira Lott, da coligação PTB-PSD, o “da espada de puro aço nacional”, outra letra de canção propagandística a opor o nacionalismo do correto militar ao oportunismo matreiro do homem da vassoura, safári substituindo terno, sanduíche de mortadela a atestar proximidade com o povo, caspa fingida nos ombros, tudo a reforçar aquele insistente “Varre, varre a bandalheira...”.

Jingle da campanha de Jânio Quadros (1960)
Fonte: NOSSO SÉCULO. Documentos sonoros. São Paulo: Abril, 1980. LP.

De campanha presidencial, eu teria, por anos, apenas esta história e os alfinetes de lapela dos candidatos – a vassoura de Jânio, a espada de Lott e a boia de Adhemar de Barros –, preservados como relíquia pelo meu pai como a dizer: “Ah, um dia a gente volta a escolher presidente e, aí, meu filho, não haverá lugar para a promessa desfeita em renúncia mal-explicada”. Imagine o desgosto dos milhões de eleitores de Jânio em agosto de 1961, quando, de forma nunca esclarecida em sua totalidade, ele deixaria o poder, o primeiro presidente a renunciar na história do país.


Alfinete de lapela da campanha de Jânio Quadros (1960)
Fonte: Acervo particular.

Decisões inéditas e surpreendentes à parte, sem dúvida, no plano pessoal e no profissional, não há jingle mais marcante, na minha opinião, do que o da campanha de Jânio, o presidente eleito por votação esmagadora, a maior da história do Brasil até então. Votação, na prática, jogada fora – é óbvio – com a renúncia e um enigmático “Fi-lo, porque qui-lo”, creditando-a a misteriosas “forças ocultas”. A criação de J. Antônio D’Ávila, no entanto, é prova de todo o conhecimento de seu autor como radialista e como, diriam hoje, marqueteiro. Constitui-se em arma fundamental da campanha vitoriosa de Jânio. Ressalta a mudança e já o desejo de acabar com a corrupção, de mudar o país, que, eleição a eleição – perdoem o trocadilho – parece varrer também o território nacional. E, infelizmente, fica por isto. Mas vejam só: quando um jingle entra para o imaginário de uma criança está comprovada a sua eficácia. Este tipo de conteúdo propagandístico-musical deve ter mesmo algo de infantil. É feito para não sair da cabeça, como uma velha cantiga de roda ou como uma lembrança de 20, 30 anos atrás.

Quem sabe, então, neste caso específico, se é que os políticos vão para o céu, cruzem-se, fantasmas, por aquelas bandas o operário rio-grandino, o radialista pernambucano e o ex-presidente, paulista, para alguns, mas nascido mesmo em Goiás. Aí, não duvido, o velho Ferraretto agradecerá pelos momentos de alegria em companhia do filho proporcionados pelo incessante “Varre, varre vassourinha” e, com igual certeza, dirá, dedo em riste na direção do vasto bigode embranquecido pelo tempo:

– Mas, porra, não precisava ter renunciado de porre meses depois...

Tudo sob o olhar sereno, sorriso algo zombeteiro, de um D’Ávila a pensar:

– Coisas da vida. Ou de além dela... Das forças ocultas, mesmo.
Rede da Legalidade: do porão do Palácio Piratini para o Brasil
2006
Luiz Artur Ferraretto

Capa da Revista do Globo, a edição dos “12 dias que abalaram o país” (setembro de 1961)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 33, n. 803, 16-29 set. 1961. Capa.

– Peço a vossa atenção para a comunicação que vou fazer. Muita atenção. Atenção, povo de Porto Alegre! Atenção, Rio Grande do Sul! Atenção, Brasil! Atenção, meus patrícios, democratas e independentes, atenção para minhas palavras.

Por volta das 11h, do dia 28 de agosto de 1961, é um Leonel de Moura Brizola jovem, na força dos seus 39 anos e, há pouco menos de três, eleito governador do Rio Grande do Sul, que se dirige à população no improvisado estúdio de rádio nos porões do Palácio Piratini. Nestas quase duas semanas – “os 12 dias que abalaram o país”, como vai definir, logo depois, a Revista do Globo, tradicional publicação gaúcha, em sua reportagem de capa –, o governador torna-se figura constante ao microfone da Rede ou Cadeia Nacional da Legalidade, circulando por ali – uma imagem quase quixotesca, com uma metralhadora INA a tiracolo e um exemplar da Constituição Federal na mão –, em meio a dezenas de jornalistas e técnicos voluntários.

Está começando “o último levante gaúcho”, como o historiador Joaquim Felizardo chama o movimento em defesa da posse do vice-presidente da República, João Belchior Marques Goulart, o Jango, após a renúncia de Jânio Quadros. Em contraste com outras mobilizações anteriores, nesta, o rádio constitui-se na arma principal.

A crise daquele fim de agosto e início de setembro, primeiro embate do processo que leva a direita ao poder três anos depois, começa na sexta-feira, 25 de agosto. Para o sábado, previa-se a chegada do presidente da República em uma visita oficial de cinco dias ao estado. Menos de um ano antes, Jânio da Silva Quadros, de meteórica carreira política e não atrelado às máquinas partidárias tradicionais, tinha sido eleito por uma coligação em que despontava uma relutante União Democrática Nacional. Como a legislação permite, presidente e vice são escolhidos em separado. Apoiando Jânio, a UDN tem como candidato a vice Milton Campos, e o Partido Democrata Cristão lança Fernando Ferrari. Ambos, no entanto, são derrotados por João Goulart, do PTB, herdeiro político de Getúlio Vargas e com bom trânsito à esquerda. Naquela sexta-feira algo chuvosa, a renúncia do presidente surpreende a todos. Depois de se assegurar de que não há um golpe em andamento, Brizola decide garantir a posse de Jango, naquele momento em visita oficial à República Popular da China, do líder comunista Mao Tse-Tung.

No Rio de Janeiro, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de fortes tendências golpistas, dá apoio aos militares contrários a João Goulart. Em Brasília, o ministro da Guerra, Odílio Denys, anuncia que, ao pisar em solo brasileiro, o vice-presidente será preso. Dias depois, o general vai dizer que o Brasil encontra-se em uma encruzilhada entre a democracia e o comunismo. Candidato derrotado e indicado pelo Partido Social Democrático para encabeçar a chapa que tivera Jango como vice pelo PTB, o marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott lança um manifesto endereçado aos seus “camaradas das Forças Armadas”, defendendo a constitucionalidade. No início da manhã de domingo, o militar legalista é preso. A censura também começa a se fazer presente nas redações da antiga capital federal.

Ainda no sábado, Hamilton Chaves, do Gabinete de Imprensa do Palácio Piratini, distribui, aos veículos de Porto Alegre, o manifesto do marechal Lott, acrescido de uma nota do governador Leonel Brizola. As rádios Gaúcha e Farroupilha já haviam suspendido sua programação normal e transmitiam dos centros do poder político na capital.

