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Anos 1950
São os anos que precedem o surgimento da televisão no Rio Grande do Sul. É o apogeu do espetáculo radiofônico. Em Porto Alegre, a Farroupilha enfrenta uma dura concorrência imposta pela Gaúcha. No interior, surgem mais e mais emissoras. Na capital, em 1957, é inaugurada a Guaíba, uma das marcas mais fortes do rádio brasileiro. Nos grandes receptores valvulados ainda em lugar central na sala das pessoas, brilham Ary Rêgo, Adroaldo Guerra, Mauricio Sobrinho e Salimen Júnior em seus programas de auditório; Lauro Hagemann, a voz do Repórter Esso; Ernani Behs, Paulo Ricardo e Walter Ferreira nas novelas; e Carlos Nobre, Pinguinho e Walter Broda nos humorísticos.

Destaques da década
Grandes atrações na disputa pela audiência
A Rádio Gaúcha, a Cirei S.A. e o governo Vargas
J. Antônio D'Ávila: um pernambucano revoluciona o rádio gaúcho
O impacto do suicídio de Getúlio Vargas no rádio do Rio Grande do Sul
Radionovelas: a açucarada luta entre o bem e o mal
O romance de uma empregadinha e um final feliz
Ary Rêgo e o Clube do Guri
Programa Maurício Sobrinho, um auditório na pré-história da RBS
Salimen Júnior, o animador-galã
Paixão Côrtes, gauchismo no rádio
Paixão Côrtes, Darcy Fagundes e o Grande Rodeio Coringa
Carlos Nobre, o maior humorista do rádio do Rio Grande do Sul
Duas (sensacionais) do Carlos Nobre
Star-system à moda gaúcha
Ídolos do rádio e da música ganham o interior gaúcho
Rubens Santos transformava qualquer programa de rádio em boemia 
Rubens Santos e o rádio de Porto Alegre em meados dos anos 1950 
Glênio Reis, o primeiro disc-jóquei do Rio Grande do Sul
O Repórter Esso e a Guerra Fria
Lauro Hagemann: os 60 anos de profissão do Repórter Esso gaúcho
1950: o silêncio do Maracanã no microfone das emissoras de Porto Alegre
Enio Melo e o Pan-Americano de Futebol de 1956
Quando o jogo acontecia, o narrador acompanhava lance a lance e o público não ouvia nada
Flávio, Maurício e a chegada do Papai Noel
De empregado a patrão, a transição de Maurício Sirotsky Sobrinho
O papel da Gaúcha nos 50 anos da RBS
A inauguração da Rádio Guaíba
O Doutor e o Major
Flávio Alcaraz Gomes e as conquistas da Guaíba
Homero Carlos Simon e o som perfeito da Guaíba
Osmar Meletti, Fernando Veronezi e a música da Guaíba
1958: o Rio Grande do Sul vai à Copa com a Guaíba
A narração peculiar de Jorge Alberto Mendes Ribeiro
Dê Asas a sua Inteligência e o apogeu dos programas de perguntas e respostas
Amir Domingues e as primeiras grandes coberturas eleitorais
João Aveline, um dos pioneiros do radiojornalismo
Ary dos Santos, o da "maior e melhor" equipe de esportes
Luiz Carlos Vergara Marques e o Turfe e Boa Música
A Ordem dos Capuchinhos e a Rádio Difusora
As emissoras de menor porte da capital gaúcha
A Rádio da Universidade
A estruturação do rádio no interior do estado
O gravador de Rui Grillo na Rio-grandina, por Willy Cesar
A Minuano, de Rio Grande, e o primeiro transmissor em FM do estado, por Willy Cesar
Quando "seu" Holmes ainda não era "seu" Holmes 
O rádio e o consultório de Breno Futuro
O rádio, a política e os radialistas-candidatos 
Os gaúchos no rádio do centro do país dos anos 1950
A consolidação da TV e o fim do rádio espetáculo
Os desenhos de Renato Canini para a Revista TV

Grandes atrações na disputa pela audiência
2013
Luiz Artur Ferraretto

Na “época de ouro do rádio”, como vão dizer os saudosistas no futuro, a algo provinciana Porto Alegre dos anos 1950 passa, todos os dias, pela nevrálgica Rua da Praia, oficialmente dos Andradas e que à força dos aterros junto ao Guaíba já perdeu há tempos a origem de sua denominação mais popular. Das margens do rio, que ninguém cogita muito ser um lago, a cidade já se espalha em várias direções.

É esta cidade que o repórter Lineu Martins, em uma edição da segunda quinzena de 1955 da Revista do Globo, vai descrever com certa ironia, com certo bom humor:
Andam mais perto da verdade os que dizem que Porto Alegre tem 400 mil habitantes. Além disso, o IBGE diz que 2.465 profissionais liberais fazem a vida nesta cidade e que existem 24.558 operários e 10.338 comerciários. A prefeitura abriga 3.647 servidores e trabalha em 1.545 ruas e logradouros públicos, enquanto 14.000 veículos a motor atrapalham o tráfego, 89 bibliotecas dão de ler a espíritos sedentos de cultura e 137 igrejas fazem missa todos os domingos. Ao mesmo tempo, 35 cinemas entretêm uma população sem diversões e a gente fica pensando onde estarão os seis teatros que constam da lista. Mas, para as crianças analfabetas, ensina-se algo nas 333 escolas primárias, enquanto as semianalfabetas dispõem de 36 escolas secundárias. Outras, em menor número, colocam um D-R antes do nome. E 31 clubes de futebol desviam as vocações masculinas, enquanto que apenas três estações de rádio bastam para fazer o mesmo com as mulheres, quando do processo novelesco. Quatorze jornais fazem as novas e 31 revistas anunciam 3.473 casas de comércio. Para os visitantes disfarçados de turistas, há 47 hotéis de maior ou menor categoria, podendo-se dizer o mesmo das 10 boates e mais alguma coisa. Pela mesma fonte, fica-se sabendo que a União aqui arrecada mais de 900 milhões, mas que o município se contenta com uma sobra de 200 milhões e pouco e que 15 bancos guardam economias. Consta ainda que acontecem vários crimes e atropelamentos durante o ano. Muita gente também vai parar na cadeia ou no cemitério.
Nas rodas de conversa da Rua da Praia, vez por outra, vêm à baila os programas das pêerres locais e há quem, sanduíche na mão para enganar a fome, enforque o almoço no auditório da Farroupilha na Sete de Setembro, acompanhando as peripécias cômicas dos personagens do Drama do Futebol ou da Banca de Sapateiro, atrações a compor, junto com comentários e apresentações musicais, o Rádio Sequência.

Nas residências – casas e já numerosos apartamentos –, ocupam lugar central nas salas de estar receptores radiofônicos, de tamanho médio ou grande, todos valvulados e em suas caixas de madeira ou de baquelita. Alguns, mais sofisticados, aparecem conjugados a eletrolas, formando sólidas peças do mobiliário urbano. Outros trazem no dial as identificações das grandes emissoras do país, na época de fácil captação fora de suas regiões de origem. São aparelhos robustos de indústrias com sede nos Estados Unidos ou em países da Europa – General Electric, Philco, Phillips, RCA Victor, Siemens, Telefunken, Westinghouse, Zenith... –, mas muitos já vêm com a marca Semp, sigla de sonoridade estrangeira para os equipamentos da nacional Sociedade Eletro Mercantil Paulista. Através deles, o espetáculo radiofônico chega a milhares de pessoas, oferecendo entretenimento e mobilizando a audiência em torno de intérpretes, instrumentistas, grupos vocais, humoristas, atores, atrizes, animadores.

Constituindo-se em uma das principais fontes de entretenimento, o espetáculo radiofônico seduz a imaginação do ouvinte e vai construindo ídolos. Comuns desde meados dos anos 1930, apresentações de grandes astros e estrelas da música brasileira, promovidas por emissoras locais, atraem, até o início da década, a atenção de parcela significativa de ouvintes. É o que acontece, por exemplo, quando Francisco Alves, o Rei da Voz, apresenta-se, em janeiro de 1950, lançando Marcha dos Brotinhos e Chimango, duas marchinhas para o carnaval daquele ano. A cada audição organizada e transmitida, então, pela PRH-2 – Rádio Farroupilha, “a mais poderosa”, Chico Viola enfrenta o assédio dos fãs.

Francisco Alves na Rádio Farroupilha (janeiro de 1950)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 22, n. 501, p. 24, 4 fev. 1950.

