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Anos 1940
Os anos 1940 marcam o crescimento do rádio que começa a ganhar o interior do Rio Grande do Sul. Na capital, as emissoras trocam de proprietários e Farroupilha e Gaúcha concorrem pela preferência do público. A Segunda Guerra Mundial faz crescer o interesse pelo noticiário e vai ao ar a versão gaúcha do Repórter Esso. No esporte, Cândido Norberto, principal radialista de sua geração, realiza a primeira irradiação internacional do Sul do país e Luiz Mendes, que vai se transformar em um dos mais importantes profissionais do Brasil, transfere-se da Farroupilha para a Globo, do Rio de Janeiro. O ouvinte acompanha as aventuras do Vingador e do Sombra, emociona-se com as novelas e ri dos humorísticos. No interior, Atahualpa Dias, com a Organização Rádio Cultura, e Arnaldo Ballvé, das Emissoras Reunidas, lançam estações em diversas cidades. O rádio espetáculo começa a se firmar, antecipando seu momento mais fulgurante na década seguinte.

É o que estamos contando aqui.

Destaques da década
A estruturação da concorrência em Porto Alegre
Gaúcha: de Breno Caldas e Chico Vitrola a Arthur Pizzoli
Difusora: de Arthur Pizzoli a Assis Chateaubriand
Farroupilha: de Flores da Cunha a Assis Chateaubriand
Manoel Braga Gastal, o homem dos dois dedos de prosa
A Cervejaria Brahma e a cobertura esportiva da Gaúcha
Cândido Norberto, o início de carreira do mais antigo radialista gaúcho
Cândido Norberto e as volutas da memória
Cândido Norberto morre aos 83 anos
João Bergmann, o cronista da cidade e descobridor de Cândido Norberto, por Gustavo Monteiro Chagas
Luiz Mendes, o homem do “golaço”, por Gustavo Monteiro Chagas
Luiz Mendes e o velho Carruíra: uma história familiar
A guerra nas ondas do rádio
O Repórter Esso e a Segunda Guerra Mundial
Heron Domingues, o gaúcho do Repórter Esso, da Rádio Nacional
De O Solar dos Alvarengas e Em Busca da Felicidade à radionovela diária
Ivo Serrão Vieira: pioneiro de dois estados
Nelson Cardoso e o Banca de Sapateiro
Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?
Ao tropel do cavalo Blackie, chega o Vingador Palmolive
O rádio no interior do Rio Grande do Sul até o final dos anos 1940
Atahualpa Dias e a Organização Rádio Cultura
Os 60 anos das Emissoras Reunidas, de Arnaldo Ballvé
Nestor José Gollo, pioneiro do rádio caxiense, por Marcell Bocchese
Dante Andreis e o Esportes na Onda da Rádio Caxias, por Marcell Bocchese
O comentário de Jimmy Rodrigues, por Marcel Bocchese
Gildo Flores e as rádios Caxias e Passo Fundo, por Carlos Venhofen Flores
O centenário de Pedro Raymundo
Rádio Cruzeiro, a voz do poste do abrigo de bondes
A estruturação da concorrência em Porto Alegre
2013
Luiz Artur Ferraretto

Ao longo dos anos 1930, o associativismo idealista dos pioneiros da radiodifusão sonora dá lugar à lógica comercial e, com ela, à disputa – mesmo que incipiente – por ouvintes e anunciantes. Neste processo, o Rio Grande do Sul sofre a influência do que ocorre nas emissoras do centro do país. É em uma delas, a Record, de São Paulo, que César Ladeira – speaker conhecido por sua participação no movimento constitucionalista de 1932 – revoluciona o rádio do país, criando o elenco fixo com remuneração mensal. A esta inovação, Gisela Swetlana Ortriwano, no livro A informação no rádio, atribui o início da concorrência entre as estações:

A partir daí, começa a corrida e as grandes emissoras contratam a peso de ouro astros populares e orquestras filarmônicas. E mesmo as emissoras de pequeno porte procuram também ter o seu pessoal fixo. Essa mudança aguçou - ou mesmo desencadeou - o espírito de concorrência entre as emissoras, inclusive as de outros estados, que imitaram a programação lançada pela Record.
Em meados da década, ao serem inauguradas, Difusora e Farroupilha já possuem, portanto, o seu, como se chamava na época, cast próprio e organizado com orquestras e conjuntos musicais mais ou menos fixos. Acertam, ainda, contratos de um a três meses com intérpretes que se destaquem nos bares, confeitarias e casas noturnas de Porto Alegre. Há, também, uma constante tentativa de apresentar novas atrações, sejam artistas descobertos entre os valores locais ou importados das coirmãs do Rio de Janeiro e de São Paulo. Exemplo disto ocorre em 1937. A PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, de Arthur Pizzoli, traz, para temporadas ao seu microfone, os locutores César Ladeira, da Mayrink Veiga, e Oduvaldo Cozzi, da Nacional, anunciando também apresentações musicais de Araci de Almeida, Jorge Fernando e Bando da Lua para contrabalançar a presença de Carmen e Aurora Miranda na PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha.

Mais antiga e originalmente uma associação sem fins lucrativos, a Rádio Sociedade Gaúcha vai sofrer para se adaptar à realidade comercial, como conta Nilo Ruschel, um dos pioneiros das peerrês locais, em uma entrevista, anos depois, ao jornalista Flávio Alcaraz Gomes:

A Gaúcha estava onerada por um cast muito numeroso e pouco selecionado, com contratos muito longos de artistas, que nem sempre eram muito do agrado do público. As outras emissoras, mais agressivas, mais novas, vinham, com mais recursos financeiros, importando os nomes mais populares da música brasileira, do Rio e de São Paulo. Provocavam, então, um movimento muito intenso de programação. [...] Isto foi deixando a Gaúcha para trás. Ela foi marcando passo e a liderança passou a ser disputada, então, entre Difusora e Farroupilha.
A situação da Rádio Sociedade Gaúcha começa a mudar em 1937, quando é alterada a sua figura jurídica, marcando o fim do associativismo idealista em Porto Alegre. A respeito, assinala, em setembro daquele ano, a Revista do Globo:

Quinta-feira passada [provavelmente, 23 de setembro de 1937], foi ultimado o ato mais importante da Rádio Sociedade Gaúcha. A veterana irradiadora completou a reforma que a transformou em sociedade civil de fins comerciais. Depois de uma importante e movimentada fase de transição, aparelhou-se agora, definitivamente, a veterana PRC-2, dentro de um novo e necessário aspecto social, capaz de facilitar os seus movimentos dentro do campo comercial, o que, logicamente, terá seu reflexo num maior desenvolvimento da parte artística.
Na mesma época, Breno Caldas, diretor do jornal Correio do Povo que, em 1936, lançara a Folha da Tarde, assume o controle da Gaúcha. Nos anos seguintes, o dono da Casa Victor, Francisco Garcia de Garcia, conhecido como Chico Vitrola, também participa do negócio. A loja especializada em receptores RCA e refrigeradores Kelvinator concorre, diretamente, com a Casa Coates, então sob controle de Arthur Pizzoli, proprietário da Rádio Difusora Porto-alegrense. Pelos três empresários, vai passar o futuro da PRC-2 e da PRF-9 nos primeiros momentos em que as emissoras disputam a atenção dos ouvintes na capital do Rio Grande do Sul.
Gaúcha: de Breno Caldas e Chico Vitrola a Arthur Pizzoli
2013
Luiz Artur Ferraretto

Apesar das crescentes divergências com o governador José Antônio Flores da Cunha, os negócios iam bem para o Correio do Povo e a Folha da Tarde. Inspirado pelo amigo e diretor da Farroupilha, Arnaldo Ballvé, e sem ter ainda completado dois anos à testa dos empreendimentos jornalísticos da família, Breno Caldas aventura-se na radiodifusão, tornando-se um dos proprietários da Rádio Sociedade Gaúcha, repartindo ações, entre outros, com Francisco Garcia de Garcia, da Casa Victor, a quem a PRC-2 devia 360 contos de réis, uma pequena fortuna na época, superior inclusive ao capital social da emissora.