Por volta das três horas da madrugada de domingo, Brizola dá uma entrevista coletiva, garantindo que vai resistir à tentativa de golpe. Falando ao microfone das rádios Difusora, Farroupilha e Gaúcha, o governador começa a atrair milhares de pessoas para o Palácio Piratini e para a Praça da Matriz, em frente à sede do Executivo do Rio Grande do Sul. Está começando a se constituir o que ele chamará, em vários discursos, de a Cidadela da Legalidade. Naquela madrugada ainda, por ordem do ministro da Guerra, são retirados os cristais dos transmissores das rádios Farroupilha e Gaúcha, tentando repetir em Porto Alegre o que já ocorria em outras capitais controladas pelos golpistas.

O diretor da Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho, propõe que a emissora seja requisitada pela Assembleia Legislativa, o que chega a ocorrer, com alguns efeitos práticos. A rádio, no entanto, vai acabar se integrando à Rede da Legalidade. Também a Farroupilha tenta articular o seu retorno ao ar. Na manhã de domingo, dia 27, das grandes emissoras de Porto Alegre, apenas a Guaíba, ligada aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, permanece transmitindo. Com certa simpatia pelo Partido Libertador e pela causa dos grandes produtores rurais – integrando, portanto, o que, na época, se chamava de as classes conservadoras –, o empresário Breno Caldas, proprietário da Guaíba, mantém uma atitude discreta desde os primeiros momentos da crise. Não é simpático nem à figura nem às ideias do governador. Por sua vez, Brizola sente-se acuado e, mesmo alertado pelo seu secretário do Interior e Justiça, João Caruso, de que apenas o governo federal tem poder para requisitar uma emissora de rádio, decide colocar a Guaíba a serviço da segurança pública. Em uma ligação telefônica para a casa do proprietário da emissora e da Companhia Jornalística Caldas Júnior, comunica categórico:

– Doutor Breno, eu quero avisá-lo que eu resolvi encampar a Rádio Guaíba. Já ocupei os transmissores lá na ilha [da Pintada, onde estão até hoje os transmissores da rádio] e vou ocupar agora aqui no centro, e quero lhe dar conhecimento disso.

É um Breno Caldas irritado que responde ao governador do estado:

– Isso aqui é uma concessão federal e é uma propriedade privada. O senhor está invadindo uma propriedade privada e, ao mesmo tempo, esbulhando um direito de exploração de uma concessão regularmente concedida.

Depois de muita discussão e tendo que aceitar o ato do governo, o empresário pede uma garantia por escrito:

– Então o senhor faz o seguinte, me manda uma carta ou um ofício... um documento oficial... o senhor assuma toda a responsabilidade desse gesto. Assim, da minha parte não haverá problema, eu não posso fazer nada, só posso me conformar com o fato consumado, mas, ao menos, quero me resguardar.

No final da manhã daquele domingo, dia 27, da janela junto ao estúdio da Rádio Guaíba, o diretor comercial da emissora, Flávio Alcaraz Gomes, vê duas kombis da Guarda Civil estacionarem bruscamente. Delas, sai uma dezena de cardeais, como o povo apelidou os homens do choque em seus uniformes de cor cáqui e seus quepes vermelhos. Quem traz a intimação é o secretário estadual da Fazenda, Gabriel Obino, escolhido por Brizola devido às suas boas relações com a família de Breno Caldas. Consultado via telefone por Gomes, o empresário recomenda:

– Podes entregar a rádio, desde que ela seja operada de outro lugar.

Trabalhista convicto, o responsável técnico pela Rádio Guaíba, engenheiro Homero Carlos Simon, aproveita, então, uma linha telefônica instalada para fornecer o áudio da visita de Jânio às emissoras de rádio. Deste modo, faz uma conexão – improvisada, mas eficiente – entre os transmissores na Ilha da Pintada e uma pequena sala no porão do Palácio Piratini, onde as paredes haviam sido cobertas, tempos antes, com forração acústica, preparando um futuro estúdio para os pronunciamentos semanais de Brizola na Farroupilha. Agora, com um microfone e um toca-discos colocados às pressas, começa a se estruturar, nestas instalações precárias, a Rádio da Legalidade, base de uma rede que irá mobilizar milhares de pessoas e garantir a posse constitucional de Jango.

Primeiro discurso de Leonel Brizola ao microfone da Rede da Legalidade (28 de agosto de 1961)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


Trecho do Musical Legalidade (4 de setembro de 2011)
Espetáculo produzido pelo governo e pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e encenado em frente ao Palácio Piratini, o palco dos fatos 50 anos antes. Na sequência do primeiro discurso de Leonel Brizola ao microfone da Rede da Legalidade, o ator Evandro Soldatelli aparece rodeado por profissionais de rádio e de imprensa que assistiram à transmissão original.
Narração: Ida Celina e Luiz Paulo Vasconcelos.
Direção geral: Carla Joner.
Direção artística: Luciano Alabarse.
Direção musical: Hique Gomez.
Roteiro: Rafael Guimaraens.
Produção executiva: Claudia D’Mutti
Fonte: TVCOM/ TVE. Musical Legalidade. Porto Alegre, 4 set. 2011. Programa de televisão.
“Avante brasileiros de pé...”
2006
Luiz Artur Ferraretto

Hino da Legalidade, de Paulo César Pereio e Lara de Lemos (agosto de 1961)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

É no domingo, 27 de agosto de 1961, que começam as transmissões da Rede ou Cadeia Nacional da Legalidade. O primeiro pronunciamento do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, pouco depois das 14h, estende-se por 36 minutos. Discos com marchas militares – muitos deles do programa Aí Vem a Banda, da própria Guaíba – alternam-se com proclamações e manifestos. De início, a leitura fica a cargo de Naldo Charão de Freitas, um funcionário do Gabinete de Imprensa do Palácio Piratini. Logo, a Rádio da Legalidade ganha a credibilidade do principal locutor-noticiarista do Rio Grande do Sul: Lauro Hagemann, titular da edição local do Repórter Esso, da Farroupilha. A ele, seguem-se diversos profissionais que vão aderindo espontaneamente ao trabalho. Já no final da crise, os jornais de Porto Alegre vão publicar a Proclamação dos Jornalistas e Locutores da Rede da Legalidade. Um trecho do documento expressa o clima reinante nos porões do Piratini:

