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70 anos da Hora do Bicho, o primeiro programa de calouros do Rio Grande do Sul
2007
 Luiz Artur Ferraretto

A grafia adotada na época e em uso até hoje para o seu nome nem sequer fazia jus à correta pronúncia do apelido artístico adotado por Antonio Amabile, o Pi-ra-TI-ni, dito assim mesmo como paroxítona e não oxítona. Pois quando a Rádio Difusora Porto-alegrense inaugurou o primeiro auditório da capital gaúcha, em 25 de setembro de 1937, lá estava o Piratini, escrito errado, mas quem ligava. Ele já era conhecido dos ouvintes como músico e humorista, tendo começado se apresentando na Rádio Sociedade Gaúcha. É, no entanto, na Difusora que ele vai chamar a atenção com o programa de calouros Hora do Bicho, lotando as novas instalações da PRF-9.

Na década de 1930, os cabarets e cassinos já apresentavam números musicais ou de dança, além de sketches. Contando anedotas e brincando com o público, o cabaretier, espécie de mestre de cerimônia destas casas noturnas, fazia a passagem entre uma e outra atração, o que pode ter servido de inspiração para profissionais como Piratini.

Programa Hora do Bicho (1937)
Em primeiro plano, aparece o conjunto regional de Piratini e, em segundo, os candidatos. O animador está atrás do garoto que segura a maceta do bombo.
Fonte: Folha da tarde, Porto Alegre, 4 out. 1937. p. 14.

Assim, no domingo, dia 3 de outubro de 1937, das 11 às 12h, vai ao ar pela primeira vez o “programa de principiantes”, na definição do jornal Correio do Povo, a Hora do Bicho, com 16 pessoas submetendo-se ao concurso em que “Piratini, o humorista da cidade, lá estava no bombo, como um verdadeiro fantasma para os candidatos à constelação radiofônica”. Explica-se: quando o calouro não correspondia ao esperado, o apresentador utilizava o enorme instrumento musical para indicar a desclassificação.

Nas semanas seguintes à estreia, conforme indicam os jornais, o auditório da Difusora fica lotado. “Aos domingos, não havia rádio, em casa de pobre ou de rico, que não sintonizasse o programa máximo de Porto Alegre”, lembraria, saudoso, Ney Fonseca, em abril de 1961, na Revista do Globo. A afluência de público obrigou, inclusive, à transferência do programa, em 1944, para o Cinema Rex. A Hora do Bicho já ocupava então maior parte da manhã de domingo, das 10 às 12h. Nesta época, os melhores candidatos recebiam uma coroa e tinham direito a uma espécie de trono no auditório até que fossem superados por outros pretendentes ou obtivessem o prêmio final. A Hora do Bicho, com Piratini à frente, consolida-se, deste modo, como a primeira grande atração dos auditórios das rádios de Porto Alegre.

Piratini e os candidatos coroados da Hora do Bicho (1944)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 16, n. 316, p. 24, 22 abr. 1944.
Grandes atrações na disputa pela audiência
2013
Luiz Artur Ferraretto

Na “época de ouro do rádio”, como vão dizer os saudosistas no futuro, a algo provinciana Porto Alegre dos anos 1950 passa, todos os dias, pela nevrálgica Rua da Praia, oficialmente dos Andradas e que à força dos aterros junto ao Guaíba já perdeu há tempos a origem de sua denominação mais popular. Das margens do rio, que ninguém cogita muito ser um lago, a cidade já se espalha em várias direções.