Breno Caldas, sócio-proprietário da Rádio Sociedade Gaúcha
Fonte: CALDAS, Breno. Meio século de Correio do Povo: glória e agonia de um grande jornal. Depoimento a José Antonio Pinheiro Machado. Porto Alegre: L&PM, 1987. p. 156.

O maior mérito de Breno Caldas na Gaúcha foi, sem dúvida, a transferência para Porto Alegre, em 1939, de Oduvaldo Cozzi, profissional que se dividia entre a narração esportiva e a direção artística da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Até então, as transmissões de jogos de futebol limitavam-se a informar o nome do jogador que conduzia a bola, com o espaço entre um tempo e outro preenchido por música. Cozzi, ao contrário, descreve lance a lance e ocupa com comentários o intervalo da partida.

As transformações na PRC-2 não se limitam a sua configuração jurídica e, na sequência, acionária. Por esta época, os estúdios transferem-se do bairro Moinhos de Vento para a rua Sete de Setembro, próximo à esquina com a General Câmara, no centro da cidade. Também a frequência utilizada nas transmissões muda, com a emissora passando a ser sintonizada nos 680 kHz.

Ocorre, no entanto, que o rádio não empolga Breno Caldas do mesmo modo que os jornais, ou melhor, que o Correio do Povo, dirigido diretamente por ele. Em paralelo, conforme Breno Futuro, o empresário Arthur Pizzoli começa a se interessar pela PRC-2, negociando a participação do proprietário da Casa Victor, Francisco Garcia de Garcia:

Com a continuação da guerra, foram se criando e agravando dificuldades para as firmas de eletrodomésticos. Praticamente, tudo era importado, principalmente peças importantes de reposição. As dificuldades começaram a se fazer sentir para os aparelhos vendidos. As oficinas de manutenção das casas Coates e Victor, esta de Chico Garcia, tinham problemas semelhantes. Para a sobrevivência das mesmas e bom andamento, foi proposta por Pizzoli uma negociação em que seria permutado o controle acionário da Casa Coates pelo controle da Rádio Gaúcha, em mãos de Garcia.
O segundo passo de Pizzoli – assumir o controle total – é indicado pelo Relatório da diretoria da Rádio Sociedade Gaúcha S.A. – Exercício 1942, publicado nos jornais. Nele, o empresário já aparece como diretor interino, tendo Alexandre Martins, Breno Alcaraz Caldas e Francisco Garcia de Garcia como integrantes do Conselho Fiscal. Assinando o documento, Arthur Pizzoli informa a existência de um déficit de Cr$ 613.917,00 (613 mil 917 cruzeiros) no balanço da emissora, observando:

Cumpre-me [...] dizer-vos que, ainda, novas e bem avultadas inversões se fazem urgentemente necessárias a fim de levar a nossa estação a um nível técnico e artístico apreciável, única forma em que se pode ter a esperança de equilibrar a receita e a despesa.
O teor do texto anuncia o que ocorre em seguida. Com o assessoramento jurídico do advogado Ernani Estrela, o novo diretor investe em uma série de obras e aprimoramentos técnicos, aumentando o capital social e, por consequência, a sua participação acionária. Com o controle sobre a PRC-2 assegurado, Arthur Pizzoli, em setembro de 1943, contrata Arnaldo Ballvé, afastado do rádio desde a venda da Farroupilha meses antes. Trata, ainda, de aproveitar profissionais da Difusora na Gaúcha. Cândido Norberto Santos, um destes radialistas, descreve, assim, a situação da emissora na época:

Encontramos a Gaúcha [...] tocando disco o dia inteiro, paupérrima de comerciais, tendo como suporte econômico as dedicatórias. Para erguê-la, foi preciso levar adiante um lento trabalho de pôr ordem nas coisas.
Entre 1942 e 1944, a Gaúcha atravessa um período de reformulação, preparando-se para competir com mais força no mercado. Os transmissores são reformados e o auditório ampliado. O balanço de 1943 já registra um faturamento de Cr$ 465.183,00 (465 mil 183 cruzeiros). No entanto, com duas das três estações de Porto Alegre em um mercado ainda incipiente, Pizzoli começa a enfrentar dificuldades de comercialização. Opta, então, por vender a Difusora, direcionando seus investimentos em rádio para a Gaúcha. Assim, até o final da década, a PRC-2 faz frente à Farroupilha, escudando-se na cobertura esportiva – ponto fraco da concorrente – e no espetáculo – área em que a PRH-2 parecia imbatível.
Difusora: de Arthur Pizzoli a Assis Chateaubriand
2013
Luiz Artur Ferraretto

Idealizada como empresa – seja para sustentar a venda das mercadorias da Casa Coates, seja para obter lucro pelo patrocínio de sua programação –, a Rádio Difusora Porto-alegrense sofre um duro impacto, em 1935, com o surgimento da Farroupilha. Na nova emissora, tecnologia, recursos financeiros e interesses políticos convergem, objetivando transformar a estação da família Flores da Cunha em uma das maiores e mais influentes do país. Aos 25 kW do potente transmissor da PRH-2, a estação de Arthur Pizzoli contrapõe os seus 500 W, ampliados apenas em outubro de 1936. Os dados existentes indicam, contudo, que a potência do novo equipamento não ultrapassava 5 kW. Os problemas com a qualidade do sinal da Difusora chegam a ser ridicularizados na imprensa especializada da época. No final de 1937, por exemplo, circula uma anedota reproduzida na Folha da Tarde. Alguém afirma:

– Ainda bem que a Difusora construiu um auditório...

Para ouvir, na sequência a pergunta:

– Por quê?

E a resposta vir rápida:

– Ao menos de lá pode se ouvir a estação!

O auditório que vai virar chiste – pequeno, mas o primeiro de Porto Alegre – integra a estratégia da emissora para confrontar a Farroupilha, emissora que se pretende para a elite, embora atinja também o restante da população. Como no prédio da concorrente, para assistir às apresentações, são aceitos apenas convidados muito especiais – patrocinadores, figurões da política, capitalistas... – e, assim mesmo, em poucas e selecionadas ocasiões, a Difusora trata de instalar, em 1937, junto ao seu estúdio, um espaço para abrigar o público. Ao mesmo tempo, mantém uma linha de programação um pouco mais popular. No final da década de 1930, sob a direção artística de Nelson Lanza, a rádio criada por Pizzoli transmite, deste modo, dois grandes sucessos da época: Serões da Dona Generosa, radioteatro em tom humorístico criado por Roberto Lis; e Hora do Bicho, programa de calouros conduzido por Piratini.

A emissora não deixa de recorrer, também, a talentos do centro do país, como acontece em novembro de 1936, quando Aracy de Almeida, Floriano Belham, Irmãs Pagãs, Jorge Murad e Sonia Barreto, entre outros, misturam-se com artistas locais em um espetáculo transmitido do Cinema Imperial, complementando as comemorações de aniversário e marcando a instalação do novo transmissor.

Anúncio da Rádio Difusora Porto-alegrense (1936)
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 31 out. 1936. p. 10.

