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Cândido Norberto, o início de carreira do mais importante radialista gaúcho
2006
Luiz Artur Ferraretto

No início dos anos 1940, o bageense Cândido Norberto Santos divide seu tempo entre o estudo e o trabalho como repórter na Folha da Tarde, então um sucesso editorial. Por vezes, acompanha o colega João Bergmann, o Jotabê, conhecido cronista das coisas de Porto Alegre, à Rádio Difusora Porto-alegrense e vai tomando contato com o veículo que marcará sua trajetória profissional ao longo das sete décadas seguintes.

– O Jotabê era locutor da Rádio Difusora e, como nós trabalhávamos juntos na Folha pela parte da manhã, era comum que almoçássemos também juntos e, depois, a partir de certo momento, continuássemos a conversa na Rádio Difusora, que era a “PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, a sua emissora”. Era o slogan dela. Enquanto rodava um disco e outro, ficávamos conversando dentro do estúdio. Uma tarde, por estas coisas da vida, houve um imprevisto e ele teve de sair urgentemente para atender um telefonema, mas o telefonema se prolongou. Abriu o microfone e o operador fez sinal... E eu li uns textos. A partir daí, fui convidado para fazer locução comercial. Já entrei também como redator de textos comerciais. Logo em seguida, já estava fazendo um comentário chamado O Fato e Algumas Palavras, que ia à noite.

Da Difusora, tempos depois, Cândido passa a trabalhar na Rádio Gaúcha, ambas as emissoras, na época, sob o controle de Arthur Pizzoli. A versatilidade já marca, então, a carreira do radialista.

– Certa vez, eu saí de um jogo do campo do Força e Luz [time de futebol da empresa que fornecia energia elétrica à capital gaúcha]. Eu estava narrando um jogo de futebol em plena Semana Santa. Saí do campo, larguei o microfone, entrei correndo no estúdio, na rádio, e começamos a tratar da interpretação da vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Por sinal, era uma Quinta-feira Santa. Sabe quem era o Jesus Cristo? Eu. Aquele santíssimo homem. [fazendo o sinal da cruz] A paz esteja convosco! Saí da narração estridente de um jogo de futebol para fazer o suave Jesus Cristo. Era algo alucinante.

Como diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido protagoniza duas iniciativas pioneiras na radiodifusão do Rio Grande do Sul. Numa época de novelas transmitidas duas ou três vezes por semana, ele introduz a irradiação em capítulos diários apresentados na primeira parte do programa Tapete Mágico. A atração faz o sucesso das noites da Rádio Gaúcha, de segunda a sexta, das 20 às 21h, na virada da década de 1940 para a de 50. Além disto, em 14 de maio de 1949, Cândido torna-se o primeiro profissional de rádio do Rio Grande do Sul a transmitir um jogo de futebol fora do país. Nesta fase, fazendo frente à Farroupilha, Cândido contrata, também, Walter Ferreira e Adroaldo Guerra. Junto com eles, cartazes de destaque no rádio porto-alegrense, divide, em 1948, os papéis principais de Os Três Homens Maus, novela de Raymundo Lopes, um grande sucesso junto ao público:

– A coisa chegou a tal extremo de popularidade, de força, que o mais frequente era encontrar, em qualquer ponto de Porto Alegre, Oficina Mecânica Três Homens Maus, Padaria Três Homens Maus, não-sei-o-que Três Homens Maus...

Cartão promocional da novela Os Três Homens Maus (1948)
Da esquerda para a direita, Cândido Norberto, Adroaldo Guerra e Walter Ferreira.
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 9 jul. 2001. p. 46.

Cândido fica conhecido, também, pelo Pensando em Voz Alta, espaço de opinião sempre marcado pela Glenn Miller Orchestra interpretando Moonlight Serenade, que serve de cortina musical. O comentário torna-se um dos tantos trabalhos do radialista a permanecer na memória dos ouvintes. Décadas depois, numa homenagem ao Dia do Rádio, em 1975, a pedido da produção do programa Opinião Pública, de José Antônio Daudt, na mesma Difusora em que começara sua carreira, Cândido relembraria os tempos de pensar em voz alta, não que deixasse de refletir assim nas três décadas seguintes. Até porque, nem só dos tempos do rádio espetáculo se fez a sua trajetória profissional. Por isto, sobre o Cândido, há que voltar a falar, mesmo, mais adiante. São décadas de rádio e 79 anos de vida completados no dia 18 de outubro deste 2006.