Povo brasileiro!
Esta é a nossa proclamação, a proclamação daqueles que trabalham na Rede da Legalidade!
Pertencemos a todas as emissoras de Porto Alegre, redatores, locutores e pessoal da técnica, estamos todos aqui, livremente, espontaneamente, escrevendo, lendo ou controlando, com a liberdade que sempre tivemos em nossas emissoras. Não sofremos coação de espécie alguma.
Nem sequer solicitada foi a nossa presença.
Não temos armas na cintura, e muito menos em nossas costas. Nossa arma é a pena e a nossa tribuna é a Rede da Legalidade. Somos 200, 300 ou 400. Todos voluntários. Momentos há, que somos em número superior às máquinas de escrever, aos microfones e aos aparelhos de controle de som. Queremos auxiliar. Queremos ajudar. Esperamos nossa vez.
Ninguém nos chamou. Viemos atendendo a um ditame da consciência.
Viemos para defender a Constituição. Não somos trabalhistas, não somos pessedistas, não somos udenistas, nem comunistas. Somos brasileiros. Somos democratas. Somos legalistas.
Nada recebemos. Nossos serviços são gratuitos. Nossa colaboração é espontânea.
A matéria que divulgamos não é censurada. Nós afirmamos: trabalhamos de acordo com a nossa consciência, de acordo com a nossa capacidade.
Jornalistas do Rio de Janeiro, jornalistas de São Paulo, jornalistas de outros estados da Nação!
Se vossos artigos são censurados, se a censura ditatorial de alguns loucos e mal formados manda vossos artigos para a cesta, se vossas penas sofrem por terem que escrever artigos sob medida, que convenham aos antidemocratas que procuram rasgar a Constituição por meio do golpe, mandai vossos artigos para a Rede Nacional da Legalidade. Nós aqui os transmitiremos aos quatro cantos do país e podereis comprovar que, no Sul, reina a mais completa liberdade de imprensa.
Enviai vossos artigos, a revolta de vossos espíritos contra a prepotência, que nós, aqui, teremos o máximo prazer em transmiti-los ao Brasil e ao mundo.
Não houve, ainda, no Brasil uma cadeia radiofônica tão ouvida. Mandai vossas mensagens, jornalistas livres do Brasil, que elas chegarão ao seu destino.
A Rede Nacional da Legalidade é um produto nosso, dos locutores, redatores e técnicos em radiodifusão. Foi criada pelos jornalistas livres do Rio Grande do Sul. Ela merece o vosso respeito. Ela merece a vossa sintonia.

Antes disto, a cadeia radiofônica e o movimento em prol da posse de João Goulart vivem seu momento mais dramático. Radioamador por hobby, o diretor técnico dos Correios e Telégrafos, João Carlos Guaragna, intercepta, entre 21 e 23h daquele domingo, dia 27, a comunicação telegráfica entre o Ministério da Guerra e o III Exército. Uma das ordens recebidas e a resposta transmitida de Porto Alegre vão colocar em alerta o Palácio Piratini:

Ministério da Guerra – É necessária firmeza e energia do III Exército a fim de não permitir cresça a força do adversário potencial que tem todo o interesse em manter a ordem a fim de que o sr. João Goulart assuma a Presidência. Reitera a ordem a fim de que sejam suspensas as irradiações. Trata-se estratagema que só favorecerá inimigo em potencial.
III Exército – General Machado Lopes [comandante do III Exército] deseja Ministério Aviação providências diretamente governador sentido devolução imediata Rádio Guaíba.

Deste modo, naquela madrugada fria, o responsável pela Companhia da Guarda, capitão Pedro Américo Leal, com seus 222 soldados de elite, prepara-se para atacar a ilha da Pintada, guarnecida por 100 homens da Brigada Militar, e tomar os transmissores da Guaíba, suspendendo, assim, as irradiações do Palácio Piratini. Pouco antes de iniciar as operações, recebe, por telefone, nova determinação repassada pelo ajudante de ordens do Estado Maior, general Antônio Carlos Muricy. O comandante do III Exército, José Machado Lopes, suspendia o ataque, aderindo à Legalidade.

Desconhecendo a decisão do general, na manhã de segunda, dia 28, o clima no Palácio Piratini é de muito nervosismo e expectativa. A Cidadela da Legalidade está ameaçada. A Praça da Matriz assemelha-se a um acampamento militar. Pesados bancos de cimento são colocados por estudantes e sindicalistas como barricadas nas ruas de acesso, na tentativa de impedir o avanço de tanques. No telhado do Piratini, metralhadoras permanecem posicionadas. Há montes de sacos de areia e rolos de arame farpado completando o quadro, onde quase 80 mil pessoas ficam de vigília. Muitos portam revólveres Taurus novos, requisitados a uma loja da capital. Por volta das 11h, Leonel Brizola recorre ao microfone da Legalidade para denunciar o ataque iminente e pedir que o general Machado Lopes apoie a posse de João Goulart:

– Estamos aqui prestes a sofrer a destruição. Devem convergir sobre nós forças militares para nos destruir, segundo determinação do ministro da Guerra. Mas tenho confiança no cumprimento do dever dos soldados, oficiais e sargentos, especialmente do general Machado Lopes, que, esperamos, não decepcionará a opinião gaúcha. Assuma, aqui, o papel histórico que lhe cabe. Imponha ordem neste país. Que não se intimide ante os atos de banditismo e vandalismo, ante este crime contra a população civil, contra as autoridades. É uma loucura. Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul! Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste palácio, numa demonstração de protesto contra esta loucura e este desatino. Venham, e se eles quiserem cometer esta chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu, a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. Aqui, resistiremos até o fim. A morte é melhor do que a vida sem honra, sem dignidade e sem glória. Aqui, ficaremos até o fim. Podem atirar. Que decolem os jatos! Que atirem os armamentos que tiverem comprado à custa da fome e do sacrifício do povo! Joguem estas armas contra este povo. Já fomos dominados pelos trustes e monopólios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necessário. Um dia, nossos filhos farão a independência do nosso povo!

Mal o governador termina de falar, chega o jornalista Flávio Alcaraz Gomes com a notícia mais importante do dia, obtida por ele no Estado Maior do III Exército: Machado Lopes está vindo aderir ao movimento que defende o cumprimento da Constituição. Logo em seguida, ocorre a reunião do general e do governador no Piratini. Pouco depois do meio-dia, os dois aparecem numa sacada do palácio, saudando a multidão. Brizola acompanha Lopes até o QG do Exército e, na volta, anuncia, ao microfone, a união das forças civis e militares em torno da Legalidade.

Anos depois, Leonel Brizola, recordando, para o Projeto Vozes do Rádio da PUC/RS, o Movimento da Legalidade, reconheceria o papel fundamental do rádio naquele momento:

– Foi possível aquela resistência nacional, porque contamos com uma comunicação através do rádio. E foi graças àquela locução plena de emoção que eu fiz para dar conhecimento à opinião pública daquela ordem tresloucada de bombardear o palácio, tanto que eu pedi para a população toda se retirar. Só ficasse quem quisesse enfrentar a situação. Foi tal a mensagem, a emoção, que aquilo ali, praticamente, tocou profundamente na fibra do povo gaúcho. Foi devido a isto que nós conseguimos, praticamente, conter toda aquela investida golpista.