É esta cidade que o repórter Lineu Martins, em uma edição da segunda quinzena de 1955 da Revista do Globo, vai descrever com certa ironia, com certo bom humor:
Andam mais perto da verdade os que dizem que Porto Alegre tem 400 mil habitantes. Além disso, o IBGE diz que 2.465 profissionais liberais fazem a vida nesta cidade e que existem 24.558 operários e 10.338 comerciários. A prefeitura abriga 3.647 servidores e trabalha em 1.545 ruas e logradouros públicos, enquanto 14.000 veículos a motor atrapalham o tráfego, 89 bibliotecas dão de ler a espíritos sedentos de cultura e 137 igrejas fazem missa todos os domingos. Ao mesmo tempo, 35 cinemas entretêm uma população sem diversões e a gente fica pensando onde estarão os seis teatros que constam da lista. Mas, para as crianças analfabetas, ensina-se algo nas 333 escolas primárias, enquanto as semianalfabetas dispõem de 36 escolas secundárias. Outras, em menor número, colocam um D-R antes do nome. E 31 clubes de futebol desviam as vocações masculinas, enquanto que apenas três estações de rádio bastam para fazer o mesmo com as mulheres, quando do processo novelesco. Quatorze jornais fazem as novas e 31 revistas anunciam 3.473 casas de comércio. Para os visitantes disfarçados de turistas, há 47 hotéis de maior ou menor categoria, podendo-se dizer o mesmo das 10 boates e mais alguma coisa. Pela mesma fonte, fica-se sabendo que a União aqui arrecada mais de 900 milhões, mas que o município se contenta com uma sobra de 200 milhões e pouco e que 15 bancos guardam economias. Consta ainda que acontecem vários crimes e atropelamentos durante o ano. Muita gente também vai parar na cadeia ou no cemitério.
Nas rodas de conversa da Rua da Praia, vez por outra, vêm à baila os programas das pêerres locais e há quem, sanduíche na mão para enganar a fome, enforque o almoço no auditório da Farroupilha na Sete de Setembro, acompanhando as peripécias cômicas dos personagens do Drama do Futebol ou da Banca de Sapateiro, atrações a compor, junto com comentários e apresentações musicais, o Rádio Sequência.

Nas residências – casas e já numerosos apartamentos –, ocupam lugar central nas salas de estar receptores radiofônicos, de tamanho médio ou grande, todos valvulados e em suas caixas de madeira ou de baquelita. Alguns, mais sofisticados, aparecem conjugados a eletrolas, formando sólidas peças do mobiliário urbano. Outros trazem no dial as identificações das grandes emissoras do país, na época de fácil captação fora de suas regiões de origem. São aparelhos robustos de indústrias com sede nos Estados Unidos ou em países da Europa – General Electric, Philco, Phillips, RCA Victor, Siemens, Telefunken, Westinghouse, Zenith... –, mas muitos já vêm com a marca Semp, sigla de sonoridade estrangeira para os equipamentos da nacional Sociedade Eletro Mercantil Paulista. Através deles, o espetáculo radiofônico chega a milhares de pessoas, oferecendo entretenimento e mobilizando a audiência em torno de intérpretes, instrumentistas, grupos vocais, humoristas, atores, atrizes, animadores.

Constituindo-se em uma das principais fontes de entretenimento, o espetáculo radiofônico seduz a imaginação do ouvinte e vai construindo ídolos. Comuns desde meados dos anos 1930, apresentações de grandes astros e estrelas da música brasileira, promovidas por emissoras locais, atraem, até o início da década, a atenção de parcela significativa de ouvintes. É o que acontece, por exemplo, quando Francisco Alves, o Rei da Voz, apresenta-se, em janeiro de 1950, lançando Marcha dos Brotinhos e Chimango, duas marchinhas para o carnaval daquele ano. A cada audição organizada e transmitida, então, pela PRH-2 – Rádio Farroupilha, “a mais poderosa”, Chico Viola enfrenta o assédio dos fãs.

Francisco Alves na Rádio Farroupilha (janeiro de 1950)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 22, n. 501, p. 24, 4 fev. 1950.

É o caso também da apresentação promovida pela PRC-2 – Rádio Gaúcha, “a pioneira”, em novembro de 1950, comemorando a inauguração de suas novas instalações no Edifício União. No auditório Araújo Viana, em plena Praça da Matriz, Edu da Gaita, Emilinha Borba, Marlene, Quatro Ases e um Coringa, Orlando Silva e Silvino Neto apresentam-se para um público estimado na época em 50 mil pessoas.

Emilinha Borba na Rádio Gaúcha (novembro de 1950)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 23, n. 533, p. 80, 28 abr. 1951.