Segundo Breno Futuro, após comprar a Gaúcha, Arthur Pizzoli começa a enfrentar problemas para obter patrocinadores devido à precariedade do mercado porto-alegrense. Pensa, então, em vender suas duas emissoras, gerando os recursos necessários para adquirir a Farroupilha, muito mais potente. Em 1943, o representante dos Diários Associados no Rio Grande do Sul, João Freire, assiste às comemorações do nono aniversário da PRF-9. Pizzoli aproveita e oferece a estação. Dias depois o negócio é fechado. Tomando conhecimento de que iriam enfrentar o poderio dos Associados, os proprietários da Farroupilha, já em sérias dificuldades financeiras, oferecem a PRH-2 para Freire. Atraído pelo canal exclusivo internacional e pelo transmissor de 25 kW, ele se reúne mais uma vez com o proprietário da PRC-2 e da PRF-9, que, algo impensável nos dias atuais, desfaz amigavelmente a transação já acertada. Um ano depois, empolgados com o faturamento da Farroupilha, os Associados voltam à carga e adquirem por Cr$ 4 milhões (quatro milhões de cruzeiros) a Difusora. A rádio, no entanto, não chega a deslanchar nos anos seguintes, acabando por ser vendida para a Ordem dos Capuchinhos em 1959.
Farroupilha: de Flores da Cunha a Assis Chateaubriand
2013
Luiz Artur Ferraretto

Francisco de Assis Chateaubriand
Fonte: Acervo da Fundação Chateaubriand

Os Diários e Emissoras Associados, de Francisco de Assis Chateaubriand, entram na vida da Farroupilha em 1943. A emissora dos Flores da Cunha atravessa, na época, uma séria crise financeira, consequência do posicionamento político de Luiz e Antônio Flores da Cunha, filhos do ex-governador que, ao retornar do exílio, um ano antes, havia sido recolhido ao Presídio de Dois Rios, na Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Os gastos com simpatizantes exilados e com as seguidas tentativas de insurreição armada – sempre desbaratadas pela polícia política –, além das pressões do Departamento de Imprensa e Propaganda, afetavam a qualidade da programação e, por extensão, as atrações limitavam-se ao radioteatro, dirigido por Luiz Pery Borges e Estelita Bell. Segundo o advogado Ottoni Câmara Arregui, um dos seguidores do general, a ideia da venda para os Associados parte de Luiz Guerra Flores da Cunha, que, junto com Daniel Krieger, fecha o negócio com Assis Chateaubriand, no Rio de Janeiro. A PRH-2 passa, então, a ser administrada por João Freire, representante dos Associados no Rio Grande do Sul, e Manoel Braga Gastal, alçado à posição de diretor artístico da Farroupilha.



Ottoni Câmara Arregui, advogado e correligionário do general Flores da Cunha
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 9 de setembro de 1999.

A nova situação permite que a programação da emissora seja aprimorada. Em 2 de julho de 1943, estreia Em Busca da Felicidade, adaptação de Gilberto Martins para o original do cubano Leandro Blanco, produção gravada em discos de acetato no centro do país. Dois anos antes, ao ser transmitida pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, a produção patrocinada pela Colgate-Palmolive tornara-se a primeira novela radiofônica ouvida pelo público brasileiro. O sucesso desta produção leva à montagem de um núcleo próprio de novelas, organizado em torno do ator e diretor Walter Ferreira. Além disto, com o apoio do elenco fixo da rede liderada pelas rádios Tupi, do Rio de Janeiro e de São Paulo, em pouco tempo, a emissora recupera-se, dobrando o faturamento em relação ao obtido pelos Flores da Cunha. Empolgados pelo rápido sucesso de seu empreendimento, os Associados compram um ano depois, em 1944, a Rádio Difusora Porto-alegrense.

Abertura de Em Busca da Felicidade
Fonte: BASF BRASILEIRA S.A. 1934 - 1984, 50 anos de memória brasileira.
São Paulo, 1984. Fita cassete.

As negociações envolvendo a PRH-2 e a PRF-9 inserem-se na lógica de expansão das empresas de Chateaubriand durante a primeira metade da década de 1940, período em que são adquiridas também a Difusora, de São Paulo; a Mineira e a Guarani, de Belo Horizonte; a Sociedade da Bahia, de Salvador; e a Educadora do Brasil (logo rebatizada como Tamoio), do Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, os Associados estavam presentes desde 1930, quando haviam comprado o Diário de Notícias, jornal lançado cinco anos antes. A aquisição da Farroupilha e da Difusora foi precedida ainda da incorporação, em 1941, do periódico A Razão, de Santa Maria. Em boa parte, no futuro, o sucesso da Farroupilha sustenta-se na infraestrutura oferecida, em termos nacional e estadual, pelo conjunto de empresas controlado por Chateaubriand.

No Rio Grande do Sul, o Diário de Notícias – então segundo jornal do estado, perdendo apenas para o tradicional Correio do Povo – ampara a divulgação das atrações da emissora e coopera na área informativa e comercial. Este apoio, no entanto, se dá em um patamar completamente diferente da relação existente, de 1935 a 1937, entre a emissora e os periódicos da Empresa Jornalística Rio-grandense. Apesar de refletir as posições políticas de Chateaubriand, o Diário funciona, predominantemente, como veículo de comunicação em busca de lucro e não como órgão da imprensa partidária.

Em âmbito nacional, as emissoras dos Associados, no centro do país, possuíam artistas de renome, alguns dos quais vêm a Porto Alegre para temporadas ao microfone da Farroupilha. Os empreendimentos de Chateaubriand destacavam-se, muitas vezes, pelo pioneirismo, transferido de uma para outra integrante do grupo. Exemplo disto, o Grande Jornal Falado Tupi, surgido em 1942 na emissora paulista que lhe dá o nome, tem sua estrutura transplantada para a PRH-2. Com a devida alteração no título, aparece, no ano seguinte, o Grande Jornal Falado Farroupilha, transmitido todos os dias das 23 às 23h30.

As comemorações do oitavo aniversário da PRH-2 são um exemplo destas novas possibilidades à disposição da Farroupilha. Junto com as atrações locais, apresenta-se, na programação especial do dia 25 de julho de 1943, o cantor Moraes Neto, da Tupi, de São Paulo, conhecido por interpretar valsas e versões lentas de fox e samba. Ao mesmo tempo, o Diário de Notícias abre anúncios de página inteira com várias fotografias, destacando a dupla Pery e Estelita, o maestro Salvador Campanella e a cantora Olga Maria, além do próprio Moraes Neto. Na realidade, o aniversário transcorrera na véspera, um sábado. O domingo, no entanto, talvez tenha parecido mais adequado à direção da Farroupilha para a programação festiva transmitida das 7h30 às 15h, dos estúdios, e, das 16 às 23h, do Cinema Imperial. A articulação com o Diário de Notícias estende-se, ainda, à distribuição gratuita, para a segunda parte da irradiação, dos convites colocados à disposição dos ouvintes no Departamento de Publicidade do jornal. O matutino dos Associados passa a tratar a PRH-2 como “um dos grandes elos da cadeia dos Diários Associados” ou “a mais potente”. A mudança no controle da emissora também é acentuada no noticiário, como neste texto da edição de 15 de julho de 1943 em que eram anunciadas as apresentações da soprano Consuelo Tota e da folclorista Tania Regina:

É inegável que a Rádio Farroupilha, desde que passou a fazer parte da poderosa cadeia dos Diários Associados, iniciou um ciclo de grandes realizações em todos os seus setores de atividade e, especialmente, no que concerne à parte artística. Novos programas foram lançados ao ar, novos artistas contratados, novo ritmo dado às suas irradiações.
A incorporação da Farroupilha aos Associados vai fazer com que a emissora lance, nos anos 1940, as bases para que, na década seguinte, definam-se os contornos de uma indústria de produção de conteúdo voltada ao entretenimento e caracterizada por produtos de largo consumo, como as novelas radiofônicas, os programas de auditório e os humorísticos.
Manoel Braga Gastal, o homem dos dois dedos de prosa
2007
Luiz Artur Ferraretto

Muito se escreveu na imprensa de Porto Alegre sobre Manoel Braga Gastal, advogado, professor, político, desportista, jornalista e radialista falecido no domingo, dia 1º de abril. Conversei com ele em junho do ano passado pela última vez. Nas várias vezes em que o entrevistei, por telefone ou pessoalmente, Braga Gastal sempre me surpreendeu. Como político esteve ligado ao Partido Libertador, legenda tradicionalmente conservadora. Ao saber que, na mesma tarde em que conversávamos pela primeira vez, isto lá por meados de 1999, eu iria entrevistar Lauro Hagemann, seu ex-colega dos tempos da Rádio Farroupilha, mas dedicado militante comunista, pediu que eu desse um forte abraço no mais famoso Repórter Esso do Sul do país e sentenciou:

– Um adversário muito sério, pessoa de respeito e muito querido!