Na tarde de terça-feira, dia 29, Farroupilha e Gaúcha voltam a transmitir e pedem para serem requisitadas, forma de garantir certa tranquilidade caso triunfem as forças golpistas. A rede passa a contar, deste modo, com seis faixas de transmissão em ondas curtas – Farroupilha (19 e 31 metros), Gaúcha (25 e 49 metros) e Guaíba (25 e 49 metros). Para vastas regiões do país, as irradiações chegam por meio da Rádio Brasil Central, de Goiânia, ocupada pela Polícia Militar por ordem do governador de Goiás, Mauro Borges, que apoia a posse de Jango. Talvez graças a toda esta abrangência, reforçada pelo canal livre internacional em ondas médias da Farroupilha, começa a ser transmitido, das 2 às 4h, em meio à madrugada, o programa A Ponte da Amizade, um serviço que permite aos ouvintes enviarem notícias suas a parentes e amigos de outros estados. Certo está que a Cadeia da Legalidade, como Lauro Hagemann recordaria mais tarde, “chegou quase ao final a ter uma programação normal de qualquer emissora, com horários determinados para o noticiário e a música”. Dias depois, na quinta-feira, 31 de agosto, começam as irradiações em outras línguas. O noticiário vai incluir textos em inglês, francês, espanhol, italiano e árabe. A rede já conta, então, com dezenas de emissoras retransmitindo o seu sinal. O movimento ganha, mais ou menos por aí, um hino, com letra de Lara de Lemos e música de Paulo César Pereio:

Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a igualdade
Protesta contra o tirano
Se recusa à traição
Que um povo só é bem grande
Se for livre como a nação.


Trecho do Musical Legalidade (4 de setembro de 2011)
Paulo César Pereiro e Lara de Lemos (protagonizada pela atriz) lembram como foi composto o Hino da Legalidade.
Fonte: TVCOM/ TVE. Musical Legalidade. Porto Alegre, 4 set. 2011. Programa de televisão.

De um dia para o outro, o número de emissoras integrantes passa de quatro para 114. Pelas ondas do rádio, o movimento em prol da posse de João Goulart vai crescendo. Assim, por volta das 23h40 de 1° de setembro, a Rede Nacional da Legalidade pode anunciar:

– A partir deste instante, o doutor João Goulart é o presidente da República. Todos os cidadãos do Brasil deverão submeter-se à ordem do comandante supremo da Nação, no cumprimento da Constituição. Como primeiro magistrado, é ele comandante-em-chefe das Forças Armadas e responsável pelo destino do povo do Brasil, defendendo os direitos da Constituição.

Nesta noite, termina a longa peregrinação de João Goulart da China até o Brasil, dando tempo às articulações políticas para garantir a constitucionalidade. Às 20h25 do dia 5, o novo presidente desembarca, finalmente, na capital federal. Em Porto Alegre, pela última vez Brizola usa o microfone da Legalidade, agradecendo o apoio do povo do Rio Grande do Sul, mas reiterando sua discordância com a mudança do sistema de governo de presidencialista para parlamentarista. No que fora a Cidadela da Legalidade, não há mais mobilização popular. Ante as hesitações iniciais logo após a chegada de Jango ao estado, a frustração substituíra a esperança. Sob uma forte chuva, dispersou-se o povo que rasgava faixas aos gritos de covarde e traidor. No porão do Palácio Piratini, improvisado em locutor, o subsecretário do Ensino Técnico do governo do Estado, João Brusa Neto, que vinha exercendo o controle político das irradiações, encerra as transmissões da Rede Nacional da Legalidade:

– No momento em que o presidente constitucional do Brasil, doutor João Goulart, chega a Brasília, enviamos daqui, do subterrâneo da Legalidade, um abraço a todos os brasileiros que nos acompanharam em defesa da ordem, da legalidade e das instituições do Brasil.

No dia seguinte, um ofício do governador Leonel Brizola informa ao diretor da Rádio Guaíba, Arlindo Pasqualini, que a emissora pode voltar a transmitir normalmente. Duas semanas depois, a estação da família Caldas recebe, ainda, uma indenização de Cr$ 750 mil, quase o preço de um Simca Chambord, então um dos automóveis mais caros produzidos no país e vendido, conforme os anúncios do Correio do Povo, jornal ligado à emissora, a Cr$ 800 mil.


Flávio Alcaraz Gomes e o preço da Rede da Legalidade
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.
Pedro Carneiro Pereira e a excursão do Grêmio à Europa
2014
Luiz Artur Ferraretto

Pedro Carneiro Pereira na cobertura da excursão do Grêmio à Europa (16 de abril de 1961)
À beira do gramado, em Atenas, o narrador descreve a vitória do Grêmio por 4 a 1 sobre o Panathinaikos Athlitikos Omilos.
Fonte: Acervo particular da família Pereira.

Baseando-se na experiência bem-sucedida na Copa de 1958, quando foram usadas linhas telefônicas para a conexão até Berna, na Suíça, e, de lá, para Porto Alegre via single side band, a Guaíba começa a se destacar em coberturas internacionais. Acompanha, assim, de março a junho de 1961, com o narrador Pedro Carneiro Pereira, a primeira excursão do Grêmio à Europa. No entanto, a ousadia maior da aventura radiofônica pelos gramados europeus vai ocorrer, justamente, quando falha o esquema contratado previamente.

Um dos 24 jogos disputados pelo time gaúcho vai demonstrar, no entanto, as dificuldades ainda existentes e exigir uma significativa dose de improvisação. No domingo, dia 11 de junho de 1961, graças ao tirocínio do narrador, a Guaíba torna-se a primeira emissora do Brasil a irradiar um jogo de futebol do outro lado da chamada Cortina de Ferro. Chegando ao estádio em Moscou, onde o Grêmio vai enfrentar a seleção da União Soviética, Pedro Carneiro Pereira constata que, embora solicitada, a linha telefônica até Berna não foi providenciada. A presença de um brasileiro do serviço em português da Rádio Central de Moscou indica uma solução para o problema. Convencido por Pedro Carneiro Pereira, ele aceita ceder o microfone da estatal soviética desde que não seja veiculada publicidade durante a transmissão. O radialista começa, então, a repetir pelas ondas curtas, na esperança de que alguém no Brasil capte a transmissão:

– Alô, alô, Brasil. Quem estiver ouvindo ligue para a Rádio Guaíba e informe que o locutor Pedro Carneiro Pereira está chamando da Rússia, pela onda da Rádio Central de Moscou para irradiar o jogo do Grêmio Foot-ball Porto-alegrense com o selecionado local...

Um ouvinte em Pelotas, na Zona Sul do estado, ouve o apelo do narrador e consegue entrar em contato com Homero Carlos Simon. O engenheiro capta o sinal em ondas curtas, enquanto, sem a certeza de que está no ar pela Guaíba, Pedro Carneiro Pereira, “em colaboração com a Rádio Central de Moscou”, descreve a derrota do Grêmio por 2 a 0 frente ao selecionado soviético.