Cândido Norberto revive o comentário Pensando em Voz Alta (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.
De O Solar dos Alvarengas e Em Busca da Felicidade à radionovela diária
2013
Luiz Artur Ferraretto

Até 1943, no radioteatro gaúcho, preponderavam sketches e peças isoladas. Naquele ano, o Rio Grande do Sul começa a ingressar na era das novelas. No dia 28 de março, um domingo, às 20h, os ouvintes da Rádio Difusora Porto-alegrense passam a acompanhar o Folhetim Sonoro da PRF-9, com O Solar dos Alvarengas, novela escrita por Roberto Lis e de título assim mesmo com Alvarengas, no plural. Os poucos roteiros remanescentes indicam que a obra pode ter começado, no entanto, como estória seriada, ou seja, os mesmos personagens de episódio a episódio, mas com tramas que se resolviam a cada programa. No Setor de Rádio e Fonografia do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, existem os textos de oito capítulos esparsos de O Solar dos Alvarengas. Neles, é possível notar uma evolução gradual para o formato de novela. O de estreia, já na abertura, procura introduzir a estória:

Fazendo hoje a primeira apresentação de O Solar dos Alvarengas, a Rádio Difusora, de Porto Alegre, inicia, com os seus elementos de radioteatro, um novo programa que o seu autor intitulou de Folhetim Sonoro da PRF-9. Será ele irradiado todos os domingos às 20h e cada um dos seus capítulos constituirá uma estória diferente vivida pelos diversos representantes do austero e fidalgo solar que nos áureos tempos da monarquia viu passar pelos seus luxuosos salões de requintado gosto grandes figuras do nosso Império e da corte portuguesa. Do antigo fundador da Casa dos Alvarenga, resta apenas um grande retrato colocado sobre a lareira da biblioteca – ladeado por dois candelabros de bronze cinzelado – e o nome ilustre que seus filhos tão orgulhosamente ostentaram e fizeram por honrar e que hoje pertence aos netos e bisnetos, uma vez que a ronda implacável do tempo, na sua faina devastadora, à medida que oxidava a prataria dos orgulhosos fidalgos, ia também prateando os seus cabelos anelados até fazer com que desaparecessem no mistério insondável da morte. Restam hoje no velho casarão silencioso, entre a prataria sem brilho e os damascos desbotados, o velho comendador Carlos Alvarenga e seus netos Lucília, Suzana e Jorge, uma vez que os seus próprios filhos, levados pelo imperativo de um desejo forte de viver uma vida diferente, há muito se afastaram da casa que os viu nascer e onde viveram a sua meninice.

Quando Roberto Lis afirma, no texto de abertura de O Solar dos Alvarengas, que “cada um dos seus capítulos constituirá uma estória diferente”, fica clara a intenção inicial de apresentar uma trama completa todo domingo. Os indícios existentes, no entanto, permitem levantar a possibilidade de que a transformação em novela tenha se concretizado entre os capítulos transmitidos em 5 e 12 de setembro de 1943. No primeiro deles, o de número 20, não há nenhuma remissão ao que ocorrera até aquele momento. No domingo seguinte, no entanto, Roberto Lis preocupa-se em resumir o capítulo anterior, dando uma real noção de continuidade à trama, o que é repetido a partir de então:

Antes de darmos início ao episódio desta noite, façamos uma ligeira recapitulação dos acontecimentos desenrolados no capítulo anterior que se poderá resumir no seguinte: 
Jorge vai à casa de Maribel acusá-la de ter sido a culpada dos comentários escandalosos que giram em torno do nome de sua irmã Lucília com o industrial Paulo Henrique de Viveiros. Acusa-o de ter levado sua irmã para um dos cassinos da cidade, embebedando-a. Maribel diz-lhe que Paulo pretende com Lucília o que Jorge não acredita. Retirando-se indignado, o rapaz jura que há de vingar-se do industrial, o que deixa Maribel seriamente preocupada. Indo Jorge à casa de Paulo, lá encontra-se, enquanto o espera, com Clarisse, que, mais uma vez, pretende insinuar-se aos olhos do rapaz sem o conseguir. Como Paulo esteja demorando, Clarisse retira-se, deixando Jorge sozinho a esperá-lo. 
Paulo chega um pouco depois e Jorge começa a censurar-lhe o procedimento. Em sua cólera, entretanto, dirige ao seu contendor palavras ofensivas e Jorge tira do bolso um revólver e antes que Paulo tenha tempo de se defender atira contra ele no justo momento em que Maribel vem entrando apressada. Paulo cai morto quase que instantaneamente e, enquanto na porta do apartamento um guarda bate violentamente, Maribel arranca das mãos de Jorge a arma assassina, indicando-lhe a escada de serviço para que ele fuja sem perda de tempo. Ao retirar-se o rapaz apressadamente, Maribel vai abrir a porta do apartamento, ainda com o revólver na mão, dizendo ao guarda: ‘Prenda-me. Matei um homem’. Vejamos agora o que depois aconteceu.