Horas depois, Lauro, da esquerda para a direita, repetia quase a mesma frase. Quando conversamos pela última vez, Gastal me falou da felicidade de morar em frente a uma praça que leva o nome do grande poeta e dramaturgo espanhol García Lorca, vítima do franquismo. E deu um show, declamando poesias em frente à sua casa. Estava, então, por completar 90 anos e se orgulhava de ser o jornalista mais velho em atividade no Rio Grande do Sul, escrevendo editoriais para o Correio do Povo.

Graças a Manoel Braga Gastal, consigo hoje imaginar como era o velho prédio da Farroupilha nos altos do viaduto que permite à Duque de Caxias passar sobre a Borges de Medeiros. Consigo também me deslocar por outras dependências da emissora, aquelas mais no centro de Porto Alegre, as da sua segunda sede. E é em homenagem a esta passagem pelo microfone da então PRH-2 que é impossível falar de Braga Gastal sem citar o comentário Dois Dedos de Prosa, que redigiu de 1948 a 1960. Admirador do parlamentarista Raul Pilla, que havia fundado o Partido Libertador, o advogado e radialista exercia, em 1954, um mandato como vereador pelo PL em Porto Alegre. Lidos pelo próprio Gastal ou por um locutor, os textos seguiam à risca a orientação partidária. Defendiam um Estado que, no campo econômico, orientaria, estimularia e assistiria a produção, interferindo somente quando necessário ao bem comum e não concorrendo com a iniciativa privada. Nesta linha, o capital estrangeiro deveria receber o mesmo tratamento legal, fiscal e administrativo dispensado ao capital nacional. Os comentários, naquele período, portanto, criticavam, fortemente, o nacionalismo e outras atitudes do governo Vargas:

– Eu atacava, mas eu atacava dentro dos padrões, meus e da Farroupilha, com dignidade, com honestidade, com uma forma de dizer correta. Era opinião, bem sólida e consolidada, que esteve no ar por 12 anos.

Em 24 de agosto de 1954, após a divulgação do suicídio do presidente da República, um dos alvos da fúria popular seria o prédio da Farroupilha, totalmente destruído então. Na origem da depredação, para alguns, está a contundência daqueles dois dedos de prosa, força que o texto de Braga Gastal, se esteja contra ou se esteja a favor, não perderia com o passar do tempo.


Manoel Braga Gastal revive o comentário Dois Dedos de Prosa (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.
A Cervejaria Brahma e a cobertura esportiva da Gaúcha
2013
Luiz Artur Ferraretto

Quando a Brahma assumiu o controle da Cervejaria Continental, no Rio Grande do Sul, buscou o apoio do rádio para se firmar no mercado do Rio Grande do Sul. Algo comum décadas depois, a associação de uma marca de cerveja às transmissões esportivas era uma novidade no rádio naquele final dos anos 1940. E acabaria impulsionando o trabalho da Gaúcha nesta área, não tão explorada quanto hoje pelas emissoras. Por esta época, o esporte, junto com os informativos em geral, ocupa uma terceira posição em termos de importância dentro da programação das peerres locais. No final dos anos 1940, a atenção do público começa a se fixar mesmo nas novelas, então expressão máxima do radioteatro em quantidade de ouvintes, seguindo-se a elas os humorísticos e os programas de auditório, três gêneros que conformam o espetáculo radiofônico da década seguinte. Aos noticiários, às reportagens e às coberturas esportivas, caberá, mais tarde, depois do advento da televisão, servir de base para a reestruturação do rádio, abalado pela perda de atrações, público e anunciantes.

O vantajoso acordo publicitário com a Cervejaria Brahma, portanto, torna-se um poderoso diferencial e impulsiona o desenvolvimento da programação esportiva na Gaúcha, como explica Breno Futuro, genro de Arthur Pizzoli, o proprietário da rádio:

Quando a Cervejaria Continental foi vendida para a Brahma – a Continental não anunciava quase nada –, eles compraram todo o espaço esportivo da Gaúcha. Só da Gaúcha. Onde tinha irradiação de esportes, a Brahma estava dando cobertura. E passou a Brahma a ser sinônimo de cerveja aqui no Rio Grande do Sul, por isto, pelo peso na programação da Gaúcha. No esporte, a Gaúcha era absoluta devido ao patrocínio exclusivo da Brahma. Entrou com muita força e nos deu capital para irradiarmos de onde fosse preciso.
A parceria vai garantir a irradiação dos jogos de futebol dos times gaúchos não apenas nos gramados locais. Em 14 de maio de 1949, Cândido Norberto vai fazer, assim, a primeira transmissão esportiva internacional do rádio do Rio Grande do Sul, como recordaria, 50 anos depois, o jornal Zero Hora:

No outono de 1949, o locutor Cândido Norberto, vestido elegantemente com um terno feito de legítima casimira inglesa, ocupou um lugar nas tribunas de imprensa do Estádio Centenário e transmitiu o amistoso entre Grêmio e Nacional, em comemoração aos 50 años triunfales, o cinquentenário de fundação do clube uruguaio. Era também o primeiro jogo de um time gaúcho fora do país. O Grêmio venceu por 3 a 1 e ajudou a colocar na história a transmissão de Cândido. Sem satélites, tevês, celulares ou fibras óticas, a narração navegou por ondas curtas, com as linhas da antiga Radional em uma prudente reserva técnica. Sem linha de retorno, como acontecia na época, Cândido só no final soube que a primeira transmissão internacional fora um sucesso.
Cândido Norberto transmite Grêmio e Nacional (14 de maio de 1949)
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 14 maio 1999. p. 70.

No mesmo ano e em condições mais adversas, Cândido Norberto acompanha a excursão do Grêmio pela América Central, narrando jogos na Guatemala e em El Salvador. Nestas transmissões internacionais, por vezes, o alto custo da empreitada obrigava que fosse buscado também um reforço com outros patrocinadores.

Breno Martins Futuro
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 26 de junho de 1999.


Cândido Norberto Santos
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 10 de junho de 1999.
Cândido Norberto, o início de carreira do mais importante radialista gaúcho
2006
Luiz Artur Ferraretto

No início dos anos 1940, o bageense Cândido Norberto Santos divide seu tempo entre o estudo e o trabalho como repórter na Folha da Tarde, então um sucesso editorial. Por vezes, acompanha o colega João Bergmann, o Jotabê, conhecido cronista das coisas de Porto Alegre, à Rádio Difusora Porto-alegrense e vai tomando contato com o veículo que marcará sua trajetória profissional ao longo das sete décadas seguintes.

– O Jotabê era locutor da Rádio Difusora e, como nós trabalhávamos juntos na Folha pela parte da manhã, era comum que almoçássemos também juntos e, depois, a partir de certo momento, continuássemos a conversa na Rádio Difusora, que era a “PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, a sua emissora”. Era o slogan dela. Enquanto rodava um disco e outro, ficávamos conversando dentro do estúdio. Uma tarde, por estas coisas da vida, houve um imprevisto e ele teve de sair urgentemente para atender um telefonema, mas o telefonema se prolongou. Abriu o microfone e o operador fez sinal... E eu li uns textos. A partir daí, fui convidado para fazer locução comercial. Já entrei também como redator de textos comerciais. Logo em seguida, já estava fazendo um comentário chamado O Fato e Algumas Palavras, que ia à noite.

Da Difusora, tempos depois, Cândido passa a trabalhar na Rádio Gaúcha, ambas as emissoras, na época, sob o controle de Arthur Pizzoli. A versatilidade já marca, então, a carreira do radialista.

– Certa vez, eu saí de um jogo do campo do Força e Luz [time de futebol da empresa que fornecia energia elétrica à capital gaúcha]. Eu estava narrando um jogo de futebol em plena Semana Santa. Saí do campo, larguei o microfone, entrei correndo no estúdio, na rádio, e começamos a tratar da interpretação da vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Por sinal, era uma Quinta-feira Santa. Sabe quem era o Jesus Cristo? Eu. Aquele santíssimo homem. [fazendo o sinal da cruz] A paz esteja convosco! Saí da narração estridente de um jogo de futebol para fazer o suave Jesus Cristo. Era algo alucinante.