É o caso também da apresentação promovida pela PRC-2 – Rádio Gaúcha, “a pioneira”, em novembro de 1950, comemorando a inauguração de suas novas instalações no Edifício União. No auditório Araújo Viana, em plena Praça da Matriz, Edu da Gaita, Emilinha Borba, Marlene, Quatro Ases e um Coringa, Orlando Silva e Silvino Neto apresentam-se para um público estimado na época em 50 mil pessoas.

Emilinha Borba na Rádio Gaúcha (novembro de 1950)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 23, n. 533, p. 80, 28 abr. 1951.

Espetáculos semelhantes ganham os palcos de emissoras, cinemas e teatros também das grandes cidades do interior do Rio Grande do Sul. Alguns exemplos podem ser citados. Pelo auditório e pelos estúdios da Rádio Caxias, passam, entre outros, artistas como Emilinha Borba, Ivon Curi, Linda Batista, Leni Eversong, Marlene e Nelson Gonçalves, todos patrocinados pelo crescimento econômico da Serra. No Planalto Médio, outra das Emissoras Reunidas, a Passo Fundo, faz o mesmo, trazendo, além de alguns destes, Cauby Peixoto, Alvarenga e Ranchinho... No auditório da Rádio Pelotense, na Zona Sul, cantam Ângela Maria, Carlos Galhardo e Francisco Alves. Já a Cultura Rio-grandina contrata, em 1956, Nora Ney para apresentações na praça Tamandaré e na boate Veterana, em Rio Grande. Nos estúdios da emissora, a cantora deixa gravado um acetato com a marchinha carnavalesca Brotinho, composta por um músico local, o saxofonista Oscar Geraldo, da orquestra do maestro Luiz Nelson Piragine.

Em Porto Alegre, ao longo da década, este tipo de audição isolada transfere-se para os programas de auditório, de grande impacto junto ao público, em especial após o sucesso de Tômbola Musical, na Farroupilha, em 1955. Humoristas como Pinguinho e Walter Broda, na PRH-2, e Carlos Nobre, na PRC-2, também fazem a alegria dos ouvintes. O público feminino, por sua vez, deixa-se levar, capítulo após capítulo, pelas novelas de conteúdo predominantemente romântico apresentadas em diversos horários e em todos os turnos da programação. O espetáculo radiofônico, de cunho mais popular, da Farroupilha e da Gaúcha ganha, no entanto, em 1957, uma contraparte voltada à elite no trabalho do Conjunto de Radioteatro e do Departamento de Produção de Programas da Rádio Guaíba. Também no interior, respeitadas as possibilidades de cada região, as emissoras dão oportunidade a talentos locais, muitos deles logo aproveitados nas estações da capital, como os animadores e atores Ary Rêgo e Salimen Júnior, ambos com passagens pela Cultura e pela Pelotense, de Pelotas, ou a cantora e rainha do rádio de 1957, Maria Helena Andrade, surgida na Minuano, de Rio Grande.

Cabe lembrar, ainda, o papel desempenhado pelos músicos – instrumentistas e cantores –, contratados fixos em rádios de porte como a Farroupilha e a Gaúcha e responsáveis pela execução, ao vivo, de trilhas e números, em arranjos muitas vezes desenvolvidos pelos próprios maestros das emissoras. Na PRH-2, por exemplo, o diretor musical Salvador Campanella, com base na programação mensal da estação dos Associados, define a forma de execução das canções, estabelecendo, ainda, a rotina de apresentações da Grande Orquestra Farroupilha e dos demais conjuntos musicais da rádio.

Quando, na virada para a década de 1960, os receptores de rádio ganham portabilidade transistorizada e começam a perder para o televisor o seu lugar na sala dos gaúchos, há uma sensação tênue de que, também, devem se alterar os rumos da programação. Abrem-se espaços, então, para o esporte e, com menor intensidade, para o noticiário. O exemplo mais marcante disto é o que ocorre na Rádio Gaúcha após Maurício Sobrinho assumir a direção da emissora. Enquanto João Aveline cuida de aprimorar o Departamento de Notícias, colocando jornalistas na apuração e redação das informações, Ary dos Santos monta uma equipe esportiva em condições de competir no mercado de Porto Alegre. A valorização das transmissões de jogos de futebol pode ser atestada pelo folheto que a PRC-2 faz publicar em 1962 encartado na Revista do Globo. Quase a indicar novos tempos, os artistas do espetáculo radiofônico, mesmo que mantendo um maior destaque, já dividem o espaço com narradores, repórteres e comentaristas.

Folheto publicitário da Rádio Gaúcha (1962)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 36, n. 821, 26 maio 1962. Encarte.
A Rádio Gaúcha, a Cirei S.A. e o governo Vargas
2013
Luiz Artur Ferraretto

“A maior transação comercial em matéria de rádio de que se tem conhecimento no sul do país.” Assim, um texto de nítido caráter publicitário define, em outubro de 1951, na Revista do Globo, a transação em que a PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha passa para o controle da Comercial, Industrial, Representações, Exportações e Importações S.A. (Cirei) e na qual, comenta-se, há o dedo de João Belchior Marques Goulart, o Jango, então deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro. O poder econômico da composição acionária restante pode ser atestado pelo valor total do negócio: Cr$ 15 milhões (15 milhões de cruzeiros, a moeda da época), uma pequena fortuna. Deste modo, os herdeiros de Arthur Pizzoli, falecido em 1949, cedem sua participação na sociedade, permanecendo na empresa apenas Breno Martins Futuro, um dos genros do empresário. Como pivô das relações econômicas e políticas que vão se estabelecer a partir daí, está o novo presidente da PRC-2, Sylvio Mottola, também diretor da Cirei e um getulista convicto, de livre trânsito no Palácio do Catete, a então sede do Poder Executivo na capital federal, o Rio de Janeiro.

Antes da negociação, na virada da década, a Gaúcha já vinha enfrentando bem a sua principal concorrente, a Farroupilha, de onde o diretor artístico da PRC-2, Cândido Norberto Santos, contrata Walter Ferreira e Adroaldo Guerra. Em 1948, o trio divide os papéis principais de Os Três Homens Maus, novela de Raymundo Lopes, que faz grande sucesso junto ao público. De segunda a sexta, das 20 às 21h, outro trunfo da emissora, no final dos anos 40, é o programa Tapete Mágico, dividido em três partes: um capítulo diário de novela com meia hora de duração; o comentário Pensando em Voz Alta, apresentando as opiniões do próprio Cândido; e o humorístico Corta Tesourinha, no qual um alfaiate de origem alemã conversa com amigos e fregueses, em uma crítica social sempre marcada pelo bordão que dá nome à atração e serve para interromper as opiniões satíricas mais fortes. A PRC-2 investe, ainda, em uma área pouco explorada pela Farroupilha: as transmissões de futebol, graças ao patrocínio exclusivo da Cervejaria Brahma, que, em 1946, havia se instalado no estado, após comprar uma das principais empresas do setor no Rio Grande do Sul – a Continental.

Desde 1950, a Gaúcha possui também as melhores instalações para radiodifusão do estado. A emissora inaugurara, no 11° andar do Edifício União, um auditório com 660 m² e 237 lugares. Seguindo um cuidadoso projeto do engenheiro Homero Carlos Simon, superfícies poliédricas e um revestimento em celotex acústico garantem uma qualidade sonora nunca antes verificada na capital. As novas instalações incluem salas de locução, controle técnico e ensaios, além de abrigarem a redação e o Departamento Comercial. Um pouco antes, a PRC-2 comemora um feito em termos de audiência. Ouvindo 600 famílias, distribuídas igualmente entre as classes A, B e C, o Anuário de Rádio, da revista Publicidade e Negócios, do Rio de Janeiro, registra a liderança da emissora em Porto Alegre: 37,3% dos ouvintes contra 33,3% da Farroupilha.

É possível supor, por estes motivos, que os envolvidos na transação realizada em 1951 tinham consciência do potencial da Gaúcha frente à Farroupilha. Em especial, isto fica claro ao se observar que a concorrente servia, por sua vez, de instrumento na defesa dos interesses de Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários e Emissoras Associados e forte opositor de Getúlio Vargas, o presidente da República então a ponto de completar o primeiro ano do seu mandato.