Por estes capítulos, pode-se, ainda, ter uma ideia do enredo desenvolvido por Roberto Lis: a oposição entre o novo e o antigo no seio de uma família decadente, de origem aristocrática, em uma cidade interiorana com a estória dos relacionamentos amorosos envolvendo, em especial, Lucília, Suzana e Jorge – o presente e o futuro –, netos do outrora poderoso comendador Carlos Alvarenga – o passado. Mais do que isto, pelo que indicam os roteiros restantes, o autor procurou colocar um algo mais de fundo psicológico na caracterização dos personagens, relacionada sempre a um sentimento definido. O comendador Carlos Alvarenga, patriarca da família, com seus 73 anos, lembrando sempre os tempos do Império, quando a corte frequentava o solar, representa, neste contexto, o preconceito. Entre os netos, Lucília encarna a ilusão, Jorge, a ambição e Suzana, a desilusão. Aurora, a sobrinha do comendador, é a razão e Seu Félix, o confidente do patriarca dos Alvarenga, o coração. A preta velha Tia Esperança demonstra a resignação, enquanto o neto dela Donguinha, também descendente dos escravos do velho solar, significa a bondade. O mesmo ocorre com cada um dos protagonistas restantes. Do elenco, faziam parte, entre outros, João Bergmann, Carmen de Alencar, Lourdes Cotrim, Raymundo Gray, Cláudio Real, Branca Margarita e Lilia Maria.

Um pouco antes de O Solar dos Alvarengas migrar em definitivo para a narrativa novelada, Em Busca da Felicidade estreia na Rádio Farroupilha, como anuncia no dia 29 de junho de 1943 o Diário de Notícias:

Pela primeira vez, os radiouvintes deste estado irão desfrutar as mais fortes emoções jamais proporcionadas por um espetáculo radiofônico com a irradiação da sensacional novela do Radioteatro Colgate, Em Busca da Felicidade, na Rádio Farroupilha, a partir de 2 de julho, às segundas, quartas e sextas, das 10h30 às 11h.

No mês anterior, a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, completara a transmissão dos 284 capítulos da obra do cubano Leandro Blanco, traduzida e adaptada por Gilberto Martins. Detentora da conta publicitária da Colgate-Palmolive, a Empresa de Propaganda Standard sugeriu a importação do texto para impulsionar as vendas do creme dental da indústria norte-americana. O estúdio da própria agência abriga, assim, a montagem da primeira radionovela transmitida no país. Quando Em Busca da Felicidade começa a ser transmitida pela PRH-2, no dia 2 de julho, vem precedida do sucesso anterior obtido por sua irradiação pela Nacional. A trama é acompanhada pelos ouvintes da Farroupilha, portanto, em sua versão original, gravada e distribuída a várias emissoras do país dentro da campanha publicitária dos produtos da Colgate-Palmolive.

Abertura de Em Busca da Felicidade (1943)
Fonte: BASF BRASILEIRA S.A. 1934 - 1984, 50 anos de memória brasileira.
São Paulo, 1984. Fita cassete.

A partir do sucesso dos capítulos transmitidos nas segundas, quartas e sextas, das 10h30 às 11h, a PRH-2 parte para a estruturação do chamado Conjunto de Radioteatro Novela, dirigido pelo então locutor e ator Walter Ferreira.

Walter Ferreira (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 5 nov. 1943, p. 5.

Assim, estreia, no dia 28 de setembro de 1943, Rosa de Sangue, de Arsênio Mármol. Sob o patrocínio dos “Produtos de Beleza Pindorama – Óleo, Petróleo e Água de Rosas Pindorama”, a novela transporta o ouvinte para a Viena imperial, cidade em que a nobreza austríaca dançava valsas de Strauss e onde se podia ouvir o ruído dos sabres em românticos e idealizados duelos. Os capítulos com 30 minutos de duração vão ao ar às 16h, nas terças, quintas e sábados. Graças à receptividade do público, a Farroupilha prepara ainda Penumbra, de Amaral Gurgel, que vai ao ar a partir de 5 de novembro.