Como diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido protagoniza duas iniciativas pioneiras na radiodifusão do Rio Grande do Sul. Numa época de novelas transmitidas duas ou três vezes por semana, ele introduz a irradiação em capítulos diários apresentados na primeira parte do programa Tapete Mágico. A atração faz o sucesso das noites da Rádio Gaúcha, de segunda a sexta, das 20 às 21h, na virada da década de 1940 para a de 50. Além disto, em 14 de maio de 1949, Cândido torna-se o primeiro profissional de rádio do Rio Grande do Sul a transmitir um jogo de futebol fora do país. Nesta fase, fazendo frente à Farroupilha, Cândido contrata, também, Walter Ferreira e Adroaldo Guerra. Junto com eles, cartazes de destaque no rádio porto-alegrense, divide, em 1948, os papéis principais de Os Três Homens Maus, novela de Raymundo Lopes, um grande sucesso junto ao público:

– A coisa chegou a tal extremo de popularidade, de força, que o mais frequente era encontrar, em qualquer ponto de Porto Alegre, Oficina Mecânica Três Homens Maus, Padaria Três Homens Maus, não-sei-o-que Três Homens Maus...

Cartão promocional da novela Os Três Homens Maus (1948)
Da esquerda para a direita, Cândido Norberto, Adroaldo Guerra e Walter Ferreira.
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 9 jul. 2001. p. 46.

Cândido fica conhecido, também, pelo Pensando em Voz Alta, espaço de opinião sempre marcado pela Glenn Miller Orchestra interpretando Moonlight Serenade, que serve de cortina musical. O comentário torna-se um dos tantos trabalhos do radialista a permanecer na memória dos ouvintes. Décadas depois, numa homenagem ao Dia do Rádio, em 1975, a pedido da produção do programa Opinião Pública, de José Antônio Daudt, na mesma Difusora em que começara sua carreira, Cândido relembraria os tempos de pensar em voz alta, não que deixasse de refletir assim nas três décadas seguintes. Até porque, nem só dos tempos do rádio espetáculo se fez a sua trajetória profissional. Por isto, sobre o Cândido, há que voltar a falar, mesmo, mais adiante. São décadas de rádio e 79 anos de vida completados no dia 18 de outubro deste 2006.

Cândido Norberto revive o comentário Pensando em Voz Alta (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.
Cândido Norberto e as volutas da memória
2009

Cândido Norberto (2002)
Fonte: TV ASSEMBLEIA. Democracia, Porto Alegre, 18 set. 2002. Programa de televisão.

Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Cândido Norberto e as volutas da memória. Zero Hora, Porto Alegre, 3 fev. 2009. p. 15.
Cândido Norberto morre aos 83 anos
2009


Fonte: CÂNDIDO morre aos 83 anos. Zero Hora, Porto Alegre, 2 fev. 2009. p. 4-5.

Fonte: SANT’ANA, Paulo. Adeus... Zero Hora, Porto Alegre, 2 fev. 2009. p. 39.

Fonte: SANT’ANA, Paulo. Cândido ficou conosco. Zero Hora, Porto Alegre, 3 fev. 2009. p. 47.

Fonte: OSTERMANN, Ruy Carlos. Cândido faz falta. Zero Hora, Porto Alegre, 3 fev. 2009. p. 44.

Fonte: GOMES, Flávio Alcaraz. O amigo mais certo das horas incertas. O Sul, Porto Alegre, 4 fev. 2009. Caderno Colunistas, p. 1.

Fonte: COPSTEIN, Jayme. Imagina, cara! O Sul, Porto Alegre, 3 fev. 2009. Caderno Colunistas, p. 3.


O jornalista e radialista Claudio Brito presta sua homenagem, conversando com Nilson Souza, editor de Opinião do jornal Zero Hora, e reproduzindo trechos da última entrevista dada por Cândido Norberto.
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha no Carnaval. Porto Alegre, 2 fev. 2013. Programa de rádio.
João Bergmann: o cronista da cidade e descobridor de Cândido Norberto
2013
Gustavo Monteiro Chagas
Estudante de Jornalismo (UFRGS)

Se cada leitor tem um colunista de jornal favorito, nos anos 1950, Porto Alegre como um todo tinha lá o seu também: João Bergmann. O sucesso era tanto, que ganhou o epíteto “O cronista da cidade”, graças às crônicas publicadas sob o pseudônimo Jotabê nos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, ambos da Caldas Júnior. João também foi locutor de rádio, levando, quase sem querer, Cândido Norberto para o meio. Mesmo morrendo jovem, com apenas 38 anos, o cronista marcou a história da imprensa gaúcha. Era uma espécie de Luiz Fernando Verissimo daqueles tempos.

João Bergmann nasceu em Porto Alegre em 1922. Formou-se em Direito no portentoso palacete que ainda abriga a faculdade hoje ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalhou como consultor jurídico do Sindicado dos Lojistas. Sua carreira no jornalismo começou na Folha da Tarde, no início dos anos 1940. O emprego foi obtido com ajuda de Arlindo Pasqualini, anos depois, seu colega no curso de jornalismo. Na Folha, Jotabê começou escrevendo reportagens da editoria de geral e, mais tarde, trabalhou na editoria nacional.

Ainda naquela década, Jotabê trabalhou na Rádio Difusora Porto-alegrense. Era locutor (ou, como se dizia na época, speaker). Seu dia era dividido entre a rotina do jornal pela manhã e a da emissora de rádio pela tarde. Nas idas diárias para a Difusora, Jotabê era acompanhado por Cândido Norberto, seu colega da Folha. Certa vez, Cândido teve que substituir o amigo na locução enquanto o cronista atendia ao telefone. E assim, por um acaso, o Rio Grande do Sul ganhava um dos maiores radialistas de sua história.

Mesmo com carreira consolidada, Bergmann seguiu os estudos, formando-se no curso de Jornalismo em 1954, na primeira turma da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O cronista foi o orador da turma de 47 alunos que havia iniciado a graduação dois anos antes. Ainda em 1954, Bergmann ganhou um espaço próprio para seus textos na Folha. Era o De Ontem para Hoje.

Irônico e bem-humorado, Jotabê tratava dos assuntos do cotidiano dos porto-alegrenses da época. Suas crônicas tinham espaço para economia, política, problemas da cidade, entre outros temas. Até o trânsito, complicado já naquela época, era alvo do sarcasmo do cronista. Nos domingos, Jotabê mantinha coluna no Correio do Povo, intitulada O Domingo é Meu. Junto com suas crônicas, vinham ilustrações de profissionais como Sampaio, Xico Stockinger e George Duque Estrada.

Jotabê morreu em julho de 1960, vítima de um ataque cardíaco. Foi casado com Bernardina Assis e teve quatro filhos (entre eles o dirigente e conselheiro do Grêmio, João Luiz Bergmann, morto em 1983). Em 1964, suas crônicas publicadas na Folha e no Correio renderam o livro Crônicas de Jotabê, lançado pelo Instituto Estadual do Livro da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. Hoje, João Bergmann é nome de uma praça na Vila Assunção, na Zona Sul de Porto Alegre.