Os donos da Cirei, de sua parte, veem no negócio a possibilidade de enfrentar uma série de denúncias publicadas pela imprensa do centro do país – em especial, pelo Diário Carioca, do Rio de Janeiro –, envolvendo a importação de automóveis e caminhões Dodge. Ottoni Câmara Arregui, um dos sócios minoritários e, por coincidência, advogado responsável pelo inventário de Arthur Foltran de Pizzoli, convence Otto Hazelof, idealizador e controlador da empresa, a participar da transação. Para comandar a Gaúcha, escolhem outro diretor da Cirei, Sylvio Mottola, amigo de Getúlio Vargas e, por extensão, próximo também do então deputado federal João Goulart. A família de Mottola tem, ainda, fortes laços com Oswaldo Aranha, que, em 1953, volta a ocupar o Ministério da Fazenda, por onde passara nos anos 1930.

Sylvio Mottola, presidente da Rádio Gaúcha (1951)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 23, n. 545, p. 86, 13 out. 1951.

Deste modo, através do novo presidente da PRC-2, entram em cena, mais diretamente, os interesses dos trabalhistas. Fernando Mottola, filho do ex-diretor da Cirei, explica como ocorreu a inserção da Gaúcha na esfera de influência do governo:

[...] houve um momento [...], quando o Getúlio voltou para o segundo governo, eleito, em que o grupo que cercava o presidente, especialmente o Jango, achava importante ter uma rádio no Sul para difundir as ideias do governo e dar sustentação ao governo. Isso foi o que gerou a compra da Rádio Gaúcha. Quando souberam que a Gaúcha estava para ser vendida, eles compraram a rádio com essa finalidade. O pai foi não o intermediário, mas o homem escolhido para dirigir esse empreendimento. Foi quem articulou a negociação e assumiu a compra, porque, na verdade, ele não iria pagar o negócio. O dinheiro era providenciado por esse grupo.
Antes do negócio, Breno Futuro dividia o controle da empresa com a viúva e os outros dois genros de Arthur Pizzoli e buscava um empréstimo para adquirir as cotas dos demais sócios. O então deputado federal João Goulart faz o primeiro contato em uma visita a Mostardas, no litoral do Rio Grande do Sul, município governado pelo PTB e cujo prefeito, Dario Futuro, é irmão de Breno. Na evolução das tratativas, ingressa a Cirei S.A.. Para efetivar a negociação, uma parte do dinheiro – Cr$ 3 milhões – vem de um empréstimo do Banco da Província. Breno Futuro conta como o restante – Cr$ 15 milhões – foi obtido junto ao Banco do Brasil:

A Cirei assumiu a responsabilidade daqueles títulos no Banco da Província. Eu, que não ia me desfazer da minha parte, já estava entrosado com eles e fui enviado ao Rio de Janeiro. O Jango me pediu que entrasse em contato com o doutor Getúlio Vargas, então presidente da República, para justificar um empréstimo no Banco do Brasil a fim de adquirir as cotas da Rádio Gaúcha. No Rio, procurei o Jango na Câmara dos Deputados. Ele me disse para ir para Petrópolis, onde o doutor Getúlio estava despachando. O encontro já tinha sido agendado com o doutor Getúlio pelo Jango. Conversar com o doutor Getúlio era só para ele tomar ciência do que estávamos fazendo. [...] Prontamente, ele autorizou a transação. Levantamos este dinheiro e foi efetivado o negócio.
Na época, proximidade com o governo significa, também, proximidade com a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, emissora encampada por ordem do mesmo Getúlio Vargas nos tempos do Estado Novo. Como consequência, artistas do elenco da principal estação brasileira passam a frequentar a programação da Gaúcha. Graças ao livre trânsito no governo federal, a Gaúcha obtém, no Ministério da Viação e Obras Públicas, a concessão de canais de ondas curtas e a autorização para ampliar sua potência para 10 kW. Em julho de 1952, quando a PRC-2 aumenta a abrangência do seu sinal, irradiando nas faixas de 31 e 49 metros, uma caravana da Nacional, comandada pelo diretor artístico da emissora carioca, Edmundo Souza, vem a Porto Alegre, trazendo, entre outros, Francisco Alves, um dos mais populares cantores do país.

Em 1954, no auge desta situação de proximidade com o trabalhismo, a Rádio Sociedade Gaúcha conta com um elenco de radioteatro com 36 profissionais e uma orquestra com 18 músicos. A emissora possui, ainda, 60 mil discos, além de equipamentos de frequência modulada para transmissões externas. Quando, no dia 24 de agosto, irrompe a fúria popular após o suicídio do presidente, a PRC-2, repetindo incessantemente a carta-testamento, é poupada pela multidão, enquanto as instalações da Farroupilha são destruídas. Naquele momento, parece que a Gaúcha tem plenas condições de dominar o mercado. Ocorre que, no dia seguinte ao suicídio de Getúlio Vargas, o PTB rompe com o novo presidente da República, João Café Filho, do Partido Social Progressista, decidindo fazer oposição ao novo governo por considerá-lo reacionário e inimigo dos trabalhadores. A partir de então, falta o apoio oficial e começam as dificuldades para o resgate dos títulos junto ao Banco do Brasil.

Um dos últimos lances do que havia sido planejado inicialmente por uma parte dos sócios ocorre em 30 de outubro de 1956, quando é constituída a Indústria de Veículos Automotores Cirei S.A. (Ivacirei), tendo Ottoni Câmara Arregui na direção e pretendendo instalar no Rio Grande do Sul uma fábrica com capacidade para produzir 30 mil veículos. O acordo com a empresa francesa Régie Nationale des Usines, a Renault, acaba, tempos depois, sendo cancelado, sepultando os planos dos pioneiros da indústria automobilística do estado. Como consequência, com a reversão dos interesses políticos e econômicos envolvidos na origem do negócio, os sócios vão vender a Gaúcha, em meados de 1957, para o grupo integrado por Arnaldo Ballvé, Frederico Arnaldo Ballvé, Maurício Sirotsky Sobrinho e Nestor Rizzo.
J. Antônio D’Ávila: um pernambucano revoluciona o rádio gaúcho
2005
Luiz Artur Ferraretto

J. Antônio D’Ávila, diretor artístico da Rádio Farroupilha (1952)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 29 jul. 1952. p. 8.

Em meados de 1952, ganhando Cr$ 63 mil, o maior salário do rádio do Rio Grande do Sul, o pernambucano Jesuíno Antônio D’Ávila assume a direção artística da Farroupilha de Porto Alegre. De início, procura identificar as potencialidades do elenco da PRH-2. A partir daí, promove uma revolução nas pêerres locais, até aquele momento fortemente influenciadas pelas transmissões das emissoras de Buenos Aires, de fácil captação em Porto Alegre. A compartimentalização dos programas das estações portenhas de matriz europeia dá lugar, assim, ao ecletismo, que já faz sucesso em São Paulo e no Rio de Janeiro, baseado, por sua vez, em modelos radiofônicos dos Estados Unidos. Fugindo ao hermetismo, mistura, em alguns horários, apresentações musicais, humor, dramatizações e o que for necessário para chamar a atenção do público.

Um dos exemplos desta mudança de enfoque é o Rádio Sequência, que unifica por meio de um locutor-apresentador as várias atrações levadas ao ar, até aquele momento, das 11h30 às 13h. D’Ávila implementa o Auditório Associado, espaço de excelência do espetáculo radiofônico dentro deste novo enfoque introduzido por ele. Por ali, vão passar atrações que, por vezes, alteram a rotina de almoço de dezenas de porto-alegrenses. São exemplos os humorísticos Escola da Dona Rita, Drama do Futebol e Banca de Sapateiro, além do comentário Dois Dedos de Prosa, de Manoel Braga Gastal. Em temporada na capital gaúcha, os artistas do elenco das rádios Tupi, de São Paulo e do Rio de Janeiro, começam a se dividir entre as apresentações à noite, horário nobre da programação, e breves participações no Rádio Sequência, uma servindo para chamar a outra.

Ao chegar, D’Ávila identifica uma carência local: à exceção de Ary Rêgo, do programa infantil de calouros Clube do Guri, faltam animadores. Em um primeiro momento, improvisa na função o ator e diretor de radioteatro Ernani Behs, que estreia em 8 de agosto de 1952 o Pare a Música, atração inspirada no Stop the Music, grande sucesso do rádio dos Estados Unidos. Um ano depois, contrata aquele que vai se tornar um dos mais populares animadores da história do rádio do Rio Grande do Sul. Começando pelo Pare a Música, Maurício Sobrinho destaca-se, a partir de então, em atrações como Calouros Coringa, de 1954, em que aspirantes a cantor disputam diversos prêmios todos os domingos, das 21 às 22h30; Tômbola Musical, de 1954 e 1955, aos sábados à tarde, com o refrigerante Coca-Cola patrocinando apresentações de astros e estrelas como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dircinha Batista e Emilinha Borba; e o Programa Maurício Sobrinho, na mesma faixa da atração anterior e consagrando na sua denominação a popularidade já conquistada pelo apresentador.