Elenco de Rosa de Sangue (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 28 set. 1943. p. 5.

No ano seguinte, com a Difusora também sob o controle dos Associados, o gênero começa a se firmar na capital gaúcha. Na PRF-9, Adroaldo Guerra comanda o Conjunto de Radioteatro, que, em 4 de setembro de 1944, irradia o primeiro capítulo de Almas Inquietas, de Saint-Clair Lopes. Patrocinada pela Casa Guaspari, a produção é apresentada nas segundas e nas sextas, das 11h30 às 12h, com um elenco formado, além do próprio Adroaldo Guerra, por Joaquim L. Braga, Jorge Muccilo, Nelson Cardoso da Silva, Terezinha Furtado, Zilda Elaine e Linda Gay.

Falta, no entanto, um detalhe para que a novela se constitua na principal atração do rádio: a transmissão diária dos capítulos. No final dos anos 1940, o diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido Norberto Santos, elabora uma estratégia de concorrência em relação à Farroupilha e à Difusora. Contrata, entre outros, Walter Ferreira, Adroaldo Guerra e Tânia Maria, constituindo em torno deles um grupo de diretores, atores e atrizes. Com este cast, cria o programa Tapete Mágico, transmitido de segunda a sexta, das 20 às 21h, no horário nobre do rádio da época. Nos primeiros 30 minutos, o ouvinte acompanha o capítulo diário de uma novela. Entra em seguida Pensando em Voz Alta, com as opiniões de Cândido Norberto. O comentário faz as vezes de divisor entre o radioteatro e a atração seguinte, o humorístico Corta Tesourinha, no qual um alfaiate de origem alemã ia dialogando com amigos e fregueses em uma crítica social sempre marcada pelo bordão que dava nome a esta parte do programa e interrompia as opiniões satíricas mais fortes.
Radionovelas: a açucarada luta entre o bem e o mal
2008
Luiz Artur Ferraretto

Na virada dos anos 1940 para os 50, em Porto Alegre, o sucesso de Os Três Homens Maus é tão grande que mesmo uma oficina mecânica, reduto masculino por excelência, ganha o nome desta grande atração da Gaúcha. O impacto pode ser medido, então, pelo simples fato de se tratar de uma radionovela, na época produção muito mais para o público feminino do que nos dias de hoje. Com Adroaldo Guerra, Cândido Norberto Santos e Walter Ferreira como os personagens-título, a trama de Raymundo Lopes traz o sofrimento da mocinha Lindinha, papel de Aida Terezinha, que se apaixona pelo galã interpretado por Cândido Norberto, nem tão mau assim, no desenrolar dos capítulos, a justificar o rumo habitual destas estórias: quem representa o mal ou é castigado ou se arrepende, tudo – claro – com doses significativas de voltas e reviravoltas, declarações mais ou menos açucaradas e um final feliz. A fórmula faz de Os Três Homens Maus o grande sucesso daquele ano de 1948. A radionovela, no entanto, está destinada a reinar, pelo menos, até a década de 1960, quando a sua versão com imagens ajuda a roubar público do rádio, estabelecendo a TV como veículo eletrônico predominante.

Walter Ferreira (1958)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 4, p. 23, mar. 1958.

Ernani Behs (anos 1950)
Fonte: Acervo particular de José Braz de Oliveira.

Paulo Ricardo, Wilson Fragoso e Salimen Júnior (1958)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 4, p. 1, jun. 1958.

Vão ser produções e produções a marcar o nome de galãs como Ernani Behs, Walter Ferreira e, mais tarde, Salimen Júnior, Paulo Ricardo e Wilson Fragoso, ou de suas contrapartes femininas, destacando-se, por anos, Aida Terezinha, uma das principais atrizes a desempenhar ingênuas e românticas protagonistas, papel que faz o sucesso também de Lídia Ilzuch. Há, ainda, o ecletismo de uma Marisa Fernanda, que, com talento, se alterna como mocinha e vilã, por exemplo como as gêmeas de comportamento antagônico de As Noivas Morrem no Mar, de Ivani Ribeiro, grande atração da Farroupilha nos anos 1950. Maria Ieda, por sua vez, interpreta a Isabel Cristina de uma das versões de O Direito de Nascer, do cubano Félix Caignet. Rosa Maria e Zaíra Acauan consagram-se como dama-galã, uma espécie de mocinha mais velha, função também desempenhada por Lolita Alves, que atua, ainda, como vilã. A maioria das produções é de autores do centro do país – Amaral Gurgel, Giuseppe Ghiaroni, Raymundo Lopes... –, mas alguns gaúchos produzem roteiros de novelas e/ou peças – Doroty Gallo, Maria de Lourdes Collares Abs, Maria Monteiro Paneraí, Roberto Lis, Zahyra de Albuquerque Petry... Nestas atrações da programação, a amarrar os diálogos, trabalham narradores como Enio Rockembach, Ronald Pinto e Euclides Prado, emprestando, com a voz, conforme as indicações do script e dos diretores, um tom mais épico, emocional ou saudosista.