Pedro Carneiro Pereira relembra a irradiação de União Soviética x Grêmio (1973)
Depoimento gravado por alunos do terceiro ano do curso de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Fonte: Arquivo de Vozes da Rádio Guaíba.
1962, a copa do radinho de pilha
2014
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1962 (1962)

As transmissões radiofônicas da Copa do Mundo de 1962 popularizam no país ainda mais a utilização dos aparelhos transistorizados, tornando comum a imagem do torcedor com o radinho a pilha colado no ouvido. De fato, quando quatro anos antes o Brasil sagrou-se campeão na Suécia, muita gente já escutara as transmissões neste tipo de receptor. Na copa do Chile, no entanto, os aparelhinhos iriam se disseminar. No estado, apesar de já existir alguma produção nacional, os receptores – em sua maioria, da marca Spica – chegam, então, não raro, contrabandeados pelo porto de Rio Grande.

A mania pelos radinhos de pilha toma conta do Brasil desde o início da década, rendendo uma reportagem, em janeiro de 1960, na revista Visão, a demonstrar certa estupefação de algum jornalista mais conservador a respeito daquela “avassaladora epidemia desses aparelhinhos”:

Nas filas de ônibus, nas lotações, bondes e ônibus, nas praias e estádios, nas repartições e nas ruas, em toda parte, até nos cinemas, os rádios portáteis se fazem presentes. Uma conversa na condução é, não raro, perturbada pela intromissão do instrumento sintonizado em altos brados. Como se isso não bastasse, surgem as situações mais esdrúxulas: num jogo de futebol há sempre espectadores que parecem não acreditar naquilo que enxergam no campo e mantêm os seus ouvidos colados aos radiozinhos; na Bienal de São Paulo se podiam surpreender vários visitantes observando as obras de arte, enquanto ouviam os seus aparelhos; na praia, o rádio incorporou-se à bagagem dos banhistas, tornando-se elemento tão importante ou mais que a barraca, o pé de pato, a bola de vôlei ou o cachorrinho que a grã-fina leva às areias de Copacabana; e nos cinemas, em meio aos filmes de maior suspense, espectadores veem-se obrigados a reclamar contra vizinhos que ligam o respectivo rádio, que muitos já denominam de “maquininha infernal”.

É a mobilidade proporcionada pela transistorização um dos fatores que vai salvar o rádio abalado pelo gradativo e cada vez mais acelerado crescimento das emissoras de televisão. O que, antes, era estático e exigia atenção constante – o aparelho valvulado de grandes proporções em destacada posição na sala de estar – torna-se, com os radinhos de pilha, dinâmico, posicionando-se junto ao ouvinte, em toda parte e a qualquer momento, como um ágil companheiro do dia a dia.

Com radinhos transistorizados ou em grandes aparelhos valvulados, os ouvintes de Porto Alegre puderam optar, em 1962, entre duas equipes de profissionais do Rio Grande do Sul enviadas para o Chile, a da Gaúcha – com Antonio Carlos Resende, Willy Gonzer, Samuel Madureira Coelho e Holmes Aquino – e a da Guaíba, com Mendes Ribeiro, Pedro Carneiro Pereira, Amir Domingues, Lauro Quadros, Ataíde Ferreira, Adroaldo Streck, Bruno Steiger e Alcides Krebs. Na coordenação da equipe da Gaúcha, estava um dos grandes nomes da cobertura esportiva do estado, Ari dos Santos, assim descrito por Octávio Augusto Vampré em seu livro Raízes e Evolução do Rádio e da Televisão:

O segundo destaque entendemos dever ser para Ari dos Santos, um homem de retaguarda, um comandante de equipe, avesso ao microfone, mas que sabia chefiar, como ninguém, seu quadro de auxiliares no departamento esportivo da Rádio Gaúcha, mais tarde também, na TV Gaúcha, e com rápida passagem pela Rádio Difusora Porto-alegrense. Chamavam-no, carinhosamente, Chinês por semelhança física, e de Coronel, pelas ordens que determinava ao seu grupo.

Pelo lado da Guaíba, a emissora da família Caldas Júnior recorre, novamente a Flávio Alcaraz Gomes. Vale a pena ler o seu relato a respeito das dificuldades e das peripécias dos radialistas gaúchos em terra chilenas, registrado, décadas depois, em seu livro Diário de um Repórter:

Assim sendo, a organização da cobertura do novo campeonato mundial de futebol ficou a cargo do engenheiro Homero Simon. Homero viajou para Santiago com um ano de antecedência, ali permanecendo durante quase um mês e voltando com tudo conseguido, tendo inclusive alugado um apartamento para alojar a equipe. Fiquei tranquilo e prossegui na minha rotina de diretor comercial e comentarista, criando e vendendo programas. Assim foi até a manhã de 31 de dezembro de 1961. Estávamos reunidos no hall da rádio, um grupo de colegas, quando Homero assomou lívido, com um ofício na mão. Era do Comitê Organizador do Mundial do Chile, firmado por Carlos Dittborn, seu diretor. Dizia que desgraciadamente a Rádio Guaíba não poderia transmitir porque todas as linhas e canais haviam sido prioritariamente contratados pelas emissoras do Rio e de São Paulo. “E agora?” – perguntaram todos, mais ou menos em coro. E se voltaram para mim. Eu, modestamente, baixei os olhos. Na primeira semana de janeiro, embarquei para o Chile. Em contraste com a Suécia e a Suíça, onde quatro anos antes só tinha lidado com gente séria e cumpridora, passei a defrontar-me com a situação extremamente fácil-extremamente difícil. Extremamente fácil obter a palavra de um técnico comprometendo-se a fornecer equipamento e/ ou prestar assistência. Extremamente difícil fazer com que cumprisse a mesma palavra. A princípio tentei por todos os meios obter licença do governo para autorizar-nos linhas e frequência de transmissão. Graças à minha amizade com o embaixador do Brasil, Fernando Ramos de Alencar, aproximei-me de Carlos Dittborn, encarregado da organização do certame, que morreu antes de sua realização e que, como homenagem, teve seu nome dado ao estádio de Sausalito de Viña del Mar, onde o Brasil, de calças na mão, passou pelas oitavas de final. Dittborn me disse que o homem-chave do circuito era um certo Jayme Schatz Prilutsky, chefe do Serviço de Eletricidade e Gás, que fazia as vezes de ministro de Comunicações. Schatz, marxista convicto, recebeu-me com uma frieza dura como seus olhos azuis. Isso a princípio. Mais tarde, ao sabê-lo apreciador literal da música Bebida, mulheres e orgia, fiz os três ingredientes chegarem ao seu colo. Resultado: consegui a autorização. Faltava o transmissor, e acabei descobrindo um antigo agente secreto, informante de submarinos alemães, mas técnico eletrônico de renome: don Pedro del Campo Benavente. Ele possuía um transmissor de single side band, cuja banda de cima (o transmissor opera em três bandas, a superior, uma neutra e uma inferior) estava cedida à Rádio Record de São Paulo. Ele poderia, se pagássemos bem, alugar-nos a banda de baixo. recheei o contrato e voltei a Porto Alegre. ‘É uma temeridade. As três bandas são para trocar o som de uma única emissora, caso haja interferência na de cima ou na de baixo. Em todo o caso, como não há outra maneira...’ - comentou Homero.[...] Vendido o patrocínio e com a reiteração da palavra de Schatz de que não concederia mais nenhum canal, redigi – e nossos jornais publicaram em manchete – que a Rádio Guaíba seria a única emissora do sul do Brasil a transmitir com exclusividade o campeonato mundial do Chile, graças a dois conceituados técnicos chilenos etc. Duas semanas depois, vindo com a minha família de Belém Novo, e corujando a Gaúcha no rádio do automóvel, quase morro de susto: a Guaíba estava sendo gozada em prosa e verso no programa esportivo da concorrente: “o que eles conseguiram em três meses, nós conseguimos em três dias”. E oficialmente anunciava-se sua presença na transmissão, utilizando o moderno transmissor do eminente engenheiro don Pedro del Campo Benavente. Bufei de raiva: “Aquele traidor!”. Mas, pensando melhor, vi que a traição tinha sido dupla, já que havia sido necessária também a autorização de Schatz. Mais tarde fiquei sabendo que Frederico Arnaldo Ballvé, que dirigia a Gaúcha com Maurício, tão logo soubera o caminho que eu havia trilhado (e que ingenuamente revelara na reportagem em que me gabolei da façanha), viajou para o Chile, onde deu aos dois pilantras o dobro do que eu dera, conseguindo exatamente o mesmo que me fora autorizado. Sem ter como reagir, viajei em maio para Santiago, onde permaneci quase dois meses, lutando palmo a palmo com a concorrência. Nosso som foi parelho até as quartas de final, quando então nos salientamos com vantagem, pois comprei e passei a utilizar um moderno transmissor Collins livrando-me das bandas do SSB de Del Campo. Em Porto Alegre, a exemplo do que acontecera nas transmissões de 1958, a recepção era feita na minha casa, no morro de Santa Tereza, em cujo quintal foi construída uma antena rômbica em direção ao Chile. Duas horas antes de cada jogo, os técnicos da Guaíba percorriam as casas da vizinhança, implorando para que não usassem liquidificadores e aparelhos assemelhados, a fim de não interferir em nossa transmissão, que, no jogo final e com o Brasil bicampeão, consagrou mais uma vez o som local da Guaíba.

Foi, portanto, a copa das dificuldades técnicas para os profissionais do Rio Grande do Sul e a do radinho de pilha para os ouvintes. No campo, apesar de alguns percalços, o Brasil não decepcionou o torcedor, uma vitória que você pode relembrar em um Reportagem Especial, da Rádio Guaíba, programa que lembrou o feito da seleção, 40 anos depois, dentro de uma série de programas sobre o tetracampeonato.


Programa Reportagem Especial relembra o bicampeonato brasileiro no Chile (8 de junho de 2002)
 


Produção: Márcio Beyer, Ramiro Ruschel e Eduardo Cutti.
Gravações: Rogério Petry, Valdinei Lima e Carlos Roberto Pereira.
Locução: Vladimir Oliveira, Paulo Amauri da Cunha, Mario Mazeron e Rui Strelow.
Seleção musical: Fernando Veronezi.
Coordenação e apresentação: Rodrigo Koch.
Chefia de esportes: Luiz Carlos Reche.
Fonte: Acervo particular de Rodrigo Koch.
A organização institucional do rádio gaúcho
2014
Luiz Artur Ferraretto

É em meio aos antagonismos de classe, opondo patrões e empregados, que o rádio do Rio Grande do Sul institucionaliza-se em paralelo à efervescência política reinante no país durante o governo de João Goulart. Antes de Jango chegar ao poder, dois fatos vão criar as condições necessárias para o surgimento de entidades que, em seu conjunto, mesmo defendendo interesses opostos, levam a radiodifusão sonora a ser tratada como um setor produtivo, mais ou menos coeso, dentro da sociedade brasileira. Em 24 de junho de 1961, o Decreto n. 50.840, assinado pelo presidente Jânio Quadros, reduz de 15 para três anos o período para renovação de concessão, causando protestos por parte do empresariado, mas, como, logo, sobrevém a renúncia, a medida na prática nem chega a vigorar. Dois meses depois, o movimento da Legalidade demonstra o poder de mobilização dos radialistas, estando, na opinião de Lauro Hagemann, na origem da estruturação do sindicato da categoria no estado. No plano mais amplo, opõem-se duas correntes: uma, a do grande capital, defendendo a internacionalização, e a outra, dos trabalhadores associada às forças reunidas em torno do presidente João Goulart, com uma perspectiva mais nacionalista e independente.

No primeiro semestre de 1962, em termos nacionais, surgem articulações que vão levar à criação do Comando Geral dos Trabalhadores durante o IV Congresso Sindical Nacional, de 17 a 19 de agosto, em São Paulo. No CGT, há, então, forte presença de elementos ligados ao Partido Trabalhista Brasileiro, o mesmo do presidente, e ao Partido Comunista Brasileiro, na ilegalidade desde maio de 1947. Em paralelo, no Rio Grande do Sul, os radialistas lutam pela criação de uma entidade sindical que os represente. Pelo lado empresarial, em resposta às tendências estatizantes do governo Goulart e à própria mobilização dos trabalhadores, surgem também associações classistas, comungando dos mesmos interesses de fóruns como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês).

Deste modo, a partir de uma associação desativada, mas registrada na Delegacia Regional do Trabalho, os radialistas gaúchos começam a se organizar em prol da criação de um sindicato para a categoria. Com a carta sindical concedida em 14 de julho de 1962, é realizada uma assembleia nos primeiros dias de agosto, reunindo 300 trabalhadores no salão nobre do Instituto de Assistência dos Industriários (IAPI). Votam uma pauta de reivindicações e definem a primeira diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão do Rio Grande do Sul, tendo Lauro Hagemann como presidente desta nova entidade representativa.

Assembleia de dissídio dos radialistas (5 de agosto de 1962)
Da esquerda para a direita, Fábio Silveira, Victor Nuñez (assessor jurídico do sindicato), Lauro Hagemann, Graça Guimarães, Adroaldo Guerra, Raul Ulguin (ativista sindical) e Ivan Castro.
Fonte: Acervo particular de Lauro Hagemann.