Espetáculos semelhantes ganham os palcos de emissoras, cinemas e teatros também das grandes cidades do interior do Rio Grande do Sul. Alguns exemplos podem ser citados. Pelo auditório e pelos estúdios da Rádio Caxias, passam, entre outros, artistas como Emilinha Borba, Ivon Curi, Linda Batista, Leni Eversong, Marlene e Nelson Gonçalves, todos patrocinados pelo crescimento econômico da Serra. No Planalto Médio, outra das Emissoras Reunidas, a Passo Fundo, faz o mesmo, trazendo, além de alguns destes, Cauby Peixoto, Alvarenga e Ranchinho... No auditório da Rádio Pelotense, na Zona Sul, cantam Ângela Maria, Carlos Galhardo e Francisco Alves. Já a Cultura Rio-grandina contrata, em 1956, Nora Ney para apresentações na praça Tamandaré e na boate Veterana, em Rio Grande. Nos estúdios da emissora, a cantora deixa gravado um acetato com a marchinha carnavalesca Brotinho, composta por um músico local, o saxofonista Oscar Geraldo, da orquestra do maestro Luiz Nelson Piragine.

Em Porto Alegre, ao longo da década, este tipo de audição isolada transfere-se para os programas de auditório, de grande impacto junto ao público, em especial após o sucesso de Tômbola Musical, na Farroupilha, em 1955. Humoristas como Pinguinho e Walter Broda, na PRH-2, e Carlos Nobre, na PRC-2, também fazem a alegria dos ouvintes. O público feminino, por sua vez, deixa-se levar, capítulo após capítulo, pelas novelas de conteúdo predominantemente romântico apresentadas em diversos horários e em todos os turnos da programação. O espetáculo radiofônico, de cunho mais popular, da Farroupilha e da Gaúcha ganha, no entanto, em 1957, uma contraparte voltada à elite no trabalho do Conjunto de Radioteatro e do Departamento de Produção de Programas da Rádio Guaíba. Também no interior, respeitadas as possibilidades de cada região, as emissoras dão oportunidade a talentos locais, muitos deles logo aproveitados nas estações da capital, como os animadores e atores Ary Rêgo e Salimen Júnior, ambos com passagens pela Cultura e pela Pelotense, de Pelotas, ou a cantora e rainha do rádio de 1957, Maria Helena Andrade, surgida na Minuano, de Rio Grande.

Cabe lembrar, ainda, o papel desempenhado pelos músicos – instrumentistas e cantores –, contratados fixos em rádios de porte como a Farroupilha e a Gaúcha e responsáveis pela execução, ao vivo, de trilhas e números, em arranjos muitas vezes desenvolvidos pelos próprios maestros das emissoras. Na PRH-2, por exemplo, o diretor musical Salvador Campanella, com base na programação mensal da estação dos Associados, define a forma de execução das canções, estabelecendo, ainda, a rotina de apresentações da Grande Orquestra Farroupilha e dos demais conjuntos musicais da rádio.

Quando, na virada para a década de 1960, os receptores de rádio ganham portabilidade transistorizada e começam a perder para o televisor o seu lugar na sala dos gaúchos, há uma sensação tênue de que, também, devem se alterar os rumos da programação. Abrem-se espaços, então, para o esporte e, com menor intensidade, para o noticiário. O exemplo mais marcante disto é o que ocorre na Rádio Gaúcha após Maurício Sobrinho assumir a direção da emissora. Enquanto João Aveline cuida de aprimorar o Departamento de Notícias, colocando jornalistas na apuração e redação das informações, Ary dos Santos monta uma equipe esportiva em condições de competir no mercado de Porto Alegre. A valorização das transmissões de jogos de futebol pode ser atestada pelo folheto que a PRC-2 faz publicar em 1962 encartado na Revista do Globo. Quase a indicar novos tempos, os artistas do espetáculo radiofônico, mesmo que mantendo um maior destaque, já dividem o espaço com narradores, repórteres e comentaristas.

Folheto publicitário da Rádio Gaúcha (1962)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 36, n. 821, 26 maio 1962. Encarte.
Programa Maurício Sobrinho, um auditório na pré-história da RBS
2008
Luiz Artur Ferraretto

Caricatura de Maurício Sobrinho (final dos anos 50)
Produzida por Renato Canini para a Revista TV, publicação especializada que circulou , no Rio Grande do Sul, de novembro de 1954 a novembro de 1960.
Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.