Nas crônicas que abrem o livro, o jornalista brinca com as radionovelas da época, criando a fictícia Almas irmãs gêmeas nascidas no mesmo dia com a diferença de cinco minutos apenas ou Os grilhões de uma consciência agrilhoada. Confira:


NOVELA 
Inúmeros críticos cinematográficos a quem submeti, modestamente, os screen-plays dos meus dois primeiros filmes nacionais, não foram capazes de esconder a surpresa diante do fato de ter eu podido fazer, assim de saída, uma coisa que os americanos levaram anos e anos fazendo. Um deles declarou, textualmente, que os meus filmes só eram comparáveis ao incomparável Radische Yuywzrvqspklmxesxch Srqthgflçbn, filme croata-esloveno que, como os meus, ainda não foi exibido no Brasil. Outro, foi ao ponto de classificar-me como autor claroescuramente precoce, iludido, por certo, com este meu natural bem cuidado e jovial que dá, aos circunstantes menos avisados, a impressão de estarem à frente de um simples garoto, em idade de bambolê. O que, no fundo, não passa de mera ilusão de ótica, mas ainda assim tão perfeita que nem os sinais de uma calvície com entradas pela frente e pelos fundos conseguem prejudicar, tanto mais que como todos sabem, um dos mais meninos prodígios do cinema, o querido Pablito, de Marcelino, pão e vinho, também é Calvo. 
Devo, entretanto, a bem da verdade, esclarecer que não alcancei aquelas culminâncias, logo no primeiro voo. Antes de abalançar-me à produção de enredos cinematográficos, produzi uma novela radiofônica, a qual só não chegou a ser lançada ao ar, por falta de patrocinador. No geral, os dirigentes das firmas procuradas eram para esse fim, não queriam assumir compromissos tão longos, alegando que não sabiam se os seus netos desejariam manter o programa e interromper, assim, no meio, uma novela de sucesso, como a minha, poderia criar um grave caso de comoção intestina. 
O título que escolhi, modéstia à parte, é bastante sugestivo e capaz de provocar enorme sintonia: Almas irmãs gêmeas nascidas no mesmo dia com a diferença de cinco minutos apenas ou Os grilhões de uma consciência agrilhoada. 
A história é simples, porém emocionante. Trata-se de dois irmãos que não sabem que são irmãos, pois viveram, sempre, em quartos separados e faziam refeições em horas diferentes, sem jamais terem descoberto o terrível segredo que cercava as suas origens. 
Uma vez, graças à bisbilhotice de uma vizinha, quase que fica tudo esclarecido, estragando-se a novela, antes, mesmo, de começar. Felizmente, porém, a megera é fulminada no momento em que ia contar tudo a André: − Meu pobre André, como tens vivido na ilusão! Ao que André retruca: − Fale claro, D. Esmeralda. Eu tenho o direito de saber tudo, tudo, t-u-d-o, tudo! Pelo amor de Deus, D. Esmeralda. Fale por favor! Fa (soluça) le! Pelo que, D. Esmeralda, já com voz sumida de quem vai ter uma coisa daí a pouco, resolve abrir-se: “Não sei se deva, meu filho. O segredo não é só meu. Mas aquele que m’o confiou em seu leito de molas, já não mais existe. (Ofega, bem perto do microfone que deverá ser convenientemente desinfetado, logo após) André! Ó meu pobre André! És ir... (cai, vitimada por um mal súbito, cujo mal, um quintanista de medicina, chamado às pressas, informa ser nó nas tripas, pois a novela se passa antes da invenção do apêndice). 
Vai daí que André e Maurício (o outro irmão que também não sabe que é irmão) apaixonam-se pela mesma moça, a loira e doce Margarida, a qual – vejam só a sutileza da trama – apaixona-se por André, acreditando que ele é o Maurício. Margarida, por seu turno, também tem uma irmã, a quem não vê há vários anos, porque foi dada como perdida durante o incêndio de um circo, mas, na verdade, fora recolhida pela mulher barbuda que a criou como um pai, ocultando-lhe, sempre, a história de sua vida. No circo, Martha, (é o seu nome verdadeiro, conforme assentamento constante a fls. 137 verso do livro 3-AB do Cartório de Registro de Nascimentos e Óbitos da Comarca) por uma dessas coincidências que nos fazem acreditar em inspirações sobrenaturais, passa a se chamar Margarida, o que, até hoje, me espanta, pois asseguro-vos que a mulher barbuda não conhecia a família de Martha, ignorando, completamente, o nome da irmã dela, não podendo, assim, ser intencional o uso daquele prenome. 
Um dia, depois de muitas voltas pelo mundo, o circo retorna à cidade e anuncia a sua grande atração: “Margarida, a única mulher barbuda que não tem barbas, em números de arrepiar os cabelos”. Preços reduzidos. 
Irá Margarida-Margarida ao circo para ver Margarida-Martha? E, se for, lá estarão, também, nas gerais, André e Maurício? E será que Margarida-Martha, durante o seu número do trapézio da morte não sentirá uma vertigem e cairá lá de cima?’ E André e Maurício, quando todo o mundo ficar sem saber o que fazer, não saltarão, ao mesmo tempo, para o picadeiro, a fim de socorrerem a jovem e bela moça? E não acabarão, a instâncias do Sr. Cordeiro (pai das Margaridas) levando-a para a case dele, a fim de, ali, ser melhor atendida? E não será isso, afinal, o que proporcionará ao Autor a possibilidade de, 53 capítulos após, escrever uma das mais comoventes páginas do rádio brasileiro, quando o Sr. Cordeiro descobre que é pai de sua filha e esta, por sua vez, fica sabendo que é filha de seu pai, caindo, ambos, de joelhos, um à frente do outro, com mal disfarçada emoção: “Minha filha! Minha pobre filha!” – “Meu pai! Meu pobre pai!”? 
Será.
Fonte: BERGMANN, João. Novela. In: DUARTE, Júlio; REVERBEL, Carlos (Org.).
Crônicas JotaBe. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1964. p. 15-18. 

NOVELA (II) 
Nos 162 capítulos anteriores desta emocionante novela radiofônica que escrevi em prantos e que só não chegou a ser levada ao ar por absoluta falta de um patrocinador de boa visão, sobretudo, vida longa, vimos que André e Maurício, dois irmãos bastante gêmeos, ignorando completamente essa circunstância, apaixonaram-se pela mesma moça, a qual, por sua vez, perdeu-se de amores por André, acreditando que ele fosse Maurício, sem falar em que ela possuía, também, uma irmã, cuja irmã perdera-se no verdor dos anos, durante um incêndio de um circo, nunca mais se ouvindo falar nela. Mas eis que o circo volta (os circos sempre voltam ao local do incêndio) e por uma série de coincidências felizes, a irmã circense, pois a meninazinha não morrera carbonizada como noticiou um órgão de imprensa local (o esqueletinho achado no dia seguinte, entre os escombros, era da macaca Balduina, com quem Martha nutria, apenas leve parecença) e, sim, acolhida pela mulher barbuda que a criou como um pai. Dezenas de capítulos após, o pai das moças descobre que a artista do circo que caiu do trapézio fraturando a bacia, sendo levada para sua casa, dele, não era nada mais nem menos do que a sua querida filhinha Martha, lançando-se um nos braços do outro, com tanto entusiasmo que se verificou nova fratura da moça, desta vez no ante-braço esquerdo, pois como todos estarão lembrados, a vítima era completamente canhota. Encanado o braço, ficou resolvido o problema das irmãs, permanecendo de pé, entretanto, o dos irmãos. Ah! Esqueci-me de dizer que um era de caráter honesto, trabalhador, cumpridor de seus deveres, incapaz de dizer uma leve mentira, ainda que em seu próprio benefício, motivo pelo qual estava bastante mal de vida, mas não se queixava nem pedia dinheiro emprestado, sendo, por isso, muito bem-quisto. O outro, era um refinado patife, hipócrita e falso, jogador profissional de bambolê a dinheiro, o que lhe dava grossos lucros, no geral obtidos com trapaças e com o uso de arcos falsos que trazia escondidos na manga, pelo que era muito considerado nas altas rodas, prevendo-se para ele uma bonita carreira na política, mediante a compra de votos nas eleições. Maurício era o bom; André era o canalha. Digo, o canalha era Maurício e André o bom. Não, o bom era Maurício. Aliás, confesso-vos que não me recordo muito bem desse detalhe, mas no final não faz muita diferença, pois tocado pelo amor angelical de Margarida, o ruim regenera-se e o bom, por ela desprezado, dá para beber, matando um pobre velho que veio lhe oferecer um buquê de margaridas, num dia em que, como de costume, bebera mais do que habitualmente, motivo pelo qual foi recolhido à Ilha-Presídio, com um espantalho vestido de guarda à porta da sua cela, da qual só conseguiu fugir 12 horas depois, aproveitando-se de um descuido do carcereiro. Esclareço-vos que cheguei a pensar, seriamente em fazer surgir um romance entre este irmão e a irmã reencontrada de Margarida, mas a coitada também não deu em boa coisa, fugindo de cada com um vendedor de cachorro quente, sem mostarda, o que ocasionou a morte, em 5 capítulos, do seu pobre pai, vitimado por insidiosa falta de ar, segundo diagnosticou um quinta-anista de medicina, pois a ação se passa antes da descoberta do enfarte do miocárdio. 
No último capítulo, na última cena, há, modéstia à parte, um diálogo belíssimo, entre Maurício e Margarida. Ele pega e diz – Amar-me-ás, sempre, Margarida? Ao que ela retruca, docemente: Amar-te-ei sempre, sempre, sempre. Daí ele vai e ela vai e dizem: 
− Minha Margarida...  
− Meu André... 
Não sei, até hoje, como foi que ela descobriu.
Fonte: BERGMANN, João. Novela. In: DUARTE, Júlio; REVERBEL, Carlos (Org.).
Crônicas JotaBe. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1964. p. 19-21.
Luiz Mendes, o homem do “golaço”
2013
Gustavo Monteiro Chagas
Estudante de Jornalismo (UFRGS)