Valorizando os profissionais do estado, D’Ávila consegue, também, convencer a direção nacional dos Associados a não utilizar em Porto Alegre produções gravadas no centro do país. Atende, deste modo, um anseio do público que, em 1952, envia dezenas de cartas reclamando da apresentação da radionovela O Direito de Nascer em versão gravada no centro do país e já transmitida pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro.

Quando J. Antônio D’Ávila transfere-se para a Tupi, do Rio de Janeiro, em 1954, deixa, assim, uma estação modernizada com faturamento médio de Cr$ 1,5 milhão, fazendo valer o salário mensal pago a ele pelos Diários e Emissoras Associados, equivalente, na época, a 52 mínimos.
O impacto do suicídio de Getúlio Vargas no rádio do Rio Grande do Sul
2013
Luiz Artur Ferraretto

Incêndio do prédio da Rádio Farroupilha (24 de agosto de 1954)
Fonte: Manchete, Rio de Janeiro, ano 3, n. 124, p. 10, 4 set. 1954.

Durante muitos anos, o então locutor em início de carreira Enio Rockembach vai lembrar-se daquela cena da manhã do dia 24 de agosto de 1954. Pesados discos de acetato – os bolachões com músicas e programas da Rádio Farroupilha – sendo jogados do casarão da emissora, nos altos do viaduto Otávio Rocha, ganhando os ares sobre o cruzamento das avenidas Duque de Caxias e Borges de Medeiros para despedaçarem a história da principal estação do Rio Grande do Sul. Como a Farroupilha, que se estima tivesse a maior audiência na época, concentrou tanta fúria da população após o suicídio do presidente da República, Getúlio Vargas? Para responder esta pergunta, é preciso compreender a relação entre política e radiodifusão e, como consequência desta, analisar as posições manifestadas por alguns profissionais.
De fato, a defesa intransigente do grande capital e da presença do investimento estrangeiro, além de um feroz anticomunismo, marcam a trajetória de Assis Chateaubriand, o todo-poderoso proprietário dos Diários e Emissoras Associados. No plano partidário, opiniões semelhantes são compartilhadas, na época, pela União Democrática Nacional (UDN), pelo Partido Libertador (PL) e mesmo por setores do Partido Social Democrático (PSD), uma das bases de sustentação do governo federal. A política de Vargas, em sentido contrário, trilha o caminho do nacionalismo e do estatismo, com o apoio, em especial, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Ex-advogado de grandes grupos estrangeiros como a Brazilian Traction Light and Power Company Limited e a Itabira Iron Ore Company Limited, Chatô vê no capital externo um incentivo ao desenvolvimento do país, tendo, por exemplo, realizado campanha, no final dos anos 1920, para que a Ford se instalasse na Amazônia e explorasse, em larga escala, a borracha produzida a partir do látex extraído dos seringais. Anticomunista, em 1935 defende em seus jornais o fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ALN), a coalizão que pretendia lutar contra o fascismo, o imperialismo, o latifúndio e a pobreza.

Sob esta orientação devem ser entendidas várias das posições difundidas pelos Associados naquele mês de agosto de 1954, no Rio Grande do Sul. Um ano antes, fora do controle direto da empresa, mas patrocinado pela Standard Oil Company of Brazil e com notícias da United Press, a edição do Repórter Esso, veiculada pela Rádio Farroupilha, ignora, por exemplo, o grande debate nacional que levaria à criação da Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras), em outubro de 1953. Em paralelo, Chateaubriand, em seus artigos, argumenta, então, que o lema “O petróleo é nosso” não passa de “um chavão soviético” e as teses nacionalistas sobre a exploração dos recursos minerais do país são “coisa de comunistas”.

Outras medidas protecionistas do governo contra o capital estrangeiro, igualmente, motivam críticas da oposição e ganham espaço nos veículos do Associados. Em janeiro de 1952, Vargas impõe um limite de 10% para a remessa de lucros das empresas estrangeiras. No ano anterior, com a taxa de câmbio brasileira supervalorizada, a quantia enviada às matrizes destas companhias saltara de US$ 83 milhões para US$ 137 milhões. Se estas medidas de cunho nacionalista irritam o grande capital internacional, o mesmo acontece com sua contraparte local. O empresariado brasileiro mobiliza-se, por exemplo, contra o reajuste de 100% no valor do salário mínimo, anunciado pelo presidente da República em 1° de maio de 1954.

O engajamento de Chateaubriand cresce quando Carlos Lacerda, proprietário do jornal Tribuna de Imprensa, do Rio de Janeiro, começa uma verdadeira guerra de denúncias. O primeiro alvo é o diário Última Hora, de Samuel Wainer, alinhado com o governo e criado com base em empréstimo junto ao Banco do Brasil. O proprietário dos Associados abre o microfone e as câmeras das TVs Tupi, do Rio de Janeiro e de São Paulo, para os cáusticos comentários do jornalista, que relaciona Wainer a Vargas, denunciando um esquema de corrupção a partir do Palácio do Catete. Com o atentado da rua Toneleros, em que o major Rubens Florentino Vaz, um guarda-costas de Lacerda, é morto, acirra-se a crise que levará ao suicídio do presidente da República.

Sem a veemência de Carlos Lacerda, que beira, por vezes, a deselegância, e conquistando o respeito, inclusive, de seus adversários, o advogado e jornalista Manoel Braga Gastal redige diariamente, em Porto Alegre, fortes críticas ao governo federal, veiculadas no comentário Dois Dedos de Prosa, às 12h45, na Rádio Farroupilha. Admirador do parlamentarista Raul Pilla, que havia fundado o Partido Libertador, Gastal exerce, naquele momento, um mandato como vereador pelo PL em Porto Alegre. Lidos pelo próprio radialista ou por um locutor, os textos seguem à risca a orientação partidária. Defendem um Estado que, no campo econômico, orientaria, estimularia e assistiria a produção, interferindo somente quando necessário ao bem comum e não concorrendo com a iniciativa privada. Nesta linha, o capital estrangeiro deveria receber o mesmo tratamento legal, fiscal e administrativo dispensado ao capital nacional.

Neste 24 de agosto de 1954, a indignação dos partidários do presidente vai crescer porque a Farroupilha, ao contrário de suas concorrentes, mantém a sua programação normal. Enquanto os getulistas choram o suicídio do presidente, a emissora dos Associados segue com as músicas e a radionovela da manhã, interrompidas, vez por outra, por alguma edição noticiosa extraordinária.

Mesmo assim, aquela madrugada tinha sido de muito trabalho para Segundo Brasileiro Reis, do Departamento de Notícias da PRH-2. Conforme o jornalista, por volta das 3h, o diretor-geral dos Diários Associados no Rio Grande do Sul, Moacir Nobre, entra porta adentro da casa do jornalista, dizendo:

– Vamos colocar a Farroupilha no ar. A coisa está preta no Rio de Janeiro.

Na sequência, a emissora, que interrompia suas transmissões à meia-noite, volta ao ar com o próprio Moacir Nobre assumindo o controle das operações técnicas, enquanto Reis faz a escuta das rádios do Rio de Janeiro. Com a informação de que Getúlio Vargas vai se licenciar do cargo, os trabalhos são interrompidos às 5h. Um pouco depois, o telegrafista responsável pela decodificação do material da United Press para a edição local do Repórter Esso recebe uma mensagem:

– Preveem-se, para o dia de hoje, acontecimentos extraordinários na capital da República. Alertamos os companheiros para que fiquem atentos ao que pode acontecer.

O boletim lido por Lauro Hagemann às 8h não traz, no entanto, informações mais importantes do que as da madrugada. Pouco depois, a escuta da emissora capta uma edição extraordinária do Esso, da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, com um Heron Domingues de voz embargada ao microfone:

– E atenção, atenção. Rio, urgente. O presidente Getúlio Vargas acaba de suicidar-se com um tiro no coração. Junto ao seu corpo foi encontrado um bilhete: “À sanha dos meus inimigos, deixo o legado da minha morte”. E atenção que vamos repetir a notícia...

Lauro Hagemann
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 3 de agosto de 1999.

Como lembraria anos depois o jornalista Flávio Alcaraz Gomes, na praça da Alfândega e na rua da Praia, pontos tradicionais do centro de Porto Alegre, as pessoas começam a gritar:

– Mataram o doutor Getúlio. Foram eles! Vamos incendiar o Diário de Notícias e a Rádio Farroupilha.