Zaíra Acauan (1959)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 4, p. 22, dez. 1959.

Marisa Fernanda (1956)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 2, p. 13, fev. 1956.

No Rio Grande do Sul, as novelas, no entanto, começam mesmo, anos antes, em 1943, graças ao pioneirismo de Roberto Lis, que produz, na Difusora Porto-alegrense, para o Folhetim Sonoro da PRF-9, das noites de domingo, uma estória em capítulos – O Solar dos Alvarengas –, abordando a decadência de uma aristocrática família. Um pouco depois, no mesmo ano, a Farroupilha coloca no ar os capítulos gravados de Em Busca da Felicidade, do cubano Leandro Blanco, na adaptação de Gilberto Martins, irradiada, antes, pela Nacional, do Rio de Janeiro, e a primeira atração deste tipo no rádio brasileiro.

É a partir do trabalho de Cândido Norberto, diretor artístico da Gaúcha, que a novela começa a ampliar o seu espaço na programação radiofônica no Rio Grande do Sul, com a transmissão de capítulos tornando-se, por iniciativa deste profissional, diária. É como uma trama de segunda a sexta que a estória dos três homens maus interpretados por Adroaldo, Cândido e Walter vai cativar a atenção dos ouvintes naquele final de década há 60 anos.
O romance de uma empregadinha e um final feliz
2006
Luiz Artur Ferraretto

Candidato a escritor de radioteatro, José Fontes, na época dividindo-se entre o trabalho na Prefeitura de Canoas e alguns papéis em novelas e humorísticos de rádio, fica encantado, nos anos 1960, com o texto de O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, puro teatro do absurdo a denunciar o conformismo, expresso no animal pesado, de dura e cinzenta carapaça, no qual, um a um, os habitantes de uma pequena cidade transformam-se em sua passiva adaptação ao cotidiano. O radialista vai acabar, sem querer, deparando-se com uma situação semelhante à vivida pelo personagem principal da peça – Bérenger –, que se opõe à perda da dignidade do ser humano, exclamando a todo o momento: “Je ne capitule pas”. Em um primeiro momento, no entanto, o irônico argumento do teatrólogo franco-romeno parece ideal para uma tentativa de Fontes na produção de um roteiro:

– Teatro do absurdo, mas isto aqui está pronto para levar para o rádio... Vamos radiofonizar isto aqui, que vai ser um sucesso! Vai ser a minha consagração como autor de radioteatro!

Ideia em mente e, na mão, um calhamaço datilografado, Fontes consegue agendar um horário com Alberto Delgado Filho, diretor artístico da Rádio Farroupilha.

– Tu deixas aí o teu script, que vou encaminhar para o pessoal do Departamento de Radioteatro. Volta daqui a uma semana.

Sete dias depois, Fontes, dividido entre a ansiedade e o nervosismo, está sentado, novamente, em frente a Delgado Filho, de quem ouve elogios à qualidade do texto, fazendo o funcionário público e ator em início de carreira, que já se acredita quase um produtor de radioteatro, abrir um largo – e precipitado – sorriso.

– Pois este é o problema, Fontes. É bom... É bom demais! Tu voltas para casa. Põe este texto no lixo. Escreve outro de igual tamanho sobre o romance de uma empregadinha com o patrão, um romance impossível, em que ela tenha um filho, a mãe dela fique cega, sei lá... É por aí o radioteatro. Então, não me volta aqui com Ionesco que a gente não tem público para isto.