Golaço, expressão unânime para definir um belo gol no futebol. Seja no Norte ou no Sul do país, do melhor ou do pior jogador, um gol bonito é, simplesmente, um golaço. E é devido a Luiz Mendes. O radialista gaúcho fez história no Rio de Janeiro e criou (ou importou) a expressão que até hoje é usada pelos torcedores. Nos seus quase 70 anos de carreira no rádio, Mendes imortalizou bordões – como “minha gente”, ao chamar os ouvintes – e criou o “Folha-seca”, apelido do jogador Didi. Mais marcante, sem dúvida, pela popularidade que alcançou, foi a importação do golazo dos narradores castelhanos que ele ouvia na infância. Mendes usou a expressão pela primeira vez na sua estreia como principal narrador da Globo, em um jogo entre Fluminense e Bonsucesso. Assim nascia o “golaço” nosso de cada final de semana de futebol.

Luiz Mendes (24 de maio de 2011)
Fonte: Acervo particular de Roger Bell.

Nascido em Palmeira das Missões, no Noroeste do Rio Grande do Sul, em 6 de junho de 1924, Luiz Mendes tinha um destino quase certo. Seria no futebol (contra a vontade do pai) ou no rádio. Logo, com dez anos de idade, inclinou-se para o primeiro, atuando como árbitro em partidas entre clubes de Carazinho. Quando sua família foi morar em Ijuí, jogou no clube da cidade, o São Luiz. Na adolescência, dividia o tempo do esporte com o serviço no jornal Correio Serrano e, depois, no jornal Alerta, fundado por ele mesmo. Mas foi por um acaso que Luiz seguiu para o meio de seus sonhos. Ouvindo uma conversa entre dois senhores, descobriu que seria lançado um sistema de alto-falantes em postes em Ijuí. Ofereceu-se para ser locutor e ganhou o emprego. Três meses depois despertou atenção do dono de uma estação de rádio da cidade de Santo Ângelo, a Rádio Missioneira. Lá, trabalhou como locutor de anúncios comerciais e ainda organizava os discos que fariam parte da programação da emissora. Nascia, assim, um dos principais profissionais do rádio brasileiro.

Aos 18 anos, Luiz veio para Porto Alegre. Chegou e logo descobriu um anúncio da Rádio Farroupilha, convocando locutores esportivos para um teste. Observado por Heron Domingues, Manoel Braga Gastal e Walter Ferreira, o teste do jovem seria o que ele já havia feito muitas vezes na infância: simular a narração de um jogo, um Grenal. Com medo de narrar um gol e desagradar aos ilustres observadores (e suas paixões clubísticas), Mendes enrolou até ouvir um pedido: um gol de Tesourinha, craque do Internacional na época. Como Walter, Manoel e Heron eram todos torcedores do clube, o pedido foi o que bastou para Luiz gritar um gol colorado.

Efetivado na emissora de Porto Alegre, Luiz Mendes ganhou, dos ouvintes, o apelido “Menino de ouro”, tamanha sua popularidade. Entre os colegas, virou o “Craque da palavra”. Em 1944, há meses sem receber pelos serviços prestados à Farroupilha, Luiz foi enviado para cobrir um jogo em São Paulo. De lá, partiu para o Rio de Janeiro, decidido a não voltar ao Rio Grande do Sul.

Na então capital do país, Luiz procurou emprego na Rádio Nacional, a mais popular da época. Não conseguiu por ainda carregar na fala o “erre” tradicional dos gaúchos do interior. Resolveu, então, procurar uma vaga em uma rádio que ainda não existia. A Rádio Globo seria inaugurada no dia seguinte e Luiz decidiu se apresentar aos diretores da emissora. Com o antecedente de ter trabalhado na Farroupilha, uma das principais emissoras do país, foi contratado imediatamente. Lá, começou como locutor comercial e apresentador. Em 1947, assumiu a titularidade na narração esportiva da emissora, após uma proposta de Roberto Marinho. Luiz seguiu na Globo por décadas, fazendo um pequeno intervalo nos anos 1990, quando integrou o time da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, acabando, anos depois, voltando a sua casa. Habilidoso com as palavras, deixou de ser o “Craque”, em Porto Alegre, para virar o “Comentarista da palavra fácil”, no Rio.

Capa do livro Minha gente – Luiz Mendes, o mestre da crônica esportiva do Brasil (2010)

O narrador e comentarista esportivo foi casado com a atriz, radialista e política Daisy Lucidi. Botafoguense e gremista, cobriu 13 copas do mundo. Em 2010, a escritora Ana Maria Pires lançou o livro Minha gente – Luiz Mendes, o mestre da crônica esportiva do Brasil, com relatos e comentários do próprio jornalista. Luiz Mendes faleceu em 2011, aos 87 anos.
Luiz Mendes e o velho Carruíra: uma história familiar
2013
Luiz Artur Ferraretto

Carruíra, na Zona Sul do estado, é o nome dado ao passarinho de bico relativamente grande que, em outras regiões, chamam de corruíra. Como apelido, identificou meu tio João Baptista Ferrareto, assim mesmo com um “T” a menos por erro de um escrivão qualquer na hora em que meu avô foi registrá-lo no cartório em Rio Grande. Na década de 1930, Carruíra – o meu tio João – jogou no Sport Club Rio Grande e no Football Club Rio-grandense, sagrando-se campeão do estado por um e por outro. Eu, guri metido, tinha certa desconfiança em relação ao papo do velho, bom contador de estórias e de histórias, com dose significativa de malícia e sacanagem. Em especial, cresci com um daqueles causos soando como lenda. Lenda ampliada pelo meu primo Alberto. Cada vez que passava uns dias na minha casa, em Rio Grande, ele insistia: havia ouvido na Rádio Globo, lá do Rio de Janeiro, “aquela história”. Eu, de fato, duvidava. Primeiro, porque não conseguia acreditar, mesmo que, à noite, na possibilidade da emissora carioca ser captada em Santa Maria, lá onde meu primo morava, na região central do Rio Grande do Sul. Segundo, porque “aquela história” era das mais improváveis e absurdas. Só podia ser algum tipo de lorota, das sem consequências, mas lorota. Na certa. Parecia coisa de um Peregrino Fernández, personagem cheio de trampas do escritor e jornalista argentino Osvaldo Soriano. Mas eu só leria as peripécias desse craque imaginário anos depois.