Mesmo já tendo dado a notícia, a PRH-2 continua com sua programação normal, majoritariamente dedicada ao entretenimento. A Gaúcha, por sua vez, “única emissora que imediatamente guardou luto pela morte de Getúlio Vargas”, altera sua programação e passa a transmitir música erudita, junto com a frequente repetição do texto da carta-testamento.

Por volta das 9h, um primeiro grupo de manifestantes tenta invadir o casarão onde funcionam a Difusora, no segundo andar, e a Farroupilha, no primeiro, mas é rechaçado. Móveis amontoam-se nas portas de acesso, como barricadas, a impedir o acesso dos getulistas. Para os lados da rua da Praia, as sedes dos partidos de oposição já ardem em chamas. Bem em frente à praça da Alfândega, o fogo consome o prédio do Diário de Notícias.

O elenco de radioteatro está pronto para iniciar a interpretação de mais um capítulo da novela das 10h, quando a multidão consegue, em uma segunda arremetida, invadir o prédio nos altos do viaduto Otávio Rocha. Vão entrando com galões de gasolina, logo utilizada para incendiar as instalações. Os funcionários conseguem escapar pelos fundos da velha casa. Um deles sai ferido no incidente, como vai registrar a Revista do Globo:

O radialista Gerson Borges, preso no interior do prédio ardente, fraturou a espinha numa dramática fuga das chamas. Atirou-se do segundo andar.
Também as instalações da Difusora e o auditório da Farroupilha na rua Siqueira Campos são atingidos pelo vandalismo. Ao final da tarde, da infraestrutura dos Diários e Emissoras Associados, na capital gaúcha, sobram apenas os transmissores das duas rádios, localizados a distância considerável do centro. A Farroupilha fica fora do ar por quase duas semanas. Do seu acervo, perdem-se para sempre 20 mil discos, gravações inéditas e 30 novelas completas. Na sequência, as dificuldades econômicas crescem e o pagamento dos salários na forma de vales intensifica-se até se tornar constante no dia a dia dos funcionários de Assis Chateaubriand.

Flávio Alcaraz Gomes (2005)
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter.
In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.

Em Porto Alegre, no total, o quebra-quebra atinge 40 prédios, com prejuízos estimados em Cr$ 100 milhões, segundo o deputado estadual do Partido Libertador, Mem de Sá. Os Associados, no entanto, pleiteiam para si uma indenização de Cr$ 120 milhões. A diferença de valores explica-se pela própria lógica aproveitadora de Chateaubriand, uma característica do seu perfil de capitão de indústria.

Na realidade, o impacto sobre a principal emissora de rádio do Rio Grande do Sul só não é maior, porque, sem o favorecimento governamental, começam a minguar as atrações da Gaúcha, que mergulha em dificuldades financeiras. A Farroupilha, no entanto, sofre sem o amparo do Diário de Notícias, que, no processo, além de parar de circular durante um período significativo, também perde credibilidade. Portanto, os dados disponíveis indicam certa retração no mercado de radiodifusão em Porto Alegre a partir de agosto de 1954.

Este quadro altera-se somente em 1957. De um lado, a Farroupilha vinha se recuperando, apostando, além das novelas e dos humorísticos, em programas de auditório de forte apelo popular. De outro, naquele ano, a Gaúcha passa ao controle de um grupo liderado por Arnaldo Ballvé, dono de várias estações de rádio no interior – as Emissoras Reunidas. Entre os seus sócios no empreendimento, está o principal animador de programas de auditório da época, Maurício Sirotsky Sobrinho, que desfalca o elenco dos Associados. Ocorrem, então, novos investimentos, impondo, no campo do espetáculo, dura concorrência à Farroupilha. Em paralelo, é inaugurada a Rádio Guaíba, da família Caldas, proprietária do principal diário do estado, o Correio do Povo. Então, a instalação – prevista para breve – de emissoras de TV no Rio Grande do Sul já começa a indicar o fim do espetáculo radiofônico e a necessidade de serem buscados novos caminhos para o veículo no Rio Grande do Sul.
Radionovelas: a açucarada luta entre o bem e o mal
2008
Luiz Artur Ferraretto

Na virada dos anos 1940 para os 50, em Porto Alegre, o sucesso de Os Três Homens Maus é tão grande que mesmo uma oficina mecânica, reduto masculino por excelência, ganha o nome desta grande atração da Gaúcha. O impacto pode ser medido, então, pelo simples fato de se tratar de uma radionovela, na época produção muito mais para o público feminino do que nos dias de hoje. Com Adroaldo Guerra, Cândido Norberto Santos e Walter Ferreira como os personagens-título, a trama de Raymundo Lopes traz o sofrimento da mocinha Lindinha, papel de Aida Terezinha, que se apaixona pelo galã interpretado por Cândido Norberto, nem tão mau assim, no desenrolar dos capítulos, a justificar o rumo habitual destas estórias: quem representa o mal ou é castigado ou se arrepende, tudo – claro – com doses significativas de voltas e reviravoltas, declarações mais ou menos açucaradas e um final feliz. A fórmula faz de Os Três Homens Maus o grande sucesso daquele ano de 1948. A radionovela, no entanto, está destinada a reinar, pelo menos, até a década de 1960, quando a sua versão com imagens ajuda a roubar público do rádio, estabelecendo a TV como veículo eletrônico predominante.

Walter Ferreira (1958)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 4, p. 23, mar. 1958.

Ernani Behs (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.

Paulo Ricardo, Wilson Fragoso e Salimen Júnior (1958)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 4, p. 1, jun. 1958.

Vão ser produções e produções a marcar o nome de galãs como Ernani Behs, Walter Ferreira e, mais tarde, Salimen Júnior, Paulo Ricardo e Wilson Fragoso, ou de suas contrapartes femininas, destacando-se, por anos, Aida Terezinha, uma das principais atrizes a desempenhar ingênuas e românticas protagonistas, papel que faz o sucesso também de Lídia Ilzuch. Há, ainda, o ecletismo de uma Marisa Fernanda, que, com talento, se alterna como mocinha e vilã, por exemplo como as gêmeas de comportamento antagônico de As Noivas Morrem no Mar, de Ivani Ribeiro, grande atração da Farroupilha nos anos 1950. Maria Ieda, por sua vez, interpreta a Isabel Cristina de uma das versões de O Direito de Nascer, do cubano Félix Caignet. Rosa Maria e Zaíra Acauan consagram-se como dama-galã, uma espécie de mocinha mais velha, função também desempenhada por Lolita Alves, que atua, ainda, como vilã. A maioria das produções é de autores do centro do país – Amaral Gurgel, Giuseppe Ghiaroni, Raymundo Lopes... –, mas alguns gaúchos produzem roteiros de novelas e/ou peças – Doroty Gallo, Maria de Lourdes Collares Abs, Maria Monteiro Paneraí, Roberto Lis, Zahyra de Albuquerque Petry... Nestas atrações da programação, a amarrar os diálogos, trabalham narradores como Enio Rockembach, Ronald Pinto e Euclides Prado, emprestando, com a voz, conforme as indicações do script e dos diretores, um tom mais épico, emocional ou saudosista.

Zaíra Acauan (1959)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 4, p. 22, dez. 1959.

Marisa Fernanda (1956)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 2, p. 13, fev. 1956.

No Rio Grande do Sul, as novelas, no entanto, começam mesmo, anos antes, em 1943, graças ao pioneirismo de Roberto Lis, que produz, na Difusora Porto-alegrense, para o Folhetim Sonoro da PRF-9, das noites de domingo, uma estória em capítulos – O Solar dos Alvarengas –, abordando a decadência de uma aristocrática família. Um pouco depois, no mesmo ano, a Farroupilha coloca no ar os capítulos gravados de Em Busca da Felicidade, do cubano Leandro Blanco, na adaptação de Gilberto Martins, irradiada, antes, pela Nacional, do Rio de Janeiro, e a primeira atração deste tipo no rádio brasileiro.