De fato, como negócio, o rádio espetáculo não é lugar para a personalidade de um Bérenger. Nas emissoras, já se convive então, há bastante tempo, com os imperativos da audiência. O pragmatismo desta situação serve para ilustrar uma constatação acadêmica de Miriam Goldfeder, no livro Por Trás das Ondas da Rádio Nacional. A respeito da radionovela, mais forte elemento da dramaturgia hertziana nos anos 1950 e 1960, ela observa:

[...] era preciso manter a atenção do ouvinte sem romper, no entanto, com o seu quadro geral de expectativas. 
O que deveria ser garantido, diariamente, era que os desvios acabariam sendo assimilados, que não ocorreriam grandes mudanças ou transformações. O espaço do final deveria ser garantido.
O happy-end surgiria então para sustentar o mito da possibilidade e quase inevitabilidade da vitória do bem sobre o mal; a garantia de que a ilusão seria mantida, a prova de que a felicidade é possível.

A novela exige uma rotina a ser seguida. Com roteiros produzidos, geralmente, por autores do centro do país, há a necessidade de adquirir os direitos sobre os textos, como relembraria um dos diretores de radioteatro da Farroupilha, Ernani Behs, em depoimento registrado no livro Bem Lembrado, de Mirna Spritzer e Raquel Grabauska:

[...] a gente pegava um trem aqui, viajava, cinco dias para chegar no Rio de Janeiro. (...).Então, eu comprava novelas. Era uma pilha. Imagina, 70, 80 capítulos. Para comprar a novela, tinha que ler, então levava para um hotelzinho de duas estrelas ou nenhuma e levava duas ou três novelas. Ficava lendo dia e noite, primeiro para ver o número de personagens que tinha, para ver se adaptava ao número de pessoas que tinha no nosso elenco, que tinha entre 12 e 15 pessoas.

Na sequência, os capítulos são submetidos à Censura Federal e, após aprovados, cabe ao diretor a distribuição dos papéis. Então, é a vez das datilógrafas que, em suas máquinas de escrever e com o auxílio de papel carbono ou de um mimeógrafo, tiram tantas cópias quanto o número de intérpretes, além daquelas destinadas à parte operacional. Com os scripts na mão e sob a condução atenta do diretor, ocorrem os ensaios. Atores e atrizes repassam o texto e têm sua interpretação corrigida. No entanto, em meio à rotina de oito ou nove novelas diferentes irradiadas a cada dia, os ensaios não chegam a ser tão frequentes quanto o necessário. Chegam a ocorrer, mesmo, um pouco antes da transmissão. Interpretados ao microfone, mexem com o imaginário dos ouvintes, recriando, sensorialmente, cenas e situações. Oferecem, assim, uma fuga momentânea à realidade, base de um entretenimento mais simples nas tramas românticas ou mais elaborado nas radiofonizações de clássicos da literatura. A respeito, são significativas estas observações de Jayme Copstein a descrever uma parte – por tudo isto, significativa – da produção das emissoras do Rio Grande do Sul e de uma época no universo urbano gaúcho:

À noite, tudo era silêncio de deserto, quebrado apenas por passos perdidos, assobios solitários e vozes macias que saíam do receptor de rádio. Na pensão onde eu morava, uma menininha, ainda mudando os dentes e colecionando estampas do sabonete Eucalol, tinha perguntas irrespondíveis: aquela gente que falava no rádio era de verdade? 
Dona Rosa, a mãe, viúva jovem, entortando a coluna na máquina de costura para encaminhá-la com honestidade, polemizava: 
– Pra dizer “meu amor”, só o Walter Ferreira. O Ernani Behs também fala gostoso, mas, para mim “meu amor”, só o Walter. 
Eu não achava respostas para a menininha nem tinha coragem de dizer para dona Rosa que as frases que lhe soavam tão bonitas, tinha sido alguém como eu que as havias escrito, algumas vezes mecanicamente, outras vezes até com alheamento. Aí terminava a irreverência. As emoções que despertavam nos faziam ver que a nós cabia tanger as cordas de um instrumento misterioso para que as pessoas construíssem um mundo dentro de si mesmas. Bastavam alguns pássaros, a referência a alguma flor, ao seu aroma, e dona Rosa costureira emergia da coluna dobrada sobre a Singer comprada em prestações intermináveis, para mergulhar no jardim dos seus sonhos, onde ela e o marido ressuscitado, de mãos dadas, olhavam a menininha, já com todas as suas respostas, jogando amarelinha no tosco desenho do chão.

Como afirma Copstein, com propriedade, ao fim desta descrição: “O radioteatro era isso”, roteiros simples a excitar a sensorialidade e – nas vozes, trilhas e efeitos – a encaminhar o ouvinte a um mundo imaginário, de puro enlevo e entretenimento.