Às 14h do sábado, dia 9 de junho de 1956, torna-se realidade “o big lançamento da PRH-2”, como não cansa de registrar, há semanas, o jornal Diário de Notícias, aproveitando-se de uma gíria da época. É a estreia do Programa Maurício Sobrinho. Para a principal aposta da Rádio Farroupilha daquele ano, o diretor artístico da emissora, Ruy Rezende, escala brincadeiras, concursos de prêmios, números humorísticos e traz Sivuca, “o diabo loiro do acordeom”, e Léo Romano, que faz sucesso, então, cantando Os Pobres de Paris, versão em português de La Goulante du Pauvre Jean, de Marguerite Monnot e René Rouzaud, originalmente gravada por Edith Piaf. Rapidamente, nos dias anteriores, as entradas, vendidas a Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros, a moeda da época) nas lojas Rainha das Noivas e Norma, esgotam-se, garantindo grandes filas em frente ao cinema desde o final da manhã e reprisando um grande sucesso de 1955 comandado também pelo radialista Maurício Sobrinho.

Na primeira metade da década, para promover o refrigerante Coca-Cola, o Departamento de Rádio da agência de publicidade McCann-Erickson havia criado aquele que iria se tornar, no caso específico do Rio Grande do Sul, o primeiro grande programa de auditório a contar a cada edição com pelo menos um cartaz de renome da música brasileira. Ao longo do ano anterior, pelo mesmo palco do Cinema Castelo, onde Maurício Sobrinho – ou, por vezes, Ary Rêgo – tinha apresentado, nas tardes de sábado da Farroupilha, a versão gaúcha do Tômbola Musical, passaram artistas como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dircinha Batista e Emilinha Borba. Um dos principais momentos foi quando quatro mil pessoas superlotaram as dependências do cinema para ver e ouvir a cantora Emilinha Borba. Em sua estada em Porto Alegre, a rainha do rádio de 1953 cantou ao microfone da Farroupilha acompanhando a orquestra da Nacional, cujo som chegava do Rio de Janeiro, por linha telefônica, com as duas emissoras em cadeia no mesmo momento em que, na capital federal, acontecia o Programa César de Alencar, então a principal atração de auditório do país.

Com o fim do Tômbola Musical, a direção da Farroupilha decidiu apostar em uma atração de fórmula e horário semelhantes, aproveitando o animador que havia se destacado na condução do programa: Maurício Sobrinho, que, na época, omite o Sirotsky do sobrenome, ele mesmo que, nas décadas seguintes, vai comandar a estruturação do maior complexo de mídia do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina: a Rede Brasil Sul de Comunicação. Ao longo dos 12 meses que se seguem à estreia do Programa Maurício Sobrinho, parcela significativa do impacto obtido pela nova atração da Farroupilha provém da sua extrema capacidade em desenvolver uma forte empatia com o público. Sempre sorridente e seguindo o figurino da época – terno, gravata com prendedor, bigode bem cuidado e cabelo penteado para trás com generosa dose de brilhantina –, o animador demonstra, então, desenvoltura suficiente para ser tratado, em publicações especializadas, como “o papa dos auditórios”.