Pois “aquela história” só iria soar verdadeira mesmo na noite de 23 de maio de 2011. No início da tarde, a professora Sandra de Deus, minha colega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, convidou-me para a palestra que o comentarista Luiz Mendes, da Rádio Globo, daria na especialização por ela coordenada em Jornalismo Esportivo. E não é que era ele o tal jornalista a contar “aquela história” ao microfone da Globo. O áudio da palestra, cedido pelo jornalista e ex-aluno meu dos tempos da Universidade Luterana do Brasil, Roger Bell, confirma o meu espanto... Ah, e se você quer saber qual é “aquela história”, quem sou eu para contá-la no lugar de Luiz Mendes. De quebra, uma dedicatória na biografia do Luiz Mendes escrita por Ana Maria Pires, livro que, aliás, recomendo a quem se interessa por rádio e por futebol.


Luiz Mendes (24 de maio de 2011)
Fonte: Acervo particular de Roger Bell.


Fonte: Acervo particular.
A guerra nas ondas do rádio
2013
Luiz Artur Ferraretto

No dia 28 de janeiro de 1942, o ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, anuncia o rompimento com as forças do Eixo – Alemanha, Itália, Japão e seus aliados. O rádio gaúcho não vai ficar alheio à entrada do país na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados – Grã-Bretanha, EUA e União Soviética.

A Farroupilha, por exemplo, passa a retransmitir o programa Boa Vizinhança, gerado em Washington, refletindo a política de mesmo nome lançada em meados dos anos 1930. Durante a 8ª Conferência Pan-americana, em Lima, no ano de 1939, o governo Roosevelt reforçara esta posição, pretendendo desencadear uma ofensiva sobre os demais países do continente e assegurar para si estes mercados. Portanto, pelo Boa Vizinhança, irradiado de segunda a sábado, das 21 às 21h15, os ouvintes do Rio Grande do Sul vão se inserindo no contexto do conflito pela ótica dos Estados Unidos, complementada pela da Grã-Bretanha, presente no noticiário e nos comentários da British Broadcasting Corporation, transmitidos de Londres, diariamente, das 21h15 às 21h30.

Irradiadas em ondas curtas de seus países de origem, estas emissões em português fazem, assim, frente às da Rádio Berlim, herdeira da antiga Transmissora Nacional Alemã. Em julho de 1944, na mesma época em que as primeiras tropas da Força Expedicionária Brasileira chegam à Itália, as emissões do Reichsrundfunk – o órgão ligado ao Ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda, responsável pelas transmissões radiofônicas nazistas  – começam, diariamente, às 21h, horário do Rio de Janeiro. Revezam-se ao microfone quatro gaúchos, um mineiro e uma baiana convertidos à causa nazista, a maioria deles usando pseudônimos para disfarçar a ascendência germânica e dar certo ar de proximidade às irradiações. O coordenador da programação dedicada ao Brasil é Karl Heinrich Hunsche, natural do Rio Grande do Sul e, anteriormente, conforme investigação da Delegacia de Ordem Política e Social, um dos responsáveis pela infiltração nacional-socialista no estado.

Como registra Renato Mottola, em reportagem publicada pelo Diário de Notícias, em 5 de julho de 1944, destaca-se entre os programas transmitidos da Alemanha, o Atualidades do Dia, conduzido por Gerhard Wolfgang Dohms, com as notícias do conflito, tentando demonstrar como a Alemanha, então em franca retirada nos vários fronts, estava vencendo a guerra. Chama a atenção, ainda, o Pipocas e Batatas, espaço infantil apresentado por Lourdes Lage, encarnando uma simpática velhinha nazista, a Dona Filomena e, deste modo, preparando as futuras gerações para o Reich que pretendia durar mil anos.

No lado brasileiro da guerra pelo rádio, a Farroupilha, em julho de 1943, inclui, ainda, em sua programação o satírico Barão Eixo, ridicularizando o inimigo nazista, e o radioteatro semanal Brasil na Guerra, como chamam a atenção os anúncios no Diário de Notícias, “focalizando o esforço de guerra do Brasil” e a contribuição do país “para a vitória das Nações Unidas”.

Anúncio do programa O Brasil na Guerra (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 19 set. 1949. p. 15.

Já a Difusora começa a transmitir, em 1º de abril de 1943, o programa de comentários A Marcha da Guerra, enquanto a Gaúcha lança A Marcha do Tempo, atração semelhante em conteúdo e denominação.

Anúncio do programa A Marcha da Guerra (1943)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 17 set. 1943. p. 3.

Em meio ao conflito que, gradativamente, vai envolvendo países de todos os continentes, os noticiários crescem em importância e espaço no rádio. Como já acontecera em 1941 na Nacional, do Rio de Janeiro, e na Record, de São Paulo, o Repórter Esso ganha edições locais em Belo Horizonte, na Inconfidência; Recife, na Jornal do Comércio; e Porto Alegre, na Farroupilha. Assim, no dia 16 de julho de 1942, estreia a versão gaúcha do informativo patrocinado pela Standard Oil Company of Brazil, com notícias fornecidas pela United Press International, o que também garante uma visão do conflito segundo o ponto de vista dos Estados Unidos. Nos outros informativos, o mais comum é o uso de dados provenientes dos jornais e de agências noticiosas, atualizados graças à escuta das emissões em ondas curtas – em especial da BBC.
O Repórter Esso e a Segunda Guerra Mundial
2005
Luiz Artur Ferraretto

Anúncio da estreia do Repórter Esso na Rádio Farroupilha (julho de 1942)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 16 jul. 1942. p. 7.

No contexto da Segunda Guerra Mundial, o Rio Grande do Sul ganha em 16 de julho de 1942, na PRH-2 – Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, uma edição local do Repórter Esso, espécie de porta-voz da Política de Boa Vizinhança do governo de Franklin Delano Roosevelt ao difundir a perspectiva dos Estados Unidos a respeito do conflito. Do ponto de vista político, o informativo produzido pela agência de notícias United Press chega, também, pelos potentes transmissores da emissora a Santa Catarina. Nos dois estados, concentram-se na época três quartos da população de origem germânica residente no país. Não por coincidência, o Office of the Coordinator of Inter-American Affairs, órgão gestor desta aproximação estadunidense com o restante dos países americanos, tem no seu comando o milionário Nelson Aldrich Rockefeller, cuja família controla a Standard Oil Company of Brazil, mais tarde Esso Brasileira de Petróleo.

Ruy Figueira, o primeiro Repórter Esso do Rio Grande do Sul (1937)
Fonte: Revista do Rádio, Porto Alegre, ano 1, n. 4, set. 1937. p. 18.

Um dos tantos noticiários com esta denominação e propósito que surgem de Norte a Sul do continente, a versão gaúcha é marcada pelas vozes de seus locutores. De início, Ruy Figueira traz ao ouvinte da Região Sul, em especial, as notícias sobre as batalhas entre as forças dos Aliados e dos países do Eixo. Além de ler o Esso, a este profissional cabe acrescentar as notícias locais, já que as informações do país e do mundo vêm prontas, por via telegráfica, do Rio de Janeiro. Na época, o combate ao totalitarismo direitista do Eixo e a atuação da Força Expedicionária Brasileira catalisam as atenções do público em textos como este, de uma reconstituição realizada pelo primeiro Repórter Esso do Rio Grande do Sul, em 1975, para uma edição especial do programa Opinião Pública da então Rádio Difusora Porto-alegrense:

– Alô, amigos, muito bom dia. Aqui fala o Repórter Esso, testemunha ocular da história, com os mais recentes telegramas da United Press. Rio – O Brasil entra na guerra. Depois da série de criminosos atentados a sua soberania, desfechados pelas forças submarinas da pirataria eixista, a maior nação sul-americana, pela decidida vontade de seu povo, declara guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista. Grandes demonstrações populares antecederam e sucederam a atitude com que o bravo país de Caxias e Tamandaré revida as afrontas dos inimigos da liberdade e da independência dos povos. Grande repercussão mundial cerca a decisão do Brasil. O exército, a marinha e as forças aéreas brasileiras declaram-se decididos para a luta.

A linguagem, de início, ainda é empolada, mas vai adquirindo objetividade com mais concisão e sem firulas pretensamente estilísticas, dando a base – ideologias à parte – para as sínteses noticiosas comuns no Rio Grande do Sul nas décadas seguintes.

Ruy Figueira revive o noticiário Repórter Esso (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.