É a partir do trabalho de Cândido Norberto, diretor artístico da Gaúcha, que a novela começa a ampliar o seu espaço na programação radiofônica no Rio Grande do Sul, com a transmissão de capítulos tornando-se, por iniciativa deste profissional, diária. É como uma trama de segunda a sexta que a estória dos três homens maus interpretados por Adroaldo, Cândido e Walter vai cativar a atenção dos ouvintes naquele final de década há 60 anos.
O romance de uma empregadinha e um final feliz
2006
Luiz Artur Ferraretto

Candidato a escritor de radioteatro, José Fontes, na época dividindo-se entre o trabalho na Prefeitura de Canoas e alguns papéis em novelas e humorísticos de rádio, fica encantado, nos anos 1960, com o texto de O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, puro teatro do absurdo a denunciar o conformismo, expresso no animal pesado, de dura e cinzenta carapaça, no qual, um a um, os habitantes de uma pequena cidade transformam-se em sua passiva adaptação ao cotidiano. O radialista vai acabar, sem querer, deparando-se com uma situação semelhante à vivida pelo personagem principal da peça – Bérenger –, que se opõe à perda da dignidade do ser humano, exclamando a todo o momento: “Je ne capitule pas”. Em um primeiro momento, no entanto, o irônico argumento do teatrólogo franco-romeno parece ideal para uma tentativa de Fontes na produção de um roteiro:

– Teatro do absurdo, mas isto aqui está pronto para levar para o rádio... Vamos radiofonizar isto aqui, que vai ser um sucesso! Vai ser a minha consagração como autor de radioteatro!

Ideia em mente e, na mão, um calhamaço datilografado, Fontes consegue agendar um horário com Alberto Delgado Filho, diretor artístico da Rádio Farroupilha.

– Tu deixas aí o teu script, que vou encaminhar para o pessoal do Departamento de Radioteatro. Volta daqui a uma semana.

Sete dias depois, Fontes, dividido entre a ansiedade e o nervosismo, está sentado, novamente, em frente a Delgado Filho, de quem ouve elogios à qualidade do texto, fazendo o funcionário público e ator em início de carreira, que já se acredita quase um produtor de radioteatro, abrir um largo – e precipitado – sorriso.

– Pois este é o problema, Fontes. É bom... É bom demais! Tu voltas para casa. Põe este texto no lixo. Escreve outro de igual tamanho sobre o romance de uma empregadinha com o patrão, um romance impossível, em que ela tenha um filho, a mãe dela fique cega, sei lá... É por aí o radioteatro. Então, não me volta aqui com Ionesco que a gente não tem público para isto.

De fato, como negócio, o rádio espetáculo não é lugar para a personalidade de um Bérenger. Nas emissoras, já se convive então, há bastante tempo, com os imperativos da audiência. O pragmatismo desta situação serve para ilustrar uma constatação acadêmica de Miriam Goldfeder, no livro Por Trás das Ondas da Rádio Nacional. A respeito da radionovela, mais forte elemento da dramaturgia hertziana nos anos 1950 e 1960, ela observa:

[...] era preciso manter a atenção do ouvinte sem romper, no entanto, com o seu quadro geral de expectativas. 
O que deveria ser garantido, diariamente, era que os desvios acabariam sendo assimilados, que não ocorreriam grandes mudanças ou transformações. O espaço do final deveria ser garantido.
O happy-end surgiria então para sustentar o mito da possibilidade e quase inevitabilidade da vitória do bem sobre o mal; a garantia de que a ilusão seria mantida, a prova de que a felicidade é possível.

A novela exige uma rotina a ser seguida. Com roteiros produzidos, geralmente, por autores do centro do país, há a necessidade de adquirir os direitos sobre os textos, como relembraria um dos diretores de radioteatro da Farroupilha, Ernani Behs, em depoimento registrado no livro Bem Lembrado, de Mirna Spritzer e Raquel Grabauska:

[...] a gente pegava um trem aqui, viajava, cinco dias para chegar no Rio de Janeiro. (...).Então, eu comprava novelas. Era uma pilha. Imagina, 70, 80 capítulos. Para comprar a novela, tinha que ler, então levava para um hotelzinho de duas estrelas ou nenhuma e levava duas ou três novelas. Ficava lendo dia e noite, primeiro para ver o número de personagens que tinha, para ver se adaptava ao número de pessoas que tinha no nosso elenco, que tinha entre 12 e 15 pessoas.

Na sequência, os capítulos são submetidos à Censura Federal e, após aprovados, cabe ao diretor a distribuição dos papéis. Então, é a vez das datilógrafas que, em suas máquinas de escrever e com o auxílio de papel carbono ou de um mimeógrafo, tiram tantas cópias quanto o número de intérpretes, além daquelas destinadas à parte operacional. Com os scripts na mão e sob a condução atenta do diretor, ocorrem os ensaios. Atores e atrizes repassam o texto e têm sua interpretação corrigida. No entanto, em meio à rotina de oito ou nove novelas diferentes irradiadas a cada dia, os ensaios não chegam a ser tão frequentes quanto o necessário. Chegam a ocorrer, mesmo, um pouco antes da transmissão. Interpretados ao microfone, mexem com o imaginário dos ouvintes, recriando, sensorialmente, cenas e situações. Oferecem, assim, uma fuga momentânea à realidade, base de um entretenimento mais simples nas tramas românticas ou mais elaborado nas radiofonizações de clássicos da literatura. A respeito, são significativas estas observações de Jayme Copstein a descrever uma parte – por tudo isto, significativa – da produção das emissoras do Rio Grande do Sul e de uma época no universo urbano gaúcho:

À noite, tudo era silêncio de deserto, quebrado apenas por passos perdidos, assobios solitários e vozes macias que saíam do receptor de rádio. Na pensão onde eu morava, uma menininha, ainda mudando os dentes e colecionando estampas do sabonete Eucalol, tinha perguntas irrespondíveis: aquela gente que falava no rádio era de verdade? 
Dona Rosa, a mãe, viúva jovem, entortando a coluna na máquina de costura para encaminhá-la com honestidade, polemizava: 
– Pra dizer “meu amor”, só o Walter Ferreira. O Ernani Behs também fala gostoso, mas, para mim “meu amor”, só o Walter. 
Eu não achava respostas para a menininha nem tinha coragem de dizer para dona Rosa que as frases que lhe soavam tão bonitas, tinha sido alguém como eu que as havias escrito, algumas vezes mecanicamente, outras vezes até com alheamento. Aí terminava a irreverência. As emoções que despertavam nos faziam ver que a nós cabia tanger as cordas de um instrumento misterioso para que as pessoas construíssem um mundo dentro de si mesmas. Bastavam alguns pássaros, a referência a alguma flor, ao seu aroma, e dona Rosa costureira emergia da coluna dobrada sobre a Singer comprada em prestações intermináveis, para mergulhar no jardim dos seus sonhos, onde ela e o marido ressuscitado, de mãos dadas, olhavam a menininha, já com todas as suas respostas, jogando amarelinha no tosco desenho do chão.

Como afirma Copstein, com propriedade, ao fim desta descrição: “O radioteatro era isso”, roteiros simples a excitar a sensorialidade e – nas vozes, trilhas e efeitos – a encaminhar o ouvinte a um mundo imaginário, de puro enlevo e entretenimento.
Ary Rêgo e o Clube do Guri
2007
Luiz Artur Ferraretto

Ary Rêgo e Elis Regina no Clube do Guri (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de Ary Rêgo.

Neste 20 de setembro, feriado farroupilha no Rio Grande do Sul, a chuva que caía em Porto Alegre emoldurou a tristeza das crianças da década de 1950. Morreu Ary Rêgo, o apresentador do mais popular programa infantil de auditório do rádio gaúcho. Morreu o homem do Clube do Guri, aquele que apresentou ao mundo, entre outros tantos artistas, a maior cantora da história do Brasil, Elis Regina. Tinha 89 anos e não perdera certo jeito de lorde inglês, daqueles do imaginário da gente, não os austeros e esnobes da realidade. Era algo que trazia consigo, ex-funcionário de um frigorífico britânico, ainda nos tempos de Pelotas e Rio Grande, antes dos microfones da capital. O inglês apreendido no trabalho e o jeitão sereno renderiam a Ary Rêgo também vários papéis, qualquer um em que fosse necessário certo acento anglo-saxônico. Mas o brilho mesmo era o dos finais de semana da PRH-2 – Rádio Farroupilha.