De início, o programa das tardes de sábado da PRH-2 traz artistas de médio porte, mas ganha audiência crescente, consolidando o investimento de anunciantes a garantir “duas horas ininterruptas de atrações”, como registra eufórico o Diário de Notícias. Nas primeiras semanas, entre os patrocinadores já estão as Lojas Rimpo, “o famoso palácio encantado da avenida Otávio Rocha”; a Refrigerantes Sul-rio-grandense Ltda., fabricante, entre outros, de Pepsi-Cola; a Walgás, do “gás que mais faz”; e os Produtos Polar, da cerveja e do guaraná de mesmo nome. Assim, quando chega o aniversário de um ano, marcando também o fim do Programa Maurício Sobrinho em sua fase na Farroupilha, são inúmeros os cartazes de primeira linha do rádio brasileiro previstos e diversas as promoções. Antecedendo em algumas semanas a festa, em 8 de junho de 1957, os ouvintes acompanham, ao vivo, o bolero do Trio Los Panchos, de renome internacional. No dia 22, ponto alto das comemorações, quatro radiopatrulhas e um contingente significativo da Guarda Civil têm dificuldade para conter o público em frente ao Auditório Associado, palco da programação especial em que o animador despede-se da PRH-2. Grandes filas formam-se ao longo da rua Siqueira Campos para assistir Ângela Maria e Marlene, do Rio de Janeiro, e Germano Mathias e Salomé Parísio, de São Paulo, além de diversas outras atrações, incluindo artistas das rádios Gaúcha e Itaí. Fatias de um bolo de 600 kg e miniaturas de Champanhe Michelon, com o nome do programa no rótulo, são distribuídas ao público, que, ao final, é comunicado da saída de Maurício Sobrinho, substituído, a partir de então, por José Salimen Júnior e o Vesperal Farroupilha. O fim do programa não significa, no entanto, uma derrota. Sirotsky sai da PRH-2 como radialista e se transfere para a PRC-2 – Rádio Gaúcha, como um dos sócios no processo de aquisição da emissora por Arnaldo Ballvé.

Maurício Sobrinho e Salomé Parísio (22 de junho de 1957)
Fonte: SCLIAR, Moacyr. Maurício: a trajetória, o cenário histórico, a dimensão humana de um pioneiro da comunicação no Brasil. Porto Alegre: Sulina, 1991. p. 43.

Ouvintes fazem fila para assistir o Programa Maurício Sobrinho (22 de junho de 1957)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 3, p. 10, ago. 1957.

Na nova estação, Maurício Sobrinho vai colocar, ainda, o seu cacife como animador em um ou outro programa, como Grandes Espetáculos Dominicais, das 10 às 12h, e Calouros Anil Ideal, das 18h30 às 19h30, ambos aos domingos. De fato, até o início dos anos 1960, a passagem do radialista por este tipo de atração reveste-se de um caráter episódico, servindo para lançar um determinado horário, com outro profissional logo assumindo a condução. Mesmo assim, o nome do animador é suficiente para que, em março de 1960, quando começam a circular informações sobre o retorno do Programa Maurício Sobrinho, a imprensa especializada registre a notícia como “a grande nova” do ano no rádio do Rio Grande do Sul. A reestreia acontece no domingo, dia 1° de maio, às 10h, com as apresentações artísticas estendendo-se até o meio-dia no palco do Cinema Castelo. À época, uma vinheta cantada introduz o animador, brincando com um dos seus traços fisionômicos e marcando a abertura do programa:

– A Gaúcha apresenta/ o programa que arrebenta/ pelos risos, emoções,/ humorismo e sensações/ comandado pelo Big Nariz/ para fazer você feliz./ Novamente, é domingo/ e um elenco inteirinho./ É pra você/ e seu vizinho,/ o programa,/ o Programa Maurício Sobrinho...

E, mal deixando a música terminar, sobrepõe-se a voz inconfundível do animador:

– Alô, amigos do Rio Grande do Sul e do Brasil. Um bom dia para todos e uma vez mais aqui estamos para o nosso encontro de todas as semanas. Que corra tudo bem com vocês e vamos logo com as nossas atrações deste domingo.


Aos poucos, no entanto, de uma participação minoritária, Sirotsky ganha espaço como administrador. De fato, de início assume também a direção da Gaúcha, trocando, logo depois e em definitivo, o microfone dos auditórios pelas mesas de reunião dos empresários e, aos poucos, vai constituindo a RBS, um império multimídia hoje, 50 anos após aquela tarde de sábado de parar o trânsito em frente ao Cinema Castelo.

Maurício Sirotsky Sobrinho revive o Programa Maurício Sobrinho (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.
Salimen Júnior, o animador-galã
2005
Luiz Artur Ferraretto

José Salimen Júnior (1957)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 3, p. 21, jun. 1957.