Há, no entanto, um problema para o encaminhamento das negociações com a classe patronal, ainda não organizada em uma entidade representativa. Embora o dissídio seja unificado, as tratativas seguem sendo realizadas emissora a emissora. Algumas, no entanto, cedem, concordando com as reivindicações dos trabalhadores. Pretendendo forçar o fechamento de um acordo, a categoria declara-se em iminência de greve, mas os Diários e Emissoras Associados e a Rádio Princesa não aceitam a proposta. Como consequência, em 21 de setembro, Dia do Radialista, nova assembleia deflagra a paralisação nas duas empresas. Piquetes são montados na Galeria do Rosário, onde estão os estúdios das rádios Princesa, no 21° andar, e, por coincidência, os da Farroupilha, no 22°. O governador interino, Ajadil de Lemos, então secretário estadual do Interior e Justiça, dá garantias a Lauro Hagemann de que não vai haver repressão policial ao movimento. A greve, no entanto, não ocorre sem uma dose de violência. Com certa conivência das autoridades estaduais ligadas ao PTB, os radialistas chegam a cortar a energia elétrica dos transmissores da Princesa, mas o foco principal da mobilização incide mesmo sobre os Associados, onde as condições de trabalho já vinham se deteriorando há bastante tempo. No Morro Santa Teresa, um poste de energia elétrica chegou a ser atravessado em frente à entrada da TV Piratini. Depois de 15 horas de greve, as reivindicações são atendidas pela classe patronal. Para se ter uma ideia, escudadas nesta paralisação, as lideranças dos trabalhadores obtêm, nas tratativas do dissídio do ano seguinte, um reajuste de 100%.

Já o empresariado mobiliza-se em torno da aprovação do Código Brasileiro de Telecomunicações. Recuperando o espírito dos decretos n. 29.783, de julho de 1951, de Getúlio Vargas, e n. 50.840, assinado dez anos depois por Jânio Quadros, ambos reduzindo o período de validade das concessões, o presidente João Goulart veta 52 pontos da Lei n. 4.117, aprovada em 27 de agosto de 1962, instituindo o código. Assim, pretendendo aumentar o controle do Estado sobre a radiodifusão comercial, Jango rejeita, por exemplo, o parágrafo 3° do artigo 33, que estabelece a concessão por 10 anos para estações de rádio e por 15 para as de TV. O prazo de funcionamento das emissoras, portanto, ficaria a critério do Poder Executivo. O veto ao artigo 54, por sua vez, atinge garantias à livre expressão de críticas e de conceitos desfavoráveis aos atos de qualquer um dos poderes da Nação.

A partir daí, os proprietários de empresas do setor articulam-se para manter o que consideram conquistas. Nos dias anteriores à análise dos vetos presidenciais, em novembro de 1962, os empresários realizam uma ação lobista junto aos parlamentares, organizada pelo diretor geral dos Diários e Emissoras Associados, João de Medeiros Calmon. No domingo, dia 25, começam a chegar à capital federal os representantes das emissoras de todo o país. Do Rio Grande do Sul, viajam, entre outros, Antônio Abelin, da Rádio Imembuí, de Santa Maria; Flávio Alcaraz Gomes, da Rádio Guaíba; Frederico Arnaldo Ballvé, da Rádio e TV Gaúcha; Nelson Dimas de Oliveira e Franklin Peres, dos Associados; e Victor Hugo Ferlauto, das Emissoras Reunidas. Nas noites de 26 e 27 de novembro, apesar da posição contrária da bancada do PTB, os vetos vão sendo derrubados um a um.
Fundação da Abert (27 de novembro de 1962)
Da esquerda para a direita, Flávio Alcaraz Gomes (Rádio Guaíba), João Calmon (Diários e Emissoras Associados), Victor Hugo Ferlauto (Emissoras Reunidas) e outros dirigentes de rádio e televisão.
Fonte: GOMES, Flávio Alcaraz. Diário de um Repórter. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1995. p. 116.

Coincidindo com o último dia da votação, representantes de 172 estações – entre as quais as de maior potência na época e a totalidade das de TV – fundam, no Hotel Nacional, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Pouco mais de duas semanas depois da criação da Abert, a exemplo do que acontecera em Brasília, os dirigentes de estações do Rio Grande do Sul organizam uma entidade representativa de âmbito estadual, a Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert). Da reunião inicial, no dia 13 de dezembro, realizada na sede da Associação Rio-grandense de Imprensa, participam 62 lideranças empresariais, que escolhem a primeira diretoria da entidade, tendo como presidente Nelson Dimas de Oliveira, dos Diários e Emissoras Associados.

Um ano depois, em resposta à nova mobilização dos trabalhadores do setor, surge o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Rio Grande do Sul, tendo como primeiro presidente Franklin Peres, dos Diários e Emissoras Associados. No âmbito da consciência e das identidades de classe, completa-se, deste modo, o delineamento institucional básico, no território do estado, da indústria de radiodifusão sonora contemporânea. Vão auxiliar na maior definição deste processo a instalação, em 1963, de um escritório regional do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística e o crescimento do mercado publicitário gaúcho ao longo das décadas de 1960 e 1970.
Milton Jung, a pronúncia mais precisa do Brasil
2005

Uma observação de 2014 neste texto da década passada, anterior à compra da Guaíba pelo Grupo Record: preferi não atualizá-lo, embora o Milton tenha deixado a rádio em março de 2014. Na minha memória, dos seus bons colegas e na dos ouvintes, tenho certeza, este grande profissional segue pelo vetusto prédio da Caldas Júnior com Andradas, no centro de Porto Alegre. Nos corredores – os antigos, não os de hoje –, ainda se pode vê-lo do outro lado do aquário, mão meio em concha próxima ao ouvido a garantir a qualidade da emissão de voz. E ecoam suas palavras: “Aqui fala o Correspondente Renner...”. Grande Milton Ferretti Jung, boa aposentadoria!

Luiz Artur Ferraretto

Milton Ferretti Jung (1979)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA AM/ TV2 GUAÍBA. 1969-1979 – 10º aniversário do Estádio Beira-Rio, Porto Alegre, 1979. Encarte do LP.

Quem acompanha o noticiário radiofônico no Sul do Brasil sabe. Não há pronúncia mais perfeita do que a de Milton Ferretti Jung, locutor titular do principal informativo da Rádio Guaíba, de Porto Alegre:

– Aqui fala o Correspondente Renner, editado pelo departamento de Jornalismo da Rádio Guaíba com notícias da France Press, UPI, Associated Press, AJB, Agência Estado, EBN e da Central do Interior da Empresa Jornalística Caldas Júnior – entoava na abertura-padrão utilizada na segunda metade da década de 1980, como segue fazendo até hoje. Aliás, como tem feito desde que, ainda, na década de 1960, assumiu o posto.

Correspondente Renner com Milton Ferretti Jung (1987)
Fonte: Acervo Rádio Guaíba.