Então tu, criança de cinco décadas atrás, respira fundo e lê com calma. São, de novo, 10h da manhã de um domingo perdido da década de 1950 e, até às 11h, em uma estimativa algo modesta do próprio Ary Rêgo, pelo menos 35% dos receptores de rádio vão estar sintonizados no que acontece no Auditório Associado, palco para pouco mais de uma dezena de apresentações artísticas infantis, que ocorrem neste horário. Ouve-se mais uma vez a melodia de I’m Looking Over a Four Leaf Clover, de Harry Woods, que, com letra de Mort Dixon, foi pensada como fox-trot norte-americano, mas, no Brasil, transformou-se na marchinha Trevo de Quatro Folhas, de Nilo Sérgio. Para ti, ouvinte gaúcho destes tempos, no entanto, vale mesmo uma versão um tanto diferente que serve de abertura a este Clube do Guri, escrita pelo próprio animador do programa:

– Felizes crianças/ vivemos cantando/ um canto alegre e bom./ A juventude é assim mesmo,/ tudo alegria e sonho sem fim./ Cantando, vivemos a nossa vida./ Tristeza não conhecemos./ E, todo domingo,/ estamos aqui/ no Clube do Guri...

Ary Rêgo revive o programa Clube do Guri (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.

À vista do público, que lota as dependências da Rádio Farroupilha, talvez tu entre eles, criança do passado, já está, então, Ary Rêgo. Com a sobriedade que lhe é peculiar – algo da fleuma britânica –, o animador anuncia:

– Diretamente do palco-auditório da rua Siqueira Campos, a Rádio Farroupilha passa a apresentar mais uma audição do programa preferido pela garotada gaúcha, o Clube do Guri. Temos aqui, como sempre, os nossos doze participantes – dez cantores, dois instrumentistas, temos o nosso velho e dedicado companheiro Ruy Silva ao piano, temos o conjunto regional de Vítor Abarno e a Elis Regina Costa é a secretária do programa nesta manhã.

Auditório Associado durante o Clube do Guri (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de Ary Rêgo.

De junho de 1950 a julho de 1966, o Clube do Guri, programa de auditório baseado em números artísticos de crianças e jovens na faixa dos cinco aos 15 anos, consolida-se como a principal atração deste tipo na radiofonia do Rio Grande do Sul. Lembras bem, não é? E do gosto do Guri Vitaminado, o achocolatado da Ernesto Neugebauer S.A. – Indústrias Reunidas, patrocinadora do programa? O cheirinho de chocolate da lata recém-aberta, um volante amarelo – “Guri Neugebauer. Rico em vitaminas. Sabor agradável. Nutritivo. Estimulante.” – para concorrer a prêmios e assinado pelo próprio seu Ernesto? Talvez tenhas algum guardado, servindo de marcador em um velho livro ou dentro de uma caixa em meio às fotos da infância, junto com algumas figurinhas de um álbum antigo ou um gibi amarelado da Rio Gráfica ou da Editora Brasil-América. Talvez tenhas mesmo participado dos ensaios das tardes de sábado e ganho a oportunidade de se apresentar no programa. Foste chegando, levado pelos pais, com um instrumento musical ou uns versos para declamação ou, como a maioria, a letra decorada de uma canção da moda... Podem ter sido até uns passos ensaiados de dança.

Cupom do achocolatado Guri Vitaminado (anos 1950)
Fonte: Acervo particular.

Ao piano, Ruy Silva, de apurada habilidade musical, faz, de novo, o acompanhamento dos candidatos – de 30 a 40 por tarde para preencher pouco mais de uma dezena de números do programa –, compensando os desvios de tom, naturais em vozes sem estudo e/ou não totalmente definidas. Com o tempo, uns vão se tornar permanentes, integrando quatro grupos que se alternam a cada manhã de domingo, outros se transformam nas secretárias ou nos secretários do Clube do Guri, espécie de coadjuvantes do animador, conduzindo até o palco quem vai se apresentar, ajustando microfones, lendo a nominata de aniversariantes, dando recados, distribuindo brindes – os produtos Neugebauer – e acompanhando as excursões do programa ao interior. Os ouvintes, por sua vez, enviam cartas, tornando-se sócios do Clube. Lembra-se de quando ouviste o teu nome lido ao microfone?

Foi o responsável por tudo isto que o rádio perdeu nesta quinta-feira, um feriado feio, de chuva em Porto Alegre, parecendo chorar junto contigo, criança dos anos 1950. Foi a lembrança de Ary Rêgo, que te fez voltar à infância. Bons tempos aqueles, não?

Ary Rêgo
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 29 de julho de 1999.
Programa Maurício Sobrinho, um auditório na pré-história da RBS
2008
Luiz Artur Ferraretto

Caricatura de Maurício Sobrinho (final dos anos 50)
Produzida por Renato Canini para a Revista TV, publicação especializada que circulou , no Rio Grande do Sul, de novembro de 1954 a novembro de 1960.
Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.

Às 14h do sábado, dia 9 de junho de 1956, torna-se realidade “o big lançamento da PRH-2”, como não cansa de registrar, há semanas, o jornal Diário de Notícias, aproveitando-se de uma gíria da época. É a estreia do Programa Maurício Sobrinho. Para a principal aposta da Rádio Farroupilha daquele ano, o diretor artístico da emissora, Ruy Rezende, escala brincadeiras, concursos de prêmios, números humorísticos e traz Sivuca, “o diabo loiro do acordeom”, e Léo Romano, que faz sucesso, então, cantando Os Pobres de Paris, versão em português de La Goulante du Pauvre Jean, de Marguerite Monnot e René Rouzaud, originalmente gravada por Edith Piaf. Rapidamente, nos dias anteriores, as entradas, vendidas a Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros, a moeda da época) nas lojas Rainha das Noivas e Norma, esgotam-se, garantindo grandes filas em frente ao cinema desde o final da manhã e reprisando um grande sucesso de 1955 comandado também pelo radialista Maurício Sobrinho.

Na primeira metade da década, para promover o refrigerante Coca-Cola, o Departamento de Rádio da agência de publicidade McCann-Erickson havia criado aquele que iria se tornar, no caso específico do Rio Grande do Sul, o primeiro grande programa de auditório a contar a cada edição com pelo menos um cartaz de renome da música brasileira. Ao longo do ano anterior, pelo mesmo palco do Cinema Castelo, onde Maurício Sobrinho – ou, por vezes, Ary Rêgo – tinha apresentado, nas tardes de sábado da Farroupilha, a versão gaúcha do Tômbola Musical, passaram artistas como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Dircinha Batista e Emilinha Borba. Um dos principais momentos foi quando quatro mil pessoas superlotaram as dependências do cinema para ver e ouvir a cantora Emilinha Borba. Em sua estada em Porto Alegre, a rainha do rádio de 1953 cantou ao microfone da Farroupilha acompanhando a orquestra da Nacional, cujo som chegava do Rio de Janeiro, por linha telefônica, com as duas emissoras em cadeia no mesmo momento em que, na capital federal, acontecia o Programa César de Alencar, então a principal atração de auditório do país.

Com o fim do Tômbola Musical, a direção da Farroupilha decidiu apostar em uma atração de fórmula e horário semelhantes, aproveitando o animador que havia se destacado na condução do programa: Maurício Sobrinho, que, na época, omite o Sirotsky do sobrenome, ele mesmo que, nas décadas seguintes, vai comandar a estruturação do maior complexo de mídia do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina: a Rede Brasil Sul de Comunicação. Ao longo dos 12 meses que se seguem à estreia do Programa Maurício Sobrinho, parcela significativa do impacto obtido pela nova atração da Farroupilha provém da sua extrema capacidade em desenvolver uma forte empatia com o público. Sempre sorridente e seguindo o figurino da época – terno, gravata com prendedor, bigode bem cuidado e cabelo penteado para trás com generosa dose de brilhantina –, o animador demonstra, então, desenvoltura suficiente para ser tratado, em publicações especializadas, como “o papa dos auditórios”.

De início, o programa das tardes de sábado da PRH-2 traz artistas de médio porte, mas ganha audiência crescente, consolidando o investimento de anunciantes a garantir “duas horas ininterruptas de atrações”, como registra eufórico o Diário de Notícias. Nas primeiras semanas, entre os patrocinadores já estão as Lojas Rimpo, “o famoso palácio encantado da avenida Otávio Rocha”; a Refrigerantes Sul-rio-grandense Ltda., fabricante, entre outros, de Pepsi-Cola; a Walgás, do “gás que mais faz”; e os Produtos Polar, da cerveja e do guaraná de mesmo nome. Assim, quando chega o aniversário de um ano, marcando também o fim do Programa Maurício Sobrinho em sua fase na Farroupilha, são inúmeros os cartazes de primeira linha do rádio brasileiro previstos e diversas as promoções. Antecedendo em algumas semanas a festa, em 8 de junho de 1957, os ouvintes acompanham, ao vivo, o bolero do Trio Los Panchos, de renome internacional. No dia 22, ponto alto das comemorações, quatro radiopatrulhas e um contingente significativo da Guarda Civil têm dificuldade para conter o público em frente ao Auditório Associado, palco da programação especial em que o animador despede-se da PRH-2. Grandes filas formam-se ao longo da rua Siqueira Campos para assistir Ângela Maria e Marlene, do Rio de Janeiro, e Germano Mathias e Salomé Parísio, de São Paulo, além de diversas outras atrações, incluindo artistas das rádios Gaúcha e Itaí. Fatias de um bolo de 600 kg e miniaturas de Champanhe Michelon, com o nome do programa no rótulo, são distribuídas ao público, que, ao final, é comunicado da saída de Maurício Sobrinho, substituído, a partir de então, por José Salimen Júnior e o Vesperal Farroupilha. O fim do programa não significa, no entanto, uma derrota. Sirotsky sai da PRH-2 como radialista e se transfere para a PRC-2 – Rádio Gaúcha, como um dos sócios no processo de aquisição da emissora por Arnaldo Ballvé.