Uma das revelações do prêmio Melhores do Rádio, em 1955, José Salimen Júnior destaca-se, na segunda metade da década de 1950, como ator nas novelas da PRH-2, repetindo o sucesso já verificado no seu início de carreira em Pelotas. É da Zona Sul do estado que chegam centenas de cartas, no ano seguinte, garantindo, em uma promoção da Farroupilha, a escolha dele como animador do programa Só Para Mulheres, nas tardes de domingo, em que divide a apresentação com Nelita Aguiar. Em junho de 1957, sem deixar claro para o público, a direção da rádio vai preparando Salimen para substituir Maurício Sobrinho, “o homem do nariz inconfundível”, animador das tardes de sábado que está por assumir a direção da concorrente Rádio Gaúcha. Assim, nas semanas anteriores à saída do futuro fundador do Grupo RBS, Salimen Júnior apresenta pequenos quadros, faz intervenções e brinca com o auditório no Programa Maurício Sobrinho. Na divulgação do Vesperal Farroupilha, a nova atração das tardes de sábado, na própria emissora e no Diário de Notícias, o radialista já se transforma no “animador-galã”, como passa a ser identificado, aproveitando o sucesso junto ao público feminino e a indicação como melhor galã de 1956, empatado com Ernani Behs, conforme também o concurso Melhores do Rádio da Revista TV.

Anúncio do Vesperal Farroupilha (1957)
Fonte: Acervo particular de José Salimen Júnior.

Na estrutura, o Vesperal Farroupilha pouco difere do seu antecessor, o Programa Maurício Sobrinho, com a presença de cartazes do centro do país constituindo-se no principal momento do espetáculo oferecido aos ouvintes. Atrações de auditório deste porte, no entanto, demandam, então, um investimento significativo, com os cachês pagos a alguns artistas podendo chegar ao equivalente a US$ 4,000.00 (quatro mil dólares). Daí, pode-se entender o retorno comercial e o impacto junto ao público destas apresentações em Porto Alegre, como recorda o próprio José Salimen Júnior:

– Na realidade, o fim de semana em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, era uma festa. A Farroupilha, comigo, fazia uma festa no sábado. No domingo, o Maurício na Gaúcha fazia outra festa. Então, o povo tinha certa esta alegria no fim de semana.

No caso do Vesperal, para garantir esta festa no Auditório Associado, a rotina de produção inclui reuniões entre o apresentador e o produtor Abel Gonçalves, além de contatos constantes com o diretor artístico Ruy Rezende, mantendo um planejamento mínimo de 15 dias de antecedência em relação, especialmente, aos artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Por exemplo, quando o programa completa três anos, em meados de 1960, a PRH-2 organiza uma grande comemoração no ginásio do Grêmio Náutico União, com a presença, entre outros, de Agostinho dos Santos, Germano Mathias e Maysa, além da orquestra de Henrique Simonetti. Do cast da emissora, apresentam-se Pinguinho e Walter Broda.

Cinejornal da Leopoldis Som (1960)
Fonte: Acervo particular de José Salimen Júnior.

Para fazer frente ao Vesperal Farroupilha, em 1961, a Gaúcha contrata o Programa Julio Rosemberg, também apresentado, em dias alternados, nas cidades de São Paulo e Curitiba. Natural de Pelotas e radicado na capital paulista desde o início dos anos 1950, o radialista faz sucesso, então, abrindo espaço para novos valores musicais que surgem sob a influência do rock de origem anglo-americana. De fato, Rosemberg, nos anos seguintes, vai se consagrar como um dos principais incentivadores da Jovem Guarda.
Como resposta, para reforçar a audiência em função do Programa Julio Rosemberg, a direção dos Diários e Emissoras Associados no Rio Grande do Sul decide pela transmissão do Vesperal Farroupilha em conjunto com a TV Piratini, estratégia bem-sucedida, uma vez que a Gaúcha ainda está montando o seu canal de televisão, inaugurado somente em dezembro de 1962. É Salimen, ainda, que, trocando de emissora, vai conduzir o último grande programa de auditório do estado:

– Quando eu me transferi para a Gaúcha, o Maurício não queria mais fazer o programa dele. Então, lançou o MS, “M” de Maurício e “S” de Salimen, que começamos apresentando juntos. Aí, eu fiz um ano sozinho, de 1963 a 1964.