Ao longo do tempo, o noticiário da emissora sofreu poucas alterações estruturais, embora tenha trocado duas vezes, nos últimos anos, de patrocinador. Em 1º de março de 1999, a Associação dos Profissionais Liberais Universitários do Brasil substitui as Organizações Renner, que davam nome ao informativo desde a inauguração da Guaíba, em 1957. O Correspondente Aplub transforma-se, por sua vez, em Correspondente Portocred, no dia 1º de fevereiro de 2004. Com esta denominação, é apresentado, de segunda a sábado, em quatro edições – às 9h, 13h, 18h50 e 20h – e, nos domingos e feriados, às 13h e 20h. Seja nos grandes momentos da Guaíba, na crise que se abateu sobre o grupo de empresas da família Caldas no início dos anos 1980 ou sob a nova administração do empresário Renato Ribeiro, a voz de Jung sempre foi a marca mais forte do noticiário. Tão forte que, quando o jornalista Luiz Figueredo empreendeu uma alteração na estrutura do então Correspondente Renner, em 1982, o locutor-noticiarista acabaria por dar a última palavra. O responsável pelo jornalismo da rádio pretende, na época, modernizar o Renner, procurando aproximá-lo dos noticiários da British Broadcasting Corporation, que, antes do encerramento, resumem os fatos mais importantes de cada edição. Nos pilotos gravados, no entanto, o modelo da BBC provoca uma perda de força no final do Correspondente. Por sugestão de Milton Jung, a proposta inicial transforma-se, demarcando o já noticiado como a indicar que, a partir daí, vão ser veiculadas apenas informações novas e de relevância:

– Aqui fala o Correspondente Renner, editado pelo Departamento de Jornalismo da Rádio Guaíba, com notícias das agências France Press, UPI, Associated Press, AJB, Estado, ABR e da Central do Interior do Correio do Povo. Estas foram as principais notícias das últimas horas: governo e Congresso começam a definir a política salarial; metalúrgicos paulistas apoiam iniciativa do presidente da Força Sindical de ingressar na justiça contra o aumento dos parlamentares; cai Gorbatchov e militares assumem o poder na União Soviética.

Milton Jung levou para os estádios a mesma precisão verificada na leitura das notas do Correspondente. Como narrador esportivo, acompanhou as copas da Alemanha (1974), Argentina (1978) e México (1986). O posto de titular do noticiário principal da Guaíba restringe, no entanto, a sua participação aos jogos realizados em Porto Alegre. As exceções são algumas partidas em São Paulo, onde está radicado o filho Milton Jung (Jr.), um dos âncoras da CBN e autor do livro Jornalismo Radiofônico.

Do início de carreira nas rádios Canoas e Metrópole, da família Sperb, passando décadas à frente do Correspondente, na Guaíba – um recorde, provavelmente –, Milton Ferretti Jung, com sua voz grave e de correta pronúncia, segue marcando o dia a dia dos ouvintes do Sul do país.

Milton Ferretti Jung no último Grenal do Estádio Olímpico (2 de dezembro de 2012)
Gremista confesso, o narrador é homenageado pela equipe de esportes da Guaíba comandando o microfone da emissora no trecho inicial do jogo.
Fonte: Acervo particular.

Trecho da transmissão da Rádio Guaíba na chegada das 12 horas de Porto Alegre (6 de maio de 1962)
Milton Ferretti Jung narra parte da prova junto com outros profissionais da emissora como Enio Berwanger.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.
Julio Rosemberg, o homem do “Viuuuuu!!!”
2018
Luiz Artur Ferraretto

Ele começou em rádio no ano de 1948, substituindo com o seu Domingo Alegre uma das primeiras grandes atrações das emissoras da capital gaúcha, o programa de calouros Hora do Bicho, de Piratini, na Difusora. Trabalhou em torno de dois anos dividindo-se entre a PRF-9 e a Farroupilha. Foi em São Paulo, no entanto, que o radialista pelotense Julio Rosemberg iria se consagrar ao longo da década seguinte. No início dos anos 1960, acrescentaria ao seu currículo o lançamento de um então jovem desconhecido, Roberto Carlos, coroado por ele como “rei da música brasileira”. A respeito, o radialista recordaria ao Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul:

– Em duas semanas de apresentações, o público já não vinha mais assistir ao Programa Julio Rosenberg. Vinha ver o programa em que Roberto Carlos cantava.

Apesar de radicado em São Paulo, onde comanda o seu programa na TV Tupi, Rosemberg é anunciado em 1961 como uma das grandes atrações da Rádio Gaúcha e entra em uma rotina comum ao longo daquela década, quando apresentadores do centro do país mantêm, graças ao desenvolvimento do transporte aéreo, versões locais de suas atrações em outras capitais do Sul e do Sudeste. No caso do Programa Julio Rosemberg, além de São Paulo e Porto Alegre, há ainda Curitiba. O esquema dura pouco mais de um ano. O radialista traz a Porto Alegre, entre outros, artistas como Elizete Cardoso, Juca Chaves, Orlando Silva e Pery Ribeiro.

Reportagem sobre a estreia do Programa Julio Rosemberg na Rádio Gaúcha (1961)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 33, n. 807, p. 16, 11-24 nov. 1961.

Nos anos 1950 e 1960, o radialista faz sucesso, abrindo espaço para novos valores musicais que surgem sob a influência do rock de origem anglo-americana. É um dos primeiros em nível nacional a perceber no jovem um público para conteúdos específicos em rádio e em televisão. Vai se consagrar, assim, como um dos principais incentivadores da Jovem Guarda, com artistas como Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Jerry Adriani, Ronnie Von, Vanusa, Wanderley Cardoso e Wanderléia marcando presença e sendo anunciados de um modo muito próprio do animador, que utiliza algumas frases de efeito:

– Com vocês, a figura querida de um bom cantor, Roberto Carlos...

E após a pausa, salientando o bordão:

– ...viuuuuuu!

Na comunicação com o auditório, prefere, as vezes, um “Menina moça, oiiiii!” para receber em resposta um outro “Oiiiii!” em uníssono.

No final dos anos 1970, Julio Rosemberg transfere-se para Porto Alegre, ocupando o horário da madrugada na Rádio Gaúcha, e administra bailões na Região Metropolitana. Em 1984, passa a trabalhar na Farroupilha com o programa que leva seu nome.

Julio Rosemberg relembra sua trajetória em entrevista a Cândido Norberto (1º de agosto de 1988)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Entrevista, Porto Alegre, 1º ago. 1988. Programa de rádio.

Na Farroupilha, em 2002, com 54 anos de profissão, Julio Rosemberg é homenageado em seu aniversário com um programa de duas horas de duração conduzido por Gugu Streit.

Erasmo Carlos homenageia Julio Rosemberg (29 de setembro de 2002)
Fonte: RÁDIO FARROUPILHA. Especial Julio Rosemberg, Porto Alegre, 29 set. 2002. Programa de rádio.

Julio Rosemberg faleceu em 19 de abril de 2004.