Maurício Sobrinho e Salomé Parísio (22 de junho de 1957)
Fonte: SCLIAR, Moacyr. Maurício: a trajetória, o cenário histórico, a dimensão humana de um pioneiro da comunicação no Brasil. Porto Alegre: Sulina, 1991. p. 43.

Ouvintes fazem fila para assistir o Programa Maurício Sobrinho (22 de junho de 1957)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 3, p. 10, ago. 1957.

Na nova estação, Maurício Sobrinho vai colocar, ainda, o seu cacife como animador em um ou outro programa, como Grandes Espetáculos Dominicais, das 10 às 12h, e Calouros Anil Ideal, das 18h30 às 19h30, ambos aos domingos. De fato, até o início dos anos 1960, a passagem do radialista por este tipo de atração reveste-se de um caráter episódico, servindo para lançar um determinado horário, com outro profissional logo assumindo a condução. Mesmo assim, o nome do animador é suficiente para que, em março de 1960, quando começam a circular informações sobre o retorno do Programa Maurício Sobrinho, a imprensa especializada registre a notícia como “a grande nova” do ano no rádio do Rio Grande do Sul. A reestreia acontece no domingo, dia 1° de maio, às 10h, com as apresentações artísticas estendendo-se até o meio-dia no palco do Cinema Castelo. À época, uma vinheta cantada introduz o animador, brincando com um dos seus traços fisionômicos e marcando a abertura do programa:

– A Gaúcha apresenta/ o programa que arrebenta/ pelos risos, emoções,/ humorismo e sensações/ comandado pelo Big Nariz/ para fazer você feliz./ Novamente, é domingo/ e um elenco inteirinho./ É pra você/ e seu vizinho,/ o programa,/ o Programa Maurício Sobrinho...

E, mal deixando a música terminar, sobrepõe-se a voz inconfundível do animador:

– Alô, amigos do Rio Grande do Sul e do Brasil. Um bom dia para todos e uma vez mais aqui estamos para o nosso encontro de todas as semanas. Que corra tudo bem com vocês e vamos logo com as nossas atrações deste domingo.


Aos poucos, no entanto, de uma participação minoritária, Sirotsky ganha espaço como administrador. De fato, de início assume também a direção da Gaúcha, trocando, logo depois e em definitivo, o microfone dos auditórios pelas mesas de reunião dos empresários e, aos poucos, vai constituindo a RBS, um império multimídia hoje, 50 anos após aquela tarde de sábado de parar o trânsito em frente ao Cinema Castelo.

Maurício Sirotsky Sobrinho revive o Programa Maurício Sobrinho (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.
Salimen Júnior, o animador-galã
2005
Luiz Artur Ferraretto

José Salimen Júnior (1957)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 3, p. 21, jun. 1957.

Uma das revelações do prêmio Melhores do Rádio, em 1955, José Salimen Júnior destaca-se, na segunda metade da década de 1950, como ator nas novelas da PRH-2, repetindo o sucesso já verificado no seu início de carreira em Pelotas. É da Zona Sul do estado que chegam centenas de cartas, no ano seguinte, garantindo, em uma promoção da Farroupilha, a escolha dele como animador do programa Só Para Mulheres, nas tardes de domingo, em que divide a apresentação com Nelita Aguiar. Em junho de 1957, sem deixar claro para o público, a direção da rádio vai preparando Salimen para substituir Maurício Sobrinho, “o homem do nariz inconfundível”, animador das tardes de sábado que está por assumir a direção da concorrente Rádio Gaúcha. Assim, nas semanas anteriores à saída do futuro fundador do Grupo RBS, Salimen Júnior apresenta pequenos quadros, faz intervenções e brinca com o auditório no Programa Maurício Sobrinho. Na divulgação do Vesperal Farroupilha, a nova atração das tardes de sábado, na própria emissora e no Diário de Notícias, o radialista já se transforma no “animador-galã”, como passa a ser identificado, aproveitando o sucesso junto ao público feminino e a indicação como melhor galã de 1956, empatado com Ernani Behs, conforme também o concurso Melhores do Rádio da Revista TV.

Anúncio do Vesperal Farroupilha (1957)
Fonte: Acervo particular de José Salimen Júnior.

Na estrutura, o Vesperal Farroupilha pouco difere do seu antecessor, o Programa Maurício Sobrinho, com a presença de cartazes do centro do país constituindo-se no principal momento do espetáculo oferecido aos ouvintes. Atrações de auditório deste porte, no entanto, demandam, então, um investimento significativo, com os cachês pagos a alguns artistas podendo chegar ao equivalente a US$ 4,000.00 (quatro mil dólares). Daí, pode-se entender o retorno comercial e o impacto junto ao público destas apresentações em Porto Alegre, como recorda o próprio José Salimen Júnior:

– Na realidade, o fim de semana em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, era uma festa. A Farroupilha, comigo, fazia uma festa no sábado. No domingo, o Maurício na Gaúcha fazia outra festa. Então, o povo tinha certa esta alegria no fim de semana.

No caso do Vesperal, para garantir esta festa no Auditório Associado, a rotina de produção inclui reuniões entre o apresentador e o produtor Abel Gonçalves, além de contatos constantes com o diretor artístico Ruy Rezende, mantendo um planejamento mínimo de 15 dias de antecedência em relação, especialmente, aos artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Por exemplo, quando o programa completa três anos, em meados de 1960, a PRH-2 organiza uma grande comemoração no ginásio do Grêmio Náutico União, com a presença, entre outros, de Agostinho dos Santos, Germano Mathias e Maysa, além da orquestra de Henrique Simonetti. Do cast da emissora, apresentam-se Pinguinho e Walter Broda.

Cinejornal da Leopoldis Som (1960)
Fonte: Acervo particular de José Salimen Júnior.

Para fazer frente ao Vesperal Farroupilha, em 1961, a Gaúcha contrata o Programa Julio Rosemberg, também apresentado, em dias alternados, nas cidades de São Paulo e Curitiba. Natural de Pelotas e radicado na capital paulista desde o início dos anos 1950, o radialista faz sucesso, então, abrindo espaço para novos valores musicais que surgem sob a influência do rock de origem anglo-americana. De fato, Rosemberg, nos anos seguintes, vai se consagrar como um dos principais incentivadores da Jovem Guarda.
Como resposta, para reforçar a audiência em função do Programa Julio Rosemberg, a direção dos Diários e Emissoras Associados no Rio Grande do Sul decide pela transmissão do Vesperal Farroupilha em conjunto com a TV Piratini, estratégia bem-sucedida, uma vez que a Gaúcha ainda está montando o seu canal de televisão, inaugurado somente em dezembro de 1962. É Salimen, ainda, que, trocando de emissora, vai conduzir o último grande programa de auditório do estado:

– Quando eu me transferi para a Gaúcha, o Maurício não queria mais fazer o programa dele. Então, lançou o MS, “M” de Maurício e “S” de Salimen, que começamos apresentando juntos. Aí, eu fiz um ano sozinho, de 1963 a 1964.

Em seus últimos tempos, o Programa MS, das 10 às 12h de domingo, ocupa um auditório de 500 lugares montado pela Rádio Gaúcha, em 1964, nos altos do Cinema Baltimore, na avenida Osvaldo Aranha. O espaço já evidencia a decadência deste tipo de atração no rádio do estado: acanhado, na comparação com o do Cinema Castelo, e simples em relação às antigas instalações do Edifício União.

José Salimen Júnior
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 19 de junho de 2001

José Salimen Júnior
Fonte: CALENDÁRIO Pepsi-Cola. Revista TV, Porto Alegre, p. 2, nov. 1958. Anúncio.