Em seus últimos tempos, o Programa MS, das 10 às 12h de domingo, ocupa um auditório de 500 lugares montado pela Rádio Gaúcha, em 1964, nos altos do Cinema Baltimore, na avenida Osvaldo Aranha. O espaço já evidencia a decadência deste tipo de atração no rádio do estado: acanhado, na comparação com o do Cinema Castelo, e simples em relação às antigas instalações do Edifício União.

José Salimen Júnior
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 19 de junho de 2001

José Salimen Júnior
Fonte: CALENDÁRIO Pepsi-Cola. Revista TV, Porto Alegre, p. 2, nov. 1958. Anúncio.
Julio Rosemberg, o homem do “Viuuuuu!!!”
2018
Luiz Artur Ferraretto

Ele começou em rádio no ano de 1948, substituindo com o seu Domingo Alegre uma das primeiras grandes atrações das emissoras da capital gaúcha, o programa de calouros Hora do Bicho, de Piratini, na Difusora. Trabalhou em torno de dois anos dividindo-se entre a PRF-9 e a Farroupilha. Foi em São Paulo, no entanto, que o radialista pelotense Julio Rosemberg iria se consagrar ao longo da década seguinte. No início dos anos 1960, acrescentaria ao seu currículo o lançamento de um então jovem desconhecido, Roberto Carlos, coroado por ele como “rei da música brasileira”. A respeito, o radialista recordaria ao Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul:

– Em duas semanas de apresentações, o público já não vinha mais assistir ao Programa Julio Rosenberg. Vinha ver o programa em que Roberto Carlos cantava.

Apesar de radicado em São Paulo, onde comanda o seu programa na TV Tupi, Rosemberg é anunciado em 1961 como uma das grandes atrações da Rádio Gaúcha e entra em uma rotina comum ao longo daquela década, quando apresentadores do centro do país mantêm, graças ao desenvolvimento do transporte aéreo, versões locais de suas atrações em outras capitais do Sul e do Sudeste. No caso do Programa Julio Rosemberg, além de São Paulo e Porto Alegre, há ainda Curitiba. O esquema dura pouco mais de um ano. O radialista traz a Porto Alegre, entre outros, artistas como Elizete Cardoso, Juca Chaves, Orlando Silva e Pery Ribeiro.

Reportagem sobre a estreia do Programa Julio Rosemberg na Rádio Gaúcha (1961)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 33, n. 807, p. 16, 11-24 nov. 1961.

Nos anos 1950 e 1960, o radialista faz sucesso, abrindo espaço para novos valores musicais que surgem sob a influência do rock de origem anglo-americana. É um dos primeiros em nível nacional a perceber no jovem um público para conteúdos específicos em rádio e em televisão. Vai se consagrar, assim, como um dos principais incentivadores da Jovem Guarda, com artistas como Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Jerry Adriani, Ronnie Von, Vanusa, Wanderley Cardoso e Wanderléia marcando presença e sendo anunciados de um modo muito próprio do animador, que utiliza algumas frases de efeito:

– Com vocês, a figura querida de um bom cantor, Roberto Carlos...

E após a pausa, salientando o bordão:

– ...viuuuuuu!

Na comunicação com o auditório, prefere, as vezes, um “Menina moça, oiiiii!” para receber em resposta um outro “Oiiiii!” em uníssono.

No final dos anos 1970, Julio Rosemberg transfere-se para Porto Alegre, ocupando o horário da madrugada na Rádio Gaúcha, e administra bailões na Região Metropolitana. Em 1984, passa a trabalhar na Farroupilha com o programa que leva seu nome.

Julio Rosemberg relembra sua trajetória em entrevista a Cândido Norberto (1º de agosto de 1988)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Entrevista, Porto Alegre, 1º ago. 1988. Programa de rádio.

Na Farroupilha, em 2002, com 54 anos de profissão, Julio Rosemberg é homenageado em seu aniversário com um programa de duas horas de duração conduzido por Gugu Streit.

Erasmo Carlos homenageia Julio Rosemberg (29 de setembro de 2002)
Fonte: RÁDIO FARROUPILHA. Especial Julio Rosemberg, Porto Alegre, 29 set. 2002. Programa de rádio.

Julio Rosemberg faleceu em 19 de abril de 2004.